Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
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Por: Vanderley de Brito

É difícil imaginar como seria o aspecto da Campina Grande quando ainda era um incipiente núcleo populacional. Elegante, imponente e populosa como está hoje é quase impensável imaginá-la um aglomerado indígena de choças de palha cercadas por roças de gêneros alimentícios. Mas um historiador não pode se ater aos conceitos modernos, é preciso voltar seus sentidos com imparcialidade para o passado.

Observando a geografia de Campina Grande, é possível perceber que o lugar era aprazível e estrategicamente conveniente para a ocupação humana. Pois está numa planície compreendida entre dois cursos hídricos, o riacho das Piabas (ou do Prado) e o Riacho de Bodocongó, além dos muitos córregos que alimentavam estes riachos. Na grande campina havia também inúmeras lagoas, com certeza o Açude Novo era uma pequena lagoa natural e de água doce, o remanso dos riachos Bodocongó e Piabas (que hoje são os Açudes de Bodocongó e o Velho) também estagnavam grande volume hídrico, além de muitas outras lagoinhas que até muito recentemente ainda existiam, por exemplo: havia uma lagoa no Quarenta, no lugar onde hoje está a quadra de esportes do Alfredo Dantas, havia a Lagoa dos Canários em Zé Pinheiro, onde hoje está o centro esportivo Plínio Lemos, havia a Lagoa dos Bexiguentos no Distrito Industrial, onde hoje está a Maquinor e havia a Lagoa do Teiú, no Catolé, onde foi construído o residencial Dubú, além de muitas outras que seria exaustivo enumerar. Portanto, Campina Grande era rica em recursos hídricos. A propósito, muito provavelmente o Riacho das Piabas era perene, alimentado por diversos olhos d’água.

Muito possivelmente Campina Grande já era uma povoação de índios Bultrins bem frequentada pelos boiadeiros muito antes de Teodósio de Oliveira Ledo ter assentado o grupo ariú ali, pois o lugar Campina Grande já constava registrado num mapa publicado em Roma no ano de 1698, elaborado por Andreas Antonius Horatiy. Isso comprova que a povoação já era conhecida mesmo antes de Teodósio ter deixado lá os ariú, pois somente no ano de 1699 que o Governador da Paraíba Manoel Soares de Albergaria escreveu a carta ao Rei de Portugal notificando sobre o lugar, que, como vimos, já constava referenciado em mapa que já devia ter sido elaborado há pelos menos três anos, porque a confecção de um mapa naquela época era demorada devido à técnica tipográfica e as inúmeras permissões que tinham de ser solicitadas.

Campina Grande era um lugar perfeito para pouso de viajantes e negociantes por estar situada bem no meio do caminho que ligava o litoral ao sertão (Estrada Real do Sertão), em terras adequadas à cultura de vários cereais indispensáveis à vida dos colonos e junto a uma lagoa no remanso do riacho das Piabas, que mais tarde viria a ser o Açude Velho.

A prova de que havia uma lagoa na povoação indígena de Campina Grande pode ser encontrada numa sesmaria de 1781 onde menciona “... até toparem com a lagôa das terras que foram dos índios da Missão da Campina Grande...” (TAVARES, 1982 p. 394) e na obra de Aires de Casal, editado em 1817, que ao tratar da Vila da Rainha, vulgo Campina Grande, diz: “seus habitantes bebem duma lagoa contígua, a qual, faltando água nos anos de grande seca, os obriga a ir buscá-la ali a duas léguas” (CASAL, 1976 p. 276). Como sabemos, o Açude Velho só começou a ser construído em 1829, custando 1:000$000 (um conto de réis) aos cofres provinciais (PINTO, 1999 p. 110) e, portanto, nada mais é do que paredes de retenção erguidas para aumentar a capacidade hídrica de uma lagoa, ou alagado, já existente no lugar.

Se já existia uma povoação indígena em Campina Grande como os documentos sugerem, quando o missionário trazido em 1698 para administrar a fé destes nativos, a primeira capela deve ter sido erguida de frente para o povoado indígena já existente. Embora o historiador Epaminondas Câmara afirme que o povoado teria surgido no sítio das Barrocas, por trás da igreja:

“O povoado teve início nas Barrocas, surgindo, em seguida, o largo da Igreja e a rua do Oitão (hoje Bento Viana). Formaram-se dois agregados de casas, isolados (...) eram prédios de taipa e telha, com tetos muito altos de empena e sótãos sob travejamento de madeira. Paredes de enxamel, portas largas. Tinham regular aparência e denunciavam um arremedo de estilo entre jesuítico e emboaba” (CÂMARA, 1943, p. 22-23).

Como não há registros de época que comprove esta afirmativa, entendo por óbvio que Epaminondas Câmara elaborou sua narrativa com base nas supostas conveniências do terreno. Mas, mesmo com toda essa elaboração imaginativa, o autor dos “Alicerces” esbarrou numa inconveniência à sua teoria: o fato da Igreja ter sido erigida dando às costas ao sítio das Barrocas, onde supõe que surgira o povoado de Campina Grande. Sua justificativa para este fato desconcertante foi alegar que o lugar oferecia melhor paisagística. Com todo o respeito, Câmara foi romântico. Vejam:

“O local escolhido para a construção (da igreja) foi o mesmo onde hoje está edificada a Matriz. Não obstante terem sido levantadas as primeiras casinhas no sítio das Barrocas (hoje rua Vila Nova da Rainha), a preferência pelo alto da colina, ao norte, obedeceu talvez a fins estéticos. E a capela foi erguida com fundos para o povoado. Isto parece-nos, não significou despreso. É que o panorama sul, em contraste com as perspectivas acidentadas do brejo, é monótona, com planícies de vegetação xerófila, emolduradas pela serra do Bodopitá. Ao passo que o horisonte setentrional emociona-nos a sensibilidade estética” (CÂMARA, 1943 p. 6-7).

Em termos arqueológicos, devido o estágio avançado de urbanização da cidade, hoje é quase impossível determinar com exatidão onde seria o núcleo populacional de Campina Grande. Contudo, um documento levantado por Maximiano Lopes Machado é explícito ao afirmar que a Igreja ficava voltada para a aldeia:

“Fundára-se em Campina Grande, como nas outras partes, a egreja recommendada na ordem de 13 de janeiro de 1701, sendo construída, ao que parece, no mesmo local em que se acha a sua actual matriz edificada no princípio deste século sob patrocinio da Senhora da Conceição. A pouca distancia da antiga capella, lado do poente, existia uma aldeia de índios” (MACHADO, 1977, vol. II, p. 490).

O documento utilizado por Maximiano Lopes Machado para fundamentar esta esclarecedora notícia foi uma carta régia de 13 de janeiro de 1701, enquanto a afirmativa de Câmara é inteiramente subjetiva, o que não convém a um historiador.

Como se vê, é fato que a povoação de Campina Grande nasceu de uma aldeia indígena, e esta passagem acima deixa claro que a aldeia estava de frente à antiga capela que tinha seu frontispício voltado para o poente e foi nesta mesma posição e lugar que se ergueu a Igreja Matriz, ou seja, como é conveniente, a aldeia se posicionava na frente e não nas costas da Igreja. Desse modo, muito possivelmente, a aldeia de índios se localizava onde hoje é o centro da cidade, se estendendo na colina desde o aclive do viaduto, na Avenida Canal (onde passava o riacho das Piabas) até, talvez, o início do declive para o Açude Novo. Portanto, a atual Matriz de Campina Grande está voltada para o poente porque veio substituir sua primitiva capela, que estava voltada para a aldeia a que se destinava à missão evangelizadora.

Campina Grande foi missão religiosa até 1758 quando o Diretório Pombalino extinguiu todas as Missões do Brasil, o último missionário de Campina Grande foi padre Domingos da Cunha Fonseca. De acordo com os autos de uma devassa sobre as vilas de índios, em 1762, durante o processo de ereção de vilas e povoados realizadas na parte norte da capitania de Pernambuco e suas anexas, e os índios de Campina Grande foram transferidos para a recém criada Vila de Monte-mor, onde hoje está à cidade de Rio Tinto, e o sítio Campina Grande passou a ser território privado, sendo adquirido por Gonçalo de Oliveira Serpa, descendente dos Oliveira Ledo (Apud. TAVARES, 1982 p.304). Treze anos depois as terras de Campina

Grande já pertenciam a Francisco Nunes de Souza, inclusive a légua de terras “que era o que possuíam os índios que ali se achavam aldeiados, cuja compra fizera para crear seos gados...” (Ibidem, p. 357).

Campina Grande só foi convertida em vila no ano de 1790, sob o nome de Vila Nova da Rainha, abrangendo em sua jurisdição os povoados de Fagundes, Boqueirão, Cabaceiras, Milagres (S. João do Cariri), Timbaúba (Gurjão), Alagoa Nova, Marinho e outros, ao todo somando um território de mais de 900 km².

Referências bibliográficas:

BRITO, Vanderley de. Missões na Capitania da Paraíba. C. Grande: Cópias & Papéis, 2013.

CÂMARA, Epaminondas. Os alicerces de Campina Grande: esboço histórico-social do povoado e da vila – 1697 e 1864. C. Grande: Of. Gráficas da Livraria Moderna. 1943.

CASAL, Manuel Aires de. (1818) Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil. Itatiaia/Edusp, 1976.

MACHADO, Maximiano Lopes. (1912) História da Província da Paraíba. (2 volumes) João Pessoa: Editora Universitária/UFPb. 1977.

TAVARES, João de Lyra. (1909) Apontamentos para a história territorial da Parahyba. Edição fac-similar. (2 volumes) Coleção Mossoroense, Vol. CCXLV. Mossoró, 1982.

7 comentários

  1. Peregrino Flávio on 5 de abril de 2013 10:48

    Seria ótimo se a Prefeitura tomasse a iniciativa de colocar um monumento nas imediaçoes do viaduto , para se registrar o Marco Zero de Campina Grande , como tem em Recife e em muitas outras cidades , para indicar onde começou a ser erigida a cidade

     
  2. Hugo César Gusmão on 5 de abril de 2013 10:48

    Excelente postagem. Notável resgate. Parabéns.

     
  3. walmir chaves on 5 de abril de 2013 10:57

    Parabéns pelo postagem. Ficamos sempre com vontande saber algo mais....

     
  4. Rau Ferreira on 5 de abril de 2013 15:27

    Vanderley, onde fica a Cópias & Papeis? Como faço para adquirir o livro Missões de Campina Grande?

    Rau Ferreira
    historiaesperancense@gmail.com

     
  5. Anônimo on 5 de abril de 2013 16:33

    Caro Rau Ferreira, voce pode encontrar o livro "Missões na Capania da Paraíba" na livraria Cultura, em Campina Grande, tem 255 páginas e custa 25 reais.

     
  6. Anônimo on 5 de abril de 2013 16:44

    Que texto maravilhoso. Fiquei viajando pensando em como seria a Campina do passado.

     
  7. QUIEL on 6 de abril de 2013 20:42

    O livro de Vnderley é espetacular - exelente leitura. Eu já o tenho, fui buscar na fonte, Copias & Papeis, em Queimadas - do amigo Altair Pombo.

     


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