Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
retalhoscg@hotmail.com

QUAL ASSUNTO VOCÊ ESTÁ PROCURANDO?


Uma tomada aérea espetacular. Nela, vemos um cenário muito, mas muito diferente do atual, com a ausência total de construções verticais no entorno do açude, como também nos bairros de José Pinheiro, Monte Castelo, parte do Catolé, ou até na parte do Centro vista à esquerda da foto!

Outras presenças marcam o visual da foto, em sentido horário: o prédio da FIEP em construção, o Curtume São José, o Instituto São Vicente, o SESC, a Caranguejo, o prédio da antiga Bolsa de Mercadorias de Campina Grande, os armazéns da antiga estação (Boite Maria Fumaça), o Bompreço, os fundos da Wharton Pedrosa, o Posto Berro D'água...

Enfim, uma imagem repleta de beleza e de saudade!
Texto do Pe. Luciano Guedes, publicado originalmente no site http://diocesecg.org/  



A obra do Padre Ibiapina fez surgir em Campina Grande a Casa de Caridade em 25 de agosto de 1868. Como observa-nos Câmara Cascudo, em todo século XIX estes mensageiros da fé católica pregaram a Palavra de Deus e socorreram os desertados da seca e da fome nos interiores mais isolados da Província,  gente  que estava privada  da assistência direta do poder público.

Desta maneira, os missionários itinerantes conquistaram o respeito e a admiração das populações nordestinas, “enchendo com os sinais da sandália humilde os caminhos do sertão bravio”. Na Paraíba existiram dez Casas de Caridade, situadas em nossos distritos e cidades. Em Campina, esta tomou lugar na atual Avenida Assis Chateaubriand, onde se instalou mais tarde o Parque Industrial da SANBRA (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro).

Ali havia um conjunto construído no modelo de casa grande em forma retangular, contendo capela, salas, refeitório e dormitórios. Tudo providenciado para o acolhimento das moças órfãs que recebiam o devido cuidado humano, social e religioso. Faziam trabalhos manuais, aprendiam a tecer, ler e contar.

Com o desparecimento do Padre Mestre Ibiapina a partir de 1883, coube ao Monsenhor Sales, recém-designado para a Paróquia de Campina Grande, a tarefa de grande defensor e incentivador da obra caritativa e espiritual. O vigário trouxe para a Casa instrutores encarregados da profissionalização das beatas, capacitando-as para o artesanato, costura e confecção dos materiais destinados ao culto sagrado.

O número de beatas atingiu trinta residentes, além das órfãs e jovens abandonadas. O externato matriculou mais de trezentas alunas entre 1918-1920 com o curso primário, aulas de corte e costura, canto, religião e arte culinária. Uma espécie de escola doméstica feminina.

No período do seu paroquiato, as beatas exerceram um relevante papel e apostolado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.  Foram elas que aos sábados ornamentavam com zelo e delicadeza o altar da padroeira e dos santos, com as flores recolhidas do próprio jardim da igreja.

Confeccionavam as toalhas, vestes, hábitos, paramentos sacerdotais e as demais alfaias relacionadas à celebração da Eucaristia e dos sacramentos. Recebiam encomenda de outras paróquias e das redondezas que, por sua vez, contavam com os seus serviços, ao tempo em que se obrigavam com o sustento, apoio e manutenção da Casa de Caridade.

Outra participação das beatas a ser lembrada diz respeito ao canto coral na Santa Missa por elas executado. Conta-se que até homens indiferentes às coisas sacras, adentravam a Matriz para atentamente ouvi-las cantar aos domingos. Na realidade, parece-nos que o oficio delas espalhava na cidade um frescor de leveza e de bondade, capaz de tocar as almas mais arredias e resistentes.

Neste ano em curso – momento em que celebramos 250 da Igreja Matriz – é importante recordar o seu significado histórico na defesa da vida e da dignidade humana.  Oportuno também é conceber que se faz história não para alimentar saudosismos ou para tecer a simplista glorificação de um passado distante. Não é esta a sua necessidade e tarefa.

A história se conta para compreender os dinamismos humanos dos quais somos resultado e partindo disto olhar novas possibilidades. Narra-se o passado para colocar o homem sempre responsável pelo seu presente. História é compreensão da temporalidade, do tempo vivido que não é estático, porque se renova continuamente.

Neste sentido, a Igreja de Campina Grande tem um bonito caminho feito e por fazer.   Hoje existe em nossa Diocese, doze Casas que são obras de caridade e dezoito pastorais ditas de fronteira e de promoção da vida, acompanhadas pelo Vicariato Episcopal da Caridade, Justiça e Paz.

Essencialmente, a obra de tornar o evangelho próximo dos pobres, sofredores e desvalidos continua sendo a mesma que estava na intuição dos curas de almas Ibiapina e Sales, naturalmente, respondendo às demandas impostas pelo nosso tempo, como por exemplo, as situações de rua, os dependentes químicos, o acesso à justiça, a sobriedade, as pessoas idosas, os cadeirantes, os hospitais, etc.

As beatas da Casa de Caridade em Campina Grande anunciaram no seu contexto a força transformadora do evangelho pelo testemunho da misericórdia e da doação.  Inspiração e exemplo para nossa pastoral de saída no encontro com o rosto sofredor de Cristo na carne dos irmãos fragilizados.

No aniversário jubilar da Igreja Matriz, porta que testemunhou tamanha entrega, mova-nos o Espírito Santo de Deus para socorrer os corações atribulados da nossa época. E novas vozes entoem o divino canto que se concluirá um dia no Céu!



(Por Pe. Luciano Guedes, texto originalmente publicado em http://diocesecg.org )

Contar a história da Igreja Catedral de Nossa Senhora da Conceição que caminha para a celebração dos seus 250 anos no próximo dia 08 de dezembro deste ano em curso, confunde-se com o fazer a narrativa da própria cidade de Campina Grande em suas origens, evolução e contemporaneidade.

Até 1769, ano de fundação da Matriz, a povoação nascida pelo aldeamento dos tapuias trazidos do sertão de Piranhas pelo capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo e aqui denominados de ariús, continha um pequenino templo dedicado à Nossa Senhora da Conceição e construído em taipa no alto da colina, virado para o noroeste. Somente em 1791-93 com a grande seca que assolou a região da Borborema, avivando o sentimento religioso dos habitantes locais, a igrejinha primitiva recebeu melhoramentos de alvenaria em tijolos, fabricados no sítio do Lozeiro, onde não faltava a água.

A Igreja Matriz de Campina Grande aí instalada pelo Bispado de Olinda, permaneceu com esta modesta estrutura física até o ano de 1887, quando o Monsenhor Luís Francisco de Sales Pessoa  reuniu esforços para dotar a acanhada construção – na expressão do próprio vigário – de uma remodelação capaz de dignificá-la ao ritmo da habitação e do estatuto de Vila elevada à condição de Cidade.

Herdamos desse momento a atual fachada externa em linhas neoclássicas; as duas torres, uma com agulha direcionada ao infinito e a outra sem agulha para o hasteamento da bandeira da padroeira e dos demais santos de devoção confome fossem reservados no calendário anual; o relógio, marcador das horas; os corredores laterais e a abertura do corpo da igreja em arcos. A este conjunto adicionou-se o altar-mor construído em mármore Carrara, com seus três nichos na parte superior, dedicados à Imaculada Conceição, São Luís Gonzaga e São Francisco de Assis. Além do altar principal, mais dezesseis altares laterais foram construídos para o culto dos santos, entre eles destaque para o da Sagrada família, onde se abençoava os casamentos e do Mártir São Sebastião, posto nesse lugar para agradecer-lhe a superação do surto de cólera, drama vivido pelos habitantes da vila no século XIX.

Com este conjunto patrimonial e simbólico, a Igreja Matriz, adentrou ao século XX, testemunhando os tempos modernos, com o seu processo de urbanização e de reconfiguração do centro urbano. O apogeu do algodão, a linha férrea, os veículos automotores, o telégrafo, a luz elétrica e a avenida aberta pela reforma urbanística da década de 1940, indicaram o programa do progresso e da higienização pela qual atravessava a cidade em plena expansão e desenvolvimento. Contudo, permaneceu no mesmo lugar o templo católico primeiro, nascido ali, desde os tempos da colonização portuguesa.

A terceira fase da configuração do templo data de 1969, quando já sede do Bispado campinense, o recinto sagrado passou por adaptações à Reforma Litúrgica empreendida no Brasil pela realização e recepção do Sagrado Concílio Vaticano II, momento em que se instalou o novo altar ao centro do presbitério, direcionando o culto e a comunicação da Palavra divina para a assembleia dos fiéis.

Podemos falar de uma quarta e última etapa que nos traz aos dias atuais. Por ocasião do Jubileu áureo dos cinquenta anos de fundação da Diocese de Campina Grande, celebrado em 1999 pela presidência de Dom Luís Gonzaga Fernandes (4º Bispo diocesano), construiu-se nova Capela do Santíssimo Sacramento e nova Pia Batismal, belas obras artísticas do Frei Dimas Marleno e sua equipe.

Celebrar 250 da Matriz será uma oportunidade histórica para reconhecer através do templo a fisionomia humana e espiritual do querido povo campinense. Visitar o passado do nosso marco primeiro, viajando pela Capela da aldeia, Matriz da Vila Nova e finalmente a Catedral na cidade moderna, conduz-nos à compreensão das pessoas, dos seus sentimentos, afetos, cotidiano e o testemunho de fé que fez existir Campina Grande até os nossos dias. Como nos conta o texto sagrado nas Escrituras: “Não se pode esconder uma cidade situada sobre o monte” (Mt 5,14). Cidade esta que guarda um templo santo, casa de oração – lugar de renovação e de saudade – porta pela qual a Virgem Santíssima abençoa os seus filhos.
(texto Rau Ferreira)

Por esses dias, de chuva e recolhimento ao lar, deparei-me com alguns escritos de Cristino Pimentel (1897/1971), escritor e comerciante campinense, proprietário da famosa fruteira que levava seu nome. 

Falo do raríssimo “Pedaços da História de Campina Grande”, livro de sua autoria, há muito fora das livrarias e das estantes dos sebos da cidade.

Chamou-me a atenção, a parte que rememora Antônio Silvino, já que na mesma época, trabalhava o meu “Passagem de Antônio Silvino por Esperança”, pocketbook recém lançado sobre a sua incursão no Município de Esperança, quando foi convencido pelo pároco local a buscar o indulto junto ao governo do Estado.

Pois bem. Esse enxerto não fala da minha querida cidade, mas da Campina venturosa de Cristino, da qual faço o presente adendo.

O escritor se esmiúça nos fatos pós-cangaço de Silvino, assegurando que o “Rifle de Ouro” aprendera a ler na cadeia, enquanto estivera preso, na Casa de Detenção do Recife, Pernambuco. 

Alguém lhe trouxe uma bíblia. Debruçando-se ele na leitura da palavra, abraçou a fé. “O resultado foi o que sabemos” – narra Cristino – “ganhou brandura e tornou-se em outro, sua natureza temperou”.

No cárcere fabricava abotoaduras e enfeites de crina de cavalos, ofício com que educou os filhos, depois de trazê-los para junto de si. Eram oito ao todo. 

O prisioneiro nº 1.222 da Cela 35 recebia visitas anônimas, como o meu avô Antônio Ferreira; e ilustre a exemplo de um jovem advogado chamado José, desejoso de ser romancista e que anos mais tarde publicara em sua estreia o “Menino de Engenho” (1932).

Certa feita, no trem de João Pessoa à Campina, assistiu Cristino a sua palestra com alguns curiosos, que lhe questionavam sobre as suas incursões no cangaço. Ele porém não gostava de recordar o passado, resumindo a sua nova vida com a seguinte frase: “Meninos, antes de me prenderem eu matava para não morrer, hoje morro para não matar”. 

Convertido ao protestantismo, ele preferia falar das graças e do amor de Deus que lhe concedera o perdão dos pecados.

Cristino Pimentel traça lhe um breve perfil:
“Intrépido, enfrentou muitos perigos. O homem não lhe fazia medo, porém uma lágrima de mulher o comovia. A honra do lar, era para ele sagrada e ai daquele cangaceiro, seu subalterno, que se atrevesse a desrespeitar uma donzela! Fez muitos casamentos de moços infelizes que dele se valiam. Chamava os culpados e os obrigava a reparar o erro. Acabou em dias com questões de terras que o fórum levava – e ainda leva – anos a fio para resolver. Isto tudo eram sintomas da natureza cortada que nele se embotou, no cangaço, para despertar, mais tarde, na prisão, quando o alfabeto lhe projetou luz no espírito”.

Lembra-nos, o escritor, que passados aqueles dias, após a “ação de limpeza das forças do exército e da polícia aquartelada em Campina Grande, foram normalizando os labores das cidades que sofreram depredações e estivaram sob a ameaça dos bandos ilegais”. De fato, a Paraíba respirou ares de tranquilidade e “Campina Grande, que viveu dias tormentados, voltou à calma e o comércio retornou ao seu ritmo de centro abastecedor”.

Eram os últimos dias dos bandoleiros, dos homens que passavam à fio de navalha e portavam suas 'mausers' trocando tiros com a volante. Elysio Sobreira foi um dos combatentes. Estando na linha de frente, ganhou o patronato da Polícia Militar por atos de bravura. 

Liberto. Antônio Silvino veio morar em Campina Grande, em casa de sua prima Teodolina Alves Cavalcanti, esquina da Rua João Pessoa com a Arrojado Lisboa, em frente à Praça Felix Araújo. 

Era uma residência modesta de uma porta e alpendre. Os cômodos pequenos não incomodavam Silvino que viveu ali de 1937 à 1944. 

Nesta cidade, adquirira o hábito de frequentar a Igreja Congregacional da Rua 13 de Maio. 

Faleceu em 30 de julho de 1944 e foi enterrado no Cemitério do Monte Santo, onde um marco de cimento erigido por João Dantas e uma placa de bronze com dedicatória de José Justino da Silva lembram “um dos grandes guerreiros na defesa do povo nordestino”.


Referências:
- BlogRHCG. Retalhos Históricos de Campina Grande. Disponível em: https://cgretalhos.blogspot.com/search?q=antonio+silvino#.XT3qTOhKi01, acesso em 28/07/2019.
- FERREIRA, Rau. Banaboé Cariá: Recortes historiográficos do Município de Esperança. SEDUC/PME. A União. Esperança/PB: 2016.
- PIMENTEL, Cristino. Pedaços da História da Paraíba: Campina Grande. O Norte. Edição de 17 de maio. João Pessoa/PB: 1952.
- VAINSENCHER, Semira Adler. Antônio Silvino. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em 28/07/2019. 


O Instituto Histórico de Campina Grande luta, desde 2012, para ocupar seu espaço como instrumento sócio-cultural e educativo voltado a comunidade campinense.

Em uma iniciativa cheia de simbologias, no dia 07 de Fevereiro de 2019, alguns integrantes realizaram uma ação junto ao túmulo do notável Irinêo Joffily, no Cemitério do Carmo em Campina Grande.

O texto magistral, até certo ponto poético, do Professor Vanderley de Brito, presidente do IHCG nos remete à reflexão sobre pessoas, seus atos, em quanto se contribui à sociedade em vida, e qual o nível de reconhecimento e memória que recebem quando jazem na 'vida eterna'.

Duas fotos de encher os olhos de qualquer saudosista... 

A protagonista é Íris França de Oliveira, aluna do Colégio das Damas na época aos 16 anos, que posou, ao final dos Anos 30, em um cenário inexistente do nosso presente.

Sentada nos bancos da Praça Clementino Procópio, àquela época, o enquadramento nos mostra o aspecto urbano e predial que o tempo, digo, a insensibilidade de alguns gestores, os fez sumir e, consequentemente, surgir uma Campina Grande totalmente nova!

Suas fotos nos mostra parte da lateral da antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário e os fundos da antiga sede dos Correios e Telégrafos.

Situando: A Igreja foi demolida para o prolongamento da Av. Floriano Peixoto e os Correios, também demolido, após a conclusão da nova sede, deu lugar à Praça da Bandeira!

Agradecemos a cessão das fotos à Íris Diana França de Oliveira.
Fachada do Cemitério das Boninas


Texto originalmente publicado no Jornal A União, de 08/05/2019
por Vanderley de Brito

No centro da cidade de Campina Grande, entre meados do século XIX e princípios do centenário seguinte, havia o chamado Cemitério das Boninas, o mais antigo campo santo da cidade, e hoje, quem passa nessa área comercial congestionada de edificações comerciais, se aguçara percepção extra sensorial poderá sentir as lamúrias das almas novecentista da cidade a reclamar dignidade sepulcral. Isso porque o cemitério foi desapropriado e a área recebeu edificações sem que a maioria dos corpos ali sepultos fosse removida.

Para que o leitor possa entender melhor, vamos começar do começo. Em princípios da segunda metade do século XIX o sítio das Boninas era uma área periférica e desocupada da vila de Campina Grande,o lugar tinha esse nome porque, segundo os antigos, era recoberta por um arbusto comum da família das Nictagináceas, conhecida vulgarmente pela sinonímia de bonina. O núcleo da vila se compreendia basicamente num quadrante entre a atual Rua Maciel Pinheiro (antiga Rua Grande) e o largo da Matriz. Nesses tempos ainda não existiam cemitérios na vila, os mortos eram enterrados nas igrejas, mas devido os surtos constantes de epidemias que começavam a assolar a região,e só na Vila de Campina Grande matou 1.547 pessoas, o presidente da Província Beaurepaire Rohan mandou construir no ano de 1857 um cemitério para essa Vila, determinando em Lei a proibição de sepulturas em igrejas e a construção de um campo santo que deveria ser erguido fora do povoado e os sepultos teriam de ser enterrados em covas bastante fundas. O local escolhido foi o sítio das Boninas, o cemitério foi erguido com cerca de trinta metros de frente por outros tantos de fundos para atender uma população de 2.000 habitantes.

Em se tratando de um espaço relativamente pequeno, já no último anodo século XIX o cemitério não tinha mais lugar para a abertura de covas e, como a área circundante vinha se ocupando, por medidas sanitárias foi necessário edificar outro campo santo em lugar distante da já cidade de Campina Grande, sendo escolhido um monte distante, um quilômetro a oeste da cidade, lugar que atualmente é um bairro da cidade que ficou denominado de Monte Santo, certamente por causa do cemitério.

Com o novo cemitério, o velho das Boninas foi fechado e, consequentemente, caiu em completo abandono.

Na década de 20 do século XX o velho cemitério das Boninas se encontrava em ruínas, o muro caíra, animais pastavam por entre os túmulos e, diante de tamanho desrespeito ao lugar sagrado onde repousava os restos mortais de antigas gerações de Campina Grande, o bacharel Hortênsio Ribeiro se uniu ao padre Sales, vigário da cidade, para promover um arrecadamento de fundos junto à população campinense para a recuperação deste importante monumento em honra à memória dos mais antigos moradores de Campina Grande.

A reforma e restauração do cemitério das Boninas foi realizada, mas anos depois, em 1931, o então prefeito de Campina Grande, Lafaiyete Cavalcante,decidiu leiloar o velho cemitério, que foi arrematado e demolido para se construir no local oficinas e garagens. Segundo testemunho de Elpídio de Almeida, uma parte dos ossos humanos inumados e depois transportados em barris para o novo cemitério do Monte Santo, onde foram atirados numa vala comum e única,em total desrespeito sem sequer assinalar o lugar com um marco que fosse.

Anos depois a área foi toda ocupada em frações comerciais que em nada rememoram a primeira edificação do lugar, o velho cemitério das Boninas, que serviu de última morada e onde, indiscriminadamente,ainda jazem restos mortais dos antigos homens e mulheres, ricos e pobres, velhos e crianças, padres e maçons, senhores e escravos, nativos e forasteiros que viveram nos tempos provinciais da hoje glamorosa cidade de Campina Grande.
Nas páginas d’O Rebate repousa um belíssimo poema de Raimundo Yasbeck Asfora. Campinense por adoção, Asfora ocupou a tribuna, militou na política e participou da noite boemia desta cidade.

O tribuno era um defensor incansável da Paraíba e de Campina, que eternizou o seu amor no poema/canção “Tropeiros da Borborema”.

"A morte está enganada / Eu vou viver depois dela!”, assim escrevera. De fato, a memória de Asfora é cultivada pelos intelectuais e, se pode observar deste poema que ora resgatamos das páginas do velho jornal do professor Luiz Gil de Figueiredo:

ÚLTIMO ADEUS
Tenho bem viva, na lembrança, aquela
tarde estival do derradeiro adeus,
o sol poente, com frágil vela,
cedia à noite as amplidões dos céus.
Pálida e triste, mas de face bela,
tendo o crepúsculo nos olhares seus,
por entre as brumas da distância, ela,
partiu saudosa entre um saudoso adeus.
E, a relembrá-la, estou no meu caminho,
arquitetando, em sonho, o nosso ninho
na frondosa palmeira da ilusão.
Mas ela, ingrata, não voltou mais nunca...
E o pesadelo que o meu sonho trunca,
É atroz ironia da desilusão.
Raimundo Asfora

O poema foi publicado n’O Rebate, em 04 de outubro de 1949. À época, Asfora, o filho de Elias Hissa Asfora e de Orminda Iasbeck Asfora contava apenas 19 anos de idade.

Formado em Direito pela UFPE, ingressou na política em 1954, assumindo uma cadeira na Câmara Municipal; quatro anos depois, elegeu-se deputado estadual pelo PSB, seguindo-se, a partir deste momento, inúmeras vitórias nas urnas.

Faleceu aos 56 anos, na Granja Uirapuru, em Campina Grande, aos 06 de março de 1987.

Rau Ferreira
Poeta e Escritor

Academia Campinense de Letras
Instituto Histórico e Geográfico de Esperança
Instituto Histórico e Geográfico de Areia
Instituto Histórico de Campina Grande
http://www.historiaesperancense.blogspot.com.br/
http://rauferreira.wix.com/escritor
Nasceu Luiz Gil de Figueiredo em Santa Luzia/PB, em 17 de setembro de 1895. Com quatro anos de idade acompanhou o tio Gil Braz de Figueiredo numa viagem à Lábrea, cidade amazônica, onde passou dois anos residindo e aprendeu muito com os ameríndios. 

Em 1909, retorna ao Nordeste, onde se estabelece no Rio Grande do Norte desempenhando dois ofícios: professor e almocreve. Após trabalhar em Ouro Branco, Currais Novos e Caicó, migra para a Paraíba no lombo de animais.

Aportou em Esperança por volta de 1915, tornando-se “Mestre-Escola”, tendo sido nomeado Adjunto da Cadeira do Sexo Masculino em maio de 1931.

Casou-se, então, com a Srta. Sebastiana Diniz, sobrevindo-lhe os seguintes filhos: Guiomar Irene, Milton Luiz, Wallace e Wagner. 

Na década de 30, do Século passado, organizou o bloco esperancense “Coronel nas ondas”, ao lado de personalidades como Silvino Olavo, Teotônio Costa, Manuel Rodrigues, Teotônio Rocha e Juvino Brandão. 

A experiência adquirida junto ao jornal “O Tempo”, órgão que era dirigido por José de Andrade, com gerência de Teófilo Almeida, ajudou-lhe a funda, ainda em Esperança, o semanário “O Rebate”, que levou na bagagem para Campina Grande, quando veio morar nesta cidade em 1932.

Na “Rainha da Borborema”, foi diretor de Escola e lecionou história e geografia no Colégio Pio XI. 
Casou-se em segundas núpcias com a Srta. Maria Ester Cavalcanti, de cujo matrimônio nasceram os filhos: José, Maria das Graças, Marluce, Mozart e Aristóteles. 

Em Campina, onde se radicou, participou da “Sociedade Beneficente dos Artistas” e da “Academia dos Simples”, esta última com sede honorária na Fruteira de Cristino Pimentel; tornando-se conhecido como orador e poeta. 

Transcrevo, a seguir, um poema de sua autoria, retirado do livro “Coletânea de Autores Campinenses”:

Vozes proletárias

Latifundiário! Latifundiário!
Sabes quem vai morto naquele caixão?
Não importa o nome, foi um proletário.
Latifundiário! Latifundiário!
- Rebentou de tísica, deu tudo ao patrão.

Era um belo homem que na flor da idade
A cavar a terra fora em Briareau,
Enricara o amo, e... perversidade!
Quando volte os olhos para a Eternidade
Deixa a prole rota lá de léu em leu!...

Quando o milharal o pendão levantava
Nele se enroscava os braços do feijão
Era ao seu esforço que ele se elevava!
E os paiós se enchiam se enchiam e as arcas pejavam,
No Te-Deum das messes! Que feroz Tilão!...

Passaram-se os dias. Rebentou a guerra.
Calça-se, o Direito. Viva a tirania.
Cidadão, às armas. O Capital berra:
“Eu agora ensopo em sangue toda a terra
Meto a liberdade dentro da enxovia”.

Naquela época, “O Rebate” era o único jornal em circulação em Campina, cujas oficinas funcionaram, inicialmente, na rua Marques do Herval; depois passou para a Rua Bartolomeu de Gusmão, para em seguida sediar na Rua Getúlio Vargas.

Os principais colaboradores do semanário foram: Lopes de Andrade, Luis Soares, Cristino Pimentel, Pedro d’Aragão, Wallace, Zé da Luz, Bióca, Antonio Telha, Murilo Buarque e Mauro Luna. Ingressando na política, engrossou as fileiras do PRP e depois do PSD, candidatando-se a Deputado Estadual sem lograr êxito.

Foi cidadão Campinense e homenageado pela primeira turma de Comunicação da antiga Furne.

O professor Luiz Gil faleceu a dois de maio de 1960. Pela sua dedicação e telúrica ligação com este município, prestamos esta breve homenagem.

Rau Ferreira

Fontes:
- Coletânea de Autores Campinenses. Comissão Cultural do Centenário. Prefeitura de Campina Grande. Campina Grande/PB: 1964.
- DINOÁ, Ronaldo. Revista tudo. Edição de 11 de novembro. Campina Grande/PB: 1990.
- FERREIRA, Rau. Banaboé Cariá: Recortes da Historiografia do Município de Esperança. A União. Esperança/PB: 2016.
- MEDEIROS, Jailton. História de Esperança. s/d. Trabalho escolar. Produção do corpo docente.

 
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