Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
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Com destaque de capa para as Eleições de 1982 e à morte do ex-governador Argemiro de Figueiredo, o Anuário Campina Grande 1982, editado por Evaldo Cruz, trouxe em seu conteúdo um excelente acervo de matérias que nos remetia aos aspectos gerais de como era nossa cidade no início da Década de 80.

A edição, publicada pela "Anuários da Paráiba Ltda" contou em seu suporte técnico com Ademar Martins Leite (Diretor Secretário), Conselho Editorial composto por Eurípedes Oliveira, José Gil Gonçalves, J. Leite Sobrinho, Severino Machado e Williams Ramos Tejo. Contou, ainda, com artigos escritos por Frei Matias Gonzaga de Albuquerque, Humberto Melo, José Bolívar Vieira da Rocha, José Elias Barbosa Borges, Luiz Nunes Alves e Maria de Lourdes Nunes Ramalho.

As pesquisas estatísticas foram responsabilidade de Antonio Gláucio Souza Gomes.

Abaixo, a íntegra da edição "Anuário Campina Grande 1982"

Em 2010 uma das indústrias mais antigas de Campina Grande, a Indústria Nordestina de Cordas, encerrou suas atividades. O motivo do fechamento da "ISA" como era mais conhecida, não foi falência, aquisição por uma empresa mais forte ou outro motivo qualquer e sim, uma decisão do "Grupo Mottin" que decidiu encerrar a sua produção na área de produção de cordas. Uma das funcionárias do Grupo, Ana Santino, nos enviou para a publicação no "RHCG", o seguinte artigo e um documentário caseiro, realizado por Franklin Moreira, da Movesa (uma das empresas do grupo), do Departamento de Marketing, residente em Feira de Santana na Bahia.

Na imagem, podemos visualizar a Indústria ISA (lado direito ao centro)
e o local onde anos depois seria construído o Shopping Iguatemy.


O FIM DA ISA

Por Ana Santino



Ainda me lembro que fiz uma enorme e demorada caminhada pelas dependências da empresa olhando para os seus galpões que, agora vazios, pareciam ainda maiores, mas que durante muitos anos alojavam dezenas de suas máquinas mais tradicionais que passaram décadas no mesmo lugar, em pleno processo produtivo. Contemplei pela ultima vez seu pátio principal e percebi a velha quadra nos fundos da fábrica e de cima da sua balança de chão, acostumada a pesar vários caminhões por mês, avistei sua velha caixa de água daqueles modelos antigos que costumavam ser construídas com vários metros de altura e pintadas com a logomarca da empresa, de forma que pudéssemos identificar a fábrica há vários pontos da sua proximidade.


Despedi-me também dos coqueiros, plantados há mais de cinqüenta anos e imaginei que pena seria retirá-los dali. No seu antigo escritório o tempo havia parado, os cofres antigos ainda de cimento e aço maciço davam um charme especial e uma nostalgia do tempo em que dinheiro se guardava na empresa (que hoje nem nos bancos é seguro). Os móveis impecáveis me reportavam ao passado e as dezenas de armários de aço e de madeira guardavam toda documentação da empresa e me reportavam à época que não tínhamos computadores para digitalizar nossos arquivos e éramos obrigados a arquivar cada pasta, cada livro, cada documento ali pertinho, porque nada estaria ao alcance de um clic como fazemos hoje. Em cada mesa havia uma máquina datilográfica e uma calculadora Olivetti, me lembrando que naqueles anos, os testes para admissão de um funcionário em uma vaga mais graduada, ficava para aquele que tinha melhor desempenho e mais praticidade na datilografia, porque tudo era datilografado e, detalhe, tinha que datilografar de forma rápida, vigorosa e precisa, porque nem corretivo tinha naquela época.


Achei escritas fiscais do tempo em que utilizavam o sistema de prensa, para registrar as entradas e saídas. Encontrei uma planta baixa da cidade de Campina Grande, datada de 1959, quando a cidade finalizava no bairro do Centenário – que era conhecido pela “Fundição Centenário” e ao extremo só havia o bairro José Pinheiro, como referencia aos limites da cidade para a saída a João Pessoa. Contemplei a planta da fábrica desenhada com grafite em “papel manteiga” porque nem tenho certeza se naquela época já existia o papel milimetrado e o Auto Cad estaria a anos luz de ser criado.


Toda essa despedida se refere à ISA Indústria Nordestina de Cordas LTDA, empresa localizada na Avenida Prefeito Severino Bezerra Cabral (Avenida Brasília), fundada em 1959, há quase 52 anos, na época denominava-se CIA Mercantil CASA FRACALANZA. Depois de mais de cinco décadas de existência, encerrou suas atividades no ultimo dia 13 de Dezembro de 2010 e seu terreno foi vendido para uma conhecida rede de supermercados que estará, possivelmente em 2011, construindo outra empresa nas suas antigas instalações.

Questiono-me como um homem, que entrou exatamente em 1959, ainda menino vindo do SENAI, que foi o primeiro funcionário da ISA Nordestina e, hoje Administrador da empresa, quis o destino também ser o ultimo, sentiu-se ao chegar à hora em que teve que entregar a chave daquela que foi, creio eu, sua primeira casa e parte da sua vida ao longo desses 52 anos de contribuição. Refiro-me ao Senhor Orlando Cavalcante de Araújo, que entrou na “Casa Francalanza” ainda menor, pois teve uma concessão especial para ser admitido naquela época uma vez que nem tinha os 18 anos completos e que no próximo dia 05 de Maio de 2011 estaria completando exatos 52 anos de empresa. Um homem tão tradicional que na época que chefiava a manutenção da Fracalanza era capaz de tornear qualquer peça de reposição para não utilizar as peças originais vindas a muito custo e tempo do fabricante das máquinas, na Europa, via importação e matinha, até hoje, as caixas com as peças originais adquiridas naquela época.

Foi quando o idealizador da Fracalanza – “Dr. Gilberto Mottin” – na época um jovem engenheiro radicado em São Paulo na década de 50, enxergou no nordeste e, especialmente em Campina Grande, o potencial para instalar uma fábrica de cordas e artefatos de sisal e mais ainda, enxergou no menino Orlando, um funcionário dedicado e capaz de tornar-se seu homem de confiança para manter a fábrica a pleno vapor, funcionando em 03 turnos e gerando centenas de empregos, responsável por aposentar várias pessoas que trabalharam anos na fábrica e diferente de tradicionais indústrias como a SAMBRA, CRISPIM, BRASCORDA (em João Pessoa), a ISA NORDESTINA encerrou suas atividades dignamente e em pleno processo produtivo, honrando seus compromissos com seus funcionários, colaboradores, clientes e fornecedores, meramente pela intenção dos sócios em vender o terreno encerrando assim sua história no ramo de Sisal.

No auge dos seus 60 e poucos anos, Senhor Orlando, não se cansou de trabalhar e nem pensa em aposentadoria tão cedo. Continua firme e forte nos seus conceitos empreendedores, adquiriu parte do maquinário da ISA e instalou, nas proximidades do município de Lagoa Seca, em seu sitio, sua fábrica de cordas que leva o nome da antiga casa: “FRACALANZA CORDAS”, mantendo viva sua historia e apostando no mercado da cultura renovável do sisal e de seus produtos, suas cordas, para continuar atendendo uma parte dos clientes da antiga fábrica e fazer o que aprendeu e sempre fez a vida inteira: colocar as máquinas para produzir e transformar o “agave em corda”,

Num pensamento que ele mesmo costuma se inspirar: “No fim tudo dá certo, se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”.



Documentário caseiro sobre a história da Indústria "ISA":




Por Roberto Pereira *

No inicio da década de 70 trabalhava em Campina Grande, na principal filial de um grupo financeiro  sediado em Pernambuco,   nas  funções de gerente de um banco e uma empresa de crédito imobiliário, com atuação nos  Estados da Paraiba e Rio Grande do Norte.

Um dia recebo  uma ordem da nossa  Matriz, para receber em nossa cidade o  renomado artista  popular Luis Gonzaga  o qual,  recentemente contratado pela empresa como seu grande divulgador, começaria por Campina Grande  uma série de visitas e entrevistas  por todo o Nordeste e Norte do País, no trabalho de divulgação das cadernetas de poupança.

Luiz Gonzaga e sua inseparável sanfona

Assim, eu deveria me afastar  das funções administrativas pelo tempo em que Gonzaga aqui permanecesse, isso  para ficar  a sua inteira disposição, acompanhando-o em suas entrevistas, passeios pela cidade, visitas, almoços jantares e uma agenda que eu mesmo deveria estabelecer, para distraí-lo  da maneira mais informal possível.

Numa tarde de quinta-feira,   recebo no meu gabinete de trabalho  um telefonema de Recife, de alguém que não queria se identificar, informando  apenas ser um emissário da empresa  mas que, pela voz inconfundível e pelo aviso  antecipado da sua presença a qualquer hora, não me deixou qualquer duvida para identificar: era  a voz do próprio Luis Gonzaga, informando que logo mais chegaria a Campina Grande.

Informei –lhe  que a sua reserva já havia sido feita no Hotel Majestic . E para lá eu segui, tão logo fui informado da sua chegada,  aí pelas 16 horas.

Após as apresentações de praxe,  iniciamos, dalí em diante,  um  período de ótima convivência e descontração que iria demorar pelos  4 dias em que durou a sua informal  e quase incógnita  permanência na cidade.

Naquele momento a carreira de Gonzaga  não atravessava uma das suas melhores  fases,  em face  do surgimento da chamada Musica Jovem, desde o aparecimento dos Beatles  até a ascenção  dos grandes cantores e compositores brasileiros, Roberto Carlos, Chico Buarque de Holanda, Caetano, Gil, enfim toda aquela revolução musical que estava em plena efervescência e tomava todos os espaços da midia nacional.

À noite fui apanhá-lo no hotel  e saímos a passear pela cidade, sem qualquer compromisso. Êle fazia questão  de circular anônimo, como qualquer cristão, visitando bairros da cidade,  parando aqui e ali, ora para tomar um refrigerante, outra vez para saborear uma caipirinha. Queria conhecer a cidade em toda a sua extensão, pois nunca tivera tempo  de curtir Campina Grande, uma cidade que ele tanto simpatizava e que o recebia de forma tão carinhosa desde o começo de sua vida de viajante lá pela década de 40.

CIRCULANDO PELA CIDADE

Circulávamos por toda a cidade  em nosso automóvel a baixa velocidade, e eu, tal qual um guia turístico lhe mostrava a Campina Grande que despontava nos  anos 70;  os pontos principais, os novos bairros, os edifícios que começavam a surgir, as largas avenidas, as belas vistas da cidade iluminada, a partir do alto da Prata, da entrada  da cidade pelo caminho do Brejo, e ele, mostrando-se verdadeiramente admirado   com  o progresso da cidade, não cansava de repetir que gostaria de um dia morar aqui.

Usando como disfarce um boné preto  e uns grossos óculos de grau, jantamos na Carne de Sol do Manuel, onde ele quase não foi notado.

Restaurante "Manoel da Carne de Sol"

Andamos assim até perto da meia-noite, quando deixei-o de volta no hotel.

UM PASSEIO INUSITADO

Na manhã seguinte fui novamente apanhá-lo. 

Para onde levá-lo dessa vez? Perguntava-me.

Na verdade não me sobravam grandes opções, além  desses passeios que nós já tínhamos dado pela cidade, na noite anterior. Levei-o então a casa do meu pai, um seu fã ardoroso, onde os dois conversaram alegremente por mais de uma hora, beberam suco de caju e contaram causos e histórias alegres da  gente sertaneja. Daí  nasceu uma  grande simpatia de Gonzaga por Seu Pereira;  tanto que nos encontros posteriores que tive com ele no Recife, sempre prometia nova visita ao velho Pereira, para terminar os assuntos, como bem dizia.

Gonzagão e "Seu Pereira"



BOQUEIRÃO

Foi aí que me veio a lembrança  a pessoa de   um grande amigo, o saudoso Zé da Guia Silveira, uma figura inesquecível na história de Campina Grande, empresário que se fez por si, alcançando uma posição de destaque no cenário campinense  e que adorava receber os seus amigos nos fins-de-semana  numa ilha de sua propriedade, em pleno açude de Boqueirão. E para lá parti sem avisar,  com o velho Gonzaga, e mais  dois rapazes que sempre o acompanhavam em suas turnês  Brasil afora, um dos quais tocava o triangulo e o outro a zabumba. E a sua sanfona, da qual nunca se separava,  na mala do carro.

Aquela pequena ilha localizada a  aproximadamente  300 metros  de distancia da sangria do açude tornara-se o paraíso para onde Zé da Guia seguia toda quinta-feira,  e lá ficava todos os fins de semana  para passeios de lancha, pescarias, boas conversas, saborosas peixadas regadas a caprichadíssimas caipirinhas preparadas  com todo o esmero  pela sua  dedicada  esposa  Adiles. 

Boqueirão nos anos 70 (Acervo Soahd Arruda)

Paramos o carro na margem  sul do açude,  e numa pequena canoa  puxada a remo conseguida com um canoeiro meu conhecido (será que os seus biógrafos já imaginaram esta cena?) embarcamos em direção ao pequeno paraíso. Gonzaga estava verdadeiramente extasiado com a beleza da paisagem  e não cansava de elogiar a beleza deslumbrante da represa, enquanto vagarosamente, à força  dos remos, singrávamos as águas calmas do Boqueirão e avançávamos em direção à ilha. Pois é, Luis Gonzaga, maravilhado, um  dia singrou singelamente as águas de Boqueirão numa modestissima canoa a remo e, encantado, emocionou-se com a sua beleza.

Fomos recebidos com imensa alegria pelo saudoso Zé da Guia e sua esposa que, surpreendidos pela  inesperada e ilustre visita, não sabiam  o que fazer  para nos agradar.

Êle próprio fazia questão de fritar as incomparáveis traíras, tilápias e  os deliciosos piaus dourados  na folha da bananeira enquanto  dona Adiles  se esmerava  nas  caipirinhas preparadas com a legitima cana-de-cabeça  e os maravilhosos limões galegos colhidos na hora, nos pomares da ilha.

Lá para as tantas Gonzaga, sempre  maravilhado com a paisagem e  parecendo muito feliz da vida, pegou a sua sanfona e, muito emocionado, resolveu executar uma canção-solo.



Mas, qual não foi nossa surpresa ao constatarmos que dona Adiles  começara a chorar copiosamente ao ouvir  aquela canção de acordes  tristes e saudosos  executada com tanto sentimento. 

A coisa chegou a um ponto tal  que Gonzaga parou a execução da música e, surpreso, indagou se estava incomodando alguém. E foi aí que  Zé da Guia, muito educadamente, como era, explicou a razão: no passado recente  tiveram eles um filho maravilhoso que, com sua alegria, animação e magnetismo pessoal, tornara-se a partir da adolescência, uma figura estimadíssima na vida da cidade, onde animava todos os ambientes e reuniões com a sua simpatia . E costumava, tal qual o pai, receber os seus amigos e colegas lá naquela  ilha nos fins-de-semana de verão.

Pois bem, sem que ninguém tivesse como explicar, aquêle rapaz que tanto alegrava a existência dos pais e dos seus inúmeros amigos, pôs termo a sua própria vida, marcando de forma indelével  o resto dos dias dos seus extremados pais.

A partir de então, Adiles  retirou-se das atividades sociais passando a viver para as lembranças do seu filho querido, evitando qualquer   manifestação de alegria que recordasse  a sua tão breve existência. Esta a razão pela qual tanto se entristecera ao ouvir  o Gonzagão  executar a sua triste canção.

“__Foi  a primeira vez que alguém chorou de tristeza  com a minha música,” __ comentou ele depois,  bem humorado. 

No regresso Gonzaga  começou a abrir-se comigo: falou-me de problemas de família;  de um irmão que lhe trazia muitas amarguras; da incompatibilidade de gênio e da rebeldia política do único filho, Gonzaguinha; falou-me de desencontros conjugais irremediáveis; falou-me do período desfavorável  que a sua música atravessava, da falta de shows, da ingratidão de um grupo de forró  da nossa região que, acolhido  por ele  no Rio de Janeiro, deu-lhe as costas e provocou-lhe alguns prejuízos. Apesar da proibição contratual, autorizou-me a procurar algum clube que lhe contratasse para uma apresentação. ( Oferecí-lhe ao Gresse, que naqueles tempos promovia umas festas de meio-de-semana, mas  o clube não se interessou). Falou-me do projeto de instalação de uma industria para produzir feijão enlatado lá no Exu, sua terra natal, projeto este que receberia incentivos fiscais  da Sudene. E do desejo de vender alguns imóveis que possuía no Rio de Janeiro, para vir viver aqui sua velhice que se aproximava.

À noite deixei-o de volta no hotel.

UM ANIMADO CHURRASCO

Ao chegar em casa encontro um convite do empresário Artur Monteiro Viana, para comparecer  no sábado a um churrasco em sua residencia no bairro da Prata, em comemoração ao seu aniversário. De imediato liguei para Gonzaga, por conta própria, para avisá-lo de que iria comigo ao churrasco. Ele de inicio hesitou em aceitar o convite, alegando que ficaria chato comparecer  a um evento sem ser convidado. (Imagine com que modéstia uma figura  da magnitude de Luis Gonzaga  falava em se constranger por não ir a algum evento sem ter sido convidado). Diante da minha insistência terminou por aceitar o convite  e no sábado fui apanhá-lo no hotel. 

Ao descer  as escadarias do hotel ele notou que numa das lojas de tecidos ali na Maciel Pinheiro, juntinho do hotel e  diante de grande aglomeração popular, um rapaz fazia propaganda  dançando com uma boneca de pano, com a qual fazia uma coreografia curiosa e muito animada. Aproximou-se sem se identificar e pediu para que o rapaz parasse de dançar e com ele tirasse uma foto, o que foi feito. Lembro que logo depois, ao  descobrir a sua identidade o rapaz quase chora de alegria. E a foto, a seu pedido, após  revelada, foi   por mim enviada para o seu endereço do Rio de Janeiro.

Luiz Gonzaga com o dançarino e sua boneca

RECEPÇÃO

No  caminho da casa do empresário Artur Monteiro um automóvel emparelha no nosso e alguém de dentro do outro carro me chama pelo nome e pede para eu parar. De dentro do outro carro salta o comerciante Guilherme Soares, irmão do empresário Herminio Soares, e indaga: "Me diga uma coisa: essa pessoa ao seu lado, não é por acaso o grande Luis Gonzaga,o nosso Rei do Baião?” Diante da minha afirmativa ele pede para abraçá-lo, no que Gonzaga prestimosamente desce do carro e recebe dele um longo e afetuoso  abraço.

Ao retornar ao nosso carro vi, surpreso e comovido, os olhos de Gonzaga lacrimejarem. Êle então retira do bolso um lenço branco, enxuga as lágrimas e me diz: “ Roberto, você não pode nem imaginar como   esse abraço me fez bem. Em certas horas um abraço vale mais do que todo o dinheiro do mundo. Fiquei muito feliz com esse abraço”.

Ao chegarmos a casa de Artur Monteiro encontramos, não só os sócios do Lions Clube,mas  praticamente toda a classe  empresarial da cidade  ali reunida numa festa onde a alegria predominava. E ao perceberem a presença  de Gonzaga  todos correram a abraçá-lo e festejá-lo;   Gonzaga   atendia a todos com  a sua costumeira simpatia, contando as suas piadas com aquela bossa de contador de causos que era a sua marca registrada.

Na casa de Artur Monteiro

A um canto, diante de um microfone, animando a festa, um cantor daqui da cidade chamado Gutemberg, a quem eu conhecia de longe.

QUEM ERA

Chopp do Alemão
(Google Images)
Na Campina Grande do inicio  dos anos  70  os fins de semana  não ofereciam grandes alternativas para a distração da rapaziada. Meia dúzia de bares e restaurantes compunham o cenário boêmio da cidade, dentre os quais já pontificava  o famoso Chopp  do Alemão, para onde migrávamos a partir das noites de sexta-feira. 

Alí, em meio àquela algazarra característica, aparecia vez por outra um rapaz negro, de estatura mediana, mais para magro do que para gordo que, a convite  dos companheiros da mesa  vinha sentar ao nosso lado. E a nosso pedido apanhava  o seu acordeon que sempre guardava atrás do balcão da casa e, entre goles de Montilla,  whisky Mansion House e as famosas lingüiças alemães do velho Steinmuller  executava no seu instrumento as músicas que pedíamos. Mas ele não era um sanfoneiro comum, como se costuma dizer. Na verdade era um verdadeiro virtuose no acordeon. De uma agilidade e um poder de criação formidáveis, executava musicas de toda e qualquer natureza  com  belíssimos  arranjos próprios: tangos à maneira exata dos famosos  bandoleons   argentinos; lindas valsas francesas com o registro e as evoluções  típicos do estilo  dos acordeonistas franceses . Até  grandes compositores americanos como Gershwin e Cole Porter  eram por ele executados com acompanhamento vocal  à  boca fechada, numa comovente combinação  que transformava  a interpretação e atualizava-a de forma impressionante.

Uma curiosidade: quase sempre permanecia com seu surrado  chapéu  na cabeça  enquanto tocava.

Nunca mais eu soube do seu paradeiro. Será  que ainda vive?

VOLTANDO AO ASSUNTO

Na festa de Artur Monteiro  quem animava a festa era o negro Gutemberg com a sua sanfona. E Gonzaga logo começou a prestar atenção atentamente àquela apresentação, que animava a festa, entre goles de cerveja, numa clima prá   lá  de animado. De repente me pergunta se eu conheço o “crioulo da sanfona”, como ele próprio o  definiu.  Diante da minha afirmativa, pediu-me então que lhe acompanhasse   até a  presença do  artista, que naquele momento fazia um intervalo na sua apresentação. Durante uns 5 minutos conversaram  qualquer coisa e finalmente Gonzaga me pede um lápis e um pedaço de papel, onde anota o seu telefone, endereço e algumas coisas mais. Entrega o papel, pede a sanfona do artista,  toca um numero ràpidamente sob os aplausos da platéia, e retorna a seu lugar à mesa. 

A SENTENÇA

Terminada a festa, regressamos ao hotel, lá pelas 18 horas. No caminho Gonzaga, depois de alguns instantes de reflexão, olhando  fixamente  em direção  ao piso do automóvel  ergue a cabeça de repente  e sentencía: “Doutor, eu vou fazer desse crioulo o maior  músico do Brasil. Peço que dona Alba tome nota na sua agenda, para no futuro a gente comemorar”,  disse para minha mulher, que nos acompanhava.” Este rapaz, pela minha mão,  será o maior instrumentista que este País já teve.”

Informou-me então  que autorizara    Gutemberg a passar no  escritório da empresa  logo na segunda-feira , determinando a mim que eu lhe suprisse financeiramente do que ele solicitasse para aquisição de passagens aéreas de ida-e-volta  para o Rio de Janeiro e mais o que  necessitasse para sua permanência  por cerca de 15 dias, hospede que sería da própria casa de Gonzaga.

DESPEDIDAS

No domingo almoçamos no próprio hotel, onde ele deu rápida entrevista para os Diários Associados.  Excelente a conversa com os amigos Aecio Diniz, então superintendente dos Diarios, Wladimir Meirelles, empresário de Pernambuco e meu ex-colega de faculdade; e finalmente as despedidas, pois que Gonzaga tinha de estar no Recife à noite, para compromissos profissionais. Na saída, dei-lhe um forte abraço e notei  novamente seus olhos lacrimejarem. Prometemos nos encontrar novamente em breve tempo. Fiquei com saudade daqueles dias descontraídos na companhia do Rei sertanejo.

A BURRICE

Na segunda-feira  esperei a chegada do privilegiado e a essa altura premiado  músico Gutemberg,   para fornecer-lhe o dinheiro que necessitasse, segundo as ordens de  Gonzaga. Nada. Lá não foi. Certamente __ pensei __ ele tenha ido pôr em dia seus compromissos pessoais antes de  viajar e virá na terça. Nada. Não veio na   quarta, nem veio  na quinta. Nem veio nunca mais. Sequer   para agradecer a atenção recebida  do velho artista . Na sexta-feira Gonzaga liga de Belém do Pará sabendo alguma noticia de Gutemberg.  Informei que nada tinha de novo. O rapaz não aparecera.

Quer que eu vá procurá-lo? Indaguei.

Não, Roberto, respondeu-me Gonzaga. "Há pessoas que correm em busca da vida e há pessoas que esperam que a vida lhes carregue no colo. Acho que é o caso do nosso amigo. Por favor, não o procure. Certamente ele não gostou de mim.”

Assim podemos supor que o virtuose Gutemberg, aquêle acordeonista que modestamente baixava lá pelo Chopp do Alemão alegrando a mesa da gente com a sua música e a sua interpretação,  talvez tenha sido das poucas pessoas neste País que um dia  literalmente esnobou o “Rei” Luis Gonzaga e ---- quem sabe---  com essa atitude tenha cedido o lugar que na certa sería seu,  para... Dominguinhos. Quem sabe?

***

* Campinense autentico, residindo em João Pessoa, mas com empreendimento  industrial  em  propriedade no Carirí, para onde viajo frequentemente, nunca deixo de parar na minha querida cidade, ora para rever os velhos amigos, ora para visitar a familia, às vêzes sòmente para almoçar, outras vêzes para pernoitar, contanto que nunca  perca êsse contato, que tanto bem me faz.

Aí viví boa parte da minha vida onde,apesar de advogado, dediquei-me às atividades financeiras onde fui gerente de banco, diretor de distribuidora de titulos de crédito e valores e de empresa financeira.

No inicio da década de 70 recebí aí, onde então residía, o nosso saudoso Luis Gonzaga, o Rei do Baião praticamente anônimo, com quem estive convivendo por 4 dias, sem qualquer compromisso profissional. Dessa visita íntima e reservada possúo cerca de 8 ou 10 fotos inéditas, todas obtidas aí mesmo na cidade e alguns fatos curiosos e desconhecidos que narro  em texto.

Um dos registros de Luiz Gonzaga na Serra da Borborema

Caso seja do interesse dos amigos a divulgação desta matéria, queiram informar. Terei prazer em contribuir com alguma coisa, nas comemorações do centenário da grande figura que foi o Gonzagão.

Hà muito tempo, a pedido de um meu sobrinho, Gustavo Ribeiro, fiz um esboço e lhe mandei.

Estou às órdens.

***

Nós é que agradecemos amigo, pelo acesso a este material espetacular. Agradecemos também a Gustavo Ribeiro, da Rádio Cariri, por entender o objetivo deste espaço virtual e pela divulgação que o mesmo sempre faz do RHCG.

Luiz Gonzaga tinha muitos amigos em Campina Grande





Hilton Motta
A primeira rádio FM (Freqüência Modulada) de Campina Grande foi a 93.1, que recebeu o nome de “Rádio e Televisão Campina Grande FM”. Foi fundada em 21 de outubro de 1978 por Hilton Carneiro Motta, um dos pioneiros da radiofonia campinense. No arquivo do “RHCG”, pode-se escutar um debate sobre a história de nossa rádio, com efetiva participação de Hilton Motta (CLIQUEM AQUI).

A “Rádio dos Motta”, sempre procurou inovar em sua maneira de transmitir eventos. Por exemplo, a transmissão de partidas de futebol hoje comum nas FMs da cidade, já era algo corriqueiro para a “93.1” no ano de 1989, quando o Treze estava disputando o Campeonato Brasileiro da Série B. O saudoso Hilton Motta em alguns casos, chegava a passar o domingo inteiro conclamando o povo de Campina Grande para comparecer aos jogos.

Outra lembrança eram os “reveillon” do povo campinense, que ficavam se confraternizando com os familiares e amigos, até a esperada virada do ano, sempre na voz vibrante de Hilton Motta, quando após a contagem regressiva para o ano novo, anunciava o tradicional apagar das luzes da cidade, epopéia promovida pela CELB, que corria o risco de proporcionar a cidade um perigoso apagão, porém, para quem viveu a época, inesquecível.

De relembrar também, a tradicional “Ave Maria” das 18 horas, que ainda hoje é executada após o “De Colores”. Escutem ambos os temas:




Outra preocupação da tradicional emissora campinense foi à constante atualização de seus equipamentos. No “scan” abaixo fruto de pesquisa no Diário da Borborema, uma reportagem de 1982 mostrando o investimento em seus estúdios (cliquem para ampliar):



Convém frisar que a Rádio Campina Grande foi à pioneira no uso do CD (Compact Disc) em Campina Grande, demonstrando sua atenção as tendências modernas.

Para a geração 80 e 90 de nossa cidade, alguns programas da Campina Grande FM ficaram marcados. No programa “A Música do Ouvinte”, na era pré CD e MP3, era praxe se ficar com o som ligado com uma velha fita cassete esperando aquela música de sucesso para dar o “REC” e gravar. A gravação geralmente vinha com a voz do locutor e tudo, geralmente “Jorgito DJ” ou “Toninho Lima”, vozes marcantes da radiofonia em FM de nossa cidade. As fitas seriam usadas para os encontros de amigos, festas e até mesmo para se promover aquele clima romântico, com as namoradas da época.

Falar em romance, como não se lembrar do programa “93 by night”. Virou mania, pois os apaixonados mandavam os recados de amor para serem lidos no programa. Quem não se lembra do chavão: “Se amar é viver, vivo por que te amo”. Todo dia saía essa pérola. Relembrando o  “93 by night”, escutem abaixo um pequeno trecho datado do ano de 1991:


Fonte: http://www.youtube.com/user/BATISTADUARTE1703

Com a facilidade da Internet em se obter praticamente qualquer tipo de áudio (leiam-se músicas), as rádios tiveram de se “reinventar”. A Campina Grande FM, por exemplo, tornou-se uma rádio mais informativa, com programas jornalísticos, políticos, sem esquecer, porém, do entretenimento.

Graças à genialidade de Hilton Motta, um profundo apaixonado pelas coisas de Campina Grande, nossa cidade tem a honra de contar por mais de 30 anos com a excelência de uma grande emissora, que marcou com sua programação a vida de várias gerações de campinenses.

Fontes Utilizadas:

http://www.campinafm.com.br
Diário da Borborema (Acervo)
Arquivo Pessoal
http://www.youtube.com/user/BATISTADUARTE1703

por Dayane Sobreira (*)

A década de setenta foi marcada pela volta de mulheres do exílio e pela consolidação de grupos feministas no Brasil. Foi quando se deu a formação de frentes de debate e a luta pela democracia no país. Muitas das mulheres exiladas tiveram contato com o feminismo estrangeiro, sendo responsável por redimensionar suas práticas, formando-as no movimento feminista. 

Na Paraíba, no ano de 1979, fora fundado o primeiro grupo feminista do Estado. O Centro da Mulher de João Pessoa (que logo passou a se chamar Grupo Feminista Maria Mulher) surgiu no cerne da Universidade Federal da Paraíba – campus João Pessoa. De grande importância dentro do espaço acadêmico, apresentou repercussões na sociedade local e abriu leques para a posterior formação de grupos de estudos voltados à questão da mulher. 

Nesse contexto ainda de vigência do regime militar instituído em 1964, vários/as professores/as de outras regiões do Brasil vieram trabalhar na Paraíba através da política de modernização do ensino superior do reitorado de Lynaldo Cavalcante. Desses/as, podemos citar Eleonora Menicucci de Oliveira, Ângela Maria Arruda e Paola Cappellin Giulianni, personagens intimamente ligadas à história do feminismo paraibano.

Na Campina Grande dos anos oitenta, além da abertura trazida pelos/as professores/as de fora para uma dimensão de lutas, associações de bairros, de mães e domésticas já existia uma ebulição de reinvindicação por direitos. Havia então, um clima propício à visibilidade que passou a ser dada à mulher e às suas questões. No ano de 1984, por exemplo, a cidade já sediava o III Congresso Nacional da Mulher Urbanitária. Embora não dimensionado à mulher das classes baixas, periféricas, esse seminário trouxe discussões do âmbito dos direitos trabalhistas e da saúde da mulher, a partir de conexões com grupos como o SOS Corpo, de Recife. O Correio da Paraíba a 01 de junho de 1984, apresentou o seguinte informativo:

Correio da Paraíba a 01 de junho de 1984

A realização do evento, então, representou muito em termos de projeção nacional e de visibilidade de uma “questão da mulher” a ponto dela ter sido trazida em uma programação que contou com participações nacionais e com a conexão entre várias entidades. Desse modo, havia um clima propício à organização de mulheres em grupos feministas de forma mais sistematizada. Foi quando surgiram dois grupos feministas na cidade: o Grupo de Mulheres de Campina Grande e o Grupo Raízes, nos anos de 1982 e 1984, respectivamente. 

Criado por professoras da UFPB, que se estabeleceram em Campina Grande para alargar os quadros docentes da instituição, o Grupo de Mulheres de Campina Grande atuou ativamente nas periferias, com mulheres trabalhadoras rurais, domésticas, profissionais de saúde e com discussões dentro da Academia. Isso reverberou na criação do Grupo Raízes dentro da Universidade Regional do Nordeste (URNE), este criado por alunas do curso de Psicologia, por meio de influência direta e afetações de suas professoras. Somado às atividades já realizadas pelo Grupo de Mulheres, o Grupo Raízes atuou junto à comunidade Álvaro Gaudêncio (hoje Bairro das Malvinas) durante o processo de expansão da área, participando também do movimento de ocupação do bairro, com a colaboração dessas mulheres. 

Aqui, se percebe uma aproximação dos grupos feministas na década de 80 com grupos de mulheres que lutavam por causas mais gerais, como o acesso à moradia, à saúde e a creches. Desse modo, essa atuação fez se estabelecer uma relação estrita entre os grupos feministas e as comunidades, permitindo uma interferência no social, fazendo emergir reelaborações das questões de gênero na cidade, sendo práticas dimensionadas também em âmbito  nacional. 









(*) Dayane Nascimento Sobreira
Licenciada em História pela UEPB
Mestranda em História pela UFPB
Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4330315J9

Para saber mais, ver: SOBREIRA, Dayane Nascimento. “Mulher bonita é a que luta”: 
Nas tessituras do feminismo em Campina Grande (1982-1992). 
74 f. Monografia. (Graduação em História). 
Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande, 2014.

Capiba
Por Mário Vinícius Carneiro Medeiros


A figura de maior destaque, em termos de música carnavalesca de Pernambuco, é Lourenço da Fonseca Barbosa, mais conhecido como Capiba. Natural de Surubim, Pernambuco, onde nascera em 1904, embora registrado somente em 1907,  ainda criança mudou-se com a família para  a cidade de Campina Grande. (CLIQUE AQUI)

Capiba  chegou  aqui em 1915. Como a irmã Josefa estava de casamento marcado, ele a substituiu e  começou a tocar piano no Cine Fox. Em 1916, aos doze anos, integrou o quadro infantil do América Futebol Clube, fundado por Antônio Bióca, introdutor do esporte em nossa cidade.  No vídeo abaixo, mais precisamente em 04:19, há uma foto em que isso é exibido:


Capiba, devido o sucesso em que se apresentava no Cine Fox e após uma apresentação acompanhando o cantor lírico italiano Brilhantini, integrou a orquestra Jazz Campinense. Diz o dicionário cravo albin da música popular brasileira que foi integrante da equipe de futebol do Campinense Clube. Acontece que esta equipe existiu entre 1918 a 1919 e, na época, Capiba, no máximo, teria 15 anos...

Sem querer causar polêmica, sei que neste período ele jogava no América de nossa cidade. No meu acervo, tenho um jornal do DB onde ele próprio declara isso. Como estou fora do País atualmente, infelizmente não posso colocar a imagem com a matéria. Tenho a opinião de que o autor do verbete confundiu-o com algum dos irmãos Sebastião, Severino, José Mariano, João, Pedro e Antônio. De fato, alguns deles jogaram futebol. Em fotos antigas, publicadas no livro “Treze Futebol Clube – 80 anos de história”, podemos encontrar no time do Campinense de 1919,  Biu Capiba, porém jogando de goleiro... No América de 1919, há outro Capiba...  Contudo, o compositor Capiba, em ambos os casos, tinha, volto a dizer, no máximo 15 anos de idade e aparece em foto de 1916 no infantil do América, sendo um garoto franzino...  Como sempre disse que nunca fui dono da verdade, quem sabe outras pessoas possam apresentar outras fontes que atestem o que consta no dicionário.

Voltando a trajetória musical, ainda rapazinho deixou nossa cidade e foi estudar no Liceu da então Parahyba, hoje João Pessoa. Em 1930, passou o último carnaval em Campina Grande e, neste mesmo ano, mudou-se para o Recife onde foi aprovado em concurso para o Banco do Brasil, sendo funcionário de carreira até se aposentar, em 1961.

Já um compositor consagrado, em 1934,  venceu o concurso de frevos em Recife com a música  “É de amargar”... Segundo o saudoso compositor, ele dizia que, quando da apresentação, a plateia não se conteve e começou a gritar “já ganhou, já ganhou...” E foi mesmo o primeiro lugar, por aclamação. Os seus amigos, após o término do concurso, o colocaram nos braços e, com a orquestra tocando o frevo vitorioso, saíram pelas ruas do Recife antigo levando-o até em casa. Capiba relatava que, em dado momento, ao olhar para trás, emocionou-se ao ver que uma verdadeira multidão o seguia, cantando a sua música aos berros... Ainda hoje, é executada no carnaval pernambucano... Tomo a liberdade de dizer que talvez tenha sido o precursor do Galo da Madrugada...


Partindo para o outro lado da vida em 31.12.97, Capiba deixou vasta obra. Calcula-se que ainda há 400 músicas inéditas em sua obra. Mesmo não gostando da festa carnavalesca, não posso deixar de reconhecer o talento deste grande músico, cuja história tem ligação com Campina Grande... Evoé, Capiba !

Fontes:
http://www.dicionariompb.com.br/capiba/biografia
http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Capiba&ltr=c&id_perso=171
http://www.frevo.pe.gov.br/capiba.html

ANEXO:

Letra da música "Campina, Cidade Rainha", música e letra de Capiba em homenagem a Rainha da Borborema:

Linda cidade,
Campina,
És um sonho de amor
Tão bela que és
Com teu céu,
Com teus lindos jardins,
Tuas noites de lua
E o sol
A brilhar!
Tu tens o porte real
Da rainha que és,
Campina!
Da Borborema és a flor
Que mais brilha no ar,
Campina!
Tens tudo que a natureza tem!
Tens um encanto que é todo teu,
A simpatia que não se dá a ninguém
Teus namorados
Cantam canções
Que falam de amor:
Eu canto esta canção
Feita em teu louvor!

Inda me lembro
Do tempo
Que eu era menino
E tinha nos olhos
Esta sede de amor,
De Viver, que não posso deixar
Que se vá
Nem morrer.
Tu eras grande,
Eu pequeno,
É tudo que eu sei,
Campina!
Havia rosas no chão
Para a gente pisar,
Campina!
Na minha imaginação, jamais
Vi um estrela cair do além.
Toda essa recordação
Me faz tanto bem!
Teus namorados
Cantam canções
Quem falam de amor:
Eu canto esta canção
Feita em teu louvor!

Na nossa busca pelos "retalhos" da história campinense, encontramos nos arquivos do Diário da Borborema uma coluna do saudoso Humberto de Campos, quando ele relembrava Rosil Cavalcanti, contando como aconteceu a morte de um dos maiores agentes culturais da história desta cidade. Intitulada "Rosil: 17 anos", a coluna foi publicada no DB em 1985:

ROSIL: 17 ANOS
Foi no ontem já longínquo ano de 1968, no entanto parece que foi ontem, que perdemos Rosil Cavalcanti num dia 10 de julho.

Como esquecer se quase até a hora da morte estivemos lado a lado.

Começou no velho e saudoso palco do auditório da Rádio Borborema com o mesmo apresentando Retalhos do Sertão, sempre às 8 da manhã.

Continua na minha sala com a sua pressa em gravar a Patrulha da Cidade que ainda não havia sido redigida integralmente por Deodato.

Durante a Patrulha, brincamos alegremente com a paródia da música que a produção fizera com um tal de Josil, ladrão de carros, a quem eu de propósito chamava Rosil, justo com a música do primeiro sucesso do grande compositor: Meu Cariri.

Depois foi a compra de um gravador Crawn-Corder na Socic, devidamente autorizado por Mousinho, que fizera vibrar o apresentador do Forró de Zé Lagoa, o qual poderia deixar seus comerciais devidamente gravados quando fosse fazer suas pescarias.

Por último, violento e fatal infarto.

Ainda fui com Amauri e Mousinho ao Pronto Socorro, onde o enfermeiro Guaracy aplicava desesperadas massagens em seu coração.

Debalde todo o esforço.

Naquele resto de ano ainda aconteceriam muitas coisas. Fui conhecer o Piauí, onde o Campinense levou duas surras, sendo uma pela Taça Brasil, "seu" Cabral ganhou a campanha para prefeito, mas perdeu na soma de votos. Ronaldo assumiu e foi cassado posteriormente e Vital foi o principal prejudicado, com a morte do seu compositor exclusivo.

Parece que foi ontem, no entanto já transcorreram 17 anos.

Em tempo: - Não foi celebrada ontem (1985), pela primeira vez nesses 17 anos, nenhuma missa em sufrágio da alma de Rosil. Simplesmente não havia nenhum padre disponível.

Por Humberto de Campos

***

Uma das maiores raridades recebidas pelo blog, contando com a ajuda do colaborador Sylvio Rogerio, foi o áudio de um programa de Humberto de Campos na Rádio Borborema, quando ele relatava a morte do amigo, inclusive com um áudio raríssimo de Rosil, gravado no próprio gravador que ele comprou no dia de sua morte. O post pode ser acessado clicando-se AQUI.

Por: Vanderley de Brito
Historiador, sócio fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia

A maioria dos topônimos ainda em vigor nas regiões do Agreste, Brejo, Cariri, Curimataú, Seridó e do Sertão paraibano são originário dos princípios do século XVIII, quando os sertanistas começaram a ocupar estas regiões e solicitar Datas de terras ao governo da então Capitania da Paraíba. Estes topônimos eram dados como referencial do lugar e alguns lugares receberam o nome de Pedra Lavrada em função de haver uma pedra com inscrições rupestres gravadas a picão por sociedades pré-históricas. Dessa forma, lugares como o sítio Pedra Lavrada, no interior do município de Ingá, e a atual cidade de Pedra Lavrada, no Seridó do Estado, entre outras localidades, receberam esta nomenclatura em alusão às notáveis inscrições rupestres que referenciam estes lugares. O termo lavrado era muito comum até princípios do século XIX e já está em desuso, mas se referia a alguma coisa escrita ou ornamentada de lavores em relevo. Portanto Pedra Lavrada se referia a uma pedra com inscrições gravadas a cinzel.

Hoje não há nenhuma pedra a mostra com petróglifos em Campina Grande, mas temos um registro histórico que dá conta da existência de uma pedra lavrada onde hoje é área suburbana da Cidade. O registro é uma carta de doação do ano de 1790, quando o vigário de Campina Grande, padre João Barbosa de Góis Silva, cede ao Santíssimo Sacramento suas terras na data de Pedra Lavrada, próximas à Vila. Segundo consta, esta Data ficava meia légua ao “suleste” da Vila e, depois de doada, a propriedade passou a denominar-se “Terras do Santíssimo”. A Vila era no alto da colina onde se aglomerava as casas ao redor da igreja e, levando em consideração a referente localização das terras do Santíssimo, ou seja, três quilômetros a sudeste do centro da cidade, não resta dúvidas de que nestas terras, que tinham o nome de Pedra Lavrada, era onde hoje é o bairro do Catolé.

Pouco se sabe sobre as origens do bairro Catolé, mas, segundo estudos realizados pelo pesquisador Lincoln da Silva Diniz, no passado a sua área atual do bairro correspondia a um espaço de criações de gado, um ambiente dominantemente rural, e o nome do bairro se deve ao senhor José Evaristo Catolé, ou Zé Catolé, como era mais conhecido, que era bem conhecido na cidade pela qualidade da carne de sol que produzia. Segundo dados da Secretaria de Planejamento do Município, antigamente o bairro era divido em três grandes setores: Terras do Santíssimo, Catolé e o Prado, este último era o principal núcleo habitacional, formada por poucas ruas e ruelas habitadas por população pobre. 

Em se tratando de uma suposta pedra lavrada, de acordo com o estudo da cultura de gravuras rupestres na Paraíba, este tipo de testemunho gráfico dos povos pré-históricos está quase sempre associado a um curso hídrico, especialmente em lugares onde formam corredeiras e, portanto, é provável que esta pedra com inscrições petrográficas se localizasse à margem do riacho do Prado, que é o nome que recebe o mesmo riacho das Piabas no perímetro em que passa a ser sangradouro do Açude Velho.

Embora atualmente o bairro do Catolé esteja bem urbanizado e o riacho cimentado, cremos que, como sugere as condições topográficas, o atual canal do Prado obedeça quase o mesmo trajeto do riacho primitivo. Não existem mais pedras afloradas a vista no bairro, mas acreditamos que a pedra lavrada que deu nome a região no século XVIII ficasse no lugar que hoje é conhecido como a “Pedreira do Catolé” que ficava próximo ao prédio do antigo CEDUC da UEPB na bacia do Açude Velho. Pois ali foi uma antiga pedreira explorada por muitos anos na extração de granito e em 1980, segundo uma matéria do jornal Gazeta do Sertão, ali eram depositados entulhos e lixo da cidade para preencher as crateras feitas pela pedreira, o lugar posteriormente se transformou numa favela, formada de casebres e lamaçal. 


A pedra lavrada do Catolé deveria ser bem notável, caso contrário não daria nome ao lugar, e sua destruição deve ter ocorrido em fins do século XVIII ou início do século XIX, quem sabe não foi destruída para usar seus rachões na contenção das encostas do Açude Velho quando este foi construído? O certo é que na segunda metade deste século ela não mais existia, caso contrário Irinêo Joffily ou Maximiano Machado a teria referenciado em seus escritos, já que ambos se interessavam por inscrições rupestres e residiram por muito tempo em Campina Grande no século XIX.

Por Vanderley de Brito

A história de Campina Grande está eivada de erros, principalmente no que diz respeito aos seus primórdios. Há anos venho estudando cuidadosamente documentos coevos do período de surgimento da povoação de Campina Grande e posso assegurar que os fatos que dispomos são, na sua grande maioria, interpretações apressadas de alguns poucos documentos e preenchimentos irresponsáveis de lacunas históricas.

Em primeiro lugar, Campina Grande não surgiu de um aldeamento de índios Airú. Na verdade, já existia uma aldeia dos Bultrins no local desde pelo menos 1668, e a propósito o lugar era chamado de “Taboleiros Grandes” por esses nativos, conforme um documento escrito por um sargento-mor bultrin, chamado Manuel Homem da Rocha, em 1752.

Os bultrins que viviam em Campina Grande eram índios aramuru, de etnia Cariri, vindos do São Francisco. Haviam lutado contra os holandeses na Guerra da Restauração e, como prêmio de guerra, receberam uma Data de terra na Paraíba. Vieram para a Paraíba junto com um capuchinho francês que os organizou em Missão num lugar próximo a “Lagoa da Roza”, e lá estabeleceu uma Missão de catequese com o nome de Boldrim. No entanto, esta Missão religiosa durou apenas dois anos, sendo desfeita em 1670 e os catecúmenos foram remanejados para a Missão de Pilar do Taypu, dos jesuítas. Porém, muitos nativos da antiga Missão Boldrim já haviam abandonado o centro catequético e se estabelecido em outras áreas e por isso não foram para o Pilar junto com seus parentes, pois a Data de terra naqueles agrestes lhes pertencia por direito. Assim, três aldeias ficaram estabelecidas na região, a de Boldrim, a de Genipapo e a de Campina Grande.

Teodósio de Oliveira Ledo já conhecia estes indígenas e sabia que ocupavam terras que lhes pertencia, mas como eram índios amigos dos colonizadores não os molestava e até tinha esta aldeias como ponto de pouso e lugar para se adquirir por escambo farinha e outros gêneros que eles produziam em suas roças.

"A fundação de Campina Grande": Desenho a lápis sobre papel Canson 300g/m², tamanho 30x12
( Vanderley de Brito)


Já os Ariú eram índios bravios que ocupavam os vales do Quinturaré e Seridó. Na verdade eram nativos Pegas, da nação Tarairiú e, muito provavelmente o nome ariú é corruptela de tarairiú. Estes índios guerrearam conta Teodósio quando este sertanista se empenhou em ocupar a região de Quinturaré (hoje região de Picuí) e depois de vencidos capitularam com o capitão-mor se oferecendo como vassalos de Sua Majestade.

Teodósio, que ainda lutava contra a tribo dos Pegas do líder Pecarroy, precisou ir até a cidade da Parahyba adquirir munição e mantimentos e achou por bem afastar os índios capitulados do cenário de guerra  para que não voltassem às hostilidades e os levou consigo, aldeando-os junto dos cariri-bultrins de Campina Grande. O ano era 1697.

Estes índios Ariú eram comandados por um índio de nome Cavalcante, que manifestou interesse de que seu grupo recebesse os ensinamentos cristãos. Dessa forma, quando o capitão-mor retornou da Parahyba trouxe consigo um frade do Convento de Santo Antônio para doutrinar estes indígenas. Portanto, o surgimento de Campina Grande como povoado cristão remonta o ano de 1698.

Obs: O espaço disponível nesta página não possibilita que se faça todo o estudo de fundamentação dos dados apresentados, mas o leitor poderá encontrar este estudo no livro de minha autoria “Missões na Capitania da Paraíba” (Cópias & Papéis, 2013).

Por Vanderley de Brito

Antigamente os rios eram os caminhos para o interior, pois, seguindo-os, não tinha como se perder nos ermos desses nossos sertões. Fundada em 1698, no início do século XVIII, Campina Grande já era uma povoação de relativa importância para a Capitania da Paraíba, como comprova uma carta datada de 1702 que mandava construir uma igreja nesta povoação, dotada de uma missão religiosa, e o caminho para lá era o riacho do Bacamarte, que a época era conhecido como “rio da Pedra Lavrada” desde sua foz até a atual cidade de Ingá, onde o riacho passava a ser denominado de rio da Cachoeira, como pude comprovar estudando centenas de cartas de sesmaria.

Canal da Cachoeira

O sertanista, missionário, tropeiro ou bandeirante, que vinha da capital, ou de Pernambuco, subia o rio Paraíba até o lugar Dois Riachos (em terras do atual município de Mogeiro) e tomava o riacho da Pedra Lavrada que desaguava ali. O nome de Pedra Lavrada para este riacho, sem dúvidas, foi dado em virtude da famosa Pedra do Ingá. A partir do sítio “cachoeira do Ingá”, onde hoje é a cidade de Ingá, o riacho tomava o nome de Rio da Cachoeira, e levava o viajante serra acima passando próximo ao lugar serra da Massaranduba e Marinho até chegar ao planalto da campina grande, de onde descia um expressivo íngreme formando uma sonora cachoeira. (este local era onde hoje fica o bairro da Cachoeira, ali próximo de José Pinheiro. Ou seja, o nome primitivo do riacho Bacamarte se manteve vivo na memória do povo).

Só no final do século XVIII o riacho mudou sua denominação para riacho do Bacamarte, a primeira referência que temos deste nome é de 1787. Acredita-se que o nome tenha se originado de um bacamarte que fora encontrado na sua margem na proximidade da atual cidade de Riachão do Bacamarte.

Com o processo de urbanização da cidade de Campina Grande, hoje não existe mais o olho d’água da nascente do Bacamarte, mas há uns dois anos fui até o bairro de Nova Brasília, zona norte da cidade de Campina Grande, para tentar localizar a antiga nascente do riacho Bacamarte.

O Bacamarte descendo do planalto da Campina Grande

Por se tratar de uma área urbana, a maioria de suas águas fluviais segue cursos subterrâneos e isso dificultou a localização da nascente. Contudo, me vali de estudos topográficos e guiando-me pelos canais e bueiros segui até encontrar a dita nascente. Segundo constatei a cabeceira do Bacamarte era numa antiga cacimba que atualmente se localiza no canteiro central que divide as mãos da Rua Terezinha Ribeiro.

Nascente do Bacamarte
Dali, o riacho segue para sudoeste penetrando no bairro de Santo Antônio e depois toma o rumo leste até o bairro de José Pinheiro, dali ele bifurca passando um ramo que se encaixa na calha do canal da cachoeira e outro que segue para o sul, passando por trás do cemitério deste bairro, de onde descamba serra abaixo para encontrar o outro ramo que, juntos, tomam o rumo norte em direção ao sítio Marinho, onde muda o rumo para o sudeste até sua deságua no rio Paraíba. O curso total deste riacho é de aproximadamente 60 quilômetros e, infelizmente, é composto principalmente por esgotamentos sanitários das cidades por onde passa, principalmente Campina Grande.

O bacamarte abaixo do planalto da Campina Grande

Por: Vanderley de Brito

É difícil imaginar como seria o aspecto da Campina Grande quando ainda era um incipiente núcleo populacional. Elegante, imponente e populosa como está hoje é quase impensável imaginá-la um aglomerado indígena de choças de palha cercadas por roças de gêneros alimentícios. Mas um historiador não pode se ater aos conceitos modernos, é preciso voltar seus sentidos com imparcialidade para o passado.

Observando a geografia de Campina Grande, é possível perceber que o lugar era aprazível e estrategicamente conveniente para a ocupação humana. Pois está numa planície compreendida entre dois cursos hídricos, o riacho das Piabas (ou do Prado) e o Riacho de Bodocongó, além dos muitos córregos que alimentavam estes riachos. Na grande campina havia também inúmeras lagoas, com certeza o Açude Novo era uma pequena lagoa natural e de água doce, o remanso dos riachos Bodocongó e Piabas (que hoje são os Açudes de Bodocongó e o Velho) também estagnavam grande volume hídrico, além de muitas outras lagoinhas que até muito recentemente ainda existiam, por exemplo: havia uma lagoa no Quarenta, no lugar onde hoje está a quadra de esportes do Alfredo Dantas, havia a Lagoa dos Canários em Zé Pinheiro, onde hoje está o centro esportivo Plínio Lemos, havia a Lagoa dos Bexiguentos no Distrito Industrial, onde hoje está a Maquinor e havia a Lagoa do Teiú, no Catolé, onde foi construído o residencial Dubú, além de muitas outras que seria exaustivo enumerar. Portanto, Campina Grande era rica em recursos hídricos. A propósito, muito provavelmente o Riacho das Piabas era perene, alimentado por diversos olhos d’água.

Muito possivelmente Campina Grande já era uma povoação de índios Bultrins bem frequentada pelos boiadeiros muito antes de Teodósio de Oliveira Ledo ter assentado o grupo ariú ali, pois o lugar Campina Grande já constava registrado num mapa publicado em Roma no ano de 1698, elaborado por Andreas Antonius Horatiy. Isso comprova que a povoação já era conhecida mesmo antes de Teodósio ter deixado lá os ariú, pois somente no ano de 1699 que o Governador da Paraíba Manoel Soares de Albergaria escreveu a carta ao Rei de Portugal notificando sobre o lugar, que, como vimos, já constava referenciado em mapa que já devia ter sido elaborado há pelos menos três anos, porque a confecção de um mapa naquela época era demorada devido à técnica tipográfica e as inúmeras permissões que tinham de ser solicitadas.

Campina Grande era um lugar perfeito para pouso de viajantes e negociantes por estar situada bem no meio do caminho que ligava o litoral ao sertão (Estrada Real do Sertão), em terras adequadas à cultura de vários cereais indispensáveis à vida dos colonos e junto a uma lagoa no remanso do riacho das Piabas, que mais tarde viria a ser o Açude Velho.

A prova de que havia uma lagoa na povoação indígena de Campina Grande pode ser encontrada numa sesmaria de 1781 onde menciona “... até toparem com a lagôa das terras que foram dos índios da Missão da Campina Grande...” (TAVARES, 1982 p. 394) e na obra de Aires de Casal, editado em 1817, que ao tratar da Vila da Rainha, vulgo Campina Grande, diz: “seus habitantes bebem duma lagoa contígua, a qual, faltando água nos anos de grande seca, os obriga a ir buscá-la ali a duas léguas” (CASAL, 1976 p. 276). Como sabemos, o Açude Velho só começou a ser construído em 1829, custando 1:000$000 (um conto de réis) aos cofres provinciais (PINTO, 1999 p. 110) e, portanto, nada mais é do que paredes de retenção erguidas para aumentar a capacidade hídrica de uma lagoa, ou alagado, já existente no lugar.

Se já existia uma povoação indígena em Campina Grande como os documentos sugerem, quando o missionário trazido em 1698 para administrar a fé destes nativos, a primeira capela deve ter sido erguida de frente para o povoado indígena já existente. Embora o historiador Epaminondas Câmara afirme que o povoado teria surgido no sítio das Barrocas, por trás da igreja:

“O povoado teve início nas Barrocas, surgindo, em seguida, o largo da Igreja e a rua do Oitão (hoje Bento Viana). Formaram-se dois agregados de casas, isolados (...) eram prédios de taipa e telha, com tetos muito altos de empena e sótãos sob travejamento de madeira. Paredes de enxamel, portas largas. Tinham regular aparência e denunciavam um arremedo de estilo entre jesuítico e emboaba” (CÂMARA, 1943, p. 22-23).

Como não há registros de época que comprove esta afirmativa, entendo por óbvio que Epaminondas Câmara elaborou sua narrativa com base nas supostas conveniências do terreno. Mas, mesmo com toda essa elaboração imaginativa, o autor dos “Alicerces” esbarrou numa inconveniência à sua teoria: o fato da Igreja ter sido erigida dando às costas ao sítio das Barrocas, onde supõe que surgira o povoado de Campina Grande. Sua justificativa para este fato desconcertante foi alegar que o lugar oferecia melhor paisagística. Com todo o respeito, Câmara foi romântico. Vejam:

“O local escolhido para a construção (da igreja) foi o mesmo onde hoje está edificada a Matriz. Não obstante terem sido levantadas as primeiras casinhas no sítio das Barrocas (hoje rua Vila Nova da Rainha), a preferência pelo alto da colina, ao norte, obedeceu talvez a fins estéticos. E a capela foi erguida com fundos para o povoado. Isto parece-nos, não significou despreso. É que o panorama sul, em contraste com as perspectivas acidentadas do brejo, é monótona, com planícies de vegetação xerófila, emolduradas pela serra do Bodopitá. Ao passo que o horisonte setentrional emociona-nos a sensibilidade estética” (CÂMARA, 1943 p. 6-7).

Em termos arqueológicos, devido o estágio avançado de urbanização da cidade, hoje é quase impossível determinar com exatidão onde seria o núcleo populacional de Campina Grande. Contudo, um documento levantado por Maximiano Lopes Machado é explícito ao afirmar que a Igreja ficava voltada para a aldeia:

“Fundára-se em Campina Grande, como nas outras partes, a egreja recommendada na ordem de 13 de janeiro de 1701, sendo construída, ao que parece, no mesmo local em que se acha a sua actual matriz edificada no princípio deste século sob patrocinio da Senhora da Conceição. A pouca distancia da antiga capella, lado do poente, existia uma aldeia de índios” (MACHADO, 1977, vol. II, p. 490).

O documento utilizado por Maximiano Lopes Machado para fundamentar esta esclarecedora notícia foi uma carta régia de 13 de janeiro de 1701, enquanto a afirmativa de Câmara é inteiramente subjetiva, o que não convém a um historiador.

Como se vê, é fato que a povoação de Campina Grande nasceu de uma aldeia indígena, e esta passagem acima deixa claro que a aldeia estava de frente à antiga capela que tinha seu frontispício voltado para o poente e foi nesta mesma posição e lugar que se ergueu a Igreja Matriz, ou seja, como é conveniente, a aldeia se posicionava na frente e não nas costas da Igreja. Desse modo, muito possivelmente, a aldeia de índios se localizava onde hoje é o centro da cidade, se estendendo na colina desde o aclive do viaduto, na Avenida Canal (onde passava o riacho das Piabas) até, talvez, o início do declive para o Açude Novo. Portanto, a atual Matriz de Campina Grande está voltada para o poente porque veio substituir sua primitiva capela, que estava voltada para a aldeia a que se destinava à missão evangelizadora.

Campina Grande foi missão religiosa até 1758 quando o Diretório Pombalino extinguiu todas as Missões do Brasil, o último missionário de Campina Grande foi padre Domingos da Cunha Fonseca. De acordo com os autos de uma devassa sobre as vilas de índios, em 1762, durante o processo de ereção de vilas e povoados realizadas na parte norte da capitania de Pernambuco e suas anexas, e os índios de Campina Grande foram transferidos para a recém criada Vila de Monte-mor, onde hoje está à cidade de Rio Tinto, e o sítio Campina Grande passou a ser território privado, sendo adquirido por Gonçalo de Oliveira Serpa, descendente dos Oliveira Ledo (Apud. TAVARES, 1982 p.304). Treze anos depois as terras de Campina

Grande já pertenciam a Francisco Nunes de Souza, inclusive a légua de terras “que era o que possuíam os índios que ali se achavam aldeiados, cuja compra fizera para crear seos gados...” (Ibidem, p. 357).

Campina Grande só foi convertida em vila no ano de 1790, sob o nome de Vila Nova da Rainha, abrangendo em sua jurisdição os povoados de Fagundes, Boqueirão, Cabaceiras, Milagres (S. João do Cariri), Timbaúba (Gurjão), Alagoa Nova, Marinho e outros, ao todo somando um território de mais de 900 km².

Referências bibliográficas:

BRITO, Vanderley de. Missões na Capitania da Paraíba. C. Grande: Cópias & Papéis, 2013.

CÂMARA, Epaminondas. Os alicerces de Campina Grande: esboço histórico-social do povoado e da vila – 1697 e 1864. C. Grande: Of. Gráficas da Livraria Moderna. 1943.

CASAL, Manuel Aires de. (1818) Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil. Itatiaia/Edusp, 1976.

MACHADO, Maximiano Lopes. (1912) História da Província da Paraíba. (2 volumes) João Pessoa: Editora Universitária/UFPb. 1977.

TAVARES, João de Lyra. (1909) Apontamentos para a história territorial da Parahyba. Edição fac-similar. (2 volumes) Coleção Mossoroense, Vol. CCXLV. Mossoró, 1982.
 
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