Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
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Por Vanderley de Brito

A história de Campina Grande está eivada de erros, principalmente no que diz respeito aos seus primórdios. Há anos venho estudando cuidadosamente documentos coevos do período de surgimento da povoação de Campina Grande e posso assegurar que os fatos que dispomos são, na sua grande maioria, interpretações apressadas de alguns poucos documentos e preenchimentos irresponsáveis de lacunas históricas.

Em primeiro lugar, Campina Grande não surgiu de um aldeamento de índios Airú. Na verdade, já existia uma aldeia dos Bultrins no local desde pelo menos 1668, e a propósito o lugar era chamado de “Taboleiros Grandes” por esses nativos, conforme um documento escrito por um sargento-mor bultrin, chamado Manuel Homem da Rocha, em 1752.

Os bultrins que viviam em Campina Grande eram índios aramuru, de etnia Cariri, vindos do São Francisco. Haviam lutado contra os holandeses na Guerra da Restauração e, como prêmio de guerra, receberam uma Data de terra na Paraíba. Vieram para a Paraíba junto com um capuchinho francês que os organizou em Missão num lugar próximo a “Lagoa da Roza”, e lá estabeleceu uma Missão de catequese com o nome de Boldrim. No entanto, esta Missão religiosa durou apenas dois anos, sendo desfeita em 1670 e os catecúmenos foram remanejados para a Missão de Pilar do Taypu, dos jesuítas. Porém, muitos nativos da antiga Missão Boldrim já haviam abandonado o centro catequético e se estabelecido em outras áreas e por isso não foram para o Pilar junto com seus parentes, pois a Data de terra naqueles agrestes lhes pertencia por direito. Assim, três aldeias ficaram estabelecidas na região, a de Boldrim, a de Genipapo e a de Campina Grande.

Teodósio de Oliveira Ledo já conhecia estes indígenas e sabia que ocupavam terras que lhes pertencia, mas como eram índios amigos dos colonizadores não os molestava e até tinha esta aldeias como ponto de pouso e lugar para se adquirir por escambo farinha e outros gêneros que eles produziam em suas roças.

"A fundação de Campina Grande": Desenho a lápis sobre papel Canson 300g/m², tamanho 30x12
(Vanderley de Brito)

Já os Ariú eram índios bravios que ocupavam os vales do Quinturaré e Seridó. Na verdade eram nativos Pegas, da nação Tarairiú e, muito provavelmente o nome ariú é corruptela de tarairiú. Estes índios guerrearam conta Teodósio quando este sertanista se empenhou em ocupar a região de Quinturaré (hoje região de Picuí) e depois de vencidos capitularam com o capitão-mor se oferecendo como vassalos de Sua Majestade.

Teodósio, que ainda lutava contra a tribo dos Pegas do líder Pecarroy, precisou ir até a cidade da Parahyba adquirir munição e mantimentos e achou por bem afastar os índios capitulados do cenário de guerra  para que não voltassem às hostilidades e os levou consigo, aldeando-os junto dos cariri-bultrins de Campina Grande. O ano era 1697.

Estes índios Ariú eram comandados por um índio de nome Cavalcante, que manifestou interesse de que seu grupo recebesse os ensinamentos cristãos. Dessa forma, quando o capitão-mor retornou da Parahyba trouxe consigo um frade do Convento de Santo Antônio para doutrinar estes indígenas. Portanto, o surgimento de Campina Grande como povoado cristão remonta o ano de 1698.

Obs: O espaço disponível nesta página não possibilita que se faça todo o estudo de fundamentação dos dados apresentados, mas o leitor poderá encontrar este estudo no livro de minha autoria “Missões na Capitania da Paraíba” (Cópias & Papéis, 2013).

Por Rau Ferreira

O Dr. Chateaubriand Bandeira de Melo exercia a medicina na serrana cidade de Campina Grande. Católico fervoroso e devoto de S. Antônio organizava anualmente a festa do seu padroeiro cuja tradição se consolidara na cidade por suas mãos. Para o ano de 1914, o médico convocara o Padre Heliodoro Pires para pregar no dia 14 de junho.

O novenário estava a cargo do Padre Sales, estimado pároco a quem Campina devia muito. E a música seria tocada pela orquestra campinense.

No domingo às oito, o vigário Sales celebrou missa cantada para uma grande multidão. Fez a pregação o Padre Heliodoro, sobre “Santo Antonio, como glória das tradições nacionais e modelos para o caracter nacional”.

Pelas treze horas, em casa do Dr. Chateaubriand foi realizado a entronização da imagem do Sagrado Coração, com participação de sua esposa D. Amanda. Na oportunidade, um grupo de senhoras entoou com acompanhamento de afinada orquestra o hino “Queremos Deus”.

O encerramento da festa se deu pelas cinco horas da tarde na Igreja Matriz. Participaram deste movimento religioso o apostolado da oração, senhoras da escola campinense e alguns religiosos.

À noite a residência do Dr. Chateaubriand foi bastante visitada.

Nascido em S. João do Cariry, formou-se em medicina pela Faculdade da Bahia. Veio residir em Campina onde montou a sua clínica e trabalhou por muitos anos.

Amigo de Irineu Jóffily realizou com o companheiro uma de suas importantes viagens pelo interior da Paraíba. Coube também ao Dr. Bandeira de Melo a oração quando da chegada do trem à Campina.

Referências:

- A PROVÍNCIA, Jornal. Edição de 17 de junho. Recife/PE: 1914.

- ABRANCHES, Dunshee. Governos e congressos da Republica dos Estados Unidos do Brazil, Governos e congressos da Republica dos Estados Unidos do Brazil. M. Abranches: 1918.

- DIÁRIO DE PERNAMBUCO, Edição de 06 de outubro. Recife/PE: 1907
por Eduardo de Castro (*)

Dom João VI, Príncipe do Brasil à
época da Vila Nova da Rainha. 
Ao longo dos anos, principalmente na última, década. A fundação de Campina Grande tem sido
objeto de discussão. A dita história social afirma que Campina Grande foi fundada pelos índios Ariús, uma afirmação desonesta intelectualmente, pois como se sabe o conceito de cidade, ruas, casas, iluminação, concentração do comércio e atividades artesanais é essencialmente europeu, provindo das aglomerações de artesãos e mercantes chamados de burgueses que muravam esta aglomeração de pessoas e habitações com paliçadas ou muros de pedra e passou-se a chamar de burgos. O aldeamento não é necessariamente uma forma de cidade, dadas as inúmeras diferenças de atividades e organização, assim, o local chamado de Campina Grande passou a constituir uma cidade a partir da chegada de atividades econômicas e culturais como a formação de ruas, edificações de casas em separado por famílias, produção de gêneros alimentícios de forma sedentária e o comércio dos mesmos e demais itens. Por fim, faz-se óbvio crer que o local Campina Grande, passou a ser um embrião de cidade com a chegada dos colonos portugueses, afinal, a administração, aplicação das leis para todos os membros, logicamente respondia à Portugal e El Rey. Fechando o argumento, também é natural crer que aqui só passou a se chamar Campina Grande com a chegada de lusófonos, pois nenhuma das duas palavras que constitui o nome da cidade é de origem indígena. A conclusão simples é que Campina Grande partiu de um empreendimento dos colonos portugueses e não de uma aglomeração indígena, muito embora aqui residissem também os Ariús, a articulação entre os nativos e os colonos permitiu a formação da comunidade, sua defesa durante a Guerra dos Bárbaros com a aliança entre Teodósio de Oliveira Lêdo e o índio Cavalcanti.

No entanto, fica em aberto quando ocorreu a fundação oficial de Campina Grande a partir da Vila Nova da Rainha. Porém, esta lacuna é preenchida pela história de Paulo de Araújo Soares Filho. Bisneto de Teodósio de Oliveira Lêdo e neto de Dona Adriana de Oliveira Lêdo, filho de seu homônimo português, natural de Viana do Castelo no Reino de Portugal. Mas porque não conhecemos esta história? Ou melhor, porque ela nos é escondida? Mistérios historiográficos. Na verdade, mistério nenhum. Pois mais uma vez o grupo de historiadores da escola da História Social (àquela que tem influências Marxistas e de Gramsci) quer desfazer a identidade cultural, corroer nossos símbolos e a história dos heróis, criando sempre grupos que se enfrentam na famigerada “agravação da luta de classes”. Uma pena que nossa história seja tão atingida por esta forma de pensamento.

Paulo de Araújo Soares foi Sargento-Mor das Ordenanças de Portugal. Casou-se com Bárbara Maria de Jesus Carvalho. Foi possuidor de diversas fazendas, e desempenhou atividades econômicas de empréstimo e guarda de quantias em dinheiro, dada a falta de bancos na época, se estabeleceu na Fazenda Logradouro nas imediações do Vale de Santa Rosa. Sem dúvida, da história do século XVIII no interior da Paraíba, foi ele o homem de maior prestígio e influência social, superando inclusive sua avó Dona Adriana. O Sargento-mor destacou-se por ser homem de confiança dos Governadores da Capitania da Parahyba e posteriormente desta mesma Província. Viveu a transição de Colônia Portuguesa do Brasil para o Reino do Brasil unido à Portugal e Algarves. Assim, tendo sido um dos correspondentes de José Bonifácio de Andrade e Silva, conselheiro de Dom João VI e de Dom Pedro I, também futuro articulador da Independência do Brasil quando do famoso Grito do Ipiranga. Porém, o maior destaque de Paulo, foi ter sido o jogador por trás do xadrez da elevação da Freguesia de Campina Grande à Vila Nova da Rainha. Cabe aqui destacar, que freguesia, no sistema português, corresponde à bairro ou paróquia. Já vila é uma etapa anterior ao que se chamava de Concelho ou Município. 

De acordo com Tarcísio Dinoá, o Governador de Pernambuco, Tomás José de Melo, sob o qual estava submetida a Capitania da Parahyba (1755-1799), recebeu uma petição encabeçada pelo Coronel José da Costa Romeu em 1786, “homem bom” da Freguesia de Nossa Senhora dos Milagres do Cariri de Fora (atual São João do Cariri), solicitando que esta freguesia fosse elevada à vila, com o título de Vila Nova Da Rainha. Na petição, constavam outros homens-bons, isto é, aqueles que correspondiam às exigências de quantidade de posses para voto, entre eles Inácio de Barros Leira, Filipe de Faria Castro e José Félix de Barros Leira. 

O Governador General concordou com tal pedido e enviou à região o Ouvidor e Desembargador Antônio Felipe Soares de Andrada Brederodes, seu homem de confiança, para que fosse realizar a elevação à vila de tal localidade e, ao mesmo tempo, também a elevação das povoações que são hoje Caicó e Açu, no Rio Grande do Norte, à Vila Nova do Príncipe (futuro Dom João VI) e Vila Nova da Princesa, respectivamente. Ao chegar à região, o Desembargador deparou-se com uma comitiva de homens do alto do Planalto da Borborema, liderados por ninguém menos que o Sargento-Mor Paulo de Araújo Soares que queria convencê-lo à elevar a Vila a Freguesia Nossa Senhora da Conceição de Campina Grande ao invés da Freguesia do Cariri de Fora. Evidentemente que houve a disputa política entre os homens bons do Cariri e os do alto da serra, mesmo assim o Governador aceitou as ponderações e razões apresentadas pelo grupo favorável à Campina Grande, homologando a decisão do Desembargador em 1790. Mediante os seguintes argumentos enviados na forma de carta sobre as imediações do local: 

“serem as terras de lavouras e de boa produção; junto aos melhores brejos daquela freguesia, com abundância de farinhas não só para sustentação dos moradores como ainda para os lugares mais remotos que para lá correm”

Argumentando também, que a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, no local Campina Grande era também ponto estratégico do comércio da região:

“por ficar na estrada geral que vai destas praças para os sertões, comércio este que serve de muita utilidade às vilas e povoações”

Por fim, a argumentação foi um pequeno ataque à Freguesia de Nossa Senhora dos Milagres de Cariri de Fora: 

“Os moradores da freguesia de Nossa Senhora dos Milagres requereram a Vossa Excelência para que se fizesse a vila naquele lugar com o fundamento de que só nele havia pessoas poderosas para sustentação da vila. O que se vê pelo contrário, por ser lugar estéril, de sorte que vivem os moradores que nele habitam miseráveis por razão de não terem farinhas para sua sustentação por virem procurar o socorro nos brejos daquele lugar distantes mais de vinte léguas.”

A então belíssima Princesa do Brasil Dona Maria.
Rainha de Portugal, Algarves e Brasil.
Entrou para a história como "A Piedosa"
 e posteriormente como "A Louca", pois
adquiriu uma doença mental já no fim da da vida,
passando a regência a Dom João VI.
Logicamente que o cabedal financeiro e político de Paulo tiveram preponderância maior. Como naquela época, a política se decidia de forma natural através da troca de favores, bens e títulos, com a elevação da Freguesia de Campina Grande à Vila Nova da Rainha não foi diferente. Assim, o Desembargador Brederodes, recebeu uma quantia de 200$000, duzentos mil réis do Sargento-mor e também uma boa quantidade de gado, que prosperando, serviram-lhe para quitar a quantia de 800$000, oitocentos mil réis que o desembargador já devia previamente à Paulo de Araújo Soares. Assim, consistindo numa enorme doação a Freguesia de Campina Grande, futura Vila Nova da Rainha da parte do Sargento-mor.

Fica claro aqui, com uma apresentação honesta da história, que Paulo de Araújo Soares, como descendente de Dona Adriana de Oliveira Lêdo e do Capitão-mor Teodósio de Oliveira Lêdo foi possuidor do espírito de colaboração com sua região e comunidade, mais uma vez a gênese de um dos muitos povos paraibanos se deus graças a um Oliveira Lêdo. O sargento-mor fora um homem do seu tempo, não teve nenhuma excentricidade, igual à todos os homens bons de sua época, perseguiu uma patente das Ordenanças Portuguesas, fundou inúmeras fazendas, converteu terras devolutas em sesmarias em consórcios com outros associados onde realizou-se a criação de gado, atividade típica de todos os Oliveira Lêdo do século XVIII. Porém, foi graças ao seu espírito empreendedor que hoje a Vila Nova, tornou-se Rainha da Borborema.

Cartas de pedido de confirmação das duas sesmarias das quais Paulo de Araújo Soares foi beneficiário:

Nº 1135 em 17 de Julho de 1823

          "Sargento-mór Paulo de Araujo Soares, Francisco Pereira Pinto, Antonio Pereira de Barros e João da Costa Villar dizem que descobriram terras devolutas na Villa de Souza da Rainha (sic!), pegando das extremas da fazenda S. Pedro e vargem da mesma, contestando pelo norte com terras da Bôa Vista e S. Bento, pelo sul com terras da serra das Vargens de S. João e dos herdeiros de Ignacio de Barros, pelo nascente com as ditas terras de S. Pedro e vargens e pelo poente com Tapera, fazenda da Aldeia e S. João, e como dellas precisam pedem ditas sobras com tres leguas de comprido e uma de largo ou como melhor lhes for. Foi feita a concessão, pela junta provisoria da provincia, Estevão José Carneiro da Cunha, presidente, João Ribeiro de Vasconcellos Pessôa, João Gomes de Almeida, Antonio da Trindade Antunes Meira e João Barbosa Cordeiro, secretario."

Nº 1136 em 30 de Julho de 1823

           "Sargento-mór Paulo de Araujo Soares, Francisco Pereira Pinto, Antonio Pereira de Barros e João da Costa Villar dizem que requerem terras devolutas no termo da Villa Nova da Rainha, pegando das extremas da fazenda S. Pedro e vargem da mesma, contestando pelo norte com terras da Bôa Vista e S. Bento pelo sul com terras da Serra das Vargens de S. João, e herdeiros de Ignacio de Barros, pelo nascente com as ditas terras de S. Pedro e vargens e pelo poente com terras da Tapera, fazenda da Aldeia e S. João. Ocorrendo embargo a junta do governo da provincia, Estevão José da Cunha, presidente, João Ribeiro de Vasconcellos Pessôa, Antonio da Trindade Antunes Meira, João Gomes de Almeida e João Barboza Cordeiro, secretario, mandou passar aos embargantes Ajudante José Gomes de Faria, alferes Antonio Gomes de Faria, D. Francisca Maria da Conceição e mais herdeiros da fallecida D. Maria José Pereira de Araujo a metade das sobras das terras pedidas pelos sobreditos, incluindo nessa metade o logar Gado Brabo de que os ditos embargantes estão de posse, não excedendo a quantidade legal".


Referências:
(1) –Antônio Pereira de Almeida.  “Os Oliveira Lêdo – De Teodósio de Oliveira Lêdo à Agassiz Pereira de Almeida”
(2)-Tarcízio Medeiros Dinoá. "Ramificações Genealógicas do Cariri Paraibano". Cergraf.
(3)- Francisco de Assis Ouriques Soares. "Bôa Vista de Sancta Roza". Da fazenda à municipalidade. Epgraf


(*) Eduardo de Castro é Engenheiro Mecânico em tempo integral, 
Cinéfilo, Historiador e Heraldista amador.
Texto publicado em seu blog pessoal: http://eduardodecastro.weebly.com/


Por Vanderley de Brito

A história de Campina Grande está eivada de erros, principalmente no que diz respeito aos seus primórdios. Há anos venho estudando cuidadosamente documentos coevos do período de surgimento da povoação de Campina Grande e posso assegurar que os fatos que dispomos são, na sua grande maioria, interpretações apressadas de alguns poucos documentos e preenchimentos irresponsáveis de lacunas históricas.

Em primeiro lugar, Campina Grande não surgiu de um aldeamento de índios Airú. Na verdade, já existia uma aldeia dos Bultrins no local desde pelo menos 1668, e a propósito o lugar era chamado de “Taboleiros Grandes” por esses nativos, conforme um documento escrito por um sargento-mor bultrin, chamado Manuel Homem da Rocha, em 1752.

Os bultrins que viviam em Campina Grande eram índios aramuru, de etnia Cariri, vindos do São Francisco. Haviam lutado contra os holandeses na Guerra da Restauração e, como prêmio de guerra, receberam uma Data de terra na Paraíba. Vieram para a Paraíba junto com um capuchinho francês que os organizou em Missão num lugar próximo a “Lagoa da Roza”, e lá estabeleceu uma Missão de catequese com o nome de Boldrim. No entanto, esta Missão religiosa durou apenas dois anos, sendo desfeita em 1670 e os catecúmenos foram remanejados para a Missão de Pilar do Taypu, dos jesuítas. Porém, muitos nativos da antiga Missão Boldrim já haviam abandonado o centro catequético e se estabelecido em outras áreas e por isso não foram para o Pilar junto com seus parentes, pois a Data de terra naqueles agrestes lhes pertencia por direito. Assim, três aldeias ficaram estabelecidas na região, a de Boldrim, a de Genipapo e a de Campina Grande.

Teodósio de Oliveira Ledo já conhecia estes indígenas e sabia que ocupavam terras que lhes pertencia, mas como eram índios amigos dos colonizadores não os molestava e até tinha esta aldeias como ponto de pouso e lugar para se adquirir por escambo farinha e outros gêneros que eles produziam em suas roças.

"A fundação de Campina Grande": Desenho a lápis sobre papel Canson 300g/m², tamanho 30x12
( Vanderley de Brito)


Já os Ariú eram índios bravios que ocupavam os vales do Quinturaré e Seridó. Na verdade eram nativos Pegas, da nação Tarairiú e, muito provavelmente o nome ariú é corruptela de tarairiú. Estes índios guerrearam conta Teodósio quando este sertanista se empenhou em ocupar a região de Quinturaré (hoje região de Picuí) e depois de vencidos capitularam com o capitão-mor se oferecendo como vassalos de Sua Majestade.

Teodósio, que ainda lutava contra a tribo dos Pegas do líder Pecarroy, precisou ir até a cidade da Parahyba adquirir munição e mantimentos e achou por bem afastar os índios capitulados do cenário de guerra  para que não voltassem às hostilidades e os levou consigo, aldeando-os junto dos cariri-bultrins de Campina Grande. O ano era 1697.

Estes índios Ariú eram comandados por um índio de nome Cavalcante, que manifestou interesse de que seu grupo recebesse os ensinamentos cristãos. Dessa forma, quando o capitão-mor retornou da Parahyba trouxe consigo um frade do Convento de Santo Antônio para doutrinar estes indígenas. Portanto, o surgimento de Campina Grande como povoado cristão remonta o ano de 1698.

Obs: O espaço disponível nesta página não possibilita que se faça todo o estudo de fundamentação dos dados apresentados, mas o leitor poderá encontrar este estudo no livro de minha autoria “Missões na Capitania da Paraíba” (Cópias & Papéis, 2013).


O texto abaixo foi fundamentado no artigo “A MISSÃO CATEQUÉTICA DE CAMPINA GRANDE: UMA PSEUDOMISSÃO PARA DISSIMULAR O ETNOCÍDIO NOS SERTÕES DA PARAÍBA”, de autoria de Vanderley de Brito e Thomas Bruno Oliveira.

Uma das Fotos Mais Antigas do Açude Velho

“Entre fins de 1695, até 1697, nuvens negras se aglomeravam no horizonte dos sertões do Piancó com o curraleiro e capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, em conjunto com seu alferes João de Miranda e o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, dando impulso a sanguinolentos assaltos contra os tapuias “insurgentes”, degolando índios às centenas, queimando aldeias e fazendo milhares de prisioneiros de guerra, sem constituir exceção mulheres e crianças.”

‘Campanha de horrores’ foi o termo utilizado pelos autores do artigo em questão sobre a incursão do desbravador Theodósio de Oliveira Ledo no longínquo ano de 1697, quando o capitão-mor dirigiu-se à Parahyba do Norte e, em meio à jornada, decidiu deixar o grupo aldeado numa povoação de índios Cariri que havia num extenso prado no sertão dos chamados Cariris Velhos, um lugar que tinha por nome Campina Grande.

Chegando nesta  imensa planície, coberta de gramíneas e plantas herbáceas, ou subarbustivas, os Ariú trazidos por Oliveira Ledo foram acomodados numa aldeia de índios Cariri que ali existia, os Bultrins,  que já deviam ser bem conhecidos do famoso capitão-mor (possuidor da fazenda Santa Rosa próximo dali), e muito possivelmente esta aldeia Bultrim já era bem frequentada pelos boiadeiros nesta época, pois o lugar já constava registrado num mapa publicado em Roma desde 1698, elaborado por Andreas Antonius Horatiy.

Aliás, é um indício cronológico que comprova que Campina Grande já era uma povoação conhecida mesmo antes de Teodósio ter deixado lá os Ariú, pois no ano de 1699 quando o Governador da Paraíba Manoel Soares de Albergaria escreveu a carta ao Rei de Portugal notificando sobre o lugar, que, como frisamos, já constava referenciado em mapa que provavelmente devia ter sido elaborado há pelos menos três anos passados a contar daquela data, porque a confecção de um mapa naquela época era demorada devido à técnica tipográfica e as inúmeras permissões que tinham de ser solicitadas.

Campina Grande era um lugar perfeito para pouso de viajantes e negociantes por estar situado bem no meio do caminho que ligava o sertão ao litoral (Estrada Real do Sertão), em terras adequadas à cultura de vários cereais indispensáveis à vida dos colonos e junto a uma lagoa no remanso do Riacho das Piabas, que bem mais tarde viria a ser o Açude Velho.

A evidência de que havia uma lagoa na povoação indígena de Campina Grande pode ser encontrada numa sesmaria de 1781 onde menciona: “... até toparem com a lagôa das terras que foram dos índios da Missão da Campina Grande...” (TAVARES, 1982 p. 394) e na obra de Aires de Casal, editado em 1817, que ao tratar de Campina Grande, diz: “seus habitantes bebem duma lagoa contígua, a qual, faltando água nos anos de grande seca, os obriga a ir buscá-la ali a duas léguas” (CASAL, 1976 p. 276). Como sabemos, o Açude Velho só começou a ser “construído” em 1829, custando 1:000$000 (um conto de réis) aos cofres provinciais (PINTO, 1977 p. 110) sendo, portanto, nada mais do que paredes de retenção erguidas para aumentar a capacidade hídrica de uma lagoa, ou alagado, já existente no lugar.

Deixando os Ariú acomodados junto aos Bultrins, Teodósio seguiu para a Capital e de lá retornou no dia 1 de janeiro de 1698 trazendo mantimentos, munição e uma tropa de índios esoldados, para ajudar na guerra do sertão de Piranhas. Para a conversão dos gentios deixados na Campina Grande o sertanista trouxe um religioso do convento de Santo Antônio (franciscano) e, com a chegada do missionário, a aldeia do lugar Campina Grande foi convertida em Missão, cujos catecúmenos gentios passaram a ser chamados genericamente de Cavalcantes.

Sobre a Missão de Campina Grande, particularmente, entendemos que o riacho do Prado, ou das Piabas, com sua mata ciliar ainda preservada, fosse naqueles tempos um arroio perene que, mesmo nos períodos de verão, canalizava águas de exíguas nascentes. Neste caso, nada mais coerente do que instalar a missão na colina que levemente se ergue na encosta deste riacho (alto da Rua Vila Nova da Rainha) com o desenvolvimento da povoação, devido ser um entroncamento de estradas e um ponto de parada para o gado beber das águas da lagoa contígua, o sítio das Barrocas, por trás da igreja e próximo a feira de gado que se instalou nas margens desta lagoa (atual Açude Velho), que foi adquirindo aos poucos moradias de comerciantes de gado, charque e farinha, dando ares de Vila ao Povoado.

Buscar as origens de Campina Grande é uma tarefa basicamente inoperante, porque, além da destruição de muitos documentos cartoriais durante o movimento do Quebra-Quilos, em princípios dos anos quarenta do século XX o então prefeito Vergniaud Borborema Wanderley determinou a incineração dos documentos contidos no Arquivo Público da Cidade.

Algumas décadas depois, Newton Vieira Rique prefeito à época, em inícios dos anos sessenta, determinou nova incineração. O pouco que restou do Arquivo Público da Cidade ficou por anos amontoado num galpão público, à margem do Açude Velho, prédio em que funcionou o Departamento de Transportes, Oficina e Garagem da Prefeitura Municipal, o D.T.O. (recentemente alienado do patrimônio público municipal), expostos à umidade, goteiras, ratos e traças.

Na obra “História Eclesiástica de Campina Grande” o padre Boulanger Uchôa anuncia Teodósio de Oliveira Ledo como o fundador de Campina Grande, tido por um símbolo da bravura sertaneja e subjugador do índio. Quanto ao fato de Uchôa valorizar as ações de Teodósio Oliveira Ledo, isto é de se estranhar, sobretudo partindo de um padre. Pois sabemos que a maioria dos missionários condenava veemente às arbitrariedades cometidas pelos sertanistas e colonos contra os nativos. Até o próprio Rei de Portugal já havia manifestado repúdio às atrocidades cometidas por Teodósio contra os tapuias dos sertões.

Deste modo, não é judicioso enaltecer os feitos do famoso sertanista Teodósio de Oliveira Ledo nem tampouco determiná-lo como o fundador de Campina Grande. A menos que consideremos desprezível, silvícolas anônimos terem fundado e dinamizado o lugar que depois se tornaria uma das cidades mais importantes do Nordeste brasileiro.

“Desprezível ou não, o fato é que os Cariri já tinham suas aldeias na  campina antes de Teodósio chegar trazendo seus Ariú e, portanto, não faz nenhum sentido o memorial dedicado a este sertanista erguido na praça Clementino Procópio, no centro da cidade de Campina Grande.  Exceto que queiramos homenagear indiretamente o genocídio de nossos naturais.”

O colaborador Jônatas Rodrigues nos presenteia com mais uma criação através do Google Sketchup, trata-se do primeira prédio da Empresa Luz e Força Campinense. 

Inaugurada em setembro de 1920, o prédio desta antiga termo-elétrica localizava-se onde hoje está a Praça Clementino Procópio, precisamente defronte ao antigo Posto Futurama (também demolido). 

A propulsão fazia-se com motor à combustão interna, da marca DEUTZ, de 100 HP de potência, à gás de lenha, ou mesmo gasogênio (mistura combustível de gases, produzida a partir de processos de gaseificação, ou seja de combustão incompleta de combustíveis sólidos. Utiliza-se, por exemplo, madeira, carvão ou outros combustíveis, geralmente ricos em carbono, usando oxigênio insuficiente para a queima completa e em alguns casos, vapor de água). 

O volante do motor pesava impressionantes 12 toneladas, gerando energia elétrica com muito barulho, fumaça e dejetos de lascas de alcatrão e piche, semelhantes à borra-asfáltica, isto tudo em pleno centro de Campina Grande. 

O prédio original seguia a linha simples de construções ecléticas com poucos adventos ornativos e sua fachada. Tinha no seu frontispício a iniciais da referida empresa (ELFC), que pertencia no início à firma de J.Brito & Cia, passando posteriormente à municipalidade. 

Nos anos trinta a Empresa foi ampliada descaracterizando os antigos prédios, que eram convertidos em usina, depósito de carvão e madeira e escritório da empresa (seguindo esta ordem de acordo com a foto). Foram transformadas em quatro grandes galpões que engloba usina, depósito de materiais e escritório.

Nos anos quarenta, estes galpões foram demolidos para a reforma urbana planejada pelo então Prefeito Vergniaud Wanderley. A unidade termo-elétrica foi transferida para um novo e moderno prédio localizado nas imediações do Açude Velho. Desta forma foi possível prolongar a Praça Clementino Procópio e promover o embelezamento da área.       



Campina Grande, atualmente está sendo bastante documentada pelos jovens diretores do cinema campinense. A rica história de nossa cidade nunca foi tão visitada, a exemplo da tragédia ocorrida no bairro de José Pinheiro em 1974, quando um botijão que enchia balões de gás explodiu, bem como a história do Trem em Campina Grande, o descaso com o patrimônio histórico e tantos outros “docs.”, que vez ou outra se tem notícia.

Porém, não escutamos nada ainda, em relação à vida e morte de Félix Araújo, que sem dúvida, merece um documentário. Fica ai a dica aos cineastas paraibanos, para aproveitarem que alguns importantes personagens daquela família ainda estão vivos, com saúde e aptos a registrarem para a posteridade seus conhecimentos sobre tão nobre político e personagem da história campinense.

Sem dúvida nenhuma, a morte de Félix Araújo está entre os três maiores acontecimentos da história de Campina Grande. Não iremos ter a audácia de querer citar os outros dois, fica por conta dos historiadores, mas se elencarem os três maiores acontecimentos, pelo menos a morte de Félix será uma unanimidade.

O “Jornal de Campina”, que tinha como diretor William Tejo, comprou a briga com o então prefeito de Campina, Plínio Lemos, que segundo este jornal foi o mandante do crime ocorrido no mês de julho de 1953. Abaixo, disponibilizamos a primeira página do Jornal de Campina, um dia após o tiro. Cliquem para ampliar:


Félix Araújo passou 15 dias entre a vida e a morte, quando finalmente veio a óbito. O Jornal de Campina novamente noticiou (cliquem para ampliar):


Nos dias que se seguiram, o Jornal de Campina fez férrea campanha contra Plínio Lemos. O assassino de Félix, João Madeira, acabou assassinado na prisão.

Em 2011, no programa da Rádio Cariri “Mesa de Bar”, o colunista social Celino Neto, que realmente é neto de Félix Araújo, fez a revelação que a casa de Maria de Félix, viúva do tribuno, foi dada pelo povo de Campina Grande para que ela morasse com seus filhos, em virtude da comoção ocorrida na época. Celino revelou também, que até hoje consta no boleto de IPTU a denominação “Viúva de Félix”.

Para saber mais sobre a vida de Félix Araújo, cliquem AQUI e AQUI.
(Por Rau Ferreira)

Frei Caneca (1779-1825) em seu “Itinerário do Ceará” descreve com maestria os dias que se seguiram à sua prisão, até bem pouco antes da sua execução. Em seu diário, narra a passagem por Campina e a impressão que ficou daquele 12 de dezembro de 1824. 

Eram onze ao todo os que contornaram a serra da Borborema. A tropa mais parecia uma turba de retirantes. Rotos, descalços e maltrapilhos os presos surgiram na rua do Seridó para o espanto de muitos. Chegaram a rua da Matriz ao cair da tarde onde o cadafalso do prédio da Câmara Municipal os esperava. Terminava assim parte de sua caminhada iniciada no Sertão do Ceará -, ocasião em que foram rendidos pelas forças do Império -, depois de atravessarem a Vila de Souza, passando pela de Pombal, freguesia de Patos e Riacho do Padre. Ainda sentiam as agruras da fome e da sede que lhes afligia quando adentraram ao imponente edifício que demorou dois anos para ser construído.

Nesta campa, havia planos para a sua fuga durante o pernoite. Homens e cavalos estavam dispostos a arrebatar das mãos da milícia o religioso. Mas o frade recusou. O revolucionário estava firme em sua convicção, preferindo submeter-se ao julgamento no Recife. 

Recolhidos na antiga cadeia e telégrafo de Campina, para a sua surpresa, por volta das dez horas um cidadão de cor, conhecido apenas por Manuel Alexandre, adentrou ao enclaustro oferecendo algumas bolachas e um pouco de vinho aos heróis da Revolta de 17. 

O homem, tocado pelo estado de miséria que se encontravam os mártires, dispôs ainda de algumas peças de roupas dizendo que “não mais fazia por não lhe ajudar as suas posses, mas Deus era testemunha do seu sofrimento por ver naquela situação os verdadeiros filhos da pátria.” (RIBEIRO: 1979). E o disse vertendo lágrimas!

Esta foi a primeira demonstração de carinho recebida pelo frade e seus companheiros em terra campinense, em que a compaixão humana se fez mais presente.
Todavia, um fato desagradável mereceu anotação em seu opúsculo, que assinalamos por suas próprias palavras:

“Aqui em Campina Grande o nosso conductor, o major Pastorinha, portou-se comnosco malissimamente, pondo-nos sentinellas à porta da cadeia, em que nos metteu, e até dando ordem para não consentir subir lá gente, e separando-se do nosso rancho para ir jantar como lord em casa do commandante; e como mandasse-nos o jantar, foi por todos nós repudiado, porque ainda que presos não tínhamos perdido os sentimentos de homens de bem, para nos sujeitar-nos a soffrer indignidades e vilezas. Passamos, pois, sem jantar, tomando apenas uma pequena refeição de bolachas, queijo e vinho, que alguns companheiros mandaram comprar; e com isto nos contentamos.” (CANECA: 1875, p. 133).

Com efeito, Joaquim do Amor Divino Caneca aceitava padecer o sofrimento físico, mas a dor moral pesava-lhe o âmago e, neste ponto era intolerável. 

Recusada a janta nada mais havia como alimento, exceto algumas bolachas, um pouco de vinho e queijo. 
No dia seguinte a turba prosseguiu viagem ao Recife, deixando a cidade Rainha na retina do prisioneiro ilustre a lembrança de um ato de compaixão por parte de um desconhecido, mas também de bravura e de patriotismo sentimentos que encorajava o revolucionário e pelos quais este chegara até aquela Vila. Contudo, não sem antes ainda provar um pouco mais da hospitalidade campinense, uma vez que prosseguindo o seu Itinerário ainda pernoitaram em uma das fazendas de Bento José Alves Vianna – o Bento Camporra:

“Pelas três horas e meia da tarde sahimos de Campina Grande, para ir pernoitar a três leguas de distância no Caboclo de cima, fazenda de Bento Camporra, onde fomos hospedados pelo filho do dito bento; os quaes nos mandaram fazer uma boa ceia, e nol-a administraram elles mesmos com a maior urbanidade possivel” (CANECA: 1875, p. 133/134).

Na capital pernambucana, o religioso fora submetido a julgamento pela Comissão Militar e condenado à morte por enforcamento, embora não houve carrasco que demonstrasse coragem de proceder a tal ordem. 
Professor de retórica, geometria e filosofia, conhecido pelos seus ideais políticos (não obstante as obras sociais que empreendeu durante a sua vida religiosa), o frade impunha certo respeito a seus opositores e temor reverencial ao povo nordestino. 

Com isto, a solução foi executar a sentença de morte por fuzilamento, onde os guardas perfilados não sabiam qual deles disporia o armamento desmuniciado, livrando-os assim do peso na consciência àquele que no dia 13 de janeiro de 1825, no Forte das Cinco Pontas, tirou a vida de Frei Caneca.

O edifício onde ficou aprisionado em Campina atualmente é sede do museu histórico da cidade. Ali um alçapão e uma seta indicam o local onde por algumas horas esteve retido o grande patriota. Há também uma ilustração de Frei Caneca posta na parede circundado pela milícia imperial.

Referência:
- ALMEIDA, Elpídio de. História de Campina Grande. Edic̜ões da Livraria Pedrosa: 1962.
- RIBEIRO, Hortênsio de Souza. Vultos e fatos. Secretaria Estadual de Cultura. João Pessoa/PB: 1979. 
- CANECA, Joaquim do Amor Divino. Obras políticas e litterarias - Compilado por Antonio Joaquim de Mello. Reimpressão. Typ. Mercantil: 1875.


por Rau Ferreira

O poder oligárquico, muitas vezes, se sobrepõe ao próprio Estado. A política de interesses e “mandonismo” faz dos seus usos e costumes a lei local. Esse regime, na Parahyba, começou a ser combatido a partir dos fatos conhecidos como “Rasga-vale”, ocorrido em Campina Grande no Século XIX.

O comércio de Campina sempre foi inovador, inventivo e audacioso, tanto que, em 1895, em razão da escassez de moedas de pequeno valor em circulação no município, pôs em prática o sistema de “vales”. Este consistia num papel impresso que trazia a assinatura do comerciante e que era apresentado na hora do troco ou no momento da venda, caso o cliente retornasse para adquirir uma outra mercadoria qualquer. A medida não era legal, mas vinha sendo praticada em toda parte para facilitar as transações comerciais, principalmente na feira livre.

Nessa época, o Ministro da Justiça recomendou aos dirigentes dos Estados que procurasse conter a violação. A parahyba foi comunicada através de ofício em 1º de julho daquele ano, tendo o seu presidente advertido ao chefe de polícia, que por sua vez comunicou o fato aos delegados do interior. Esse efeito cascata chegou em Campina num sábado dia 03 de agosto, e foi levado a efeito pelo Promotor Público que, de forma inesperada, apresentou-se na feira com dois praças de polícia, e tentou apoderar-se de vales emitidos das mãos dos matutos e comerciantes. 

À causa do motim se quis emprestar razões meramente políticas, contudo as autoridades conheciam a sua origem, que nada mais era do que aplicar os ditames legais. Christiano Lauritzem ao tomar conhecimento da derrocada foi em defesa dos negociantes e protestou com veemência. O próprio dinamarquês afirma em carta que, “Após o primeiro momento de surpresa, os populares, notando que os soldados embolsavam os vales apreendidos, em vez de inutilizá-los, entenderam resistir a tão vergonhoso, a tão escandaloso abuso de autoridade e força” (ALMEIDA: 1979).

Como resultado disso houve uma discussão acirrada, onde os ânimos se exaltaram. Travou-se então uma luta e desse entrevero um policial saiu gravemente ferido, falecendo horas depois no quartel.

Um pedido de habeas corpus foi manejado junto ao juiz seccional da Parahyba, em defesa daqueles que se opuseram à entrega dos vales, o qual foi concedido em razão da incompetência do juízo estadual de conhecer acerca da matéria afeta aos delitos de emissão de vale e seus conexos. 

Seguiu-se uma disputa jurídica, pois o chefe de polícia descumpriu a ordem e quis prender os envolvidos. Ao final, alguns foram exonerados de seus cargos. 

Acrescenta Hortênsio Ribeiro – em sua obra “Vultos e Fatos” – que a polícia de Campina, pelos seus agentes, fez processar e submeter a julgamento, injustamente, como supostos homicidas do soldado ferido na feira central: Christiano Lauritzem, Idelfonso Souto Maior, Alfredo Deodato de Andrade Espínola, Lindolfo de Albuquerque Montenegro, Joaquim Henrique de Araújo, Antônio Azevedo de Farias, Martiliano Marques e Mandú Formiga. 

Os acusados foram absolvidos por unanimidade. 

Referência:
- ALMIDA, Elpídio de. História de Campina Grande. Ed. Universitária. UFPB: 1979.
- PARAHYBA JUDICIÁRIA, Revista. Vol. II, N. 314. Revista de Jurisprudência. TRF 5ª Região. João Pessoa/PB: 1998. 
- RIBEIRO, Hortênsio de Souza. Vultos e fatos. Secretaria Estadual de Cultura. João Pessoa/PB: 1979.
- JÓFFILY, José. Entre a Monarquia e a República: idéias e lutas de Irenêo Joffily. Livraria Kosmos Editora: 1982.


Recorte do Jornal Voz Operário, do ano de 1956, publicado no Rio de Janeiro, que retratou um comício organizado pelas massas operárias àquele ano, em que várias lideranças locais discursaram em defesa dos direitos dos trabalhadores locais.

Entre as personalidades que fizeram uso da palavra no evento, destacam-se Raimundo Asfora, Oliveiros Oliveira e William Tejo.

Recorte enviado pelo Colaborador Rau Ferreira.
Recebemos e ora postamos a íntegra da matéria "Campina Grande e sua função como Capital Regional", publicada na Revista Brasileira de Geografia, no mês de Outubro de 1963, de autoria da Geógrafa Maria Francisca Thereza C. Cardoso, onde ela descreve a condição que nossa cidade detinha àquela época, quando realmente representava um pólo de progresso da Região Nordeste.

O trabalho apresentado fora resultado de uma pesquisa efetuada na cidade de Campina Grande, em julho de 1962, como parte de um plano de estudos urbanos programados pela Secção Regional Nordeste da Divisão de Geografia.


Tanto para quem pesquisa neste espaço virtual, como para os que  nos visitam como fonte de abastecimento de informações Históricas, este é um dos mais valiosos registros científicos sobre Campina Grande, no princípio na Década de 60.

Ao Colaborador Saulo Pereira, nossos agradecimentos pela envio do material supra postado.

Aspecto Urbano de Campina Grande, 1962 - RBG



Trata-se de uma apelação crime originária da Comarca de Campina Grande que tem como acusado o italiano Antonio Francisco Falcão, ao fundamento de ter o réu, no ano de 1873, furtado alguns cavalos dos campos e pastos da Fazenda Arruda. Aduz a peça acusatória que o denunciado adquiria os animais a baixo custo e, por intermédio de João Pereira os revendia para outrem. O denunciado foi incurso nas penas do art. 257 do Código Comercial c/c a Lei N° 1.090, de 1º de setembro de 1860.

Em seu interrogatório, o increpado negou as acusações e atribuiu o fato ao co-réu João Pereira que “era reputado ladrão de cavalos”.

Na instrução processual, ficou comprovado que o Sr. Falcão recebia os muares em sua residência, no Sítio Camucá, pagando menos do que valia, e os entregava ao suposto comparsa para revenda ou troca. Todavia, não restou evidenciado que este efetuasse os furtos ou mesmo fosse o mandante.
Ao final, foi este condenado – ao menos este foi o nosso entendimento – por receptação, fato semelhante ao capitulado no art. 180 do Código Penal atual, sendo-lhe imposto a seguinte pena:

“Condemno o mesmo Réo Antonio Francisco Falcão na pena de três annos, um mez e 10 dias de prisão simples, e na multa de 13 e 1/3 % do valor dos cavallos furtados, gráo maximo de art. 257 combinado com o Art. 6º, § 1° e 2° do Código Criminal, tendo em vista o disposto nos Arts. 35 e 49 do mesmo Código, pena que cumprirá na cadeia da Capital desta Província, por não offerecer já desta Cidade os precisos commodos, (**) pague o Réo as custas que também o condemno” (Cidade de Campina Grande, 30 de Outubro de 1876. – Antonio da Trindade Antunes Meira Henriques).

Antonio da Trindade Antunes de Meira Henriques era Juiz da Comarca de Campina e Chefe do Partido Conservador nesta Cidade.
A apelação do acusado foi procedida pelo Dr. Francisco de Assis Pereira Rocha, que apresentou as razões do recurso junto ao Tribunal de Relação de Pernambuco. 
Decidida a causa em 2ª instância, entendeu o tribunal de apelação reformar a pena, proferindo o seguinte Acórdão:

“ACORDÃO. Acordão em Relação, etc. Que julgam procedente  a appelação interposta pelo Réo Antonio Francisco Falcão Appelante, e Apellada a Justiça, para reformar a pena imposta ao mesmo Réo, e impor a de 1 anno, 7 mezes e 13 dias e 8 horas de prisão simples, grau médio do Art. 257 do Cod. Comm., combinado com o Art. 6º, §§ 1° e 2° e Art. 49 do mesmo e multa de 8 1/3 por % do valor furtado, e mais nas custas. Recife, 27 de Abril de 1877. – L. Santiago – Reis e Silva – Almeida e Albuquerque – Doria. – Rigueira Costa. Presidio este julgamento o Sr. Desembargador Acciolli – L. Santiago”.

Inconformado, recorreu o réu ao Supremo Tribunal de Justiça, alegando, em suas razões, a manifesta nulidade da acusação, uma vez que este fato não foi devidamente circunstanciado, enumerando o número de animais, o tempo certo e o valor do dano. Idêntico erro foi apontado no Libelo Acusatório pelo apelante. Em sede de preliminar, aduziu a falta de intimação para a formação da culpa e, no mérito, a contrariedade ao disposto no art. 36 do Código Criminal, pois “dos autos não consta nem ao menos a presumpção vehemente da criminalidade do Recorrente”. Insurge-se contra as testemunhas, inclusive uma de nome Juvenal que foi processado e condenado por furto de cavalos. E finalmente, assevera que não é crime comprar cavalos baratos e revendê-los ao melhor preço!

O STJ denegou o recurso de revista, contra o voto do relator Conselheiro Barbosa. A decisão foi publicada na Gazeta Jurídica, revista mensal de doutrina, jurisprudência e legislação, publicada pela Typografia Perseverança, na rua do Hospício 85, Rio de Janeiro. O seu redator, Dr. Carlos Frederico Marques Perdigão, era membro efetivo do Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros. A edição ficava por conta Antonio Coêlho Maria da Rocha.



Por Rau Ferreira



Vital Maria Gonçalves de Oliveira – Dom Vital – nasceu em Pernambuco em 1844. Eleito bispo de Olinda em 1872, o Capuchinho quando chegou ao Recife já encontrou certa instabilidade, pois o jornal A VERDADE publicara algumas “ofensas” ao clero. Diante dessa situação, ordenou uma exclusão branca, que consistia na recusa de celebrar missas para os maçons falecidos. Houve reação e resposta do Sr. Bispo, que publicou um artigo defendendo o dogma cristão. A disputa acirrada culminou com a publicação da “Carta Pastoral contra as ciladas da maçonaria”, proíbe a leitura daquele periódico e excomunga os franco maçons. A sua prisão pelo governo imperial provocou discórdias na província. Alguns padres levantaram a sua bandeira e a coroa foi obrigada a enfrentar aquela questão religiosa.

Em Campina, o Padre Calixto foi o mais exaltado. Em carta dirigida ao seu heróico prelado, datada de 18 de janeiro de 1874, profere o seguinte testemunho de adesão:

“Exm. e Revm. Sr. – Tive a infasta notícia da violenta, arbitrária e inesperada prisão de V. Ex. Revma., e cumprindo um dever de obediência, adhesão e lealdade, vou pelo presente dirigir um voto de profundo pesar à V. Ex. Revma. por tão sacrílego acto do governo deste paiz, que considerando só brasileiros e súbditos os maçons, persegue com inaudita crueldade a quase totalidade de seus súbditos, cart. App. Rom., esquecendo desta sorte o rigoroso dever de fazer manter a religião do Estado em prol de uma seita perversa e desenvolvendo por todos os meios uma terrível perseguição contra os ministros da Religião de Jesus Cristo.
Sim, Exm. e Revm. Sr., estamos certos e convencidos de que a nossa perseguição continuará com maior afan, porém devem estar certos os perseguidores de que não recuaremos. Marchamos intrépidos, guiados por V. Ex. Revma., único a quem obedecemos, e a quem reconhecemos como legítimo Prelado desta diocese, em frente dos catholicos, e daremos ao governo e ao mundo inteiro uma prova do que sabemos soffrer e morrer pela religião, e sustentar as prerrogativas e direitos de  V. Ex. Revma., e todo o sacerdote que assim não proceder é indigno do habito que veste e da posição que ocupa na egreja.
O que nos pode fazer o governo?
Tirar-nos a vida, sepultar-nos nos cárceres?
Faça-o, sacie a sua sede de ódio e vingança, porém, elle (governo) fique certo que teremos em toda parte a Constancia do martyr, a fé do confessor e a liberdade do verdadeiro ministro da religião para exprobar-lhe  a sua dureza e impenitência. Sinto dentro da minha alma, Exm. e Revm. Sr., não poder pessoalmente apresentar a V. Ex. Revma. este meu voto de pezar, pela distancia que nos separa, e peço humildemente a V. Ex. Revma. que o aceite como uma prova do meu amor e firmeza à Venerada pessoa de V. Ex. Revma.
Nesta freguezia continua com intensidade a lucta e não pretendo ceder, emquanto aqui estiver com vida. Pretende-se a minha prisão e processo por ter desobedecido à celebre decisão do governo n recurso, com o que me não imporio, pois estou firme, e só reconheço e obedeço (em matéria religiosa) às decisões da Egreja Catholica, Apostolica, Romana, de quem é legitimo e fiel sustentáculo V. Ex. Revma. 
Deus e Maria Santíssima dêm saúde perfeita e animo a V. Ex. Revma. 
Cidade de Campina Grande, 18 de janeiro de 1874. Ilm. Exm. e Revm. Sr. D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, muito digno Bispo desta diocese. – O Vigário, Callixto Corréa Nobrega”. 

Com visto, o Padre Calixto era bem radical nas suas ideias. Não obstante por em risco a própria vida, seguia na firme decisão de apoiar em tudo o Sr. Bispo desta Diocese. Com efeito, Campina era paróquia do prelado de Pernambuco de onde seguiam as ordens episcopais. Confessa ainda o vigário campinense, que nesta freguesia “continua a intensa lucta”, notadamente por sua firme oposição contra os maçons. Tal qual Frei Vital, o Padre Calixto também excomungou os maçons, expulsando-os da Igreja de N. S. da Conceição. Nessa luta trouxe para si o apoio do Padre Ibiapina que, arrependido depois volta a sua missão de caridade.

Como resultado desta insurreição, o Vigário Calixto foi preso e conduzido à Parahyba (atual João Pessoa) para ser julgado pelo Tribunal do Júri. O Padre Ibiapina, coadjutor do vigário campinense, sequer chega a ser denunciado. Seu nome já era mito tendo o governo recuado prudentemente. Defendeu-o Irineu Jóffily. 
Padre Calixto foi absolvido e permaneceu na direção de sua paróquia até a sua morte. Em que pese às teorias de Horácio de Almeida acerca da participação de Joffily, nada ficou comprovado.


Referência:
- ALMEIDA, Horácio de. D. Vital e a questão religiosa no Brasil. R.IHGB. Vol. 323. Abril/Junho de 1979. Departamento de Imprensa Nacional. Brasília: 1980.
- GUIMARÃES, Luiz Hugo. A Paraíba nos 500 Anos do Brasil. Anais do Ciclo de Debates do IHGP. GRÁFICA - SEC/DPG. João Pessoa/PB: 2000.
- O APÓSTOLO, Jornal. Ano IX, N° 30. Edição de 13 de março. Rio de Janeiro/RJ: 1874.
- OLIVOLA, Frei Felix (OFM). D. Vital: Um Grande Brasileiro. Edição da Imprensa Universitária. Recife/PE: 1967.

por Rau Ferreira


Escrevemos em outra oportunidade sobre a imprensa campinense e os principais folhetins que se publicaram nesta cidade de 1888 a 1983. Hoje nos detemos em três dos principais veículos de comunicação escrita que circularam em Campina Grande nos idos de 1889 a 1895, são eles: A Gazetinha, A Gazeta dos Artistas e O Echo.

A GAZETINHA surgiu em 1889, era impresso e redigido pelo pernambucano Eleutério Edáclio Escobar que também foi responsável pela Gazeta dos Artistas (1894). Era dirigida por Tito E. Silva e publicava-se aos domingos. A primeira edição circulou em 1º de setembro de 1889. Denominando-se “Periódico Recretivo”, custava 500 rs a assinatura mensal e 200 rs o número avulso, cobrando-se 80 rs por linha divulgada.

A redação e tipografia funcionava na Praça Municipal Nº 24, ou seja, no mesmo parque tipográfico da Gazeta do Sertão (Joffily/Retumba). Possuía vários agentes, que distribuíam o jornalzinho, em Campina: Joaquim Azevedo de Farias, Antonio Dias de Araújo, Antonio Joaquim Candeas e Candido Fabrício Filho; em Banabuyé (atual Esperança): Joviniano Sobreira; em Areia o Sr. Antonio M. de Areia; e na povoação de Pocinhos Joaquim Francisco de Araújo Pedrosa.

Dividia-se nas seguintes partes: Colaboração, destinada a publicação de participantes; Transcrições, publicações científicas e curiosidades; Parte Literária, com poemas e contos de autores nacionais; Parte Recreativa, poesias e anedotas; Seção Livre, cultura e charadas; e finalmente, a Gazetilha, com a crônica social.

O professor Joviniano Sobreira, progenitor do patrono da PMPB Coronel Elysio Sobreira, além de agente autorizado da Gazetinha participava enviando logogrifos. Esta espécie de enigma é composta por letras disposta em uma palavra ou frase em ordem aleatória (conceito), e uma palavra-chave que indica o caminho que se pretende desvendar, como a que se publicou neste jornal em 29 de setembro de 1889:



“Varão illustre 4, 5, 7, 8, 5

Patria, morada; 3, 2, 3, 4, 8

Premio e castigo, 1, 6, 3, 8

Mulher demandada, 7; 5



Conceito



Meu santo; eu vos peço,

Que não vos aparteis de mim;

Pois, sem vós neste mundo,

Nada posso ser, enfim.



Banabuyé, 25 de setembro de 1889

Joviniano Sobreira”.



Preservamos a grafia original da época já que se alteramos alguma das letras a charada ficará sem resposta, caso o leitor queira-o decifrar.

José Pereira Brandão, que também era professor de instrução pública e possuía uma venda de molhados, igualmente publicava as suas charadas na Gazetinha e também na Gazeta do Sertão.

A edição de número cinco trazia os seguintes anúncios:

Photographia Alemã – de B. Max Bourgard. De passagem por esta cidade, o retratista anunciava que iria demorar-se nesta cidade de 15 a 20 dias e oferecia os seus trabalhos, garantido um serviço de qualidade. Atendia na rua Conde D’eu, Nº. 04.

Ourives – Antonio Joaquim Candeas, com fabricação e concerto de obras em ouro e prata, garantindo seriedade e modicidade em seus presços. Funcionava na Praça da Independência, Nº. 20.

A GAZETA DOS ARTISTAS publicava-se aos domingos, com colaboração franca e anúncios por ajuste. Destinada aos artistas (antigos operários e artesões), sua assinatura anual custava 1$000, com pagamento adiantado. Sua primeira edição foi a de 1º de Julho de 1894, e estava assim dividida: Editorial, Revista, Passatempo, Literatura e Folhetim.

A edição de número dois trazia um texto de Lino Gomes da Silva, notícias sobre a Sociedade Artística Beneficente de Campina Grande, e sua aula noturna que iniciaria com a participação de Eleutério Edáclio Escobar, além do restabelecimento da saúde de Jesuíno Correia. Na parte literária, um conto de Pedro Emílio (Clarice) e poesia de L. Silva (Chronos).

Financiavam aquela publicação JOÃO TITO & IRMÃO, firma de secos e molhados sediada na Praça da Independência, Nº 34; ARISTIDES COTÓ, na Rua da Uraguayanna, com a venda de loterias nacionais cujos prêmios alcançavam a cifra de 36:000$000; e a CASA SERTENEJA de Manoel Benício de Oliveira Carvalho, estabelecimento de molhados com sortimento variado, com venda e fabricação de cigarros e salão de cabeleireiro, na Praça da Independência, Nº. 39.

O ECHO circulava somente aos sábados e aparece em 1895, com direção de Aguiar Botto de Menezes, então Juiz de Direito Campinense, com a colaboração do advogado João Antônio Francisco de Sá. Sua primeira edição data de 15 de julho de 1895. Funcionava na rua Major Belmiro, com oficina tipográfica e custava 160 réis o número avulso. O jornal manifestava apoio a Christiano Lauritzen e tinha os seguintes anunciantes:

CASA BRAZILEIRA, de Cruz & Oliveira. Casa de fazendas (tecidos) com sortimento nacional e estrangeiro, funcionava na Rua da Uraguayanna, Nº. 53.

O VESÚVIO, de Jovino do Ó & Irmão. Casa de Fazendas, ferragens, miudezas, perfumarias, calçados, chapéus e etc. Funcionava na Praça da Independência, Nº. 13.

BASAR DO TRIUMPHO DE S. JOSÉ, de Lino Gomes da Silva. Casa de molhados, com venda de chapéus, miudezas, armas para caçadores, e materiais para funileiros, ferreiro, sapateiro, fogueteiro e outras químicas. Funcionava no Largo da Capela de S. José.

TOMAZ BEZERRA CAVALCANTE, anunciava a venda de brandões e velas, folhas de madeira imitando a cor natural da cera, como se usava na Europa, Rio e “ultimamente na Matriz de Campina Grande”, com estabelecimento na Praça da Independência na venda das Estampas.

SINDULPHO CABRAL DE ALBUQUERQUE, senhor de Engenho com a venda de alambique com 40 canadas por dia de aguardente, na Praça da Independência.

JOÃO LOPES DE ANDRADE, com estabelecimento de miudezas e molhados na povoação de Queimadas.

CAPITÃO JOÃO ANTONIO FRANCISCO DE SÁ, advogado com escritório na Praça Municipal de Campina, com atendimento nas Comarcas de Itabaiana, Areia, S. João e Patos.



FRANCISCO DIOGO ALVES VIANNA, advogado com escritório no pátio da Matriz e atuação em diversas causas.



Esses são os pioneiros do jornalismo escrito em Campina Grande, que ao lado da GAZETA DO SERTÃO de Irineu Jóffily e Francisco Retumba, fazem parte da história das comunicações da cidade Rainha da Borborema.



Rau Ferreira





Referências:

- ARAÚJO, Maria de Fátima. Paraíba, imprensa e vida: jornalismo impresso 1826 a 1986. 2ª. Edição. Editora e Jornal da Paraíba: 1986.

- IPANEMA, Marcello & Cibelle. A Comunicação em Campina Grande. R.IHGB, Vol. 326. Janeiro/Março. Rio de Janeiro: 1980.

- RIBEIRO, Hortênsio de Souza. A imprensa em Campina Grande. R.IHGP, Vol. 11. João Pessoa/PB: 1948.

Por Rau Ferreira

Encontrei nos arquivos da Biblioteca Nacional sediada no Rio de Janeiro algumas notas sobre aquilo que eles chamaram de “A questão religiosa” e que entre nós ficou mais conhecida como a sedição do Quebra-quilos.

Nesse contexto, escreve o secretário da sociedade “Segredo e Lealdade”, Sr. Justiniano Cavalcante de Albuquerque Bello uma carta dirigida a “Ganganelli”, pseudônimo do ilustre e benemérito cidadão Saldanha Marinho, que “na monarchia tem o título de conselheiro, mas que o paiz inteiro o chama familiarmente pelo nome porque elle é uma glória nacional”. Acrescenta o documento que as verdades notórias calaram o espírito da “Segredo e Lealdade”, razão pela qual publicava esta missiva com a manifestação da maçonaria campinense:


“Cidade de Campina Grande, 12 de outubro de 1873. – A questão religiosa que hoje tanto preoccupa os grandes homens do paiz, que por longos mezes tem servido de objecto à grandes e sérios estudos, que abafou a política nacional, que trouxe ao parlamento brazileiro em completo desaccordo e que finalmente, affectando desde o primeiro cidadão da nação, traz estremecido até o infeliz jornaleiro da ultima camada social, constituída dest’arte o ouropel do século, tem feito com que o gemido dos prelos tenha por toda parte echoado, e que também as sublimes inteligências do Império m qualquer parte onde existam, derrame torrentes de luzes em ordem a esclarecer as classes ignorantes, habilitando-as por este meio a que comprehendam o fim a que se propõem evitar, matando assim o impulso áulico por um lado e a sanha jesuítica, que por outro se revela desde o c’roinha até as botinas de seda, que ocupam quatro grandes partes do Brasil.

Assim, pois, a sociedade Segredo e Lealdade, instalada na cidade de Campina Grande sente profunda emoção, quando lê os escriptos de GANGANELLI e se possui dos mais súbitos gráo de prazer, quando vê este incansável lidador libralisar à humanidade seus conhecimentos fazendo desabrochar turbilhões de jubilo sobre nossas consicências, em ordem a prepararem para bem comprehender a mais nobre e elevada questão que já se agitou em nosso paiz, sendo esta grande à obra do nobre cidadão e immortal GANGANELLI.

É por demais grato a esta sociedade dirigir à GANGANELLI esta mensagem honrosa e pedir-lhe a graça de aceitar este nosso cumprimento como um tributo ao mérito.

Esta sociedade faz primícias ao Altíssimo para que a penna de um grande cidadão como GANGANELLI, não cesse de manifestar ao séculos os grandes conhecimentos históricos de envolta com as antigas lendas para servirem de prova à grande parte do clero brazileiro os abusos com que pretendem firmar os erros do seu absurdo ultramontanismo.

E que por tempos imorredouros tenha esta sociedade o prazer de ler e apreciar seus escriptos e a ventura de por longos annos aplaudir seu nome. – O secretário, Justiniano Cavalcante de Albuquerque Bello.

A Loja Maçônica Segredo e Lealdade foi fundada no ano de 1873. Com a prisão de D. Vital – Bispo de Pernambuco – em 1874, o vigário de Campina Grande, Padre Calixto Correia da Nóbrega, com o auxílio do Padre Ibiapina, instigou o povo campinense contra os maçons, expulsando-os da igreja e destruindo o seu templo.

O missionário Ibiapina era eminentemente pacifista e ao perceber as duras intenções do vigário campinense, arrepende-se e volta a sua missão apostolar e a construir suas casas de caridade.

Quanto ao vigário Calixto, foi preso e conduzido à Parahyba (atual João Pessoa) para ser julgado pelo Tribunal do Júri. Defendeu-o Irineu Jóffily. Foi absolvido e permaneceu na direção de sua paróquia até a sua morte.


Referência:

- GUIMARÃES, Luiz Hugo. A Paraíba nos 500 Anos do Brasil. Anais do Ciclo de Debates do IHGP. GRÁFICA - SEC/DPG. João Pessoa/PB: 2000.

- IHGP, Revista do. Ano C, N° 42. João Pessoa/PB: 2012.

- O SANTO OFÍCIO, Jornal. Ano III, N. 50, Edição de 15 de dezembro. Pará: 1873.


Pç Epitácio Pessoa, Rua Maciel Pinheiro

Campina Grande – o grande empório dos sertões – despontava no cenário nacional no ano de 1937, como uma das maiores exportadoras de algodão. No ano anterior (1936) alcançara a marca de 10 milhões de quilos ou 55mil fardos! Esse dinamismo comercial refletia-se em outros setores, transformando a cidade num recanto aprazível e progressista.

Registrava já naquela época uma sala de cinema e um clube social - denominado de “Campinense” – que era freqüentado pela elite social. 

No aspecto do ensino, as aulas públicas eram freqüentadas por cerca de oito a nove mil crianças, que estavam distribuídas nos seguintes grupos escolares: Clementino Procópio, Monsenhor Sales e Afonso Pena.

A gestão municipal estava a cargo do Sr. Vergniaud Wanderley (1905-1986), que havia assumido a prefeitura em dezembro de 1935 e permaneceria até 1938, retornando para o quadriênio 1940/45. São louváveis as suas iniciativas para construção de edifícios modernos, como o Matadouro e a Praça Antônio Pessoa, além de abertura de novas avenidas e serviços de terraplanagem.

Naquele ano foi prodigalizado o notável empreendimento do abastecimento e linhas d’água de Campina, levado a efeito pelo interventor Argemiro de Figueiredo (1901-1982).

O Cassino Eldorado estava em pleno funcionamento e recebia artistas das mais variadas categorias. 

No esporte, o Treze F. C. ingressa na Liga Desportiva Campinense e no mesmo ano vence a Taça C. Mororó.

As notícias chegavam através do jornal A VOZ DA BORBOREMA.

Havia no município grandes lojas comerciais, como a “4.400” estabelecida na Maciel Pinheiro, e pequenas indústrias. E o setor calçadista gerava emprego e renda para as famílias campinenses. 

O desenvolvimento municipal pode ser visto nas fotos que ilustram esta publicação, denotando toda a pujança campinense da época.

Referência:
- O MALHO, Revista. Edição de 11 de março. Rio de Janeiro/RJ: 19237.
- PINHEIRO, A. C. Ferreira, Da era das cadeiras isoladas à era dos grupos escolares na Paraíba. Campinas/SP: 2002. 
- Site TREZEGALO, disponível em http://www.trezegalo.xpg.com.br/1937.html, acesso em 09/04/2013.
- Wikipédia, disponível em < http://pt.wikipedia.org>




por José Edmilson Rodrigues

Hoje: Rua Sgt. Hermes Pereira, bem no final, numa curva estreita com a Rua Silva Barbosa) – Bela Vista/Bodocongó/Universitário - Foto Google



A denominação “Volta de Zé Leal” se deve ao Sr. José Leal, proprietário de uma mercearia, (era a última casa da Av. Rio Branco) com um grande salão, onde vendia todo tipo de cereais e outras mercadorias (secos e molhados); inclusive, funcionava como bar, lá pelos idos de 1930. Segundo informações, ele era admirador e apologista da arte da cantoria. Sempre aos finais de semana juntava uma plateia para ouvir as pelejas dos cantadores e onde se passava a bandeja para se arrecadar seus cachês. Quem batizou o local de A Volta de Zé Leal foi o cantador Josué da Cruz. Na década de 1940, Zé Leal (José Batista Leal) foi morar em Timbaúba dos Mocós, Pernambuco. A Volta de Zé Leal tornou-se ponto de referência para as pessoas e marinetes na época.

A Volta de Zé Leal localiza-se nas mediações que beiram o final da Rua Arrojado Lisboa (a Rodagem; depois sgt. Hermes Pereira) e a que dá para a Rua Aprígio Veloso. Por sua vez, as Ruas Dom Pedro II, Idelfonso Aires e Rio Branco, descendo do Bairro da Bela Vista em direção ao Bairro de Bodocongó, todas desembocam para a Volta de Zé Leal. Lá, na Volta de Zé Leal, havia o caldo de mocotó de “Zé Carroceiro”, muito frequentado na época, o caldo de mocotó de seu Nere, a bodega de seu Lau, o sósia do garoto propaganda Gillete Azul, depois vendida ao Sr. Geraldo Rosa, e por sua vez vendeu também a Mané da Paciência, a bodega de seu Eloi Leal e repassada para seu filho Arquimedes Leal (Médio), a bodega, de Neco Rosa (Manoel Pereira), proprietário também de padaria e algumas casa na localização da Volta, o bar de Maria de Babú, a bodega de seu Arthur (tinha uma perna de pau), posteriormente adquirida por José Miguel (Zé de Beta) ainda existente no final da Rua Idelfonso Aires.

A fábrica de mosaicos de Waldemar e a Rodoviária Estrela do Norte, as oficinas de sapateiros de Antonio Bossinha, Zé Simão, e Neide de Antonio ‘Bossinha,’ o Sapateiro Esporte Clube, (desde 1962) e Cícero Miguel da Silva um dos seus fundadores, seu diretor, o Clube de Mães, o Milionário Esporte Clube do goleador Betinho, e o Humaitá Futebol Clube, (tendo como fundador, Geraldo Lisboa), os encontros dos artistas na casa de Duduta do Cavaquinho, aos sábados à noite e aos domingos pela manhã, frequentada por Zito Borborema, Genival Lacerda, Biliu de Campina, Abdoral, Valfrido, Miquirito do Pandeiro, Valdir com seu violão de doze cordas, entre outros artistas. O Xangô de Maria de Lourdes, uma transversal da Volta, na Rua Silva Barbosa.



E ainda, os barreiros de Chico Calixto, de Roldão Mangueira, e o açude de seu Belinho, onde íamos tomar banhos e aprendermos a nadar.

Zé Limeira, poeta do absurdo (por Orlando Tejo) em sua transgressão poético-surrealista, nos diz:

“[...] Pedro Álvares Cabral / Inventor do telefone / Começou a tocar trombone / Na volta de Zé Leal / Mas como tocava mal / Arranjou dois instrumento / Daí chegou um sargento / querendo enrabar os três / Que tem razão é o freguês / Diz o novo testamento [...] “

A Volta, tem um caminhar cultural, musical, desportista, pois lembrando a composição musical de Zito Borborema e José Pereira, em Minha Campina Grande: “Eu Vou deixar minha Campina Grande, Levo muita saudade no meu coração, levo saudade do banho de Bodocongó, do caldo de mocotó da Volta de Zé Leal [...]”

A primeira barbearia da Volta pertencia a seu Antonio Roque, pai do poeta Palmeira Guimarães, do jornalista Zildo e de Milton Aleijado, grande contador de piadas. Nego Isaias, proprietário do Chevrolet 53, pegador de frete, pai do jornalista Clóvis Lourenço de Isaias, que na primeira metade do decênio de 1970 fundou o bar “A Cocheira”, onde eram servidas batidas com nomes originais, tais como: Sangue Latino e Barreira do Inferno. O nome “A Cocheira” foi escolhido provavelmente pelo fato de o piso do bar ser recoberto com estrume de vaca.

Localizada na Rua Pedro II, nas imediações da Volta, funcionava a difusora “A Voz do Guarani de Zé de Holanda,” sob a locução de Xavier, filho de dona Rita, conhecida como “Pipa,” e Sinforosa, sua irmã cega. Ambas tomavam muita cachaça. Com vasta programação musical, rádio novela e postal sonoro, a Difusora cumpria o seu lado social de prestar serviço de utilidade pública, no caso de obituários, das pessoas carentes para arrecadar recursos para aquisições de ataúdes. Também na Volta de Zé Leal havia O Beco de Chico Rosa, pai de Paulo Gordo, feirante no Mercado Central.

E no espaço da Volta, a figura de “Angelita,” a iniciadora da “função social” com os adolescentes.

Tinha ainda, a figura dos flandeiros/flandileiros, como João Ventura, Raimundo, Abel, que faziam e consertavam panelas, bacias, candeeiros, bicas, entre outros artefatos de zinco, do lado da Rua Dom Pedro II.

O local do Posto Cristina, pertencente à empresa Cabral, terreno que pertencera ao Sr. Joaquim Bernardino, foi comprado por Romildo Paiva e que montou o referido posto.

Alí morava seu Antônio Calixto, fazendeiro e proprietário de cerca de dezenas casas e casebres, beirando a Volta, também, localizava-se a antiga Casa dos Arcos de seu (Belinho) Bento Figueiredo, ex-Prefeito de Campina Grande, no período de 12/09/1935 a 18/12/1935 e pela segunda vez depois do golpe de 1937, como interventor, de 04/01/1938 a 20/08/1940. As Caieiras de Neco Rosa, (fábricas de tijolos) e em sua administração a figura de Luiz Pezão, sua esposa Zefa, a filha Fubana e o filho Zé Buchudo seus assistentes.

Na época, havia (associado à figura de seu Belinho) a lenda do Papa-Figo, pois a meninada muitas vezes gazeava (faltava) as aulas, e outras vezes voltava do meio do caminho, pois tinha a figura do Papa-Figo para espantar. Dava um medo danado.

A Volta foi ambiente de figuras folclóricas como Gilberto “doido;”filho de Maria Coragem, corta-jaca dos romances de homens casados, Zequinha “doido,” que cunhava moeda da época com folha de zinco; Carlinhos da Volta, (Carlos Alberto da Silva), líder estudantil, o eterno estudante, e seu primo Zé Pereira, filho de Neco Rosa, cineasta, falecido em Brasília.

Cantadores que frequentavam a bodega de Zé Leal foram: Josué da Cruz, Manoel Raimundo de Barros, Manoel Serrador, Arthur Aires Cavalcanti, José Alves Sobrinho, quando tinha 17 anos, Canhotinho, Zé Gonçalves e Estrelinha, entre outros. Lá ainda mora, beirando a Volta, o poeta popular Manoel Soares com cerca de 90 anos.


Referências:
RODRIGUES, José Edmilson. GAUDÊNCIO, Edmundo de Oliveira. ALMEIDA FILHO, Silvestre. Memorial Urbano de Campina Grande. João Pessoa – PB, A União, 1996.
TEJO, Orlando. Zé Limeira – Poeta do Absurdo. Rio de Janeiro-RJ. Caliban, 11 edição. 2008.

 
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