O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural estará reunido, no próximo dia 27 de setembro, quando irá avaliar a inclusão de novos bens na lista de Patrimônio Cultural Brasileiro. Na pauta da 87ª reunião estão as propostas de tombamento da Ladeira da Misericórdia, no Rio de Janeiro (RJ), da coleção Nemirovsky, em São Paulo (SP), e o pedido de registro da Feira de Campina Grande, na Paraíba, como Patrimônio Cultural do Brasil. A reunião será no Edifício Sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília.
A primeira reunião do Conselho Consultivo este ano foi em abril, quando foi revalidado o registro da Arte Kusiwa – Pintura Corporal e Arte Gráfica Wajãpi como Patrimônio Cultural do Brasil. Na ocasião, os conselheiros e a presidente do Iphan, Kátia Bogea, celebraram os 80 anos de criação do Instituto, relembrando a própria trajetória do Conselho, idealizado por Mário de Andrade em 1936 quando elaborou o anteprojeto do Iphan. Também em 2017, no dia 22 de junho, o Conselho aprovou o tombamento do Conjunto Histórico do Arquipélago Fernando de Noronha (PE).
Fotos Google: Ruas Carlos Agra e Manoel Pereira de Araújo (Feira Central)
(por Uelba Alexandre do Nascimento)
Durante todos os anos 1920 o local onde se concentrava o maior número de prostitutas e casas de pensão em Campina Grande era a antiga rua 4 de Outubro, atual Major Juvino do Ó, mais conhecida popular e sugestivamente como “Rói Couro”. Era uma das ruas centrais da cidade que ficava relativamente próxima as ruas mais freqüentadas pelas elites, como a rua Grande por exemplo. Essa proximidade incomodava, especialmente porque as mulheres circulavam e se exibiam muito próximas as “famílias de bem” e repugnavam os letrados, fazendo com que eles carregassem nas tintas e pedissem insistentemente para as autoridades a transferência do meretrício daquele local para um mais afastado.
Como os pedidos eram muitos e a solicitação de tomadas de providência por parte dos prefeitos da cidade eram constantes, as prostitutas foram transferidas nos primeiros anos da década de 1930 para a região dos Currais, onde funcionava a feira de gado da cidade. Este local era uma área ainda marcadamente rural e pouco habitada, formada por pequenas casinhas e sítios cobertos de mato. O núcleo central desta área ficava a pouco mais de 100 metros da Vila Nova da Rainha, antiga rua das Barrocas(local em que se deu a origem do sítio que mais tarde se transformou em Campina Grande) e uns 300 metros da Igreja Matriz.
O local para onde se dirigiram as prostitutas e sua corte foi chamado de Mandchúria ou Bairro Chinês, numa provável associação com o episódio da invasão japonesa a região da Mandchúria na China por volta de 1931: “A transferência dos cabarés para os currais foi simbolicamente associada àquela invasão, talvez porque assim compreendessem os moradores que naquelas proximidades viviam, quando da chegada, ou “invasão”, da área pelas prostitutas e seus séqüitos. Chegaram àquele lugar, que até então concentrava boiadas e negociantes, raparigas mal-vestidas, marafonas, gigolôs, boêmios, cafetinas e cáftens, como invasores a ocupar e dividir o lugar com matagais, boiadas, cavalos, burros, merda e muito mau cheiro.”
Foram transferidas, segundo José Américo de Almeida, mais de 600 putas que “sifilizavam” os sertões da Paraíba.
Com as reformas ocorridas no centro da cidade a zona foi transferindo-se para as proximidades da feira central, entre as ruas Marcílio Dias, 12 de Outubro (atual Carlos Agra), Quebra Quilos e Manoel Pereira de Araújo (antiga 5 de Agosto), que comportava os melhores cabarés da cidade, ficando conhecida por “Rua Boa”. Segundo alguns memorialistas, a rua era “um esplendoroso mercado de luxúrias, que sobrevivia graças a um tipo de comércio confiscado pelas leis divinas, mas legalizado pela liberdade inconsciênte dos humanos.” Havia também a chamada rua da Pororoca, nas proximidades da Maternidade Elpídio de Almeida, que era conhecida e nomeada pelos seus freqüentadores como “Boa Boca”, onde se encontrava um dos mais conhecidos cabarés da cidade que era o de Maria Pororoca, eternizada na música de Jackson do Pandeiro juntamente com Josefa Tributino e Carminha Villar:
Oh linda flor, linda morena, Campina Grande minha Borborema Eu me lembro de Maria Pororoca, De Josepha Tributino e Carminha Villar Bodocongó, Alto Branco, Zé Pinheiro Aprendi tocar pandeiro nos forrós de lá...
A zona permaneceu forte ali até o final da década de 1940, quando o comércio do algodão entrou em decadência e também pela retirada dos contingentes militares da cidade após o fim da II Guerra Mundial. Logo se transferiu novamente para o centro, para a região conhecida como Boninas, onde lá permaneceu por volta das décadas de 1950, 1960 e 1970, mas sem o mesmo encanto dos anos anteriores.
Por fim, foram surgindo no final da década de 1930 e início da década de 1940 outros locais de prostituição em Campina Grande nos bairros de José Pinheiro, Liberdade, local que era conhecido como “Deserto” 29 e Bodocongó, especialmente na Arrojado Lisboa e nas proximidades da conhecida “Volta do Zé Leal”, que segundo o memorialista Antonio Calixto, o local ficou conhecido como “Boca Quente”, por causa das constantes batidas policias ocasionadas pelos conflitos que lá ocorriam.
Feira Central de Campina Grande - Rua Maciel Pinheiro Década de 1930
A grande feira de Campina Grande, também conhecida como feira central ou feira livre, como na foto dos anos 1930, quando se estendia também até a rua do Comércio Novo ou rua Grande, hoje rua Maciel Pinheiro. Universo de cultura popular e explosão tropical, a secular feira é um fenômeno social e cultural com a riqueza dos seus tipos humanos, a culinária típica, o artesanato, os artistas de rua e a musicalidade autêntica. Inspiração de poetas, boêmios, escritores, dramaturgos e compositores, a feira e seus costumes singulares preservados através de séculos é um espetáculo a céu aberto.
Apresentamos, abaixo, uma das grandes raridades da filmografia campinense; trata-se do documentário "A Feira de Campina Grande", produzido por Elyseu Visconti Cavalleiro.
O filme, original em 35mm, possui 9 minutos de imagens retratando o cotidiano de um dos grandes patrimônios culturais de Campina Grande e foi lançado em 23/02/1981, no Rio de Janeiro, pelo diretor/produtor.
Segundo a sinopse da obra, o documentário versa "... sobre a tradicional Feira de Campina Grande, na Paraíba, e que com o passar dos anos transformou-se na principal fonte de abastecimento de outras feiras da região, tornando-se a 'feira das feiras'. Para ela convergem produtos típicos do Sertão, do Agreste e do Cariri. Sua importância comercial, econômica, histórica, política e o folclore sempre presente, indica o papel de grande depositário de valores culturais dessa Feira para a comunidade."
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