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Com o propósito de reapresentar a maestria de Marinês à nova geração de campinenses e, conseqüentemente, de paraibanos, o professor Noaldo Ribeiro, um dos grandes expoentes do ativismo cultural de Campina Grande desenvolveu o projeto “Marinês Canta a Paraíba”, gravado no ano de 2004 no Cine Banguê, em João Pessoa.

O projeto ousou compor em uma única obra, objetiva e compacta, porém riquíssima, um apanhado de depoimentos de grandes ícones da MPB contemporânea, ídolos da atualidade, acerca da importância cultural da presença de Marinês para a música em suas carreiras, como também para todo o cenário musical no Brasil.

Compondo a mídia audível, Marinês interpreta seus grandes e inesquecíveis sucessos acompanhada pela Orquestra Sinfônica da Paraíba, realizando um dos seus maiores sonhos.

Recebemos, com muita honra, a colaboração do professor Noaldo Ribeiro, que nos ofertou um exemplar do livro/CD “Marinês Canta a Paraíba”, que homenageou em vida a grande diva da música regional nordestina, “A Rainha do Xaxado”, patrimônio cultural da Rainha da Borborema.

Sob a autorização do autor, postaremos, em série, parte desta magnífica seleção de depoimentos coletados e publicados por Noaldo Ribeiro, além das belíssimas canções interpretadas por Marinês, componentes do projeto desenvolvido por Noaldo Ribeiro, Regina Albuquerque e Lamarck Melo.


Depoimento de Dominguinhos


"Aquarela Nordestina" Marinês e OSPB
Em época de "Maior São João do Mundo", nada melhor do que relembrar a "Rainha do Xaxado", Marinês. Em 1957, a "Revista O Cruzeiro", a maior publicação do período, fez uma reportagem sobre a inesquecível cantora, material que reproduzimos abaixo:



Uma figura “avant la lettre pop”!

Essa foi uma das definições promovidas pelo cantor Belchior à Marinês, quando descreveu a alegria e a felicidade de ter conhecido a cantora no auge da sua carreira nos anos cinqüenta, durante a infância.

Em meio aos ícones masculinos que patrocinavam a cultura nordestina, à época, Marinês pôs a graça, a delicadeza e a gentileza feminina à uma cultura tão emblematicamente masculinizada vinculada a um formato de dureza e hostilidade.

Belchior lamenta não ter tido sua carreira lançada pela “Grande Mãe e Grande Rainha da Música Popular Brasileira do Nordeste”. Este fato esteve próximo de se concretizar durante a realização de um dos muitos festivais de música universitária. Marinês interpretaria uma música de sua autoria. Porém, por um motivo qualquer, Marinês não a interpretou, motivo de frustração para o cantor Belchior.

Em 2004, após a concretização do espetáculo protagonizado por Marinês, junto à Orquestra Sinfônica da Paraíba, objeto de exposição dessa nossa série de posts, o diretor da OSPB Carlos Rieiro, argentino por nascimento, ressalta a magnitude representada pela composição amalgamática entre Marinês e a OSPB:

“A OSPB sempre se destacou no cenário musical nacional e internacional pela diferenciada e qualificada sonoridade dos seus componentes; depois de escutar este disco podemos dizer que a bela voz de Marinês era o instrumento que estava faltando para completar nossa orquestra.”

O sonho de gravar com a Orquestra Sinfônica da Paraíba traria à Marinês uma emoção ímpar. O “rito de passagem entre a fantasia e o real” conforme denota Noaldo Ribeiro. Esta empreitada gerou um certo grau de preocupação quanto à sua saúde, uma vez que a Diva submetera-se, anteriormente, a uma intervenção cirúrgica, a qual lhe foram implantadas algumas pontes de safena.

Foto histórica que mostra Abdias Farias e Rosil Cavalcanti 
agachados em frente à Marinês.

Diante da ansiedade que prenunciou o evento, Marinês concentrou-se em suas habilidades naturais, contando com o respeito dos músicos da OSPB e, fato concretizado, a cantora “mostrou-se dona da mesma voz, sempr jovem, que continua a empolgar platéias e críticos, sempre surpreendendo a cada show e disco que grava”, afirmou o autor do CD/Book “Marinês Canta a Paraíba”, o professor Noaldo Ribeiro.



Depoimento de Belchior:


Marinês e OSPB:



Depoimento de Flávio José:


Marinês e OSPB:

Apresentando-se na difusora Voz da Democracia, no Bairro da Liberdade, em Campina Grande, escondida do seu pai, Sr. Manoel Caetano de Oliveira, Marinês conquista o primeiro lugar em um concurso musical, interpretando a música “Fascinação”, rendendo-lhe um sabonete “Eucalol” como prêmio!

Este evento foi a gênese da Diva.

Sua trajetória se iniciou à partir daí, cantando de difusora, em difusora, pela Rádio Cariri, passando pela Rádio Borborema, até alcançar o ‘status’ nacional nas Rádios Mairink Veiga e Tupi.

Noaldo Ribeiro, em sua obra "Marinês Canta a Paraíba",  define Marinês como aquela “que abriu ‘picadas’ numa floresta de preconceitos no Brasil dos anos cinqüenta.”, haja visto a condição feminina imperante àquela época em que mulher, cantora de rádio e alto-falantes, não era bem vista pelos olhos da sociedade.

E, em busca da trilha do destino, o trio formado por Marinês, Abdias Farias (seu esposo) e o zabumbeiro Cacau, venceu léguas e mais léguas adentro do interior brasileiro, se apresentando muitas vezes, em cima de caminhões ou cantando “no gogó”, sem uso de nenhum equipamento de som. Algumas vezes, inclusive, cabendo-lhes a arrumação do local da apresentação, varrendo os cinemas e limpando as cadeiras para que se promovesse conforto aos espectadores dos shows.

E foi dessa forma, até que em 1955, após o tão sonhado encontro com o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, sua carreira tomou prestígio nacional ao ser apresentada no Rio de Janeiro. Mais tarde, seria eternamente conhecida como Marinês... e Sua Gente, conforme definira Chacrinha, o velho-guerreiro!

“[...] se do lado masculino temos uma galeria de cantores que inclui Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, do lado feminino Marinês é o grande nome, tendo criado uma escola de interpretação que é hoje seguida de ponta a ponta pelo Nordeste. Outras cantoras que popularizaram o forró, como Elba Ramalho e Gal Costa, cantam o forró como uma entre muitas opções musicais; não surgiram dele, surgiram da MPB. Surgiram de um contexto cultural, e num mercado musical totalmente diverso.”
Bráulio Tavares

Depoimento Raimundo Fagner


"Meu Cariri" Marinês e OSPB

“No dia 13 de Dezembro de 2004, no Cine Bangüê, no Espaço Cultural da Paraíba, em João Pessoa, o sonho tornou-se real. A escolha dessa data não foi em vão. Era aniversário de “Seu” Lula, o Rei do Baião, que um dia me coroou como Rainha do Xaxado. Enquanto Luiz Carlos Durier, o regente da Orquestra, comandava a execução de Asa Branca, senti a presença do Rei dando força à minha voz.”

Com esta frase, Marinês expressa toda a emoção que comoveu não só a si própria, como a todos os presentes à apresentação histórica da artista acompanhada pela Orquestra Sinfônica do Estado da Paraíba que, além da concretização de um sonho, representou também uma homenagem pessoal à terra que lhe acolheu e que assistiu à sua ascensão artística.

Paralelo à iniciativa da própria Marinês, em gravar com a Orquesta Sinfônica, calhou à Noaldo Ribeiro a oportunidade da condensação do áudio à obra teórica, concebendo o CD/Livro “Marinês Canta a Paraíba”, resultado do projeto apresentado às autoridades estaduais em busca do custeio através do Fundo de Incentivo à Cultura (FIC) Augusto dos Anjos, do Governo Estadual.

Sob a ótica do autor, Marinês deve ser (re) apresentada às gerações contemporâneas de forma altiva: através dos depoimentos afetuosos de grandes nomes da MPB, dignificando a importância pessoal e cultural de Marinês, à qual enalteceu de forma macro durante toda a sua vida, através do seu dom maior, a sua paixão pela cidade de Campina Grande no cenário musical brasileiro.

Um desses grandes nomes da música é o ex-Ministro da Cultura Gilberto Gil, que lhe chamava de “A Grande Mãe”:
“Marinês é uma Grande Mãe nordestina. Entre seus traços característicos estão a incomensurável força do corpo e a infinita beleza da alma. E tanto mais:  a grande artista, com sua voz de precisa concisão, é a senhora de todos os ritmos; a sustança que verte dos seus pés passa pelo leve metal do triângulo, pelo couro da zabumba e pelo fole da sanfona, transubstanciada na matéria viva que plasma o baião, cuja história jamais poderia ser contada sem esse “Luiz Gonzaga de Saias”.”


Depoimento de Tânia Alves


"Campina Grande" Marinês e OSPB


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Marinês e sua Gente (Google Images)
Falar em Marinês nunca é demais, dada a valorosa história da saudosa cantora que marcou época na música nordestina. Inês Caetano de Oliveira, seu nome verdadeiro, apesar de ter nascido em Pernambuco era campinense de coração.

A “postagem” de hoje surgiu de uma idéia do jornalista e professor Rômulo Azevedo, que pediu para que colocássemos a primeira aparição de Marinês em vídeo, quando a “Rainha do Xaxado” participou do filme “Rico Ri à Toa”, do cineasta Roberto Farias e que contava com a participação de Zé Trindade e Violeta Ferraz no elenco.

A música escolhida para o filme foi “Peba na Pimenta” de João do Vale, Adelino Rivera e José Batista, gravada em setembro de 1957 ainda em 78 RPM. Esta música na época chegou a causar algum problema a Marinês, já que alguns padres da Igreja Católica alegaram que a música era de duplo sentido, chegando ao cúmulo de durante as missas, pedirem aos fiéis para não comprarem o disco de Marinês. Coisa da época...

Fonte: Cineclick
Segundo o site “Cineclick”, o filme Rico ri à Toa: “é uma divertida comédia que marca a estréia do diretor Roberto Faria. Zé Trindade é um chofer de táxi que tem uma verdadeira paixão pelo seu carro e vive discutindo com seus passageiros. Um dia, ele, a esposa e a filha recebem a visita de um advogado, que lhes entrega uma herança de 15 milhões, vinda de um parente desconhecido de Portugal. Mas tudo não passa de um golpe para encobrir o dinheiro do assalto a um banco, ocorrendo a partir daí inúmeras situações engraçadíssimas”.

Zé Trindade, o ator principal do filme foi um grande comediante do rádio, que ficou famoso pelos jargões "Mulheres, Cheguei!" e "Meu Negócio é Mulher".

No vídeo abaixo, “Marinês e Sua Gente” estão na plena juventude, inclusive com participação de Abdias, que foi marido da grande cantora nordestina. Sem mais procrastinações, vamos ao histórico registro:


Agradecemos ao professor Rômulo pela lembrança de mais este “retalho” de nossa história.

Fontes Utilizadas:

http://www.onordeste.com/index.php
http://www.cineclick.com.br/index.html
Wikipédia
Brasil Vita Filmes
Marinês nasceu em São Vicente Férrer em 16 de novembro de 1935, mas foi em Campina Grande, que a Dama do Forró se radicou, inclusive, era fácil avistá-la andando pela Rua Semeão Leal, local que parecia ser de seu agrado.

Abdias e Marinês

Marinês deixou seus fãs em 14 de maio de 2007, vítima de um AVC. Abaixo, alguns vídeos que retratam momentos da Rainha:

Vídeo da TV Correio sobre a morte de Marinês:

Vídeo da TV Itararé sobre Marinês:


Marinês como poucos, cantou a beleza de Campina Grande, porém é de se lamentar as poucas homenagens que foram prestadas por Campina, justamente a cidade que ela tanto amou.

A apresentação de Marinês no programa "Momento Junino" da TV Borborema em 2005:


Encerramos nossa série de postagens, agradecendo a gentileza do executor do projeto, Noaldo Ribeiro, pela cessão do book/CD do qual reproduzimos seu conteúdo audiofônico. A magnificência de Marinês foi colocada às novas gerações através de depoimentos de grandes nomes da MPB, agregados à capacidade interpretativa ímpar da Grande Diva da Música Popular Nordestina, à frente da Orquestra Sinfônica do Estado da Paraíba.

Interpretando canções imortais, de compositores idem, a exemplo de Rosil Cavalcanti, Marinês eterniza seu amor pela música e sua gratidão pela terra que lhe acolheu e a lançou para o estrelato nacional.

Marinês escreveu que a escolha da data da gravação com a OSPB não foi em vão. O dia 13 de Dezembro de 2004 era aniversário de Luiz Gonzaga, O Rei do Baião que um dia lhe coroara como “Rainha do Xaxado”.

“Enquanto Luiz Carlos Durier, o regente da Osquestra, comandava a execução de Asa Branca, senti a presença do Rei dando força à minha voz. Foi realmente emocionante. No final da gravação, bradei aliviada: O filho nasceu! Como não sei mentir, devo dizer que a emoção não parou por aí. De vez em quando, olhava para traz e via meu filho, no meio da Orquestra, tocando sanfona, como quem acaricia um bebê. [...] No final, tudo saiu certinho. Soltei minha voz com o firme propósito de não decepcionar o maestro e fundamentalmente o público que lotou o Bangüê.”
(Inês Caetano de Oliveira, Marinês)

Ao encerrar nossa série, postamos o depoimento de Elba Ramalho, mulher paraibana favorecida pelas portas abertas, anos atrás, por Marinês e a indefectível interpretação da música “Asa Branca” na qual a Grande Mãe homenageia o eterno Rei do Baião, aquele que lançara seu sucesso à nível nacional.


Depoimento de Elba Ramalho:


Marinês e OSPB:

Inês Caetano de Oliveira, culturalmente conhecida como Marinês, nasceu em 1936 na cidade de São Vicente Ferrer, no alto da Serra da Paquivira no vizinho estado de Pernambuco porém, muito próximo das terras paraibanas, como as cidades de Natuba e Aroeiras.

Filha do seresteiro e ex-cangaceiro Manoel Caetano de Oliveira e de Josefa Maria de Oliveira, conhecida com D. Donzinha, aportou em Campina Grande no ano de 1940.

Morou no bairro da Liberdade, onde se apresentou pela primeira vez cantando “Fascinação” em um concurso promovido pelo serviço de alto-falante “Voz da Democracia”, difusora local.

De difusora em difusora, chegou à Rádio Cariri e, posteriormente, com apenas 12 anos de idade, foi contratada pela Rádio Borborema, palco das grandes estrelas da música na Era de Ouro do Rádio, em Campina Grande. Curiosamente, utilizava-se do pseudônimo de “Maria Inez” em suas incursões radiofônicas. Certa vez, um dos apresentadores confundiu e chamou-a “Marinês”, sendo este nome artístico adotado a partir daí.

Foi se apresentando no auditório da Rádio Borborema que conheceu o sanfoneiro Abdias Farias com quem se casou e, em sua companhia, rodou todo o território nacional trilhando o duro caminho do início de carreira.

Conheceu o Rei do Baião em 1955, em um show na cidade de Propriá, em Sergipe, de quem recebeu apadrinhamento e o título de Rainha do Xaxado. Nesta época já denotava a aclamação dos radialistas brasileiros que a consideravam a versão feminina de Luiz Gonzaga.


Em 1957, contratada pela Rádio e TV Tupi do Rio de Janeiro, “Maria Inez” foi apresentada ao Brasil pela revista O Cruzeiro, periódico de maior circulação nacional à época, com texto do jornalista  Elias Nasser.

Resistindo à derrocada popular da música regional nordestina, nos anos 60, Marinês esteve próxima à nova geração de cantores nascida nos famosos festivais da canção, a exemplo de Gilberto Gil e Sérgio Ricardo. Atravessou os anos 70 ainda gozando de popularidade junto a outros nomes do forró como Trio Nordestino e Genival Lacerda (antigo concorrente dos tempos de shows de calouros radiofônicos).

Entre as revelações artísticas promovidas por Marinês destacam-se Dominguinhos e Anastácia, Antonio Barros e Cecéu.

Constantemente homenageada por grandes nomes da MPB, nos Anos 80, como Elba Ramalho, Fagner, Zé Ramalho e Gilberto Gil, gravou com Luiz Gonzaga e teve um projeto intitulado “50 Anos de Forró” produzido por Elba Ramalho em 1999.

Marinês faleceu na manhã do dia 14 de Maio de 2007, no Hospital Português, em Recife, após dez dias de internação devido ao acometimento de um AVC.

"O Brasil perdeu hoje sua rainha do forró, a primeira grande cantora nordestina que aparece nos anos 50, inaugurando um ciclo de ouro da voz feminina na música do nordeste" (Gilberto Gil)




Fontes:
http://www.tabajara.am.br/main/content/view/206/54/
RIBEIRO, Noaldo. “Marinês Canta a Paraíba”. Gráfica JB. João Pessoa, 2005.
Dicionário Cravo Albim MPB
 
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