Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
retalhoscg@hotmail.com

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Campina Grande possui lugares  fascinantes, mas  nenhum  supera o  Açude Velho  como  a mais bonita imagem ou  cartão  postal  desta cidade.  O Açude  Velho  localiza-se  na  região central do município e possui uma área de aproximadamente 47 mil m².

Antes que adentremos nos pormenores históricos deste símbolo da cidade, mergulharemos no imaginário de muitos campinenses, que “apreciam” por demais este espaço urbano e também turístico. Este local é fonte inspiradora de muitas circunstâncias, desde uma caminhada simples (da qual este autor é adepto quase que cotidianamente), passeios informais, corridas, pedaladas e até começos e continuações dos encontros românticos ali estabelecidos. Suas águas, histórias e panoramas inspiram artistas, cantores, pintores, fotógrafos e cidadãos comuns, bem como “crônicas” atinentes a um local arrebatador.

Naquele local público e aprazível, encontramos dois museus:

1.    Museu de Arte Popular da Paraíba (Museu dos Três Pandeiros), projetado pelo célebre Oscar Niemeyer.

2.    SESI Museu Digital, que proporciona uma viagem interativa pela história de Campina Grande, com tecnologia, realidade virtual e simuladores, onde também se encontra o belo monumento comemorativo aos 150 anos da cidade.

Existem mais dois monumentos às margens do açude: "Os Pioneiros da Borborema" e as estátuas de “Jackson do Pandeiro” e “Luiz Gonzaga”, que estão ali posicionados como ponto de visitação, onde os registros fotográficos se acentuam. Não esquecendo do “Memorial à Bíblia”, que é um espaço dedicado à fé cristã.

O Açude Velho é um lugar adequado para passar um tempo de maneira agradável e, por conseguinte, conhecer muito da história e cultura da cidade, e ainda por cima, saborear petiscos saborosos encontrados em bares, lanchonetes e restaurantes ali localizados.

Mas, vamos lá: e o início do Açude Velho?

Este açude foi idealizado e construído em razão da seca que assolou o Nordeste brasileiro, entre os anos de 1824 e 1828, tendo sido inaugurado em 1830.  Erguido no leito do antigo "riacho das piabas", o açude serviu durante anos ao povo de Campina e da região do Compartimento da Borborema, que usava de suas águas para diversos fins.

Em face de Campina Grande começar a ser abastecida diretamente do Açude Epitácio Pessoa (Boqueirão – PB), a finalidade inicial do Açude Velho se desfez e, como já mencionado, hoje é um cartão postal e patrimônio da cidade. Naturalmente, com o crescimento urbano, teve que passar por transformações, ganhando calçadão, ciclovia, iluminação pública e esculturas.

Com mais de 195 anos de história, não poderia faltar um caso pitoresco e emblemático em relação ao referido açude, que é o “Famoso Jacaré”, o qual povoa o imaginário popular, quando muitos afirmavam que um jacaré estava acolhido nas águas do açude. Pois bem, segundo registros históricos, um jacaré-de-papo-amarelo realmente habitou ali nos anos 80, e em 2004 foi resgatado e passou aos cuidados do “Museu Vivo dos Répteis da Caatinga”.*

Quantas lembranças me traz o Açude Velho! Ele mexe no meu interior de maneira diferenciada, pois me incita até a pensar em circunstâncias não vivenciadas ali e que, na graça de Deus, espero contemplar a realização.

Cuidem desta obra fantástica, pois ela se encarregará de exalar o bom perfume de uma história nostálgica, ao mesmo tempo em que adequará a trajetória rumo ao futuro, repleta dos bons ares de uma grandiosidade permanente. E que este espaço encantador seja mantido adequadamente, com o devido engajamento da sociedade, bem como do poder público. 

Cabe a todos, em uma conexão vitoriosa, fazer com que esta paisagem não seja prejudicada por falta de amparo.

Que o Açude Velho, apesar do nome, possa se tornar, a cada dia que passa, mais NOVO e se perpetuar no coração daqueles que, como eu, defendem intransigentemente a importância do local, bem como contemplam a sua beleza inquestionável.

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*midialegal.com.br

 

Colaboração de MEDEIROS JR, autor do blog Linhas Edificantes (www.linhasedificantes.com.br)


Por Roberto Pereira

Quando o  ex-banqueiro  campinense, meu  saudoso amigo  Eudes Rodrigues Chaves  ainda vivia, nós estávamos combinando uma viagem de uns três dias  a Campina Grande.

Seria uma visita   sentimental de volta às nossas origens;  um “revival” em nossas vidas, um reencontro com alguns dos nossos antigos  amigos, aquêles que outrora  compunham o nosso universo, e com os quais passamos os grandes e alegres momentos da nossa juventude na querida cidade  onde nascemos.
Calçadão de Campina Grande (2009)

Programávamos  ir ao Calçadão, passear na rua João Pessoa, tudo isso feito a pé, sem qualquer obrigação com horário, frequentar  os restaurantes mais antigos, ir a feira, visitar estabelecimentos comerciais de  velhos amigos remanescentes,  enfim, passar esses dois ou três dias entregues a uma jornada  de  re-visita, para matar as saudades.

Infelizmente não deu. O velho “Moral” assim como era chamado, parece que estava adivinhando:  antes mesmo de cumprir a nossa  programação, adormeceu para sempre.

Na Campina do nosso tempo, morávamos um pouco  distantes  um do outro: eu, ali na Praça João Pessoa, ele na Major Belmiro, mas sempre estávamos juntos;  e juntos compartilhamos as alegrias da juventude e curtimos a nossa querida cidade em tudo o  que ela nos concedeu  de  felicidades.

Nós sempre acreditamos, e sempre conversávamos sobre isso, que foi a nossa geração a  que mais viveu os períodos importantes e as grandes mutações pelas quais passou Campina Grande. E foi mesmo.

Eu vivi, na infância, o fim da chamada “era do trem.” Ví pessoas chegando de viagem, outras embarcando, ali na Estação Velha, que se enchia de gente, automóveis, carroças, animais, na maior animação, na chegada ou partida do trem. O seu apito saudoso ficou na minha memória  para sempre.


Ví e viví a Rádio Borborema, a primeira  grande revolução nas comunicações regionais, com maravilhosos programas de auditório, quando a cidade recebia a visita dos maiores e mais importantes artistas nacionais e internacionais. A cidade era uma festa. A Radio Borborema de Hilton Mota, Gil Gonçalves, Leonel Medeiros, e de Fernando Silveira, um gênio que se hoje vivesse talvez fosse o maior multimídia do nosso País, com a sua incrível inteligência e criatividade.

Ví e viví  na infancia as maravilhosas séries semanais do Capitólio: Homem Morcego, Fumanchú, O Zorro, Capitão Marvel, Príncipe Submarino e tantos e tantos mais, quando nós, fantasiados  e em bandos,  subíamos no palco do cinema  antes da exibição, para brincarmos de artista e bandido, até que as luzes  se apagassem para a projeção.

Viví  toda a alegria de brincar com uma tosca roda de virola, resto de antigos pneus automotivos desmanchados pelos sapateiros, percorrendo as calçadas das praças, com a alegria de uma criança que hoje estivesse pilotando uma moto.

Ví e vivi  a chamada “explosão do algodão” subindo e pulando  nas imensas pilhas de fardos de algodão que se espalhavam pelas  ruas da cidade; e o desfile daqueles grandes carros americanos dos barões do algodão, que enchiam Campina de dinheiro e de orgulho.

Ví e ouvi  os maravilhosos discursos do grande líder Argemiro de Figueiredo, sem dúvidas, o maior político do nosso Estado, com sua postura  majestosa e seu estilo fascinante de falar.

Ví o presidente Getulio Vargas, cabelos branquinhos, um sorriso permanente, em carro aberto, subindo ali pela Miguel Couto acenando para o povo que se postava nas calçadas.

Viví a alegria das grandes passeatas nas festas políticas contagiantes e monumentais.

Ví  florescer  e tombar o grande Felix Araujo, herói do nosso tempo, símbolo da coragem da juventude.

Ví a cidade em festa recebendo o seu primeiro bispo diocesano, Don Pietrula, desfilando em carro aberto e o povo acenando lenços brancos de boas vindas.

Ví o fenômeno popular chamado Severino Cabral incendiar Campina e ascender ao governo do Estado numa homenagem do povo a simplicidade do seu líder. 

Ví, menino ainda, o povo pobre nas ruas numa manhã de agosto, chorando a morte do presidente Getulio Vargas.

Ví o então presidente Juscelino Kubitschek  emocionado, entregar a cidade o gigantesco beneficio da adutora de Boqueirão, que, de uma vez por todas, acabou o problema  do abastecimento d’agua da cidade.

Juscelino em Campina Grande (1958)

Viví   a ascenção política de Vital do Rego, Ronaldo Cunha Lima, Raimundo Asfora, Edvaldo do Ó, Newton Rique, tantos jovens  valores bruscamente interrompidos nas suas trajetórias cívicas  por atos do poder dos militares, sem qualquer razão.

Chorei a perda de uma linda adolescente, Osmarina, num desastre de avião junto com seus pais, no Estado de Sergipe. Toda a cidade cobriu-se de luto e os colégios formaram no sepultamento.

Viví e  reverenciei  com o maior respeito os nossos grandes mestres: professor  Loureiro, Padre Emidio, professor Oliveira, professor Almeida e tantos mais, responsáveis pela formação de  toda a elite intelectual da nossa geração. A gente os recebia de pé, na sala de aula.

Viví  grandes partidas de futebol no campo do Bordéu, (ali onde hoje está o Anita Cabral)  junto a velhas figuras do folclore campinense: Fuba, Miguelzão, Eliezer, Seu Naninha, Seu Antonio, Nêgo Lula, Chico Boateiro, Ladinha, Nêgo Mira, Bôda, um monte de gente.

Feliz, saía  aos domingos em demanda do campo do 13 para assistir as grandes partidas contra times de todo o Brasil, que vinham visitar a nossa cidade. Era uma festa.


Ví nascer o departamento de futebol do Campinense na quadra de sua sede  social,  em frente a minha casa.

Babei  de inveja dos mais velhos que  falavam dos grandes cabarés que freqüentavam nos fins de semana: Baiana, com shows musicais eróticos  de artistas que vinham do Sul. Carminha Vilar, China, Santa, Unidade Moreninha, cujas lindas hóspedes freqüentavam as matinés dos cinemas exibindo roupas caríssimas e maquiagens caprichadíssimas. Maria Garrafada, Zefa Tributino, as  lendárias  damas da boemía campinense.

Ví, na varanda da fazenda do meu pai, no Carirí, vindo de Campina Grande,  um dia chegar Rosil Cavalcante com vários companheiros e uma  tropa de cachorros perdigueiros em busca de caçar perdizes e lambús nos campos da caatinga.

Vi a rapaziada independente  que se reunia nas tardes do Grande Hotel para o happy hour daquele tempo: Otaviano Bezerra, Paulinho Ribeiro, Amaury Gurú, Zé Costa, Rodrigão Araújo, Antonio Figueiredo, Ingo Neukranz, Ermirio Leite, legítimos representantes  de uma época em que a cidade fervilhava  com o seu progresso e  se projetava inexoravelmente para o seu grande futuro.

Grande Hotel

Ví e vivi  a chegada da televisão que nos encheu de orgulho. Campina como sempre pioneira em tudo. Gerava os próprios programas, incluindo teleteatro, com atores nossos, aqui da terra. Isso era demais.

Viví  os grandes carnavais de rua, com o corso que se expandia  por todo o centro da cidade e a folia que se concentrava na Maciel Pinheiro, ali na Sorveteria Pinguim, com desfile de blocos e troças, fantasias mil, o cheiro de lança-perfume no ar, a poeira da maizena que cobria todos os espaços da rua, confete, serpentina, mulheres lindas, a alegria, o delírio.

À noite, os grandes bailes no Campinense, no Clube 31, no Ipiranga, Paulistano. Do mais aristocrático ao mais modesto a alegria era uma só. A cidade estremecia ao som das grandes bandas de frevo e samba e dançava até o raiar do dia.

Ví e conheci  os valentes do nosso tempo: João de Carminha, Assis, Severino Martins, Alonso Arruda, Salvino Figueiredo, Carlinhos e José Gaudencio, homens jovens, corajosos que não abriam parada para ninguém.

Ví  o mundo intelectual reunido na Livraria Pedrosa e o velho Pedrosa, junto com os amigos, Dante Alicate e Pilon bebericando e contando causos inesquecíveis.

Ví  a Fundact,  embrião da nossa Universidade ser fundada por um grupo de heróicos campinenses  dedicados  a causa da cultura em nossa cidade: Edvaldo do Ó, Stenio Lopes, Francisco Pereira, Lopes de Andrade, Lynaldo Cavalcante, verdadeira constelação de homens de valor, devotados ao bem.

Ví  a cidade se projetar para muito além dos seus limites no mundo financeiro,  com os bancos Industrial e Banco do Comercio, todos com capitais genuinamente campinenses, instalando agencias nas principais cidades e capitais  brasileiras.

Ví a Federação das Industrias  ser fundada em Campina Grande, por ser a nossa a única cidade da Paraiba a reunir a quantidade de sindicatos exigida para a formação da federação.

Ví e convivi com os tipos populares e inesquecíveis da cidade: o filósofo Alonso Sapateiro, o desenhista, artista e coreógrafo Cibíu, o comunista Alfredo Machinho, grande divulgador das idéias socialistas;  o homem da noite Moacir Tiê;  Zito Napi, dançarino exímio, disputado a tapas pelas damas da noite; Omega, eterno boêmio a desfilar nos carnavais com sua capa, bengala e copo de cerveja na mão; Abilio Doido, Bacurau, Antonio Cego, Manuel Pé de Rotor, Horacio Bacanaço,  uma fauna maravilhosa   que conferia  a cidade esse aspecto de alegria e criatividade insuperável.

Viví a adolescência entre as matinês do Capitolio e Babilonia, a Rua Maciel Pinheiro e a Sorveteria Pinguim, onde as tribos se encontravam; e nos fins de semana os maravilhosos “assustados”, encontros em casa de amigos, onde imperavam a alegria e a esperança fácil.

Rua Maciel Pinheiro

Viví os desfiles de 7 de setembro quando, em uniformes de gala, marchávamos contritos defendendo os nossos colégios, fosse ele o Pio XI,  Alfredo Dantas  ou  Colégio das Damas com o entusiasmo e o garbo de soldados em defesa da pátria.

Viví as noites inesqueciveis de dezembro  assistindo às missas de Padre Mariano na Matriz e em seguida descendo a Floriano Peixoto para o passeio deslumbrante nas   noites de  festas do Natal, ali na Maciel Pinheiro.

Ví surgirem os primeiros edifícios espigões, que davam a cidade um ar de “cidade grande”.

Viví momentos de angustia  e tristeza com a queda  de um avião nas proximidades de Bodocongó, onde morreram queridos conterrâneos.

Viví a alegria do Bar do Grande Hotel, do Pinguim, e do Chopp do Alemão, em fins-de-semana memoráveis com as inesqueciveis “tertúlias” do Campinense Clube e as prévias carnavalescas do Club Aquático.

Viví as delícias, tomei bons whiskys  e evoquei o passado na lendária “Fruteira”, barzinho maravilhoso que um dia as irmãs Pedrosa, rebatizando-o de “O Beco”  resolveram reviver, ali no Beco do 31.

Viví com intensidade as emoções dos sábados da boite Skina: música estimulante, corações a toda carga.

Viví as festas do São João no Clube dos Caçadores curtindo  a beleza daquelas noites frias de junho onde a juventude se aquecia nas fogueirinhas e nos abraços de amor.

Viví o privilégio de ouvir o velho Nilo Tavares, depois de alguns whiskys no Bar do Pilon, contar suas histórias de vida e seduzir com a sua prosa fácil e espirituosa a quem dele  tinha o privilégio de se aproximar.
Precisa mais?

Assim eu ainda vivo e continúo vendo  a minha querida  cidade. Será que alguém a viu ou viveu em tantos diferentes momentos e  com tanta intensidade, com tanta intimidade?

Viví e ainda vivo finalmente, a amargura das perdas de tantos amigos  que, tal qual atores de uma magestosa peça teatral, vão-se retirando do palco aos poucos, um por um, até que, no último ato,  certamente por falta de atores, a cortina  haverá de se fechar e as luzes se apagarem.
Por Vanderley de Brito
Historiador, fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia

Nos sertões e carrascais nordestinos as estórias de botijas são os que mais aguçam a imaginação, pois envolvem tesouros de moedas e objetos de ouro e prata confinados em potes de barro enterrados, geralmente, no chão e paredes de taperas, cantos de porteiras, casas de farinhas abandonadas, adros ou aos pés de grandes juazeiros, e seriam cabedais deixados pelos holandeses, jesuítas ou por ricos fazendeiros, guardados por décadas até um escolhido receber, através de sonho, a indicação do local onde se encontra. Esta revelação tinha caráter sobrenatural e o ato de resgate era cercado de regras cerimoniais indispensáveis.

Segundo os relatos, o resgate devia ocorrer à meia noite e o escolhido teria de ir sozinho arrancar a botija, pois o tesouro só era encontrado por aquele a quem foi destinado, e se não cumprisse fielmente a operação cerimonial e seguisse corretamente os sinais, o tesouro transformava-se em trapos, carvão, cinzas ou simplesmente desaparecia. Era preciso também ter muita coragem, pois era comum aparecer almas e demônios para impedir a escavação. Outro ponto importante era que o afortunado, após arrancar a botija, se mudasse para outra região. Assim, ficava livre das almas e poderia desfrutar das riquezas. 

A Paraíba está repleta de histórias de alguém que já arrancou uma botija e a notificação mais antiga de botija em nosso território data de 1729 numa carta enviada ao Rei D. João V do ouvidor geral da Capitania, João Nunes Souto, tratando sobre o suposto achado de uma botija contendo coisas de valor enterradas na fazenda de Leonardo Pires de Gusmão. Este documento consta no Arquivo Ultramarino de Lisboa.

Pois bem, em Campina Grande também temos casos de botijas e o historiador Alcides de Albuquerque do Ó registra um inusitado ocorrido no ano de 1947 quando certo popular de nome Luiz Monteiro sonhou que havia uma botija no terreno onde se assentava a antiga igreja do Rosário, que fora demolida anos antes, ali de frente ao Cine Capitólio. Luiz Monteiro, ávido para pegar o ouro e coisas de valor, foi de noite e cavou naquele local um imenso buraco, largo e profundo, mas nada encontrou. Diz também nosso historiador que naquele ano, quando começou a campanha política para prefeito entre os concorrentes Elpídio de Almeida e Veneziano Vital do Rêgo, o buraco cavado ali permanecia aberto e toda vez que tinha comícios na Praça da Bandeira e estes acabam em briga, na correria do povo muitos caíam no dito buraco.
Por Maerson Meira       

Travessa Almirante Alexandrino, popularmente conhecida como POROROCA. Situada no coração de Campina Grande, tendo uma entrada na Rua Vidal de Negreiros e duas outras na Rua João Tavares. Coincidentemente, as suas entradas ficam de frente a dois importantes estabelecimentos históricos da cidade: Na da Rua Vidal de Negreiros, olha meio que de ladinho para O Salão Campinense, barbearia muito antiga e tradicional; E nas outras duas da Rua João Tavares, miram à antiga clinica e hospital SAMIC, que é um capítulo aparte, e que deve ser contado em outro episódio.

A Pororoca - Arte de Marcus Nogueira

Morada de inúmeros ilustres cidadãos e pessoas comuns de mesma importância, esta rua teve relevância fundamental para algumas pessoas, inclusive para este autor que vos escreve, que jamais serão esquecidas. Cito: Foi moradia do deputado Rômulo Gouveia, onde além de sua própria casa, seus pais tinham uma vila de casas numa ramificação do beco chamado de “Boa Boca”, na verdade é um correr de quartos com um banheiro ao fundo. Lugar muito peculiar, e com algumas características de um bairro muito pobre.

A casa do Seu Zuzu: pai do Rômulo, ficava vizinho a uma vendinha, que sua dona além de conferir o dinheiro várias vezes, não recebia em hipótese nenhuma uma cédula riscada, amassada ou muito menos rasgada, devolvendo-a imediatamente antes de entregar a mercadoria. Logo mais a frente e na mesma calçada, ficava a mercearia do senhor Apolônio: pai do distinto professor universitário de matemática “Brito”. O Seu Apolônio tinha no quintal da mercearia um depósito de carvão: Um quartinho bem escuro com uma montanha do produto. Quem fosse comprar carvão no centro da cidade, obrigatoriamente era no seu Apolônio, e invariavelmente sairia sujo do local. Neste mesmo lugar, funcionou durante algum tempo o Bar do Brito, frequentado por intelectuais e amantes das músicas de Chico Buarque.

Local da antiga mercearia do Seu Apolônio. Fotos de 1996 e 2011, respectivamente

Outra figura de tamanha importância que residia na Pororoca, era o finado Chico do Tiro: Pai do jornalista e colunista Rogério Freire, que posteriormente assumiu um simpático sobrado na Rua. Pessoa muito bem humorada e de simpatia invejável, Chico do Tiro era semianalfabeto e bem afortunado, tinha um bar na antiga quatro de Outubro, e quando ia cobrar as contas, olhava para o numero de pessoas na mesa e dizia: É 15 pra cada. Todos riam e alguém dizia: Inteire os 20 de picado e mais duas saideira. Kkkkkkkkk. Gargalhada na certa.

Rita, Lêda e Amâncio dividiam a mesma casa na frente da mercearia de seu Apolônio. São três personalidades inesquecíveis: Rita e Lêda eram zeladoras da Igreja Nossa Senhora do Carmo. A irmã mais nova, Lêda, cantava no coral de beatas e tinha uma voz bem particular e destacada, dava para ouvir seu tom quando dobrávamos a esquina da igreja. Rita ficava na calçada de casa com um ferro à brasa, e claro, com carvão do seu Apolônio, passando roupas para toda vizinhança. E finalmente Amâncio, é conhecido artista local, tocando ainda hoje pelos bares e eventos em Campina. Um operário da música local.

Seu Rosielio Gomes e D. Salomé, donos da Cotecil, importante indústria de beneficiamento de couros, foram moradores respeitados por seu alto poder aquisitivo. Moravam numa casa ampla bem no ‘cotovelo’ da Pororoca e convidavam muitos moradores para fartas festas que havia no lugar, ou em sua granja fora da cidade.

Vamos para a boemia, falar de pessoas que embora não tivessem o mesmo valor perante a sociedade, imprimiam sua importância de forma mais ‘intimista’. Refiro-me a Maria Garrafa ou Maria Garrafada como queiram. Esta pessoa muito vaidosa, cheirosa e glamorosa, desfilava elegantemente pelas ruas de Campina arrasando corações, e de certa forma destruindo lares, não por sua culpa, pois, estava apenas cumprindo seu papel de “prostituta vip”, mas, pelas “puladas de cerca" (se é que posso assim dizer), das pessoas que se “deitavam” com Maria.

Morou também durante muito tempo e ainda mora neste lugar: Rosilda. Também muito festeira e produzida, era e ainda é mestra na arte culinária, nesta época não se falava em ‘chefe de cozinha’ do sexo feminino’, era tratada mesmo como cozinheira. Elaborava as refeições das mais ricas famílias Campinenses, fazia jantares homéricos na casa de Dona Jesus Freire: Esposa de Artur Freire e Mãe de Pedro Freire; Ceias de encher a boca d’agua na casa de Zé Carlos do Café São Braz; Lanches da tarde incríveis na residência de Raimundo Lira da Cavesa, e de muitas outras residências poderosas. 

Na Pororoca, construiu-se um dos pilares de sustentação da minha personalidade. Lá, aprendi com “Time Ruim”, nome do moleque mais traquino de todo centro da cidade, que mais tarde morrera de raiva felina, lições sobre arruaça e traquinagem. Aprendi com Anacleto e Laercio a jogar peão de madeira no chão de terra batida do lugar. Com Neném, Tutucha e Joselito, construíamos pipa e carrinhos de rolimã. Foi lá também, que me foi ensinada as primeiras “bolinagens” sexuais com “Batonzinho e Nicinha” (Por motivos óbvios são apenas apelidos fictícios). Bola de gude e cuscuz eram brincadeiras que só eram possíveis em ruas não pavimentadas. São por estes e outros motivos que a Pororoca: uma “ponta de bairro” no centro da cidade tem sua importância fundamental para toda uma comunidade.

Foi lá também, onde tivemos (eu e minha então namorada e hoje minha mulher) nosso primeiro empreendimento comercial: O Bar Escambo. Durante algum tempo na década de noventa, revitalizou-se a Pororoca com uma série de bares e restaurantes. O Escambo, ironicamente, funcionava no mesmo local aonde foi à mercearia do seu Apolônio e posteriormente o bar de Brito. Por irresponsabilidade de um dono de bar, a Pororoca veio a perecer, mas isto também é um outro capítulo.

Nesta imagem dos anos 90, cedida ao RHCG por Fidélia Cassandra, podemos visualizar os famosos bares da Pororoca

Como denomina o próprio nome “Pororoca”: Uma grande onda que se forma pelo encontro das águas do mar com o rio e logo se desfaz, a Travessa Almirante Alexandrino também teve sua grande onda glamour e se desfez. Talvez pelo choque cultural, ou pela agitação noturna, quebrando o silêncio daquela pacata vila.

Fica aqui minha saudosa impressão dos bons tempos vividos na infância 

Segundo o “Memorial Urbano de Campina Grande”, João Virgínio de Moura, foi um médico-pediatra. Ele foi assassinado em 17 de fevereiro de 1947, na rua principal do Distrito de Massaranduba, em decorrência de lutas políticas. Em homenagem a esse médico, foi dado seu nome a uma rua, localizada no bairro de São José.
 Neste raríssimo mapa de 1956, a rua João Moura pode ser vista (cliquem para ampliar) 

A Rua Dr. João Moura é tradicionalíssima em nossa cidade e em virtude deste fato, cheia de memórias. O professor e advogado Olímpio Rocha, escreveu uma bela crônica, relatando algumas memórias de personagens da rua do São José. “Os Velhinhos da João Moura”, foi publicada originalmente no livro “A Maré” (Gráfica e Editora Rocha, 2006), de autoria de Olímpio. Abaixo, publicaremos na íntegra a crônica, que nos foi enviada, ou seja, mais um “retalho” da história de Campina Grande:

Os velhinhos da João Moura

Por Olímpio Rocha

Eu não tenho papo. Às vezes, no meio de uma conversa com alguém, penso em tudo, menos no assunto discutido. A não ser com velhinhos e porteiros. É impressionante como viro um falastrão quando meu interlocutor tem uma penca de fios brancos ou um interfone à mão.

- E aí, Reginaldo? Viu a Raposinha ontem? Que jogão, hein? – e dali a pouco já estamos discutindo desde o mensalão às coxas da moça da novela, até a política externa de Botsuana, enquanto ele vai abrindo e fechando a porta pra quem chega e sai.

- Bom dia, Seu Afonsinho... Melhorou da artrite?

- Ah, já tô melhor, meu filho... vai uma daminha?

- Só se for agora...

Mas bom mesmo é conversar com os velhinhos da João Moura. A João Moura é uma rua de Campina Grande que dá pro Açude Velho e é paralela ao Parque do Povo. Mais campinense impossível! E coincidentemente, os três velhinhos sobre os quais falarei agora têm profunda relação com ela.

Seu Dedé, sempre cheirando a milho, no auge dos seus 70 e uns anos, há mais de 40 mantém uma barbearia no fim da rua. Posta minha imortal preguiça pra fazer a barba, uma vez por mês ele me barbeia. Acho que sou o único cliente dele que não dorme depois de 2 minutos de massagem facial. E quando ele nota que estou acordadíssimo, começa a narração. Sempre a mesma. Conta como se mudou de “São Joãozinho do Pernambuco” pra Campina, como decidiu ser barbeiro, conta ainda sobre a vida dos irmãos espalhados pelo Brasil e grand finale, como descobriu a mulher da vida dele:

- Ô rapaz (ele não sabe meu nome), pense numa decisão difícil! Eu era noivo de uma, mas andava com outra... peraí... levante mais o pescoço, sabe como é, cabra-moço é um fogo danado...

E eu:

- Sei, sei...

- Pois, veja: conforme lhe disse, a “social” era Rute, a outra era Tonheca. Duas formosuras da “mulesta”. O fogo era fogo... Tonheca era mais astuta. Rute, uma santa...

- Mas seu Dedé, não tinha uma que o senhor gostasse mais?

- Nada, era um sentimento igual... Era uma complicação pra almoçar com as duas
num dia só... foi uma época que engordei muito, viu! – e gargalha gostosamente. - Deixo o cavanhaque?

- Pode deixar... E o senhor escolheu qual?

- No fim, notei uma coisa interessante... Já estava quase decidido por Tonheca... aí foi quando reparei melhor no sorriso dela... “Num” sabe aquela dentadura que mostra mais gengiva que dente?

- Oxente, ela tinha gengivite, era?

- Isso... Aquilo me deu um desgosto, rapaz! Conforme lhe disse (ele adora um conforme), nunca tinha notado nada antes... mas quando vi que Rute tinha a boca certinha, percebi meu amor verdadeiro... E estamos juntos até hoje!

Claro que ele dá umas três voltas no Açude, e ainda pára pra alongar pra me contar a história toda. Em suma, quase 2 horas fazendo a barba! Aquilo é uma terapia...

Tem também Dodó, vulgo Isabel, cheiro de lavanda e 90 anos comemorados numa
festança em janeiro. Além de quase homônima, ela não é nada de Dedé a não ser vizinha, e é minha bisavó. Mora na João Moura a não sei quantas décadas... e até a festa de São João passada, quando como de costume reunimos a família em volta da fogueira e eu sempre lembro de seu Dedé por causa do milho, eu nunca tinha me atrevido a passar do pedido de benção ao falar com ela. Mas aí, vislumbrei aquela figura sentada sozinha perto do portão, e pensei que não haveria oportunidade melhor para um papo.

- A benção, Dodó?

- Deus te abençoe, Olímpio (já ela, sabe meu nome e dos outros 30 e tantos bisnetos).

- Festa boa, né?

- Ah, nessa idade não gosto muito de festa, não... Já passou o tempo.

- Que é isso, Dodô? Se anime! – digo pensando que ela vai sair forrozeando, e ela
dá um riso tipo, “ah, pobre inocente”.

- Gosto muito de ver a família toda junta, mas sempre lembro dos meus filhos que já se foram... Hoje, só me restam seu avô e Lena... já perdi 4. Os netos e bisnetos são uma alegria, mas quando a gente se recorda de um passado bonito, chora que é uma beleza... – e súbito, muda de assunto - Mas hoje é dia de felicidade! Quando eu era pequena... – então, feito o barbeiro, começou a contar toda a história da vida dela... e eu ali, mais surdo do que nunca para as bombas e traques.

O terceiro velhinho, Antônio, 70 anos “compulsórios” e cheiro de canela, foi meu professor de Direito Penal. Alardeia aos quatro ventos que das maiores decepções que tem na vida, uma delas foi ter tido que se mudar da sua residência na João Moura. Não sei se ele conhece “meus” outros dois velhinhos, mas como se fosse combinado, na primeira oportunidade manda brasa do alto de sua erudição:

- Digníssimos colegas acadêmicos, minhas agruras pretéritas são bem mais tenazes que suas prosaicas vertidas lágrimas! Não me descreiam quando afirmo que a cada dia o crepúsculo solar me torna menos senil! – E tome história! Como Dodó e Dedé, ele começa a tecer suas glórias, perdas e ganhos...

Pra mim, os três velhinhos citados são como deveria ser nossa vida. Ora indecisos, ora precisos, ora tristes, ora vibrantes, ora humildes, ora exaltados.

Perdoem por essa mini-crônica pessoal. Mas era só pra dizer: achem seus velhinhos!

Mas, em Campina, só não procurem na João Moura...

“Desculpem a sinceridade... A Campina Grande da qual gosto já está tão distante da que eu vejo hoje que eu procuro na alma o sentimento para ficar alegre com o seu aniversário e não encontro nada...”

Assim comecei uma postagem no face no último dia onze de outubro. Houve, então, para alguns pedidos para que eu descrevesse a Campina Grande da qual sinto saudade...

Descrever uma Campina Grande que não existe mais, na verdade é algo até fácil. Bem, inicialmente é preciso demarcar um tempo: dos anos 60 para cá, pois nasci em 1962... Tudo era muito simples e talvez possa até mesmo causar surpresas para alguns.

Mas vamos lá... Eu começaria lembrando os inesquecíveis términos das aulas nos colégios, quando a maior parte dos estudantes seguia para a Maciel Pinheiro, ficando em um agradável bate-papo até às 18 horas, quando a “Ave-Maria” executada pela Rádio Campina Grande FM determinava que era hora de todos seguirem para as suas casas. Aos domingos, no final da década de 70, o encontro era na “Feirinha do Shopping”, hoje área ocupada pelo Museu Vivo da Ciência.

Rua Maciel Pinheiro nos anos 70

Enquanto hoje as fardas dos colégios são quase semelhantes, no passado eram todas diferentes. Como esquecer a elegância que era o fardamento feminino do Colégio das Damas, assim como do colorido exótico das Lourdinas ? Nos desfiles de Sete de Setembro, as mais belas garotas eram escolhidas para os pelotões de destaque e que se apresentavam ao som de bandas marciais, destacando-se as do Colégio Moderno Onze de Outubro e do Colégio Alfredo Dantas.

O 7 de Setembro era um grande evento no passado campinense

Lembro com saudade, ainda no âmbito escolar, das Olimpíadas Estudantis... Uma semana com as aulas suspensas, havendo um congraçamento de todas as escolas. Jogos nos três turnos nos ginásios da AABB, Clube do Trabalhador e no Campinense Clube. Havia a rivalidade entre colégios, claro, mas sem existir violência. Alguém imagina isso hoje ?

Em termos de esporte, sou de um tempo em que Treze e Campinense eram GALO e RAPOSA, jamais tratados pelos torcedores adversários de “galinha” e “preá”. Recordo que tanto no PV como no Amigão, as torcidas entravam pelo mesmo portão, sem violência alguma. Saudades da GUGA – Galera Unida do Galo; da TOGA – Torcida Organizada do Galo; da CHARANGALO – Charanga do Galo... E, para dizer que não falei dos adversários, havia a TORA – Torcida Organizada da Raposa... O mais importante de tudo: ser adversário não significava ser inimigo...

A "Guga" e a "Tora", torcidas históricas do futebol de Campina Grande

Saudades da Sorveteria Flórida, tanto no Calçadão como ao lado da Panificadora das Neves... Saudades do Café São Braz, também no Calçadão... Do Cisne Lanches, no Edifício Esial e de um restaurante que servia uma “cabeça de galo” perto do Posto de Saúde Francisco Pinto. Saudade da pizza do Restaurante Cave...

Saudades do Capitólio e do Babilônia... Tempos onde, se não havia jogo do Treze na cidade, eu podia assistir a cinco filmes em um final de semana pagando apenas três ingressos. Funcionava assim: na sexta-feira à noite, após o encerramento das aulas, havia a sessão bacurau no Capitólio, normalmente um bom filme exibido durante a semana. Começava às onze da noite e acabava por volta de uma da madrugada. No sábado, no Babilônia, assistia a sessão das nove da noite e ficava para a sessão coruja, que começava às onze da noite. No domingo, finalmente, matinê as quatorze horas e, por volta das dezesseis horas, outro filme. Tudo isso de modo calmo, onde ninguém conversava no cinema nem muito menos se atendia celular (afinal, este último não existia)...

Saudade dos Bares Boião, Galeto, Chopp da Prata (depois Charriot)... Saudade de ouvir música de boa qualidade ao vivo nas vozes de Capilé e Gilmar... Saudade da Boate Skina e da matinê aos domingos. Da “Maria Fumaça”, no sábado à noite. Do “Parque do Açude Novo” e da fonte luminosa e sonora... Saudade da Cabana do Possidônio, que era “sua casa fora de casa, a família reunida”... Saudade do Cantinho Lanches, da raspadinha que era vendida ao lado do Capitólio e do pão com carne moída vendido em frente ao cinema... Saudade do lanche que fazia na noite de domingo na Polimar ou na Center Sucos, na Cardoso Vieira, ou mesmo na Brunella, na Afonso Campos.

A antiga "Boite Charriot"

Saudade de comprar revista da semana que passara na feira do sábado, com o título cortado com régua, sendo vendida por menos da metade do preço... Saudade de ler o Diário da Borborema e da Gazeta do Sertão. Da crônica “Confidencial”, escrita por Chico Maria no Jornal da Paraíba... Saudade de ouvir “Bom dia, Nordeste”, com José Bezerra. “Olha a hora, ouvinte amigo. São exatamente seis horas e vinte minutos. “Hora de tomar o gostoso café São Braz com Vitamilho instantâneo e ler o Diário da Borborema de hoje que publica...”

(TEMA BOM DIA NORDESTE NA VOZ DE CAPILÉ)

Saudade de ouvir a Rádio Borborema, “O Esporte em Marcha”, “A Patrulha da Cidade”, “Retalhos do Sertão”, “A Voz dos Municípios”, “Contos que a noite conta” e “O Amigo da Madrugada”, saindo do ar somente à 01:30 da manhã.... A Rádio Cariri contribuía com “Violas na Cariri” e “Sua Paz Musical”. Na Rádio Caturité, saudade de ouvir “Os filmes do dia” e “Jogo Duro”, com Humberto de Campos, além do inesquecível “Postal Sonoro” “Fulano de tal que parte para São Paulo, com saudade oferece aos seus pais, familiares e amigos e a um alguém com as iniciais MJS este postal sonoro ....” Do ” Brasil de Norte a Sul”, com Clóvis de Melo, a partir das dezesseis horas e, a partir das dez da noite, “Caturité faz amigos”...

Saudade de um tempo em que se vivia e se andava nas ruas com relativa segurança. Que se tinha esperança do futuro e não se pensava no passado, que agora parece mais atrativo que o presente... Saudade, pois, de Campina Grande deste tempo...

Observações:

-Texto publicado originalmente no Facebook de professor Mário;
-Arquivos utilizados nesta postagem, oriundas do próprio arquivo do blog, cedidas por colaboradores.
(*) José Romero Araújo Cardoso

Raimundo Yasbek Asfora e Rosil Cavalcanti uniram-se para escrever a letra de uma das mais belas canções em língua portuguesa, a qual homenageia a segunda cidade do Estado da Paraíba.

 Ásfora e Rosil

Nenhum dos autores de “Tropeiros da Borborema” era Campinense de nascimento. Asfora, nascido em 1930 e falecido tragicamente em 1987, era cearense de Fortaleza, descendente do grupo árabe que aportou na terra de Iracema fugindo da convocação forçada pelos ingleses na primeira guerra mundial, enquanto Rosil, cujas músicas antológicas foram gravadas por Jackson do Pandeiro, que formou a dupla “Café com Leite” com o grande gênio da música regional nordestina, gravou e imortalizou-as, como “Cabo Tenório”, “Lei da Compensação”, “Quadro Negro” e o clássico “Sebastiana”, entre inúmeras outras, era pernambucano, nascido em Macaparana, no dia 20 de dezembro de 1915. Rosil faleceu em Campina Grande, na fria noite de 10 de julho de 1968.

A importância dos tropeiros para a história social e econômica da antiga Vila Nova da rainha foi tão impressionante que não há como dissociar a dinâmica cidade com a presença dos antigos agentes econômicos que vinham do brejo, do agreste, do curimataú, do sertão, etc., bem como de Estados vizinhos, como o Rio Grande do Norte e o Ceará, carregados com seus fardos de pele e de algodão, em direção a Goiana e Olinda, no Estado de Pernambuco, importantes empórios comerciais no século XIX.

 Ilustração dos Tropeiros
(Imagem encontrada em http://conexaoeditorial.com.br/pesquisa03.html)

Campina Grande começou a evoluir quando foi observado que boa parte da produção transportada pelos velhos tropeiros poderia ficar em solo paraibano. O investimento em máquina de beneficiar algodão foi de importância basilar para o desenvolvimento local, pois isto permitiu que a cidade se transformasse em grande exportadora do “ouro branco”, o que significou um dos momentos cruciais do “boom” econômico da “Rainha da Borborema”.

A chegada da máquina número 3, da Great Western, no dia dois de outubro de 1907, representou também as condições para que o progresso fosse implementado a partir de então, pois era a garantia da facilidade para o escoamento da produção algodoeira.

Para vencer os obstáculos representados pelo Planalto da Borborema, conduzindo tropas de burros, precisava ser muito corajoso. Conforme a professora Inês Caminha Lopes Rodrigues, em “Revolta de Princesa: Contribuição ao Estudo do Mandonismo Local”, a barreira orográfica era um grande empecilho para o escoamento da produção sertaneja, o que justifica em parte as decisões dos produtores da região polarizada por Princesa de buscar na época as praças pernambucanas a fim de implementar os negócios. 

Os tropeiros da Borborema sintetizaram a coragem inaudita do povo interiorano em vencer barreira, razão pela qual a imortalidade suscitada na eterna composição de Asfora e Cavalcanti tem a característica de ser oportuna e pioneira na homenagem aos grandes seres humanos que hoje estão representados em monumento em Campina Grande.

A belíssima canção reconhece em seus refrães finais que Campina Grande somente tem a sua grandeza devido à presença dos antigos tropeiros que buscavam pousadas quando demandavam a Pernambuco em tempos idos, mas que as brumas do tempo não conseguem apagar, graças, em muito, à genialidade de dois fenômenos extraordinários que foram beneficiados pela voz e pelo talento de outro gênio chamado Luiz Gonzaga do Nascimento, responsável pela impecável voz para a eternidade da música, pois quando o eterno “Rei do Baião” interpretou “Tropeiros da Borborema” lançou imediatamente as bases da imortalidade desta magistral poesia nordestina surgida nas paragens d a antiga Vila Nova da Rainha.

O acúmulo de capitais a partir das bases lançadas com os tropeiros da Borborema foi sendo responsável pela contínua evolução de Campina Grande, a ponto hoje de ser conhecida como “O Vale do Silício Brasileiro”, devido à presença de várias empresas que desenvolvem tecnologia de ponta, havendo ênfase ainda aos estudos e experiências que resultaram nas impressionantes fibras do algodão colorido, que são orgulhos da cidade de Campina Grande e motivos que a tornaram conhecida internacionalmente como pólo dinâmico e criativo de um nordeste que precisa e pode crescer em ritmo cada vez mais intenso.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contatos: romero.cardoso@gmail.com. (MSN) romeroc6@hotmail.com.
                                                                                                   Por    Mario Carneiro da Costa                  

Não havia no Estado na segunda metade do século XIX, outra  área de maior intelectualidade no interior,  senão em Cajazeiras.  Areia  ainda não havia  recebido o título de cidade  culta e o mais evoluído recanto    cultural   ocorria naquela cidade sertaneja,  onde um filho da então fazenda Serrote, que no futuro seria  aquela próspera cidade, tomou para si a nobre  missão de  alfabetizar  toda  a sua região.  Inácio de Souza Rolim, o Padre Rolim, pessoa  de qualidades e cultura  raras, nas palavras do tribuno Alcides Carneiro  “ensinou a  Paraíba  a ler”. Ali se  desenvolveu o ensino  e, na segunda década  do século passado,  surgiu o colégio que proporcionaria aos jovens de então cursar  o secundário. Estava  assim  a Paraíba servida  por  dois  daqueles  estabelecimentos  e localizados   em pontos opostos : na Capital e no extremo oeste do Estado.

Despontavam como centros  em desenvolvimento as  cidades de Campina Grande e Patos, ambas carentes de instituições de ensino secundários. E foi  daí que na década de trinta passada, foram  plantados naquelas  cidades os embriões do que seriam os  colégios Diocesano  Pio XI e  Colégio Diocesano de Patos.  A qualidade do ensino em ambos,  em pouco tempo, logo se tornou de alto conceito e para eles convergiam  jovens estudantes, deste Estado, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco. O corpo docente era composto por professores da melhor estirpe, contando com padres  e mestres outros que tiveram  longa  formação em seminários do nordeste..

Não tardara os colégios que funcionavam em  instalações improvisadas e precárias, buscarem edificações construídas para aquele fim especifico. Foi o caso do Pio XI, que na fase embrionária funcionou em dependências anexas a Matriz da cidade, atual Catedral. E a cada dia aumentava o numero de alunos neste educandário que já funcionava na edificação nova da rua João Pessoa,  com a modalidade de  internato para o sexo masculino, onde o aluno interno não somente burilava a sua formação moral, como  doméstica e social.

Naquele  estabelecimento,  regiamente  instalado em um prédio  com  primeiro andar  e forma de  H  maiúsculo este autor chegara de calças curtas  na década de 40 do século passado e a ele estivera ligado   até  anos  de 1960. O colégio  reservara para o internato o primeiro andar e ali se  localizavam,  refeitório,  cozinha, dormitório, salas de estudo, biblioteca  e alojamento do diretor e auxiliares imediatos. Desativado em 1946, passou a ser  uma espécie de deposito, para onde eram recolhidos bancos, carteiras  e peças outras daquele acervo.   O acesso a  área  ficara   proibido  para   alunos  de  então.

A  essa  altura,  o  Pio XI   tinha por diretor o Padre Emídio  Viana Corrêa, cidadão  enérgico, de semblante fechado e que mantinha  a disciplina no  educandário na mais perfeita ordem. Na intimidade, o que somente  este  autor veio a conviver  já adulto e professor do Colégio,  o  Padre,  como era tratado o diretor, era uma pessoa alegre, risonha, cheio  do  que  se chama  vulgarmente de  “ repentes “, espirituoso, critico, amigo, inteligente, culto e possuidor de invejável coragem pessoal. O professorado de escol era  formado  por pessoas competentes, assíduas  e de postura e procedimentos  dignos  do  mestre  daquela  época.  As salas de aula, mosaicadas, forradas, providas de iluminação  natural,   eram  diária e rigorosamente limpas  por RITA ,  uma  mulher de feição chaboqueira,  velha  e   feia.   Seu  zelo pelo  trabalho  era   revelado pelo visual deixado  nas   dependências que além das salas de aula,  compreendiam  a sala dos professores, o gabinete do diretor e a secretaria, contíguas e  situadas  na  parte de ligação das hastes do H.

O colégio desde cedo primou  pela qualidade do ensino  e para tanto empenhava-se em adquirir tudo   o que se fizesse  necessário  para melhor aprendizagem do aluno.  Daí haver feito aquisição de  alguns instrumentos para ministrar aulas da cadeira  de  Ciências   Físicas   e Naturais. Neste contexto, incluiu um  esqueleto humano de alta  qualidade.  Absolutamente  perfeito,  de  porte  muito  elevado,  era totalmente articulado e um só osso por pequeno que fosse, não faltava.  Um dente sequer deixava de constar  Uma perfeição de peça. Pelas  dimensões ósseas, supunha-se  haver sido de uma pessoa do sexo masculino  o que  jamais foi pesquisado. Era mantido na sala do diretor, em uma estante prismática de quatro faces,  sendo  três  de vidro., com altura  aproximada de dois metros e  as bases quadradas,  de madeira,  com  cinqüenta centímetros de lado.  O conjunto era provido de uma porta na parte da frente, por onde era retirado o esqueleto,  permanentemente pendurado por um gancho     em um suporte na tampa superior.  Daquele local  era  levado  para  a   sala  de  aula.    

José Augusto Ribeiro,  Zezito,  de saudosa memória,  sempre se propunha  trazer  o esqueleto  para  a classe e antes da chegada do professor Almeida, respeitado e competente mestre,  Zezito provocava  risos, colocando um dos braços  sobre a área dos seios e a outra mão  cobrindo a genitália, e  mantinha   com  o esqueleto um monólogo ,quase sempre  hilariante.        
                                                                                                                  
RITA primava pela qualidade de seus serviços. Porém, no que concernia ao  box do esqueleto, muito ficava a desejar   É  que ela mantinha por ele profundo respeito,  grande    medo e “ pela  sua alma, rezava todas as noites”. Quando se aproximava do Box que ela  chamava  de “CAIXÃO DE VRIDO” , fechava  os  olhos, virava-se para ele e buscava espaná-lo  de costas e,   embora a  tarefa fosse  executada  com um  artístico  espanador de penas usado no gabinete do diretor, o serviço ficava a desejar.

Rita contava muitos anos naquela atividade, até que um dia, já de cabelos   brancos, velha e cansada, surgiu no colégio, uma jovem morena clara, bonita e alegre, procurando trabalho. Foi admitida para auxiliar Rita. A recém-chegada, de nome Odete, além do visual bonito, tinha uma voz linda e cantava muito e alto, o que foi proibido nas horas de aula pelo diretor.

Odete não tinha medo do esqueleto e assumiu a função de Rita. Tempos depois,  aquela serviçal  de outrora, se tornaria a esposa do  diretor  que deixara  o clero para  se tornar  seu   marido.  Rita, por sua vez, mudou-se para o outro mundo. O histórico Colégio Pio XI, que tanto distribuiu cultura através dos anos, fechou suas portas,  virou passado e o velho esqueleto  tomou rumo  por este autor desconhecido.  

Por Mario Carneiro da Costa  -  Fev/ 2012
    
Vivi minha adolescência em Campina Grande – PB, centro dos  mais desenvolvidos do  interior do Nordeste naquele tempo.  Ali cheguei, em 1947, garoto para estudar no Colégio Diocesano Pio XI, conceituadíssimo estabelecimento de ensino  na região. No convívio  com os colegas de classe,  pouco a pouco  as   amizades foram surgindo e estreitando-se, tornando-se  cada vez mais sólidas  ao passar dos tempos.

Excursão do Colégio Pio XI em 1951 (Mário Carneiro e Francisco de Assis Nóbrega)

A convivência anos seguidos no educandário com colegas outros, não  obrigatoriamente da  mesma  turma,  possibilitava  um relacionamento  quase  fraterno. Inúmeras foram as amizades nascidas naquela época que perduraram através dos tempos e chegaram aos dias atuais, sendo impraticável declinar todos  aqueles nomes, uma vez que o Colégio Diocesano Pio XI foi um verdadeiro celeiro de pessoas que alcançaram renomado destaque no cenário estadual, nacional e até internacional !

Para que o leitor não fique totalmente alheio a tal afirmação, citarei Ivandro Cunha Lima, ex–senador, deputado federal e pessoa  de  larga representação  em nosso meio; Juarez Farias, que entre outros tantos cargos importantes, foi presidente da Sudene e assumiu o governo do Estado da Paraíba; José Soares Nuto, ex- presidente do Banco do Nordeste; José Moisés de Medeiros, renomado médico na cidade; Bóris de Farias Silva, ex-diretor presidente da  Nestlé na Suíça; Demócrito Reinaldo Ramos, ex-Ministro-chefe do Ministério da Justiça; Ronaldo da Cunha Lima, ex-governador do Estado, ex-deputado federal e ex-senador; Gleriston Holanda de Lucena,  detentor de chefia de inúmeros cargos públicos.

Ronaldo Cunha Lima e Ivandro Cunha Lima no Carnaval Campinense
(Ex-alunos do Pio XI – Fonte: Jornal da Paraíba)

Entre outros tantos nomes, citaremos também Raimundo Adolfo, conceituado profissional em engenharia civil com passagem marcante em diversos cargos públicos, Francisco de Assis Nóbrega, santaluziense que ocupou  elevados cargos no Banco do Nordeste e Arnaud Macedo de Oliveira,  de Parelhas no Rio Grande do Norte, onde foi político de grande prestigio, elegendo-se prefeito por  diversas vezes.

Naquele tempo Campina Grande sofria com a reduzida disponibilidade  de abastecimento d’água e precário fornecimento de energia elétrica. Daí haver racionamento para o atendimento em ambos os serviços de modo que, a distribuição era feita por malha urbana, em média três vezes por semana, do que resultava precariedade no desenvolvimento dos mais variados setores.

Um  deles  era  referente   às   atividades   escolares. Integrante  daquele  universo  de   estudantes,  este  autor  e  aqueles  três  colegas de turma,  Raimundo, Francisco  de  Assis  e  Arnaud , chegaram ao término do curso ginasial em 1951, época  na qual já se grupavam e, de quando  em  quando, estudavam juntos certas matérias. Agora fazendo o Curso Científico, (atual Ensino Médio), o grupo esquematizou um plano que lhe permitisse estudar durante a noite nos dias em que houvesse luz na casa de Raimundo.

Tudo acertado, este preparou numa garagem para caminhão localizada nos fundos da casa dele, ocupada esporadicamente,  o devido local  e em uma das paredes construiu um quadro negro no estilo da época. Ali, os quatro jovens vararam noites e madrugadas, na busca de ampliar conhecimentos  indispensáveis para investidas futuras. 

Tanto Campina Grande como a capital do Estado  não possuía  qualquer curso superior. Fazia-se necessário o estudante  seguir  para Recife-PE,  centro  dos mais  evoluídos e  que possuía  escolas das  mais  diversas  áreas.  Era mister um preparo que permitisse aprovação no vestibular desejado. E   com aquele pensamento o grupo deu início  ao  estudo  naquele  local.

Foram inúmeras as horas ali consumidas com tal objetivo. A atividade começava  por volta  das 20  horas, não tendo hora para terminar. E assim  varávamos  noites  e   madrugadas. No entorno da meia-noite,  havia  uma  pausa, quando era feito um lanche, durante o  qual se comentava a  respeito de certos assuntos. 
Curiosamente, jamais se falou em futebol ou política. De quando em quando falava-se sobre alma, assombração ou coisa  semelhante.  Eram,  apenas, assuntos que quebravam o cansaço das horas já decorridas.

Certa vez, já feito o lanche de costume, e um pouco mais de meia- noite, o assunto abordado foi assombração. Cada um fez um rápido comentário envolvendo alma.  Francisco de Assis, na  intimidade Chico, era  um rapaz de parcos recursos e morava no bairro da Conceição, em local de casas simples, nas proximidades do Convento de São Francisco. Narigudo, ele era entre nós tratado por “Chico  Pinóquio”. 

O Tradicional Convento de São Francisco
(Foto encontrada na Comunidade de Campina Grande no Orkut)

A conversa naquela madrugada foi além do tempo habitual. Lá para as tantas, Chico desafiou os fantasmas. “Não tenho medo de nenhum deles. Podem me aparecer quantos queiram”. Raimundo duvidou das palavras do colega que as reiterou dizendo que fazia aquele desafio em pleno cemitério.  Posta em dúvida a sua coragem ele convidou os três para ouvi-lo “campo santo”, que ficava a uns mil e quinhentos metros do local  onde estudávamos e a mais de dois mil da casa de Chico. E,  naquela  madrugada  fria e escura, saímos  os  quatro, em rua sem calçamento, para o cemitério do Monte Santo, único existente na cidade naquela época.

Cemitério do Monte Santo
(Google Images)

Um robusto portão de ferros redondos separava a área dos mortos  daquela dos vivos e era provido apenas de um ferrolho. Pinóquio abre o  portão, adentra no cemitério uns 20  metros e, com toda a força dos pulmões  faz a sua confirmação: “Almas penadas, me escutem: estou aqui  para  provar  que não  tenho  medo  de vocês. Apareçam-me  com  muito  dinheiro . Lisa, eu não quero conversa com uma só”... E caminhou de volta rumo a nós  três que testemunhamos o pedido. 

Já  nos afastando do local, calados e espantados com a coragem dele, eu disse a Chico que aquelas palavras haviam sido “da boca para fora”. Incontinenti,  ele se vira para o cemitério, caminha  rápido até o portão, põe as mãos em dois dos varões e  sacolejou  o conjunto dizendo: “Não pensem que eu estou brincando, almas penadas. Lisa, não quero encontrar uma só de vocês. Com dinheiro, venham todas.”

A coragem de Chico impressionou a nós outros. No local de estudo, não houve mais ambiente para se aprender qualquer coisa naquela noite.  Resolvemos parar por ali. Arnaud, que morava distante, ficou na garagem, acomodado em uma preguiçosa. Eu  desci a Rua Antenor  Navarro e a uns 150  metros cheguei à casa onde morava. Chico seguiu  para a rua 15 de novembro, na  Palmeira, donde rumava para a sua  residência na  Conceição.   

Ele  caminhava com os ouvidos aguçados, percebendo o mais  leve  dos  barulhos. Foi aí que escutou uma música das que se cantavam em velórios naquela época:  “Aaavééééééé – aavéééééééé´....  Aaavéééééé Maaariiiiii-ia... Aaaavéééééééé´- aaavééééé...  Aaavéé Marii-ia”.
  
Ao ouvir tal canto, Chico parou, aguçou mais ainda a audição, eriçou os pelos do corpo e recuou, dando outro rumo a direção que escolhera,    observando que a voz aos poucos desaparecia. Saiu pela Antenor  Navarro até a Rua João Pessoa, na altura da “Garagem Grande” (atual Praça Félix Araújo), onde dobrou para a esquerda e foi até o Banco Magalhães Franco (esquina da Marques do Herval com o Beco do 31).  
Ali  seguiu  pelo  Beco do  31,  até a Maciel Pinheiro.  Depois,  pelo Beco dos  Bêbados, chegou a  Rua dos Paus Grandes (atual João Alves de Oliveira), passou no Forró  de Mulata  e no Ponto Cem Réis, no  firme  propósito de  alcançar  à  sua morada  pelos  fundos.

Rua João Alves de Oliveira (Antiga Rua dos Paus Grandes)

Para o seu espanto, a melodia macabra ressurgiu:  Aaavééééééé – aavéééééééé´....  Aaavéééééé Maaariiiiii-ia... Aaaavéééééééé´- aaavééééé...  Aaavéé´´Mariiia” ...  Chico tomou-se de medo e se lembrou do desafio que fizera as almas penadas horas antes. A melodia, agora, lhe chegava  aos ouvidos de  forma bem audível.  Completamente  apavorado,  ficou  atônito. Desta vez, por mais que se afastasse, a cantoria não  deixava de ser ouvida.

Já passava das quatro da madrugada. No convento de São Francisco, naquele tempo, celebravam-se missas a partir das cinco horas e, muito  antes,  fiéis para lá já se dirigiam. Surgiu  uma  daquelas  pessoas e que se encontra  com Chico. Este, sem saber se era alma ou gente de carne  e osso, toma uma   dose de coragem  e indaga  se ela vai para a missa.  

A resposta positiva deu ao medroso coragem para acompanhar a pessoa, que logo observou: “Vou chamar o Irmão Antonio e dizer que  Frei   Joaquim,  um frade  caduco e  fujão, saiu das dependências  do convento e está  cantarolando nas ruas adjacentes vestindo só um camisolão branco”.     

Pinóquio respirou aliviado, refazendo as forças. No dia seguinte, relatou-nos o fato, adiantando que naquela madrugada  acabara  com todo  e  qualquer negócio que programara com as almas, com  quem de modo  algum   desejava encontrá-las .

Vem à calhar, no momento em que ainda lamentamos o recente fechamento do Diário da Borborema, o texto abaixo, escrito por Josemar Pontes do Ó, de saudosa memória, acerca da participação do magnata Assis Chateaubriand em três importantes equipamentos implantados em Campina Grande, ao longo da sua História. Gabriela do Ó, assídua colaboradora quem nos enviou o texto seguinte:

CHEGADA DA TELEVISÃO, URNE E MUSEU
(Josemar Pontes do Ó)

Quando o Dr. Assis Chateaubriand, paraibano e dono da maior cadeia de comunicação do Brasil, comprou de uma só vez, nove estações de televisão para distribuir entre as principais cidades brasileiras. Edvaldo do Ó, conseguiu junto aquele empresário, colocar Campina Grande no rol das grandes cidades: Curitiba, Florianópolis, Vitoria, Salvador, Campina Grande, São Luiz, Fortaleza e Belém. Pensando bem, foi o esforço de Edvaldo do Ó que chegar televisão em nossa cidade. E a inauguração desse entretenimento se deu na mesma data e horário nas nove cidades escolhidas.

Dr. Williams de Souza Arruda, incentivado por Edvaldo do Ó, seu Secretário de Educação, criou a Fundação Universidade Regional do Nordeste – FURNE, a qual com aprimoramento e adaptação, passou a chamar-se Universidade Regional do Nordeste – URNE. Entretanto, cumpre aclarar que o governador Dr. Tarcísio de Miranda Buriti governador do Estado da Paraíba estatizou socorrendo-a da crise financeira que atravessava. Esse ato governamental se deu por conta do grande conceito que já possuía a nossa instituição de ensino superior.

As dificuldades eram tantas que estourou uma greve por falta de pagamento aos professores e funcionários, menos para os lentes: Anibal Porto, Promotor de Justiça, Afrânio Aragão, dono de um Cartório, Pereira Diniz, Procurador da Prefeitura e Alcindor Villarim, Promotor de Justiça, que mesmo sem receber seus proventos pela universidade, lecionaram por catorze meses sem faltar uma aula e por mais tempo se preciso fosse. Com esse amor a instituição, vê-se o alto grau de aceitação dessa universidade na região. Entre os estudantes existia mais forasteiro do que mesmo filhos da terra.

A professora Marlene Alves foi reeleita para mais um reitorado, prova que desenvolve com sabedoria, haja vista a boa receptividade entre professores, funcionários e alunos.

O Museu de Artes Plásticas que existiu no prédio ao lado da Secretaria das Finanças de Campina Grande, foi ali instalado devido o esforço de Edvaldo do Ó, junto ao Dr. Assis Chateaubriand, o qual também interessado no assunto conseguiu que várias empresas por imposição fizessem doações em quadros, para nossa casa de cultura. Unidos e pensando no engrandecimento de Campina Grande, esses dois homens possuidores de alta cultura sempre serão lembrados com respeito e admiração.
Por Mário Carneiro da Costa *

                O prédio onde funcionava a Escola Politécnica, na época em que ali estudara o autor, situava-se no centro urbano de Campina Grande. Era um prédio de construção sólida e linhas arquitetônicas requintadas, edificado em 1924 pelo então governador do Estado, Dr. Solon de Lucena, com o propósito de ali instalar-se um grupo escolar.

                A construção tem forma de “u” maiúsculo, com a base voltada para a Rua Floriano Peixoto. É composta por oito salas nas laterais, um hall após a área de entrada onde se acham duas das salas, e alpendre contornando a área livre central. As duas salas de frente eram ocupadas pela secretaria e gabinete do diretor.  Das restantes, uma se destinava à biblioteca e as demais às salas de aula.

               Dada a localização do prédio, a Escola adquiriu a condição de permanecer, diuturnamente, com as portas abertas e com o fato curioso de que sempre ali era encontrado um aluno estudando sozinho ou com um ou dois colegas. Dada a forma arquitetônica e localização, era ali que os alunos se encontravam para baterem papo na área externa de acesso, ou mesmo na parte interna e, em dias feriados ou altas madrugadas, tirarem um bom cochilo, deitados nos bancos existentes nos alpendres. 

               Curioso é que em qualquer destas circunstâncias, o colega recebia o respeito dos demais, mesmo daqueles bagunceiros, a exemplo do “Salomão Bascuio”, posteriormente Dr. Salomão Anselmo, internacionalmente conhecido na área de saneamento. Figuras espirituosas e irreverentes, como Zé Pereira, Fernando Uchoa, Costa Filho, Adauto Medeiros e outras respeitavam o colega estudando. 

               A Escola era o local também para as anedotas, para os acertos de farras e, porque não dizer, de curtir ressacas também. As brincadeiras eram na maioria sadias, não se registrando agressões ou ocorrências que denegrissem a imagem do colega.  

         Um coronel com idade no entorno de 50 anos, chegou para comandar um batalhão do Exército da arma de engenharia, aquartelado em Campina Grande. Embora com alguns fios de cabelos brancos, buscou informação de como estudar engenharia civil e submeteu-se ao vestibular, juntamente com outros oficiais, do que resultaram algumas aprovações, entre as quais a dele, de um major seu subcomandante, e uns poucos outros oficiais. 

           Tivera início o ano letivo e as aulas de algumas cadeiras foram programadas de forma tal que aqueles alunos pudessem assisti-las. De uma boa quantidade de cadeiras estavam dispensados, pois foram cursadas na Escola Militar. O comandante, simpático e bonachão, e também os seus comandados, logo se ajustaram aos colegas civis e viviam num clima de harmonia e amizade, participando dos gracejos, anedotas e gozações levadas a efeito por aqueles mais jocosos, onde se destacavam os já citados acima e outros mais. O coronel, esquecendo-se do posto, misturava-se no contexto dos colegas sem farda. 

                No centro de Campina Grande, ocupando dois andares superiores de um prédio de três pavimentos, funcionava uma “casa noturna”, freqüentada pela classe média alta da cidade e era conhecida por “Cabaré de Baiana”. Ali eram apresentados bailarinos ou bailarinas, rumbeiras, transformistas e outros artistas do gênero. A casa era cheia e Baiana impunha a mais rigorosa ordem. 

                 Numa certa madrugada de domingo do ano de 1958, a turma concluinte, num total de oito alunos, aproximava-se da casa de Baiana, quando deu com um dócil cavalo arrastando uma corda. Logo veio a idéia de apresentar o animal no salão do cabaré e as providências para tanto foram tomadas: uma parte puxava o bucéfalo pela corda escada acima e a outra o empurrava.

          A resistência do animal fora enorme e não subia de forma alguma. Um dos estudantes fumava charuto e teve a iniciativa de levantar a cauda do cavalo e tocar com a brasa naquela parte. Resultou um enorme salto para cima e, com tal expediente, chegaram ao topo da escadaria e deram entrada no salão daquela casa noturna.

         Baiana ficou possessa e logo chegou a polícia, que levou todos presos. Um dos integrantes do grupo era oficial do CPOR e, na delegacia, ficou de fora. Veio-lhe o pensamento de chamar o major para intervir no caso e assim procedeu. Decorrido certo tempo sem que o grupo fosse liberado, entendeu que o subcomandante também ficara preso e resolveu chamar o coronel, a quem narrou o fato. Este, atordoado, sequer trocou de roupa e, no se próprio veículo foi a delegacia, lá chegando no instante em que todos estavam sendo liberados. O fato tornou-se jocoso para o coronel e o delegado, que nenhum registro fez do ocorrido, que também não foi explorado nas notícias policiais.       
                   
               Por aqueles anos, chegaram para fazer vestibular dois jovens de fina educação e gestos sinuosos. Mesmo com aquele hábito de não denegrir a imagem de qualquer colega, os colegas mais espirituosos não demoraram em apelidá-los de Piedosa e Melindrosa. Foram aprovados, estudaram alguns anos e ficaram para os colegas de outrora com os nomes que receberam na Escola e que perduram até hoje. 

            O sábado era um dia de muitas aulas, após o que os alunos ficavam rotineiramente brincando no mais salutar bate-papo. O professor de eletrotécnica, a título de aula prática, construíra um pequeno e portátil rádio transmissor, que depois ficara em poder da turma. Os seus integrantes, através dele, fizeram toda espécie de brincadeira, inclusive a de entrar clandestinamente na freqüência de determinada emissora local e, depois de dado o prefixo, informar que “Por motivo superior, hoje não vai ao ar o capítulo da rádio-novela Maria La-ô”, que alcançava incrível audiência para os padrões locais.    

           O coroamento de tais brincadeiras, porém, aconteceu noutra oportunidade. Na Escola estudavam dois irmãos cearenses, que não eram os únicos na condição de irmãos. A comunicação usada por eles para Fortaleza era feita através da Rádio Meridional. Certo dia, por volta das 16 horas, o telefone toca e alguém procura saber se Aquino (o “Cara D’Alma”) e seu irmão estão na Escola. Respondido afirmativamente, foi dito que era uma comunicação da capital cearense através da Meridional, e que, por favor, chamassem o Aquino, o que foi providenciado de imediato. 

                 “É o serviço da Meridional” disse a voz ao telefone. “Aqui é Aquino, pode falar”. E a voz continuou: “Venha urgente. Papai inventou de ser veado” (naquele tempo, o “bicha” de hoje, era chamado “veado”). “Como?” – indagou Aquino. “Como eu não sei, mas é um escândalo!”, concluiu a voz pelo telefone.  E a comunicação pifou. Os dois irmãos estavam comprando as passagens no Lóide Aéreo para logo mais viajarem, quando chegaram àquela agência os responsáveis pelo trote. Dr. Morais, o diretor, ao tomar conhecimento das brincadeiras, recolheu o rádio ao laboratório da Escola.

                 Não seria justo concluir esses relatos sem fazer registro aos abnegados mestres, Antônio da Silva Morais, Giuseppe Gióia, Austro de França Costa, Max Hans Karl Liebig, José Marques de Almeida Júnior,  Edvaldo do Ó e Josemir de Castro, que coesos no objetivo comum tornariam realidade aquilo que parecia  impossível  aos olhos de muitos.

                  É mister observar que, para a concretização daquele ideal, não havia qualquer disponibilidade financeira e os gastos eram cobertos com recursos obtidos entre os componentes do grupo, resultando para alguns deles  dificuldades econômicas. Mesmo assim, o empenho do tenaz conjunto idealizador resultou que a Escola Politécnica já iniciasse o funcionamento com uma boa estrutura. Assim, a instituição contava com salas providas de boas cadeiras para os alunos, anfiteatro, laboratório de química e de física. Dispunha, também, de modelos de certos motores e máquinas, projetores, instrumentos topográficos, pantógrafo, pranchetas, sofisticado tecnígrafo, rico e importante mostruário de pedras (indispensável na cadeira de geologia econômica) e uma biblioteca com mais de dois mil e quinhentos títulos técnicos à disposição de alunos e professores.

               Dado a escassez de livros em nosso idioma, estes eram encontrados predominantemente em espanhol, francês e inglês, o que se constituía certa dificuldade do aluno de então. O ensino era absolutamente gratuito, assim como era todo o material, tal como papel para provas, lápis de grafite com durezas diferentes para desenho, borrachas apropriadas, tinta para desenho, normógrafos que, quando solicitados, eram fornecidos na secretaria. Tudo era utilizado, conscientemente, pelo aluno, que o devolvia após o seu uso.   

               Inúmeras foram as viagens do Dr. Antônio Morais ao Rio de Janeiro, à época Capital da República, e, ali permanecer dias após dias, palmilhando Departamentos e Secretarias,  na busca de tornar aquele ideal em algo concreto e, em anos futuros,  realizar o sonho de  muitos jovens, entre os quais  figurava este autor.

               Assim nasceu a Escola Politécnica da Paraíba, hoje, Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal de Campina Grande. Escola cujo conceito envaidece hoje os velhos engenheiros que nela se graduaram.



*Capítulo do livro: “Trajetória de um sonho – Passos do sonhador”, de Mário Carneiro da Costa, engenheiro civil da turma de 1960.

 
 
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