Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
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 A Estação de Campina Grande

O material a seguir, uma raridade, nos foi enviado tempos atrás por um usuário do orkut, que utiliza o nome de "Campina Grande". Trata-se de uma matéria do Diário de Pernambuco de 06 de outubro de 1907. Nela é retratada toda a epopéia da chegada do Trem a Campina Grande, fato que mudou a história da cidade, impulsionando-a economicamente. Transcrevemos na íntegra o documento, inclusive mantendo a grafia da época:

FACSÍMILE DA REPORTAGEM DA CHEGADA DO TREM EM CAMPINA GRANDE

DIÁRIO DE PERNAMBUCO - DOMINGO, 6 DE OUTUBRO DE 1907

O RAMAL DE
Campina Grande

Sua inauguração no dia 2 do corrente. Serviço mal feito. Incommodos e desgostos dos passageiros. O que é a estrada. Bonitas edificações. Um nicho ao leito da linha. Campina Grande e seu desenvolvimento. O que o a cidade. Impressões de Itabayanna. Antonio Silvino e suas proesas. O Diário renova as queixas. Appello ao Sr. J. Lorimer. O serviço de nossa reportagem.
Devendo realizar-se a inauguração do Ramal de Campina Grande da Great Westers, o Diário incumbiu o seu repórter que estava a serviço em Floresta dos Leões, de acompanhar a primeira viagem do trem ate aquella cidade.
Descrevendo minuciosamente o que ali ocorreu, enviou-nos o nosso companheiro a seguinte missiva:
No desempenho da nossa commissão vamos hoje offerecer aos leitores do Diário uma descripção completa e minuciosa do que foi a inauguração do Ramal de Campina Grande, Great Wesrtn, no dia 2 do corrente mez.
A impressão que trouxemos da abertura desse tráfego foi a peor possível, e sómente quem teve ocasião de assistil-a, figurando entre o grande número de ex-maratonistas, poderá ajuizal-a, reconhecendo não haver exagero nestas nossas palavras, que escrevemos desapaixonadamente, sem um desabafo qualquer. E sim assim nos expressamos é que a Great Western, não sabemos a que atribuir, foi de uma infelicidade sem nome na inauguração do ramal de Campina Grande, consentindo que fossem maltratados inumeros passageiros, inclusive famílias, durante cinco enfadonhas horas em uma viagem de trem de ferro, sem as acommodações precisas.
Não acreditamos que houvesse na inauguração um propósito da companhia... Longe de nos esse pensar, mas o facto é que houve um descuido da parte dos directores, deixando que corresse no trem de abertura de linha um material rodante estragado, talvez o peor da empresa.
A digna superindentencia da Great Western deveria compeender que se tratando da inauguração de uma linha importante, como essa de Campina Grande, muito embora não fosse ella solenne, grande seria o numero de excursionistas desejosos todos de os seus progressos e apreciar o bonito espectaculo que sempre se apresenta ao espírito observador quando se procura vencer centenas e mais centenas de kilometros desconhecidos e pela vez primeira cortados por uma estrada de ferro.
Assim não pensaram os directores da companhia e, ao envez de offerecerem aos viajantes os melhores confortos, fazendo correr um comboio decente com carros luxuosos ate a locomotiva bôa, deixaram-nos um limitado numero de vagões insufficiente ao regular numero de passageiros, e ainda mais puxados por u’a machina velha, intrafegável mesmo...
E todas as queixas e aborrecimentos dessa viagem de quarta-feira ultima se voltaram para essa locomotiva, quasi imprestável, sempre pregando quando outra, de pressão superior, sem difficuldade venceria a subida da serra Borborema, não incommodando como acontecera, ao viajante curioso, merecedor de melhor tratamento.
O aborrecimento dos passageiros ocorreu logo em Itabayanna estação destinada ao cruzamento dos trens do Recife e Parahyba do Norte, indo até Campina Grande, o ponto terminal do ramal.
Começou com a partida do trem e foi em Itabayanna que, reconhecendo o perigo a que se expunham os passageiros, aboletados todos em promiscuidades nos dois carros de 2ª classe um de 1ª, tivemos ocasião de falar com o chefe do movimento o sr. Laurentino Teixeira, pedido-lhe uma providencia qualquer.
Foi naquella estação, na respectiva plataforma, ainda com o trem parado, que dirigindo-nos ao sr. Teixeira ouvimol-o responder :
- Que hei de fazer, se me encontro desprovido de carros?
Hei de fabrical-os ?...
- Sim, retrucámos, o senhor não há de fabrical-os, mas também não deve consentir que parta um trem dessa forma: deve providenciar como de direito, pois do contrario é fazer perigar a vida de grande numero de pessôas .
- Queixa-se o senhor? respondeu-nos o chefe do movimento, com um certo enfado, restituo-lhe o dinheiro de sua passagem...
Desculpamos a zanga do sisudo chefe: o atropello em que se encontrava obrigava-o a ser indelicado para quem o tratava com urbanidade e apenas servia de intermediario do pedido dos viajantes, mal acommodados.
Desculpamos a carranca do chefe do movimento e na certeza de ficarem as coisas naquelle pé, procuramos um lugar para nossa viagem, indo encontral-o num pequeno compartimento de um carro mixto, velho e estragado, á ultima hora preso ao trem inaugural...
E nesse canto ficámos alguns minutos em reflexão, censurando o desapreço da companhia para com o publico, a maneira por que indelicadamente, eram tratado os passageiros em o numero dos quaes se encontravam pessôas conceituadessimas das sociedades pernambucana e parahybana.
Acreditamos que o descuido da Great Western não mais se repetirá e com a continuação dos tempos ella reconhecerá o seu erro, procurando tratar melhor o publico.
Tanto que acreditamos no que dizemos que sem querermos mais desenvolver, estes ligeiros reparos, testemunhados por todos aquelles que viajaram no dia 2 do corrente, passamos a descrever a viagem, conforme as notas encontradas em nosso canhenho e hoje coordenadas...
Marcava o relógio da estação de Itabayanna, 3 horas e 10 minutos da tarde, quando a um signal do chefe do trem, o sr. Abílio Wanderley, partíamos a um atrazo de 40 minutos, pois a saída se marcara, segundo o horário, para 2 horas e 20 minutos.
O trem saia vencendo o triangulo que ali se encontra para galgar uma grande volta traçada. A estrada a principio, entrecortada de curvas, obrigava o comboio à marcha lenta, quase sem velocidade, dando tempo ao passageiro curioso melhor observar o caminho: aqui linda paisagem que sómente é própria das regiões do matto, onde a natureza parece caprichosa sempre se mostrando pródiga, dotando-a com edeficantes e belos panoramas, ao alcance da vista: acolá campos vastos e vastíssimos, mais abundantes do que cultivados, em demonstração a indolência que é comum ao brasileiro e que mais se arraiga no typo do sertanejo.
A locomotiva vencia sempre aos poucos os kilometros, deixando a descoberto os quadros mais lindos que se podem imaginar...
Um silvo rouco e forte, anunciava algo de extraordinário: com effeito: o comboio se approximava de uma enorme ponte, um bem feito trabalho pênsil, cortando o rio Parahyba , à semelhança da que se encontra nas proximidades da estação de afogados, linha central, cortando o nosso saudoso Capibaribe .
Essa ponte esta assentada no kilometro 5 e tem 150 metros de vão.
Bonita ponte!... deixamos escapar, no momento em que a portinhola do carro procurávamos observal-a.
- Bonita não há duvida, adeantou um passageiro, e talvez, a maior do estado.
- Tenho viajado bastante, adeantou nosso companheiro de viagem e somente uma ponte eu conheço quase pode ser igual a essa : é uma existente na estrada de ferro de Baturité, no Ceará, sendo que esta lhe é superior...
Por esta comparação o leitor poderá fazer uma idea desse bem feito e bonito trabalho que custou a Great Western um anno para sua construção .
Vencida a ponte, mais adeante, encontramos bem disposto corte de pedras de 20 metros de altura.
Optimo serviço, arriscadíssimo.
Ao transpor esse corte, ouvimos uma comparação de um passageiro:
- Tão bem cortados esses blocos de pedras que parecem mais enormes pedaços de queijos aparados por uma navalha...
Não havia tempo para meditações: o trem apitava entrando na plataforma de

LAURO MULLER

É um ponto de parada, destinado mais a provisão d’agua às locomotivas.
A companhia mandou construir ali uma elegante estação, que na parada do trem se apinhava de populares, na anciã de contemplar o seu movimento.
Eram moradores do povoado Guarita, disseram-nos, os quaes ali foram assistir à chegada do comboio.
Lauro Muller não tem casario; duas ou três casinhas completam com o pequeno chalet da estação, o seu todo...
A Great Western, talvez por conveniência de serviços, resolveu fazer ali uma parada.
Como affirmâmos a estação é elegante, regularmente subdividida, servindo como chefe o sr. Honório Lemos, que ao mesmo tempo exerce as funcções de telegraphista.
Eram 3 horas e 40 minutos quando, ao signal convencionado, na balburdia alegre daquella centena de populares em contemplação ao movimento do trem, deixamos esse ponto de parada.
O comboio marchava agora com alguma rapidez; naturalmente descambava numa descida.
Sempre o sublime espetáculo já ligeiramente descripto.
Seriam 3 horas e 53 minutos quando entravamos na gare de

MOGEIRO

um povoado, que como o primeiro, fica a uma certa distância da estação.
O mesmo quadro de Lauro Muller: a plata forma da estação cheia de matutos, com reboliço ensurdecedor, no desejo ardente de conhecer um vapor de terra, como ouvimos dizer.
Boquiabertos, de braços cruzados, em pé no calçamento da gare, olhavam com uma certa desconfiança para o interior dos carros, vendo ali passageiros amontoados sobre outros, e uns sentados nas próprias maletas de viagem, maldizendo a hora da viagem, o cansaço da mesma.
Bem construída é a estação de Mogeiro
Como a primeira, elegante, é provida de conforto necessário ao respectivo encarregado e chefe, o sr. Tertuliano de Oliveira.
Poucos minutos de demora ahi tivemos, saindo em direção ao

INGÁ

Uma outra parada, estação da villa parahybana que lhe deu o nome.
Não podemos descrever a villa, atraz de uma pequena serra, à vanguarda da estação e a distancia de 2 kilometros.
Mesmo assim na passagem do trem avistámos o seu casario, destacando-se claramente um bonito cruzeiro.
Ainda o movimento das duas primeiras: grupos e mais grupos de pessôas em admiração ao trem.
Uma certa demora, tivemos, motivada pela pela descida de uma força federal, do 14° batalhão que para ali se dirigia, sob o comando do 2° tenente Francisco Barretto de Menezes.
Um cavalheiro, que nos disse chamar-se Joaquim Lima e ser 1° tabellião no Ingá, procurava nos fornecer algumas notas da cidade, mas o chefe da estação, o sr. Arcelino de Lima Pontes, dava o trem como prompto e ao apito do conductor, acenando da plata-forma a sua clássica bandeirinha azul, deixamos sua estação toda a procura do

GALANTE

Ali foi que a viagem se tornou enfadonha, as queixas se desenrolavam: maldiziam todos da hora em que se dispuseram a assistir a inauguração: o comboio, sempre subindo, ameaçava pregar, nas grandes curvas, vencendo lentamente nos serrotes, deixando ao lado montes e capoeiras, várzeas e campinas.
Dois outros cortes, nos kilometros 44 e 45, vencemos.
- SURRÃO! adentrou um companheiro de viagem. Foi ali, naquele casebre abandonado ( apontava o passageiro) que a anos passados Antonio Silvino e seus companheiros tiveram um encontro com as forças da policia da Parahyba e Pernambuco.
Entrincheitrados, naquella casinha fizeram fogo a policia , sendo afinal presos, com excepção de Antonio Silvino e trucidados naquella garganta de serra, mostrávamos o local o orientado companheiro.
O Surrão falado é hoje abandonado, tendo algumas dezenas de casas deshabitadas.
A custo vencíamos esse ponto, procurando avivar na memória a triste tragédia conhecida do público, quando subitamente um movimento qualquer paralysa por completo a marcha do trem.
Como era natural os passageiros ficaram assustados, parando de repente no meio as serras, havendo quem affirmasse ser alguma arte de Antonio Silvino, pois diziam que jurara elle não correr a linha nesse dia.
Procuravam dar vulto a affirmação do mal intencionado, por haverem galgado a propriedade do terrível bandido, a mesma do Surrão.
Felizmente não tinha fundamento o que se dizia: apenas a péssima locomotiva que nos guiava , parara no kilometro 55 para se utilizar d’água do seu tender, pois o vidrilho marcador assim reclamava.
Estivemos parado nesse ponto seguramente 15 minutos, saindo o comboio com a marcha melhor para chegar a Galante , onde já noite, á’ escuras , não quizemos abandonar o carro , como fizemos nas demais estações.
Parece incrível!... Uma hora marcada de relógio, estivemos nessa estação, pois a estragada marchina necessitava de mais água.
Estávamos em pleno campo, pois o Galante não tem povoado: apenas servem em frente a estação duas casinhas.
Disseram-nos que o povoado dessa estação é o Fagundes, numa regular distancia.
Em Galante, depois de uma Caceteação sem qualificativos, atirados a um canto de um vagão sem luz de espécie alguma, prosseguia o trem a sua marcha.
Como se tratasse da ultima estação, muito embora o enfado fosse geral, lia-se uma satisfação no semblante dos passageiros, desejando todos o termino do caminho tão paulificante como havia sido até aquelle ponto.
Não foi sem dificuldade que vencemos a separação dessas estações, para entrarmos em

CAMPINA GRANDE

È diffícil descrever o que foi a parada do comboio nessa estação.
A hora adeantada em que chegamos , 8 e 30 minutos da noite, com um atraso de três horas approximadas o cansaço da enfadonha viagem não nos permitiam endagar ante aquella incalculável multidão , os motivos da sua estada ali , a sua admiração ao trem, uma coisa tão velha e tão aborrecida para nós outros da cidade, quão novidade e ambicionada pelo povaréo do matto .
Foi esse ponto principal de Campina Grande – milhares de pessoas se encontravam na gare para ver o trem que pela vez primeira ali chegava.
Impossível se torna nesse momento uma descrição exacta do que foi a parada do trem em Campina , pois somente com difficuldade, aos empurrões, pudemos abandonar o nosso carro de viagem.
Mesmo assim, cortezmente fomos vencendo o povo, sendo levados a um dos departamentos da estação.
Batemos na porta da seção de bagagens e com um senhor que, uniformizado de boné a cabeça , ali se encontrava , trocamos ligeiramente o seguinte diálogo.
- Boa noite, senhor. Será possível uma entrada aqui por um instante, enquanto nos livramos desta onda popular?
- Pode entrar, respondeu o desconhecido, um tanto obsequioso, e ao mesmo tempo em que procurava interceptar a entrada de outras pessoas.
- Felizmente podemos respirar um pouco, advertimos.
- Ah! O senhor não viu nada disse-nos o moço que mais tarde soubemos ser o despachante.
A’hora do trem, 5 e 40 minutos da tarde, impossível era o transito da estação. Foi calculado em 4 mil pessoas o numero aqui existente...
E o cavaleiro contou então a historia da chegada do trem, narrando as peripécias desenroladas na estação, quando se anunciara o comboio. O povo admirado , ali se encontrava por não saber explicar e melhor apreciar o que era um trem.
Em pouco tempo, porem, o grande volume de pessoas foi diminuindo e franco o caminho procuramos então um lugar onde pudéssemos receber hospedagem para o descanso das fadigas da penosa viagem.
Graças a gentileza do bacharelando Tiburtino Leite, nosso companheiro de viagem, fomos conduzidos ao Hotel Gomes, um estabelecimento regular, situado nas proximidades da estrada de ferro, o melhor ponto de espera que poderão encontrar os viajantes de Campina Grande.
Ali passamos a noite e somente no dia seguinte procuramos a cidade com o fim de colher alguma coisa que pudéssemos contar aos leitores.
Campina Grande é uma cidade vasta e bonita, um tanto antiga.
Esta situada na chapada da serra da Borborema, contendo segundo informações que nos foram ministradas, calculadamente 6 mil habitantes.
É cortada por innúmeras ruas, tendo um arrabalde que denominaram de bairro de São José.
Cidade central, de largo commercio é limitada por três zonas: ao sul pelas catingas, ao poente por sertões e ao norte por brejos.
Tem bons edifícios, bem construídos, destacando-se sobre todos a matriz de Nossa Senhora da Conceição, um elegante e sumptuoso templo, u’a miniatura da igreja da Penha, desta capital .
O parocho da cidade, Monsenhor Luiz Salles Pessôa, muito ha se esforçado para a limpeza dessa soberba egreja, julgada talvez, a primeira dos interiores deste Estado e vizinho do norte.
Alguns outros edifícios dão importância a Campina Grande, como sejam o prédio do Grêmio de instrucção, o da cadeia e do paço municipal, a do telegrafo, salientamdo-se ainda o seu cemitério, bem localizado, compreendendo uma vasta área de 150 metros quadrados.
A cidade é ainda o morredouro de três estradas principais, as quaes com a abertura do trafego, virão, indubitavelmente, dar-lhes mais desenvolvimento. São as estradas dos Espinhaes, Siridó e Soledade, compreendendo os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Parahyba do Norte.
Acha-se collocada a 600 metros acima do nível do mar.
Foram estas informações que pudemos colher no dia da nossa chegada, quando por uma gentileza de respeitáveis cavalheiros do logar, percorremos em diligencia especial as melhores artérias do local.
A estação de Campina Grande, ficou situada a uma certa distancia do coração da cidade, a mais dois kilometros approximados.
O viajante urgente tendo necessidade de vencerl-a somente o fará em 15 minutos, uma estrada larga, a subir, pois o ponto terminal da linha foi edificado no baixio da cidade.
Tivemos ainda occasião de verificar a existência de dois enormes açudes, mandados fazer pelo município para abastecimento d´agua à população.
Á cidade com a inauguração da linha, necessita quanto antes de um meio de transporte para os senhores passageiros, dando perfeitamente para o estabelecimento de uma companhia carril urbano, attendendo-se ao alargamento de suas ruas.
Queremos crêr que em breve os campinenses terão esse melhoramento, à semelhança do que se encontra em Limoeiro, deste Estado, que nas mesmas condições, com a sua estação longe da cidade, já conta uma regular companhia de bondes.

NOTAS

Dentre o grande numero de passageiros que viajaram no trem inaugural de Campina Grande, podemos tomar nota dos seguintes: dr. Trindade Henrique, coronel Franklin Oliveira e senhora, bacharelando Tiburtino Leite, acadêmicos Severino Procópio, e Paulo Silva , do Recife: coronel Casado Lima, sra. dr. Odilon Maroja, Pedro Gusmão,, Manuel Vieira,major José Rosendo, e João Luiz Freire, de Itabayanna: srs. José Herculano, Octaviano Tejo, José Paulo, José de Paulo Filho, Felinto Velho, João Leôncio,Liberalino Pereira Silva, Anízio Regis, Herculano Alves de Oliveira , José de Andrade Silva, , de Alagôa Grande: Horácio Tavares, da Parahyba Olegário de Asevedo, de Timbaúba e muitos outros.

A Great Western não ultimou ainda as construcções de Campina Grande . Trabalha actualmente numa casa destinada às madeiras, e num poço artesiano, destinado à aguada das locomotivas, sob a direcção do mechanico Francisco Sotter. Já tem feito, alem de grandes armasens para carga, um bem acabado curral de 30 metros quadrados , destinado ao descanso e embarque do gado.
Na estação, além dos departamentos destinados aos empregados , como sejam secções de chefia , telegrapho, bagagem, latrina etc, encontra-se ainda um andar superior destinados a residência dos empregados.
Servem na estação: como chefe o sr. Francisco Pacheco, como despachante Cypriano Fonseca e como telegraphista Adolfo de Queiroz e mais 4 serventes.
A Great Western no ramal de Campina Grande , em todo o seu trajeto , mandou construir duas caixas d´agua para provisão das machinas: uma em granito e outra em Campina Grande.
O ramal de Campina Grande levou 33 mezes na sua construcção, entrando a primeira machina nessa cidade no dia 22 de junho do corrente ano, sendo ali festivamente recebida.
Nas proximidades da estação de Galante, ao lado da linha uma grande pedra , se encontra um bem feito nicho de alvenaria , contendo uma pequena imagem de Santo Antonio.
A historia desse nicho e sua collocação encerram algo de interessante, pelo que vamos narral-a aos eleitores como pudemos colhei-a de pessoas informadas.
Na construcção da estrada o francez Arnaud encontrou uma certa difficuldade em um corte: não havia possibilidade de fazel-o suster, pois, as chuvas caídas naquelle tempo derrubavam-n´o , ameaçando de uma queda por completo e impossibilitando o prosiguimento da obra.
O sr. Arnaud, que era então o enpreiteiro, fez uma promessa a Santo Antonio, affirmando perante os seus empregados que se alcançasse um real sucesso no trabalho, levantaria naquellas immediações um perfeito nicho com a imagem do santo.
Aconteceu que o francez esperava e este com sua palavra empenhada perante grande numero de cossacos mandou levantar o elegante nicho , collocando então a imagem falada.
Esta historia nos foi contada por uma pessoa que conheceu o ex-empreiteiro da obra da companhia, affirmando-nos ainda que o nicho tem uma inscripção commemorativa do seu feito.
De Itabayanna à Campina Grande, em todo o percurso da linha vêem se 3 pontes e 33 pontilhôes, trabalho esse bem feitos, attestando o gosto e arte dos seus empreiteiros.
Em conversa no trem, com um passageiro, soubemos que a companhia destacára numero sufficiente de carros para a inauguração, mas o chefe, de momento, à ultima hora, no trem da Parahyba, que descia para o Recife, fez seguir um carro destinado aos passageiros de 1ª classe.
A volta do trem de hontem, tornou-se um tanto melhor, o que atribuímos á descida que fazia o trem desde que deixou Campina Grande
Mesmo assim, o pequeno numero de carros não pôde comportar os excursionistas, pelo que tivemos occasião de ver alguns sentados em malotes de viagem, dispostas sobre o único vagão da 1ª classe.
Houve um passageiro até, um inglez, que nos affirmaram pertencer à companhia, que trazia sobre sua malota, uma rêde a descoberto, parecendo querer armal-a no carro.
O comboio de hontem chegou sem atrazo algum em Itabayanna, pelo que tivemos o tempo necessário para fazer um ligeiro passeio.

ITABAYANNA

é uma cidade que conhecíamos de perto, há dois annos, mas que devidos aos esforços de um cavalheiro diligente e operoso, como é o seu actual prefeito coronel Francisco Resende, tem passado por algumas reformas, podendo até competir com as demais do interior do Estado.
Itabayanna não é mais aquella cidade há dois annos passados: de um aspecto bonito, hygienica como poucas, tem as suas ruas principaes calçadas e arborisadas, elegantes edifícios e boas construcções.
O que maior belleza lhe empresta, é uma avenida situada atraz da estação, com um lindo passeio publico.
Bonitos são os seus edifícios e a sua illuminação.
Não podemos percorrer toda a cidade, mas, o que soubemos o coronel Francisco Rezende continúa a trabalhar para o engrandecimento da pittoresca cidade.
O passeio que fizemos em Itabayanna, durante o curto tempo que ali nos achamos, foi em companhia do major José Rezende, que gentilmente nos fornecia as melhores informações.
Ultimando estas notas ligeiras escriptas às pressas na altura da rapidez da nossa viagem não podemos deixar de offerecer alguma coisa sobre o bandido

ANTONIO SILVINO

que promettera virar o trem no dia de sua inauguração, segundo se propalara.
Esse bandido se encontra actualmente nas proximidades de Campina Grande commettendo as suas costumeiras tropetias.
No dia 1 do corrente, no logar Mamanguape, esteve o cangaceiro, surrando ao pobre matuto Agripino dos Santos, isto por volta do meio dia.
A victima escapou da sanha do bandido a pedido de uma sua irmãn, que, chorosa, reclamava para ser assassinada em logar do irmão.
No dia da inauguração da estrada de Campina, Antonio Silvino, esteve no Alto Branco, onde soltou diversas girândolas, naturalmente festejando aquelle dia.
Nesse logar declarou que o trem de Campina correria sómente três vezes , o numero necessário para as moças da referida cidade conhecerem-no.
Ainda esteve no Geraldo e no Areial de Alagoa Nova, a 15 kilometros de Campina Grande, roubando, trucidando, matando animais e comettendo os maiores desatinos.
Ante-hontem, à noite, chegou em Campina Grande uma força federal que anda em perseguição do bandido.
Naquella cidade, diziam hontem que Silvino estava no logar Pocinhos, a 6 leguas dali.
Terminando a publicação da missiva do nosso estimado companheiro, pedimos para o que elle narra a attenção do Sr. J. Lorimer , actual superitendente da Great Western.
É estranhável que com tamanho desapreço fosse tratados os passageiros do trem inaugural e mais ainda que para um representante da imprensa faltasse até com o cavalherismo corriqueiro nas relações da vida .
Acreditamos que providencias se darão completas a bem dos créditos da Great Western.
Para servir aos leitores, o Diário não poupa esforços, correspondendo à generosa acolhida que lhe tem sido dispensada.
E a reportagem dessa inauguração, que constitui um melhoramento para as populações sertanejas, é uma prova do nosso empenho em bem servir.

***

Multidão a espera do Trem em 1907

Antônio Silvino prometeu virar o Trem

Anexo:

Acompanhem a reportagem abaixo, falando do centenário da primeira viagem de trem em Campina Grande (Vídeo da TV Paraíba de 2007):

4 comentários

  1. Jobedis Magno de Brito Neves on 2 de dezembro de 2010 15:52

    Estas fotografias são testemunhas importantes e incontestáveis do progresso da cidade. Tenho lido e pesquisado alguns escritos dos labirintos da nossa história, dando ênfase ao desenvolvimento de Campina Grande, atribuindo importância primordial, como fator do progresso, à chegada da estrada de ferro na cidade. Quem escreveu, naturalmente, viveu e esteve presente, como testemunha ocular dos fatos, que se tornaram histórica. Tenho presente em minhas lembranças, embora embotadas pelo pouco tempo de vivência, que a ferrovia atuou como parceira por muito tempo do desenvolvimento de nossa cidade, num bom período. Segundo alguns historiadores a ferrovia chegou, como veículo de transporte de cargas especialmente o algodão. Foi uma grande festa, esperada e desejada por todos os campinenses. È importante frisar que a construção da ferrovia houve a contratação de muita gente (toda a movimentação de terra, escavação e remoção, era feita manualmente. Chegou gente de todas as partes do estado e de alguns estados do país. Os operários empunhavam picaretas, alavancas, enxadões e pás; executavam as tarefas). Perto da estação o local começava a crescer com o grande número de pessoas que lá chagavam e que transformaram o povoado num acampamento mercantilista, centro de negócios e escritório comercial, lugar que recebia e expedia o algodão para a Recife. Muitas máquinas e empresas de beneficiamento de algodão foram implantadas na cidade e por diversos comerciantes, sobretudo campinenses que produziam satisfatoriamente. Muitos desses novos moradores eram também manobristas, telegrafistas, bilheteiros, ou seja, ferroviários cujas vidas giravam em torno da Estrada de Ferro. Alguns eram instalados com suas famílias nas casas construídas pela própria empresa à beira da linha férrea. Outros construíram casebres perto da estrada para morarem. Foram também estes trabalhadores os responsáveis pelo aumento da nossa população. Campina Grande na época foi considerada uma das maiores exportadora de algodão do mundo (só perdendo para Liverpool), trazendo ao município grandes somas de divisas. Infelizmente houve uma decadência comercial e um arrocho fiscal aos comerciantes na década de sessenta e fechou diversas casas de alto porte, gerando muito desemprego na cidade. Hoje a Estação faz parte do passado. Uma lástima!

     
  2. Anônimo on 2 de dezembro de 2010 19:28

    O teor da reportagem contém doses extras de arrogância, típico dos recifenses.

     
  3. Jônatas Rodrigues Pereira on 9 de setembro de 2011 16:49

    tive uma participação no livro sobre o centenário do Trem em Campina grande de Edmilson Rodrigues. Fiz Dois desenhos que ilustram o encarte traseiro do livro (maria fumaça), e da estação velha no interior do livro.

     
  4. Paulo Gomes on 12 de outubro de 2013 17:53

    Como sempre (e só Deus sabe até quando), Campina Grande é relegada a plano inferior, conforme o relato acima (que acredito conter o desdém e menosprezo dos nossos "irmãos" recifenses) a locomotiva disponibilizada pela famigerada Great Western, estava mais para "loucomotiva". Qualquer semelhança com tempos atuais devem ser mera "coincidência".

     


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