Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
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Segundo o “Memorial Urbano de Campina Grande”, João Virgínio de Moura, foi um médico-pediatra. Ele foi assassinado em 17 de fevereiro de 1947, na rua principal do Distrito de Massaranduba, em decorrência de lutas políticas. Em homenagem a esse médico, foi dado seu nome a uma rua, localizada no bairro de São José.
 Neste raríssimo mapa de 1956, a rua João Moura pode ser vista (cliquem para ampliar) 

A Rua Dr. João Moura é tradicionalíssima em nossa cidade e em virtude deste fato, cheia de memórias. O professor e advogado Olímpio Rocha, escreveu uma bela crônica, relatando algumas memórias de personagens da rua do São José. “Os Velhinhos da João Moura”, foi publicada originalmente no livro “A Maré” (Gráfica e Editora Rocha, 2006), de autoria de Olímpio. Abaixo, publicaremos na íntegra a crônica, que nos foi enviada, ou seja, mais um “retalho” da história de Campina Grande:

Os velhinhos da João Moura

Por Olímpio Rocha

Eu não tenho papo. Às vezes, no meio de uma conversa com alguém, penso em tudo, menos no assunto discutido. A não ser com velhinhos e porteiros. É impressionante como viro um falastrão quando meu interlocutor tem uma penca de fios brancos ou um interfone à mão.

- E aí, Reginaldo? Viu a Raposinha ontem? Que jogão, hein? – e dali a pouco já estamos discutindo desde o mensalão às coxas da moça da novela, até a política externa de Botsuana, enquanto ele vai abrindo e fechando a porta pra quem chega e sai.

- Bom dia, Seu Afonsinho... Melhorou da artrite?

- Ah, já tô melhor, meu filho... vai uma daminha?

- Só se for agora...

Mas bom mesmo é conversar com os velhinhos da João Moura. A João Moura é uma rua de Campina Grande que dá pro Açude Velho e é paralela ao Parque do Povo. Mais campinense impossível! E coincidentemente, os três velhinhos sobre os quais falarei agora têm profunda relação com ela.

Seu Dedé, sempre cheirando a milho, no auge dos seus 70 e uns anos, há mais de 40 mantém uma barbearia no fim da rua. Posta minha imortal preguiça pra fazer a barba, uma vez por mês ele me barbeia. Acho que sou o único cliente dele que não dorme depois de 2 minutos de massagem facial. E quando ele nota que estou acordadíssimo, começa a narração. Sempre a mesma. Conta como se mudou de “São Joãozinho do Pernambuco” pra Campina, como decidiu ser barbeiro, conta ainda sobre a vida dos irmãos espalhados pelo Brasil e grand finale, como descobriu a mulher da vida dele:

- Ô rapaz (ele não sabe meu nome), pense numa decisão difícil! Eu era noivo de uma, mas andava com outra... peraí... levante mais o pescoço, sabe como é, cabra-moço é um fogo danado...

E eu:

- Sei, sei...

- Pois, veja: conforme lhe disse, a “social” era Rute, a outra era Tonheca. Duas formosuras da “mulesta”. O fogo era fogo... Tonheca era mais astuta. Rute, uma santa...

- Mas seu Dedé, não tinha uma que o senhor gostasse mais?

- Nada, era um sentimento igual... Era uma complicação pra almoçar com as duas
num dia só... foi uma época que engordei muito, viu! – e gargalha gostosamente. - Deixo o cavanhaque?

- Pode deixar... E o senhor escolheu qual?

- No fim, notei uma coisa interessante... Já estava quase decidido por Tonheca... aí foi quando reparei melhor no sorriso dela... “Num” sabe aquela dentadura que mostra mais gengiva que dente?

- Oxente, ela tinha gengivite, era?

- Isso... Aquilo me deu um desgosto, rapaz! Conforme lhe disse (ele adora um conforme), nunca tinha notado nada antes... mas quando vi que Rute tinha a boca certinha, percebi meu amor verdadeiro... E estamos juntos até hoje!

Claro que ele dá umas três voltas no Açude, e ainda pára pra alongar pra me contar a história toda. Em suma, quase 2 horas fazendo a barba! Aquilo é uma terapia...

Tem também Dodó, vulgo Isabel, cheiro de lavanda e 90 anos comemorados numa
festança em janeiro. Além de quase homônima, ela não é nada de Dedé a não ser vizinha, e é minha bisavó. Mora na João Moura a não sei quantas décadas... e até a festa de São João passada, quando como de costume reunimos a família em volta da fogueira e eu sempre lembro de seu Dedé por causa do milho, eu nunca tinha me atrevido a passar do pedido de benção ao falar com ela. Mas aí, vislumbrei aquela figura sentada sozinha perto do portão, e pensei que não haveria oportunidade melhor para um papo.

- A benção, Dodó?

- Deus te abençoe, Olímpio (já ela, sabe meu nome e dos outros 30 e tantos bisnetos).

- Festa boa, né?

- Ah, nessa idade não gosto muito de festa, não... Já passou o tempo.

- Que é isso, Dodô? Se anime! – digo pensando que ela vai sair forrozeando, e ela
dá um riso tipo, “ah, pobre inocente”.

- Gosto muito de ver a família toda junta, mas sempre lembro dos meus filhos que já se foram... Hoje, só me restam seu avô e Lena... já perdi 4. Os netos e bisnetos são uma alegria, mas quando a gente se recorda de um passado bonito, chora que é uma beleza... – e súbito, muda de assunto - Mas hoje é dia de felicidade! Quando eu era pequena... – então, feito o barbeiro, começou a contar toda a história da vida dela... e eu ali, mais surdo do que nunca para as bombas e traques.

O terceiro velhinho, Antônio, 70 anos “compulsórios” e cheiro de canela, foi meu professor de Direito Penal. Alardeia aos quatro ventos que das maiores decepções que tem na vida, uma delas foi ter tido que se mudar da sua residência na João Moura. Não sei se ele conhece “meus” outros dois velhinhos, mas como se fosse combinado, na primeira oportunidade manda brasa do alto de sua erudição:

- Digníssimos colegas acadêmicos, minhas agruras pretéritas são bem mais tenazes que suas prosaicas vertidas lágrimas! Não me descreiam quando afirmo que a cada dia o crepúsculo solar me torna menos senil! – E tome história! Como Dodó e Dedé, ele começa a tecer suas glórias, perdas e ganhos...

Pra mim, os três velhinhos citados são como deveria ser nossa vida. Ora indecisos, ora precisos, ora tristes, ora vibrantes, ora humildes, ora exaltados.

Perdoem por essa mini-crônica pessoal. Mas era só pra dizer: achem seus velhinhos!

Mas, em Campina, só não procurem na João Moura...

5 comentários

  1. Vânia Dantas on 10 de abril de 2010 18:29

    Lindo texto. Parabéns!

     
  2. Jóbedis Magno de Brito Neves Brito Neves on 9 de julho de 2010 08:08

    Nasci e morei por longos anos no bairro do São José e tenho um profundo carinho pelo abrigo dos velhinhos da João Moura. A palavra velho traz consigo um conjunto imenso de conotações pejorativas. numa sociedade que idolatra a juventude, a beleza e a força física, ser velho significa estar envolvido em um universo de rejeição, preconceitos e exclusão. Vamos mudar este pensamento e ajudar os velhinhos da João Moura Essa tarefa é de todos.

     
  3. luiz roberto on 28 de maio de 2012 16:05

    boa tarde queria saber o nome do bar onde DOMINGUINHOS fazia shows. antigo churrascaria eduardos.obr. meu email e lrmanzano@yahoo.com.br

     
  4. Anônimo on 4 de abril de 2013 20:38

    Este comentário foi removido por um administrador do blog.

     
  5. Thais Viezzer on 8 de março de 2014 09:43

    Imaginei as cenas, lindo texto! Parabéns ao autor, sou boa ouvinte quando estou com meus velhinhos.

     


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