Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
retalhoscg@hotmail.com

QUAL ASSUNTO VOCÊ ESTÁ PROCURANDO?

Em 2010 uma das indústrias mais antigas de Campina Grande, a Indústria Nordestina de Cordas, encerrou suas atividades. O motivo do fechamento da "ISA" como era mais conhecida, não foi falência, aquisição por uma empresa mais forte ou outro motivo qualquer e sim, uma decisão do "Grupo Mottin" que decidiu encerrar a sua produção na área de produção de cordas. Uma das funcionárias do Grupo, Ana Santino, nos enviou para a publicação no "RHCG", o seguinte artigo e um documentário caseiro, realizado por Franklin Moreira, da Movesa (uma das empresas do grupo), do Departamento de Marketing, residente em Feira de Santana na Bahia.

Na imagem, podemos visualizar a Indústria ISA (lado direito ao centro)
e o local onde anos depois seria construído o Shopping Iguatemy.


O FIM DA ISA

Por Ana Santino



Ainda me lembro que fiz uma enorme e demorada caminhada pelas dependências da empresa olhando para os seus galpões que, agora vazios, pareciam ainda maiores, mas que durante muitos anos alojavam dezenas de suas máquinas mais tradicionais que passaram décadas no mesmo lugar, em pleno processo produtivo. Contemplei pela ultima vez seu pátio principal e percebi a velha quadra nos fundos da fábrica e de cima da sua balança de chão, acostumada a pesar vários caminhões por mês, avistei sua velha caixa de água daqueles modelos antigos que costumavam ser construídas com vários metros de altura e pintadas com a logomarca da empresa, de forma que pudéssemos identificar a fábrica há vários pontos da sua proximidade.


Despedi-me também dos coqueiros, plantados há mais de cinqüenta anos e imaginei que pena seria retirá-los dali. No seu antigo escritório o tempo havia parado, os cofres antigos ainda de cimento e aço maciço davam um charme especial e uma nostalgia do tempo em que dinheiro se guardava na empresa (que hoje nem nos bancos é seguro). Os móveis impecáveis me reportavam ao passado e as dezenas de armários de aço e de madeira guardavam toda documentação da empresa e me reportavam à época que não tínhamos computadores para digitalizar nossos arquivos e éramos obrigados a arquivar cada pasta, cada livro, cada documento ali pertinho, porque nada estaria ao alcance de um clic como fazemos hoje. Em cada mesa havia uma máquina datilográfica e uma calculadora Olivetti, me lembrando que naqueles anos, os testes para admissão de um funcionário em uma vaga mais graduada, ficava para aquele que tinha melhor desempenho e mais praticidade na datilografia, porque tudo era datilografado e, detalhe, tinha que datilografar de forma rápida, vigorosa e precisa, porque nem corretivo tinha naquela época.


Achei escritas fiscais do tempo em que utilizavam o sistema de prensa, para registrar as entradas e saídas. Encontrei uma planta baixa da cidade de Campina Grande, datada de 1959, quando a cidade finalizava no bairro do Centenário – que era conhecido pela “Fundição Centenário” e ao extremo só havia o bairro José Pinheiro, como referencia aos limites da cidade para a saída a João Pessoa. Contemplei a planta da fábrica desenhada com grafite em “papel manteiga” porque nem tenho certeza se naquela época já existia o papel milimetrado e o Auto Cad estaria a anos luz de ser criado.


Toda essa despedida se refere à ISA Indústria Nordestina de Cordas LTDA, empresa localizada na Avenida Prefeito Severino Bezerra Cabral (Avenida Brasília), fundada em 1959, há quase 52 anos, na época denominava-se CIA Mercantil CASA FRACALANZA. Depois de mais de cinco décadas de existência, encerrou suas atividades no ultimo dia 13 de Dezembro de 2010 e seu terreno foi vendido para uma conhecida rede de supermercados que estará, possivelmente em 2011, construindo outra empresa nas suas antigas instalações.

Questiono-me como um homem, que entrou exatamente em 1959, ainda menino vindo do SENAI, que foi o primeiro funcionário da ISA Nordestina e, hoje Administrador da empresa, quis o destino também ser o ultimo, sentiu-se ao chegar à hora em que teve que entregar a chave daquela que foi, creio eu, sua primeira casa e parte da sua vida ao longo desses 52 anos de contribuição. Refiro-me ao Senhor Orlando Cavalcante de Araújo, que entrou na “Casa Francalanza” ainda menor, pois teve uma concessão especial para ser admitido naquela época uma vez que nem tinha os 18 anos completos e que no próximo dia 05 de Maio de 2011 estaria completando exatos 52 anos de empresa. Um homem tão tradicional que na época que chefiava a manutenção da Fracalanza era capaz de tornear qualquer peça de reposição para não utilizar as peças originais vindas a muito custo e tempo do fabricante das máquinas, na Europa, via importação e matinha, até hoje, as caixas com as peças originais adquiridas naquela época.

Foi quando o idealizador da Fracalanza – “Dr. Gilberto Mottin” – na época um jovem engenheiro radicado em São Paulo na década de 50, enxergou no nordeste e, especialmente em Campina Grande, o potencial para instalar uma fábrica de cordas e artefatos de sisal e mais ainda, enxergou no menino Orlando, um funcionário dedicado e capaz de tornar-se seu homem de confiança para manter a fábrica a pleno vapor, funcionando em 03 turnos e gerando centenas de empregos, responsável por aposentar várias pessoas que trabalharam anos na fábrica e diferente de tradicionais indústrias como a SAMBRA, CRISPIM, BRASCORDA (em João Pessoa), a ISA NORDESTINA encerrou suas atividades dignamente e em pleno processo produtivo, honrando seus compromissos com seus funcionários, colaboradores, clientes e fornecedores, meramente pela intenção dos sócios em vender o terreno encerrando assim sua história no ramo de Sisal.

No auge dos seus 60 e poucos anos, Senhor Orlando, não se cansou de trabalhar e nem pensa em aposentadoria tão cedo. Continua firme e forte nos seus conceitos empreendedores, adquiriu parte do maquinário da ISA e instalou, nas proximidades do município de Lagoa Seca, em seu sitio, sua fábrica de cordas que leva o nome da antiga casa: “FRACALANZA CORDAS”, mantendo viva sua historia e apostando no mercado da cultura renovável do sisal e de seus produtos, suas cordas, para continuar atendendo uma parte dos clientes da antiga fábrica e fazer o que aprendeu e sempre fez a vida inteira: colocar as máquinas para produzir e transformar o “agave em corda”,

Num pensamento que ele mesmo costuma se inspirar: “No fim tudo dá certo, se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”.



Documentário caseiro sobre a história da Indústria "ISA":




6 comentários

  1. Anônimo on 20 de dezembro de 2010 07:16

    Belo texto.

     
  2. Emmanuel Sousa on 20 de dezembro de 2010 08:39

    "No fim tudo dá certo, se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”... Com esta frase, além de se encerrar o texto da colaborada Ana Santino, também se encerra um ciclo de mais de 50 anos entre a Cia Fracalanza e a outrora próspera cidade de Campina Grande, uma das maiores propulsões comerciais dos anos 30, 40, 50 e 60!
    A ISA era uma das poucas indústrias cinquentenárias ainda em atividade na cidade.
    A História da sua fundação e manutenção ao longo desses anos é emocionante, assim como sua despedida, cedendo espaço a mais um conglomerado comercial do ramos de supermercados a ser instalado em Campina Grande.
    Para que a contribuição industrial promovida pela ISA ao longo da História não seja esquecida, seus registros e suas fotos estarão sempre rememorando a lembrança dos campinenses.

     
  3. Adriano on 20 de dezembro de 2010 13:22

    O que eu lamento é que cada vez mais, Campina Grande está perdendo seu grande status de outrora, de uma cidade industrial. Entendo que o comércio de atacado e varejo seja importante, mas o que impulsiona de fato uma cidade são as indústrias. É minha humilde opinião.

     
  4. Jobedis Magno de Brito Neves on 21 de dezembro de 2010 08:33

    Infelizmente mais uma empresa de nossa cidade que se desfez.Será porque os dirigentes não acompanharam a tecnologia,fazendo mudanças no artigo ou qualquer outra atitude fosse tomada, para que esta não viesse a fechar? O que é isto que aconteceu? Uma fábrica com muitos anos em nossa cidade acabar? Até quando nossa cidade vai ver nossas empresas que deram empregos a tantas pessoas acabarem? Senhores governantes já está na hora de esquecerem um pouco as promessas de campanha e olharem por nossa cidade que ja foi considerada a capital do trabalho. E agora que mais se precisa de fábricas para gerar empregos,acontece isto,o fechamento de uma fábrica que era tão conceituada.Que pena!!! Campina Grande não é a mesma de outrora

     
  5. MONICA DA MATA on 12 de junho de 2017 10:41

    Minha mãe Estelita Araujo, conta historia de ter trabalhado na SAMBRA, que seus chefes eram Sr Araujo e Sr Mdeiros, ela desfilou com Miss Industriáriaem, 1961 no Clude de Cabo Branco... Ela ñ tem nem um registro deste evento, mas a faixa do desfile guardada, em agosto estaremos de mudança para este Estado e procurarei mais informes e ajudarei na reconstiruição desta historia e documentários, obrigado pela atenção, MONICA DA MATA

     
  6. MONICA DA MATA on 12 de junho de 2017 10:42

    Minha mãe Estelita Araujo, conta historia de ter trabalhado na SAMBRA, que seus chefes eram Sr Araujo e Sr Mdeiros, ela desfilou com Miss Industriáriaem, 1961 no Clude de Cabo Branco... Ela ñ tem nem um registro deste evento, mas a faixa do desfile guardada, em agosto estaremos de mudança para este Estado e procurarei mais informes e ajudarei na reconstiruição desta historia e documentários, obrigado pela atenção, MONICA DA MATA

     


Postar um comentário

 
BlogBlogs.Com.Br