Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
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QUAL ASSUNTO VOCÊ ESTÁ PROCURANDO?


(por José Edmilson Rodrigues *)

William Ramos Tejo, professor de desenho e matemática, jornalista. Fisicamente, de pouca estatura, costumava trajar suspensórios e paletó, não relaxava os charutos, e apreciava algumas canecas de chope vez por outra, de preferência no Chope do Alemão. Um gigante no decorrer de uma discussão envolvendo o assunto política. De bom nível intelectual, amante dos livros, condição que o favorecia na construção de sua sempre aguardada coluna de política, no ‘Jornal de Campina’, do qual foi um dos fundadores e diretor. Também no Jornal da Paraíba, mostrou seu talento sustentando por vários anos outra coluna, denominada “Aqui Política.” Uma vertente através da qual ele deve ser analisado, é pelo conhecimento da história universal e da local em sua coluna Fragmentos Históricos, no Suplemento Painel do Jornal da Paraíba, além de passagens igualmente destacáveis pelos jornais Gazeta do Sertão e Diário da Borborema.


Nasceu em São João do Cariri, em 26 de dezembro de 1919, filho de João Jorge Pereira Tejo (Juiz de Direito) e de Alice Ramos Tejo (professora). A cidade de São João do Cariri, um dos antigos municípios da Paraíba, acha-se fincada no semiárido. Situada na região da Borborema, microrregião Cariri Oriental. Foi fundada como povoado em 1669 e estabelecida como Vila Real do reino de Portugal em 1800, estando localizada a 458m de altitude. Casou com Maria Clélia Di Pace Tejo, em 22 de julho de 1950, com ela tendo cinco filhos: Cristina, João Jorge, Gustavo, Wilma e William Filho.

Wiliam Tejo seguiu, da infância à juventude, os movimentos geográficos e as transferências do pai, Juiz de Direito: ainda em tenra idade, aos três anos, encontrava-se em Taquaratinga-Pe, depois foi para Caruaru-Pe, logo adiante para a cidade de Belo Jardim-Pe, onde fez o primário e o curso de Admissão ao Ginásio, no Colégio Americano Batista, em Recife, passando pelo Colégio do Dr. Luís Pessoa, em Caruaru, e pelo Pio XI, em Campina Grande, onde se diplomou Bacharel em Ciências e Letras. O Colégio Pio XI era um grande educandário. Nos idos de 1939, o portão central dava para a Rua João Pessoa, antiga Rua das Areias, até o ano de 1951. As atividades educacionais do Pio XI se encerraram no ano de 2004. Iniciou os estudos superiores na Universidade Católica de Pernambuco, não os concluindo.

William Tejo trabalhou como bancário no Banco Auxiliar do Povo, e na época, enquanto prosseguia seus estudos, dava aulas de matemática. Deixando o Banco, foi para Natal-RN, onde terminou o curso científico no Colégio Atheneu, em pleno conflito da II Guerra Mundial, voltando para Campina Grande em 1946. Neste ano, foi convidado para ensinar nos colégios Pio XI e Alfredo Dantas. Ensinou no Colégio das Damas, como também na Escola Técnica de Comércio, que pertencia à Prefeitura Municipal de Campina Grande; foi diretor do Colégio Anita Cabral (que funcionava no prédio onde hoje é a Faculdade de Direito da UEPB) e foi diretor do Colégio Estadual da Prata. Sua carreira docente atingiu o ponto alto quando se tornou professor da Faculdade de Comunicação (jornalismo) na UEPB – Universidade Estadual da Paraíba (antiga URNe - Universidade Regional do Nordeste).

Em 1939, William Tejo chegou a testemunhar a inauguração do abastecimento de água pelo governo Argemiro Figueiredo em Campina Grande, cidade muito conhecida no país em virtude do seu intenso comércio do algodão, e que contava aproximadamente cerca de 40 mil habitantes. Devido ao período da II Guerra, para cá vieram muitas divisas comerciais, tornando o Município rico, bem instrumentalizado, com festas de fim de ano, festas religiosas (da Conceição), festejos natalinos (com bandas de músicas em pavilhões, montados na Av. Floriano Peixoto, em frente à Catedral).

O professor William demonstra sua proverbial irreverência em entrevista a Ronaldo Dinoá: batia de um lado e às vezes esquecia-se do outro. Dono de memória privilegiada, geralmente saía na frente com perguntas inquiridoras e respostas admiráveis:

Sempre gostei de escrever. Mania ou tendência natural é o que não sei. Basta dizer que nas festas de fim de ano, eu e meu irmão Antonio editávamos na tipografia de Júlio Costa um jornal de festa: “Veneno.” O título dizia tudo e por causa desse jornal de pilhérias ferinas, em plana época da ditadura getuliana, vez por outra, o delegado manda nos chamar, mas tudo terminava em nada. Fazer jornal de festa a gente podia, todavia a censura era feita, antes da publicação, na delegacia de policia, que ficava na Rua Quatro de Outubro. Bem moço, ainda em Belo Jardim, tínhamos um jornal “A Vontade”. O Jornal, Ronaldo Dinoá, que você pergunta, foi o jornal de Campina, fundado, em agosto de 1952, por mim, Virginius da Gama e Melo e Manuel Figueiredo, graças à colaboração de udenistas. O jornal era político e muito brabo. Mesmo assim, quando ele passou inteiramente para as minhas mãos ainda durou uns três anos. Fechou por falta de meios e por outras faltas, entre elas apoios dos políticos de proa da UDN e fiquei mesmo “no mato sem cachorro”...

E em relação às publicações nos jornais que administrava, ou onde trabalhava, ou mesmo naqueles em que colaborava, era pragmático, contundente, registrando fatos e acontecimentos de sua época sem medo. Vejamos o que ele diz a uma de nossas fontes, Ronaldo Dinoá:

Muitos, aliás, todos os acontecimentos daquele tempo. Mas, politicamente o acontecimento que não só abalou Campina Grande como todo o Estado da Paraíba, tendo reflexo no Congresso Nacional, foi o bárbaro assassinato de Félix Araújo, por sinal, vereador e grande amigo do então deputado federal Elpídio de Almeida que havia rompido com o prefeito Plínio Lemos. Félix andou por João Pessoa para publicar o seu “Acuso” contra o governo de José Américo. Nenhum jornal da Capital quis publicá-lo, mas, eu disse a Félix que garantia a publicação no Jornal de Campina, o que foi um verdadeiro estrondo. Daí por diante a luta foi violenta com desaforos de parte a parte, inclusive com o jornalista Rafael Correia, no Rio de Janeiro, ao nosso lado. Tudo isso passou. Outro registro importante foi a entrevista concedida por Janot Pacheco ao meu jornal. Janot era “o homem que fazia chover”. Veio a convite do comerciante Otoni Barreto que tudo financiou. Realmente algumas fortes chuvas caíram nesta cidade, dando para encher o açude Velho. O povo, a gente dos bairros, por pura superstição não utilizava daquela água, dizendo que “era coisa de satanás...” Só que podia mesmo mandar a água do céu era Deus e mais ninguém.

Candidato a vereador pelo PSB, Partido Socialista Brasileiro, no ano de 1947, não sendo eleito. Não era de ficar na expectativa ou esperar, não gostava de freios, terminou se desfiliando do PSB, filiando-se à UDN, em seguida saiu do partido e não se filiou a mais nehum outro, ficando desobrigado de qualquer agremiação para escrever com certa independência. Era do contra por natureza, do partido do contra, contestando a tudo e a qualquer coisa, como era igualmente irônico. Dizia ele: “É certo também que arranjei alguns inimigos, poucos, aliás, e centenas de amigos. Escrever e escrever política é muito bom. Não dá dinheiro, dá é muito gosto, muita alegria. Como diz a sabedoria popular: ‘Mais vale um gosto do que cem vinténs.’ Claro, no tempo em que vintém valia mesmo dinheiro.” (DINOÁ.1993, p.315).


William Tejo, Mozart Santos e Lindaci Medeiros

William Tejo foi Secretário de Educação e Cultura do Prefeito William Arruda. Membro da Academia de Letras de Campina Grande, idealizador do Museu Histórico de Campina Grande, órgão histórico-cultural da Prefeitura desta cidade, com o intuito de catalogar, classificar, conservar, expor e divulgar acervos de reconhecido valor para a Paraíba e, principalmente para Campina Grande. O Museu foi inaugurado em 28 de janeiro de 1983, na administração do prefeito Enivaldo Ribeiro.
Histórias miúdas

O professor William Tejo, quando diretor do Colégio Estadual da Prata vivenciava certo fato estranho um dia ou dois, na semana, durante a noite: faltava energia sempre em suas aulas. Intrigado com tal fato averiguou que um aluno introduzira pequena moeda no medidor do contador para provocar interrupção de energia em determinado local do Colégio; nada mais, nada menos, do que o adolescente era Ney Suassuna, que fazia a traquinagem para juntar público para a luta de boxe que gostava de realizar. Sugeriram ao professor uma expulsão. - Isso não, respondia ele e aplicou ao traquinas uma medida administrativa, uma suspensão de alguns dias.
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Eronides (o sapateiro intelectual) fez uma pergunta de gaveta ao professor, da seguinte maneira: Prof. William, quem foi a tia mais velha de Nero? - Ora, respondendo-lhe: Não sei nem da mais nova, nem da mais velha, seu fdp... que pergunta mais idiota.
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O Professor foi ao médico para fazer exames rotineiros e o médico, observando que fumava muito charuto, pediu-lhe para cortar ao meio a quantidade. No retorno à consulta, perguntou-lhe o médico: diminuiu o charuto? – Sim, fui ao armarinho mais próximo, comprei uma tesourinha e cortei os charutos ao meio, como me pediu.
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Virgilio Brasileiro, William Tejo, Antonio Bioca e Waldemiro Silva

O professor William Tejo, pessoa fascinada por carnaval, homem alegre vida afora, dizia que era um marido esclarecido, bem casado, e quem mandava nas crianças era a mulher, quem cuidava realmente dos meninos; quanto ao pai, às vezes... é oito ou oitenta. Em suma, Tejo gostava de dizer-se fora do tom normal das pessoas comuns, fazia barulho, mas não amedrontava.

E quando o tempo envelhece a existência, é a saudade que está se aproximando. Saudade dos tempos de estudante, dos tempos das paixões, dos tempos das primeiras amizades. Vai-se o homem, fica o nome incrustado nas páginas da vida que se viveu, do bem que se fez, do legado que se deixou, dos discípulos que se conquistou, tudo isso, enfim, como ensinamentos inestimáveis para os pósteros. É aí que o nome permanece impresso, tanto nos livros que se concebeu, quanto nos que se suscitou, acima de tudo, naquele nome que se projetou real para a memória coletiva. O professor nos abandonou no dia 17 de novembro de 2000, aos oitenta e um anos.

Referências:

DINOÁ, Ronaldo. Memórias de Campina Grande, Vol. 2. João Pessoa. A União. 1993.
http://vertentes.wordpress.com/2009/01/24/padre-renovato/ - Acessado em 11 de fevereiro de 2013.
http://cgretalhos.blogspot.com.br/2012/12/gente-da-gente-william-ramos-tejo.html#.USdbJaB5UR0 – Acessado em 15 de fevereiro de 2013.

Depoimentos:

Raimundo Rodrigues, 11 de fevereiro de 2013.
Chico Maria, 11 de fevereiro de 2013.
Ricardo soares, 15 de fevereiro de 2013.
Alfredo Lucas, 18 de fevereiro de 2013.
William Monteiro, 21 de fevereiro de 2013.
Gustavo Tejo, 22 de fevereiro de 2013.

(*) Texto Originalmente publicado em sua coluna no site Paraibaonline, gentilmente cedido pelo autor ao BlogRHCG

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