Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
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O cinema não tem fronteiras nem limites. 
 É um fluxo constante de sonho. 
Orson Welles 

O Cinema em Campina Grande, chegou 14 anos depois de os irmãos Lumière inventarem o cinematógrafo. Isto aconteceu com a inauguração do Cinema Brazil, em 03 de março de 1909, localizado no antigo prédio do Grêmio de Instrução (hoje Colégio Alfredo Dantas). Na ocasião, foi exibido o filme “A Mala Misteriosa”, com entrada franca. 

Na época, o Cinema era mudo, apresentando fitas curtas em preto e branco. Em 1910, surgiu o segundo cine: o “Cinema Popular,” de propriedade do Sr. José Gomes, situado na Rua da Feira, Rua Grande (atual Rua Maciel Pinheiro) e era frequentado pela classe social mais humilde da cidade. 

A experimentação cinematográfica campinense em sua primeira fase, não funcionou a contento, veio então o Cine Theatro Apollo, inaugurado em 20 de maio de 1912, num edifício pertencente à firma L. Fernandes & Cia, onde era localizado o antigo Mercado Novo, na atual Rua Maciel Pinheiro. O Cine Theatro Apollo, apresentava peças teatrais, dividindo o mesmo espaço com as projeções. Quando as companhias traziam seus espetáculos, as sessões cinematográficas só voltavam quando as temporadas teatrais acabavam. Este Cine era frequentado pela elite campinense da época. 


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Cine Theatro Apollo. Anos de 1920.

Um fato interessante deu-se em 11 de outubro de 1918: os habitantes regozijados pelo término da Primeira Guerra Mundial percorreram as ruas da cidade, acompanhados pelas bandas de músicas locais; o comércio cerrou suas portas, e a noite toda foi animada com um baile no salão de espera do Cine Theatro Apollo. Em 1936, este Cine transformou-se por pouco tempo no “Cine Para todos.” 

Em 25 de outubro de 1918, Alderico Saldanha e Américo Porto construíram um prédio na Rua Grande, instalando o Cine Fox (de cunho popular) em concorrência com o Cine Theatro Apollo. O Cine Fox, exibia filmes e séries que deixavam os expectadores em suspense e ansiosos, com o desenrolar sempre com o enunciado: “continua no próximo episódio” exibições para todas as idades, todos os gostos, tanto para a garotada que gostava de aventuras, como para adultos admirarem as belas e os belos artistas, em sessões mudas acompanhadas por músicos, que se encontravam na coxia com um piano, entre eles, destacamos a família Capiba, Dino e Adauto Belo, filhos do inesquecível Neco Belo, ícone dos carnavais da cidade, e neto do patriarca Alexandrino Cavalcanti. 

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Cine Fox, Rua Seridó, atual Maciel Pinheiro, final dos anos de 1920.

A chamada era de ouro do cinema campinense, na transição do cinema mudo para o cinema falado, deu-se a partir de 20 de novembro de 1934, com a inauguração do Cine Capitólio, de propriedade do Sr. Olavo Wanderley. Nessa época, o Capitólio tinha cerca de mil assentos, e a primeira exibição foi com o filme musical “Cavadoras de Ouro”, que contava em seu elenco com os atores Dick Powell, John Blond, dentre tantos.  


No ano de 1958, houve mudança na tela plana para tela VistaVision / CinemaScope, exibindo sucessos como Escaramuche, entre outros. A fachada lateral do Cine Capitólio dava para o lado da Rua Irineu Jofilly, com sua arquitetura em art-déco. O velho e elegante cinema passaria por sucessivas reformas nos anos 1964 (precisamente na sala de espera, saída e entrada, como também, a implantação do ar condicionado), descaracterizando por completo toda sua arquitetura interna e externa, não restando nada que lembrasse uma das construções em art-déco mais bonitas que a cidade possuía, na época dispunha de 886 assentos. O Cine Capitólio encerrou suas atividades no ano de 1999. 

Hoje o prédio do Cine Capitólio, cultural-afetivo, desfigurado pelo tempo e pela ação do homem, apenas ocupa espaço, que aos poucos vai desaparecendo. Onde era a bilheteria e a entrada principal, hoje é ponto de venda de comidas típicas e camelôs. 

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Cine Capitólio – 1934, situado na Rua Ireneo Joffily. Acervo José Edmilson. 

O jornalista Chico Maria em sua crônica “Ah, Velho Cine Capitólio” expressa saudade do tempo de garoto; pinça com habilidade no falar, registrando o dia-a-dia, resgatando e mergulhando numa afetividade mais profunda:  

[...] Ah, velho Cine Capitólio! Você e Campina, uma interação perfeita, os dramas e as comédias saltando da tela, para a vida nas ruas, a mudar comportamentos, eternizando instantes, construindo destinos. Quantas vezes, a menina envolta em sonhos, o vestido de tafetá cobrindo um corpo criança, não foi Brigitte Bardot, em sua nudez maliciosa e aparência infantil? No cavalo branco, do carrossel de luzes coloridas, quantos meninos não foram Tim Mac Coy, cavalgando sonhos? 

Seguindo a trilha da era de ouro do cinema, o Cine Babilônia foi inaugurado em 07 de julho de 1939, com um musical chamado “Primavera”, uma produção de 1937, com os atores Jeanette Mac Donald e Nelson Eddy. O Babilônia era a casa de exibição mais luxuosa da cidade e ponto de encontro para a sociedade. 

Em 1957, o Babilônia sofreu sua primeira reforma e passou a exibir filmes em cinemaScope com som magnético em quatro faixas direcionais, destacando-se sucessos como: “Demétrius, O Gladiador”, O Manto Sagrado”, “O Príncipe Valente”, “Suplício de uma Saudade”, “Spartacus”, “ A Fonte dos Desejos.” 
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Cine Babilônia. Acervo de José Edmilson Rodrigues

Nos idos dos anos de mil novecentos e setenta, o Cine Babilônia passou por grande transformação em sua fachada, melhoramento internos, implantação do ar renovado, contando com 780 cadeiras estofadas.  

O Cinema Babilônia, após ter encerrado suas atividades no ano 2000, passou um período como igreja evangélica, antes de ser transformado em shopping “Babilônia Center,” conservando assim o nome e sua fachada, tendo como última sessão o filme  “Ecos do além,” uma produção americana, com Kevin Bacon, Kathryn Erbe, Illeana Douglas, um filme de terror, com direção de David Koepp.  

Com o final da II Guerra Mundial, Campina Grande ganhou mais duas importantes salas de exibição: o Cine Avenida e o Cine São José. O Avenida (na Rua Getúlio Vargas, no bairro da Prata), inaugurado em 17 de março de 1945. Considerado cinema de bairro, era frequentado pela população menos abastada e tinha um bom público, principalmente em finais de semana; era subsidiado pelo Cine Babilônia, o que passava por lá, era exibido no Cine Avenida em seguida. Muitos matavam aulas, inclusive eu e alguns colegas de colégios das redondezas... nos anos 1970, ninguém resistia aos encantos da tela, de grandes filmes. O cinema Avenida, agora é palco de pregações evangélicas. 

 O Cine São José, sito no bairro do mesmo nome, festivamente aberto ao público no dia 10 de novembro de 1945, com a mesma programação do Cine Babilônia e o Cine Avenida nos mesmos moldes, só que subsidiado pelo Cine Capitólio e era destinado à população mais humilde. Com seu filme inaugural “Sempre no Meu Coração,” com Kay France e Walter Huston. O Cine São José, também foi Cine Teatro São José, recebeu caravanas de artistas de todo o Brasil, inclusive o ator Rodolfo Maya, apresentando o espetáculo “As Mãos de Eurídice.” O Cine São José, fechou suas portas em abril de 1983. 

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Cine São José. Acervo de José Edmilson Rodrigues

Fato interessante que os dois cinemas, São José e Avenida, eram munidos com materiais de exibições, pelo Cine Babilônia e Cine Capitólio respectivamente, mas, as suas sessões, só aconteciam quando se dava a troca dos rolos de filmes, na metade de cada projeção, quando um funcionário de posse do rolo já exibido, saía célere de bicicleta ou mesmo à pé, para que fossem então iniciadas as sessões dos  cinemas já citados.  



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Cine Avenida. Acervo RHCG
O senhor José Henrique Pereira, mais conhecido por “Zé Porteiro,” de estatura baixa, meio sisudo, porém, polido e educado, em entrevista concedida a Ronaldo Dinoá, nos anos oitenta, nos diz:  

[...] A minha primeira atividade profissional em minha cidade foi sempre em portaria de cinema. Comecei no antigo Fox [...] Passado algum tempo, fui trabalhar em outra casa de espetáculo do mesmo gênero, chamado Cine Apollo. No Cine Apollo, passei um bom tempo. Com extinção desse tradicional cinema campinense, há 45 anos atrás, fui trabalhar no cinema Capitólio, onde exerci minha profissão até me aposentar. 
[...] Nos cinemas antigos (Fox e Apollo), eram exibidos os chamados filmes mudos, que eram acompanhados pelo som de um piano que ficava bem embaixo da tela. Lembro-me de um pianista que acompanhava esses filmes, que se chamava Dino Belo, de tradicional família campinense. [...] 
[...] Tanto o Apollo como o Fox, funcionavam como Cineteatro. As peças teatrais, sempre marcaram época nos cinemas de antigamente. Depois, esse tipo de espetáculo passou para os cinemas que surgiram depois da extinção dos cinemas Apollo e Fox, no caso o Babilônia e o Capitólio. Eu tive a oportunidade de presenciar grandes espetáculos no Cinema Capitólio, não só teatro como shows artísticos com cantores famosos da época. 

A história campinense registra, também, os cinemas de bairro: Cine Liberdade (Imperial) no bairro da Liberdade (de propriedade de Orlando Brasil), situado na Rua São Paulo, entre as ruas Pernambuco e Rio de Janeiro. Neste cinema, nas matinés de domingo, como um atrativo a mais, era realizado um sorteio de uma bola de futebol com a garotada. 

No bairro de José Pinheiro, tinha o Cine Art, conhecido também pela massa humilde como “Cine Puiga” e o Cine Ideal, já na Rua Alexandrino Cavalcante, antes Rua João Alves de Oliveira, ali próximo ao Ponto de Cem Réis, nos anos 1953 até final de 1956, ficava o Cine Asteca, pertencente aos sócios Kleber Belo e Edson Romero e no bairro da Prata na Rua Montevidéu, existia o Cine Real. 

Além das casas de exibição cinematográfica, Campina Grande tinha Cine Clubes: Cine Clubes eram agremiações sem fins lucrativos que estimulavam aos sócios debates sobre o filme em pauta. Os cines clubes produziram dentre os associados grandes nomes da cinematografia brasileira, destacando Cacá Diegues e Glauber Rocha que deu origem ao movimento do cinema novo. Tínhamos: O Cine Clube Campina Grande; Glauber Rocha; Humberto Mauro e Rui Guerra, entre outros. 

Registramos, em décadas mais recentes, a breve existência do Cinema 1 localizado no Centro Cultural, onde hoje é o Teatro Rosil Cavalcanti. O Cinema 1 foi criado a partir de uma parceria entre a Prefeitura Municipal (Prefeito Enivaldo Ribeiro) e a empresa de cinemas Luciano Wanderley. 
Todas essas casas exibidoras fecharam e Campina Grande ficou órfã de cinemas. Mas, não demorou muito, com a construção do Shopping Iguatemi (hoje, Partage), surgiram quatro salas de exibições da rede nacional de cinemas Multiplex. 

Nesta década, registramos o Cine Aquariu’s, digital-pornô, na Rua João Pessoa, com 55 cadeiras para o público em geral e 20 cadeiras para um público mais “especial”, em sala contígua, sendo inaugurado em 26 de maio de 2006, de propriedade do Sr. Antonio José Ferreira, advindo de Vitória de Santo Antão, Pernambuco. 

E a sétima arte com novos efeitos, enredos e atores fantásticos, continua encantando admiradores, aqueles que se interessam pelo cinema, que amam como arte a sua trajetória e realizações: são cinéfilos. Existem aqueles que são fissurados por cinema e vão assiduamente assistir aos filmes, estes são cinemeiros, assim, a sétima arte vai conquistando outras gerações, nesse meio-tempo, os sonhos nunca envelhecem. 


Referências: 
CÂMARA, Epaminondas. Datas Campinense. Campina Grande: Núcleo Cultural Português, 1998. 
COSTA, Helton Luis Paulino da. Sob a Luz da Projeção. Monografia,/Arte e Midia, UFCG, 2006. 
DINOÁ, Ronaldo. Memórias de Campina Grande (II vol): A União, 1993. 
MARIA, Chico. Açude Velho. Inédito. 
LEAL, Willis. O discurso Cinematográfico dos Paraibanos ou a História do Cinema da Paraíba. João Pessoa: A União, 1989. 
SILVA FILHO, Lino Gomes da. Síntese Históricas de Campina Grande, 1670-1963. João Pessoa – PB, Grafset, 2005.       
Depoimentos de Romero Azevedo, Rômulo Azevedo, Rui Vieira, Benedito Antonio Luciano, José Araújo Agra, Luiz Roberto Cavalcanti Oliveira (Curura), Otávio da Costa Lacerda (Tavinho/caneterio), Epitácio Fialho de Araújo (Pereba), Severino Xavier de Sousa (Biliu de Campina); Agnello José de Amorim; João Luiz Joka. 

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JOSÉ EDMILSON RODRIGUES
Advogado/Mestre em Literatura e Interculturalidade/Ensaísta

11 comentários

  1. Anônimo on 23 de abril de 2015 18:29

    Só faltou o cine Brasil(também de propriedade de Orlando Brasil)que também funcionava no bairro da Liberdade.
    Estes cinemas de bairro exibiam filmes na bitola de 16m/m.
    Os outros(Capitólio, Babilônia, São José e Avenida)exibiam filmes na bitola de 35m/m.

     
  2. Soahd on 24 de abril de 2015 00:07

    Armaria, o CINEMA 1 foi rejeitado do Bando?

     
  3. Anônimo on 25 de abril de 2015 19:55

    A cidade tambem teve o seu cine "Drive-in" que funcionava em um terreno ao lado de onde hoje está instalada a FACISA(no bairro de Itararé). A projeção era feita com um projetor de vídeo, e os filmes eram exibidos na versão VHS.
    Qualidade de som e imagem deixavam muito à desejar, mas isto era o que menos importava para os espectadores que aproveitavam as sessões para namoros mais ousados dentro dos carros.
    Isto no final da década de 1980.

     
  4. Anônimo on 26 de abril de 2015 18:20

    Bom registro, mas cabe uma observação:

    O sistema de imagem VistaVision não é o mesmo Cinemascope como está no texto.
    O Vistavision foi criado pela Paramounth para substituir a "tela plana"(uma imagem bem menor que predominava na época). O primeiro filme feito nesse sistema foi "Os brutos também amam" de 1953. O Cinemascope foi criado pela Fox como forma de conter a evasão de público nos EUA, "sequestrado" pela nascente TV colorida (isso em 1953)
    Outro detalhe: o som magnético de 4 faixas, estereofônico, nunca foi utilizado nos cinemas de Campina. As cópias em Cinemascope exibidas aqui tinham uma trilha sonora alternativa de apenas uma faixa pois as salas locais não tinham sistema de reprodução stereo e sim monoral(mono).

     
  5. o broco on 26 de abril de 2015 19:20

    ANONIMO ONDE FICAVA ESSE CINE BRASIL NO BAIRRO DA LIBERDADE SERIA NUM GALPÃO LOCALIZADO NA RUA SÃO PAULO?

     
  6. Anônimo on 26 de abril de 2015 21:43

    Exatamente.Do lado direito da rua(se voce entrar pela rua Rio de Janeiro).
    Assití lá(na minha infância)a comédia nacional "O primo do cangaceiro" uma sátira ao filme "O cangaceiro" de Lima Barreto.

     
  7. Anônimo on 29 de abril de 2015 18:34

    O primeiro filme exibido no Cinema 1, foi "As mil e uma noites" de Pier Paolo Pasolini.

     
  8. Bráulio Nóbrega on 3 de maio de 2015 15:30

    Um cinema ter na estréia um filme de Pasoline deve ter sido phoda! Se ainda hj as películas desse diretor causam arrepios, imagina antigamente.

     
  9. Unknown on 22 de maio de 2015 00:41

    Passei momentos inesquecíveis com a patroa no Drive In

     
  10. carlos roberto pereira roberto on 26 de junho de 2015 19:26

    Parabéns Edmilson pelo bom documentário

     
  11. Muriel on 19 de julho de 2017 22:00

    Onde posso ver fotos do Cine Arte, vulgo Cine Pulga?

     


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