Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
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Findava o ano de 1936 e Campina crescia, seguindo a sua vocação de ser Grande. Por esse tempo, já possuía 15 indústrias, estabelecimentos bancários e cinemas que lhe dava ares de capital metropolitana dos sertões.
No último dia daquele ano (31/12), resolvera o Sr. João Marques de Almeida realizar uma cantoria em sua residência, convidando para tal desiderato os trovadores Agostinho Lopes dos Santos (1906/1972) e Josué Alves da Cruz (1904/1968). João foi co-fundador, juntamente com seu irmão Dionísio, da fabrica de sabão “A Pernambucana”(1925), localizada no largo das boninas.
Muitas pessoas acorreram ao seu palacete, ansiosos por ouvirem os dois rapsodos populares, que se empenhavam na justa e eram aplaudidos com seus magníficos versos de repente. A sociedade campinense se fizera presente, não apenas pela distinção do anfitrião João Marques, como era de praxis naqueles dias áureos, se ouvir o torneio dos cantadores, hábeis em versejar e inspirados na poesia.
Na ocasião, se faziam presentes o ex-prefeito Ernane Lauritzen (1924-1928) e o renomado poeta Mauro Luna (1897/1943), este autor de “Horas de Enlevo” (1924) quando, a certa altura da cantoria, Ernane pediu que Mauro fizesse um mote para que os dois repentistas glosassem.
Todos sabem da importância do mote para o repente, ele é quem dá o tema a ser desenvolvido pelos cantadores perante a plateia. Mauro querendo elevar as qualidades de sua terra natal fez com que os menestreis rimassem em torno do dístico: “A Paraíba do norte/ É o coração do Brasil”.
Não é demais falar que o país saía de uma “revolução”, cujo espoenta maior era a Paraíba e que eclodiu com a morte do governador João Pessoa Cavalcanti, ascendendo Getúlio Vargas a presidência naquele momento de efervecência política.
Ciosos de sua responsabilidade, Josué (J) e Agostinho (A) iniciaram a cantoria que foi registrada pelo folclorista Francisco Coutinho Filho (1891/1976), cujos versos transcrevo a seguir:

J. – Não é pegando o ensejo
De desacatos nem guerra...
De gloriar minha terra
É o meu sumo desejo!
Procuro porém não vejo
Outra, formosa e gentil
Que lhe convide sutil
Para igualar o seu porte!...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A.    – Sou de Pernambuco, o forte...
Mas, neste verso eu escrevo
Pelos favores que devo
À Paraíba do Norte!
Estado de boa sorte,
Terra das quadras de Abril!...
Um homem, mesmo imbecil,
Mas tendo regra de fé,
Diz e jura que ela é:
O coração do Brasil!

J. – Junto ao Leão coroado (1)
Banha-lhe o rico Oceano,
Belo espelho soberano
Em que ela se tem olhado!...
Paraíba nos tem dado
Eminências, mais de mil...
Se não é para o fuzil,
É adevogado forte...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Dá a vida pela morte,
Enfrenta qualquer coluna,
(Assim disse Mauro Luna)
A Paraíba do Norte!
Negar, não há quem suporte,
O seu poder varonil!
No ferrolho do fuzil
Tem defendido o país,
Por isto o poeta diz:
É o coração do Brasil!

J. – Dela, os seus cavaleiros,
São como os pares de França!
Basta que eu traga à lembrança
André Vidal de Negreiros!
Como chefe de guerreiros,
Foi temeroso adaíl...
Como perfeito guazil,
Era audacioso e forte!...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Seu valor inesgotável...
Há poucos anos passados, (2)
Para remir os flagelados,
Foi ela a mais favorável!
Tornou-se a mais agradável
Debaixo dum céu de anil...
Lutava o pobre, sutil,
Exaltando a sua sorte:
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

J. – Tem ela infinda saudade...
Tombou, ficou quasiatôa,
Quando perdeu João Pessoa,
O tipo da lealdade!
Por ele a humanidade
Vingou o inimigo hostil...
Pela boca do fuzil
Mostrou bravura, foi forte! (3)
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – A Paraíba perdeu
Seu querido Interventor!
O bravo e grande Antenor (4)
Tragicamente morreu!
Seu berço ele defendeu
Vencendo perigos mil!
Naquela hora febril,
Dissera antes da morte:
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

J. – Bananeiras já chorou
Igualmente à Madalena,
Pelo Solon de Lucena, (5)
O filho que a levantou!...
E quem foi que melhorou
Serraria quando hastil?...
Nesse estado pueril,
Lima (6) deu-lhe fama e sorte!
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Num estado cadavérico
A Paraíba chorou...
Pra defende-la chegou
O doutor José Américo! (7)
Por seu instinto genérico,
Com um poder varonil,
Aquele gênio febril
Melhorou tudo de sorte!
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

J. – Areia, ninguém deprima!
No cimo da cordilheira
Onde plantou-se a limeira
E nunca mais faltará lima! (8)
A haste de mais estima
Tombou ao solo fértil!
Não era, o Cunha, (9) servil!
Disse ele, às portas da morte:
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Josué, com segurança
Encerrarei minha glosa...
Com a canção maviosa
Vou fazer esta aliança...
No salão fica a lembrança
Da nossa rima subtil!...
Só a pedra do esmeril
Ao meu ferro dará corte!...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

Assim concluiram os poetas matutos o seu intento, versejando sobre o mote dado, a relevância do nosso Estado, e seu passasdo vestuto que todos os convivas assistiram.

Rau Ferreira

*   *   *
___________
Notas: (1) O Estado de Pernambuco. (2) A seca de 1931/1932. (3) A Revolução de 1930. (4) Interventor Federal no Estado de 1930 à 1932. (5) Governador do Estado de 1920 à 1924. (6) Francisco Duarte Lima, Senador pela Paraíba (1936/1937) e Procurador do Estado de Pernambuco (1938), natural de Serraria (PB). (7) Autor de “A Bagaceira”, no período em que este foi Ministro da Viação. (8) Refere-se à família “Cunha Lima” de Areia. (9) Chefe de polícia da Paraíba, foi também Deputado Estadual e Federal.

*   *   *

Referências:
- BASTOS, Sevastião de Azevedo. No roteiro dos Azevêdo e outras famílias do Nordeste. EditoraGráfica Comercial. João Pessoa/PB: 1954.
- FILHO, F. Coutinho. Repentistas e Glosadores. A. Sartorio & Bertoli. São Paulo/SP: 1937.
- MOTA, Leonardo. Cantadores: poesia e linguagem do sertão cearense. Livraria Castilho. Rio de Janeiro/RJ: 1921.

3 comentários

  1. pdn-pb. on 29 de outubro de 2019 às 22:37

    É de grande relevância o resgate desses grandes ícones de repentistas.

     
  2. Anônimo on 19 de março de 2021 às 12:50

    Em qual rua era o palacete?

     
  3. Marconi Pereira on 10 de junho de 2021 às 04:07

    Meu avô se chamava Major João Marques de Oliveira,morador e funddador de Machados Pe, sendo seu primeiro Prefeito,

     


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