Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
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Por Vanderley de Brito

A história de Campina Grande está eivada de erros, principalmente no que diz respeito aos seus primórdios. Há anos venho estudando cuidadosamente documentos coevos do período de surgimento da povoação de Campina Grande e posso assegurar que os fatos que dispomos são, na sua grande maioria, interpretações apressadas de alguns poucos documentos e preenchimentos irresponsáveis de lacunas históricas.

Em primeiro lugar, Campina Grande não surgiu de um aldeamento de índios Airú. Na verdade, já existia uma aldeia dos Bultrins no local desde pelo menos 1668, e a propósito o lugar era chamado de “Taboleiros Grandes” por esses nativos, conforme um documento escrito por um sargento-mor bultrin, chamado Manuel Homem da Rocha, em 1752.

Os bultrins que viviam em Campina Grande eram índios aramuru, de etnia Cariri, vindos do São Francisco. Haviam lutado contra os holandeses na Guerra da Restauração e, como prêmio de guerra, receberam uma Data de terra na Paraíba. Vieram para a Paraíba junto com um capuchinho francês que os organizou em Missão num lugar próximo a “Lagoa da Roza”, e lá estabeleceu uma Missão de catequese com o nome de Boldrim. No entanto, esta Missão religiosa durou apenas dois anos, sendo desfeita em 1670 e os catecúmenos foram remanejados para a Missão de Pilar do Taypu, dos jesuítas. Porém, muitos nativos da antiga Missão Boldrim já haviam abandonado o centro catequético e se estabelecido em outras áreas e por isso não foram para o Pilar junto com seus parentes, pois a Data de terra naqueles agrestes lhes pertencia por direito. Assim, três aldeias ficaram estabelecidas na região, a de Boldrim, a de Genipapo e a de Campina Grande.

Teodósio de Oliveira Ledo já conhecia estes indígenas e sabia que ocupavam terras que lhes pertencia, mas como eram índios amigos dos colonizadores não os molestava e até tinha esta aldeias como ponto de pouso e lugar para se adquirir por escambo farinha e outros gêneros que eles produziam em suas roças.

"A fundação de Campina Grande": Desenho a lápis sobre papel Canson 300g/m², tamanho 30x12
(Vanderley de Brito)

Já os Ariú eram índios bravios que ocupavam os vales do Quinturaré e Seridó. Na verdade eram nativos Pegas, da nação Tarairiú e, muito provavelmente o nome ariú é corruptela de tarairiú. Estes índios guerrearam conta Teodósio quando este sertanista se empenhou em ocupar a região de Quinturaré (hoje região de Picuí) e depois de vencidos capitularam com o capitão-mor se oferecendo como vassalos de Sua Majestade.

Teodósio, que ainda lutava contra a tribo dos Pegas do líder Pecarroy, precisou ir até a cidade da Parahyba adquirir munição e mantimentos e achou por bem afastar os índios capitulados do cenário de guerra  para que não voltassem às hostilidades e os levou consigo, aldeando-os junto dos cariri-bultrins de Campina Grande. O ano era 1697.

Estes índios Ariú eram comandados por um índio de nome Cavalcante, que manifestou interesse de que seu grupo recebesse os ensinamentos cristãos. Dessa forma, quando o capitão-mor retornou da Parahyba trouxe consigo um frade do Convento de Santo Antônio para doutrinar estes indígenas. Portanto, o surgimento de Campina Grande como povoado cristão remonta o ano de 1698.

Obs: O espaço disponível nesta página não possibilita que se faça todo o estudo de fundamentação dos dados apresentados, mas o leitor poderá encontrar este estudo no livro de minha autoria “Missões na Capitania da Paraíba” (Cópias & Papéis, 2013).

 

A denominação de ruas e praças de uma cidade se faz em geral em homenagem a figuras histórica que contribuíram para o seu engrandecimento e ganham tal notoriedade que depois de um tempo as pessoas se esquecem do laureado para lembrar apenas do lugar.

Em Campina, a grande cidade Rainha, erigida nos contrafortes da Borborema, não poderia ser diferente. Muitas são as ruas que trazem em si nomes que se perderam na memória. Talvez essa tenha sido a intenção de Cristino Pimentel (1897-1971) ao fazer o resgate da rua Marques do Herval no hebdomadário “O Rebate”, que circulava nesse município na década de 40 do Século passado.

Em 1912 – segundo Cristino – havia apenas algumas casas pequenas de frontões, um cercado de arame, dando passagem para a leira do capim, e por trás algum cemitério pertencente ao patrimônio da igreja, que depois foi ocupado por uma firma comercial. A artéria chamada nesse tempo de “Rua Nova”, segundo ele, foi quase toda construída pelo espírito empreendedor do Major Belmiro Ribeiro Maracajá.

No fundo da rua – prossegue Cristino, dono da fruteira mais conhecida da cidade e cultuador das letras – ficava a igreja N. S. do Rosário e, ainda por trás, a Sociedade Beneficente Deus e Caridade, fundada por Tertuliano Barros Lino Fernandes, Jovino do Ó e José Peixoto; a qual pela proximidade do templo, também passou a se chamar “Largo do Rosário”, e depois “Praça da Bandeira”. Anos mais tarde se construiu a sede dos Correios e Telégrafos, sendo este prédio um ponto referencial da mesma rua.

Não é demais lembrar, que em tempos áureos, a “Marques do Herval” era conhecida como “Rua dos Armazéns”, pois ali acontecia a “feira do capim”, com a venda de animais (cavalos, galinhas etc) onde também se enchia os sacos de algodão para exportação.

Foi na rua Marques do Herval que João Ferreira Rique fundou o “Banco Industrial de Campina Grande” (1927), na base do edifício que leva o seu nome (Edifício Rique). Na mesma rua passou a funcionar o “Instituto Pedagógico” (1930) do Tenente Alfredo Dantas Correia de Góes

Caso inusitado é mencionado neste artigo d’O Rebate. Narra Pimentel que na rua dos Armazéns havia uma venda de cachaça pertencente a um português, conhecido apenas por “Marinheiro”, que certa vez pegou fogo consumindo a aguardente. Dizem que José Congo gritava com as mãos na cabeça: “tanta cana se perdendo e eu não posso beber”.

Cristino encerra o seu memorial afirmando que a sua “meninice foi alegre na Rua dos Armazéns onde nasci na casa nº 6. Muitas vezes passei o cercado da feira do capim para ir brincar por cima do muro do Cemitério Velho”.

Cristino é autor dos livros “Abrindo o livro do passado” (1958), “Pedaços da História de Campina Grande” (1959) e “Mais um mergulho na história campinense” (2001). O cronista escreve os fatos pitorescos da cidade a partir de sua vivência neste rincão paraibano.

Manoel Luís Osório (1808-1879) ingressou como Praça no Exército Imperial e foi herói da Guerra do Paraguai. O patrono da Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro (1962) é mais conhecido como “Marques do Herval”. Para nós, dá nome a uma importante rua de Campina Grande.

 Rau Ferreira

 

Referências:
- O REBATE, Jornal. Ano XX. Edição de 04 de outubro. Campina Grande-PB: 1949.
- CARÍCIO, Marcelo Rique. Memorial. 1ª edição. ISBN 978-65-5001-006-5. Natal/RN: 2019.
- ANDRADE, Vivian Galdino (de). Alfabetizando os “filhos da Rainha” para a civilidade/modernidade: o Instituto Pedagógico em Campina Grande -PB (1919-1942). e-Manuscrito. São Paulo/SP: 2020.
Por Vanderley de Brito

Em 1975, na gestão do prefeito Evaldo Cruz (1974-1976), a Prefeitura Municipal de Campina Grande estava edificando o monumento obelisco no meio do largo do Açude Novo, que deveria ser o marco zero das coordenadas urbanas da Cidade e também uma homenagem aos índios Ariú, então considerados os primeiros habitantes de Campina Grande.

Monumento sendo construído em 1975
(Imagem enviada por Jonatas Pereira - Diário da Borborema)

Todavia, o obelisco em construção para homenagear estes indígenas acabou por gerar uma dúvida em meio aos vereadores de Campina: teria sido mesmo os índios Ariú os primeiros habitantes de Campina?

A dúvida era pertinente e para tentar elucidar esta questão o líder arenista da Câmara Municipal de Campina, vereador José Luís Júnior, trouxe para palestrar na sessão do dia 03 de setembro do corrente ano o pesquisador Balduíno Lélis (presidente da seção paraibana do Centro Brasileiro de Arqueologia), sobre este assunto. Lélis, com um longo e eloquente discurso, acabou por afirmar que os indígenas Cariri já habitavam a região antes dos Ariú serem trazidos do sertão e aldeados em Campina pelo famoso sertanista.

Prof. Balduíno Lélis, em 1975, ocasião em que discursava para a Câmara Municipal de Campina Grande.
  
Ainda não satisfeitos, os vereadores preferiram consultar outro especialista e para a sessão da Câmara Municipal do dia 16 de setembro o vereador Lindaci de Medeiros convidou o professor José Elias Borges, profundo conhecedor sobre os indígenas paraibanos, para esclarecer este impasse sobre para quem se deveria dirigir à homenagem: aos Ariú ou aos Cariri?

Enfático, o professor Borges endossou o diagnóstico de Lélis afirmando que a região de Campina já era aldeamento de índios Cariri, e que os Ariú, vindos do sertão trazidos pelo sertanista Teodósio de oliveira Ledo em 1697, foram acrescidos à aldeia já existente na Campina Grande.

Particularmente, há anos sou amigo do velho Balduíno Lélis e também fui amigo de José Elias Borges, que lamentavelmente faleceu em 2010. Ambos se dedicaram com afinco e responsabilidade ao estudo dos povos indígenas da Paraíba e, de fato, tinham anuência para resolver o impasse, como o fizeram. Meus estudos sobre esta questão, alçados em documentos coevos que estes estudiosos não tiveram oportunidade de manusear na época, não deixam dúvidas de que Campina Grande já era uma aldeia de índios Bultrins, da nação Cariri, muito antes de Teodósio chegar com os nativos Ariú e os assentar nesta aldeia. Portanto, os verdadeiros fundadores de Campina Grande foram de fato os índios Cariri.

Apesar do esforço da Câmara para elucidar o caso e mesmo ante o diagnóstico apresentado por estes importantes estudiosos, o monumento obelisco, construído em concreto armado em forma piramidal no centro do largo do Açude Novo, circundado por um lago e medindo 45 metros de altura, contrariou a História e foi erigido em homenagem aos índios Ariú. Coisa de políticos!

O Monumento ainda em obras
(Imagem enviada por Calina Lígia Teixeira)

No projeto inicial, o monumento deveria receber imagens em alto relevo nas suas quatro faces com esculturas de cimento simbolizando os índios Ariú. Mas esta decoração artística acabou não sendo feita, creio que em virtude da dúvida lançada.

Obelisco do Parque Evaldo Cruz. Foto de Vanderley de Brito em 08 de abril de 2013

Nota do autor: 

Na verdade, nenhum grupo nativo ocupava a região de Campina Grande quando se deram as primeiras entradas nesta região por curraleiros e sertanistas brancos. Os Cariri vieram para a região trazidos do São Francisco por missionários capuchinhos, eram grupos agricultores e tinham um remoto parentesco com os tupi. Já os Ariú habitavam os sertões semiáridos, eram grupos caçadores e coletores, tinham grande estatura física e pertenciam ao tronco lingüístico Macro-jê. É convenção entre os estudiosos de línguas indígenas não utilizar o plural nos termos nativos, uma vez que nenhuma língua indígena no Brasil utilizava plural, se valendo de gerúndios para indicar quantidade.

Dona Anália Barbosa, uma autêntica
descendente dos Cariri da região de Campina Grande. Foto 1976.



por Rau Ferreira

Christiano Lauritzen
O prolongamento da ferrovia Conde d’Eu deve-se ao empenho de Christiano Lauritzen, na época Chefe da Intendência Municipal de Campina. O dinamarquês viajou à Capital Federal (Rio de Janeiro) para viabilizar o ramal que ligaria esta cidade à Alagoa Grande.

A comissão de estudos retornou em julho daquele ano, e firmou a primeira balisa no final da rua do Oriente, também conhecida como dos Mulungús, aquém do açude das Piabas. Estava esta primeira estaca apontava na direção do Riachão de Ingá, permeando as fraldas do elevado morro do Araçá e Oity, segundo sugestão de Irineu Jóffily.

O jornal A PROVÍNCIA de Recife republicou uma carta em que o velho intendente de Campina fizera publicar n’O Commercio da Parahyba. 

Christiano Lauritzen sobre a sua viagem e o esforço que empreendeu para a construção da via férrea de Campina. Em sua opinião o prologamento de Mulungú à Campina – em vez de Pilar à Campina, como era o traçado do projeto primitivo – era mais favorável às rendas públicas.

Para evitar discussões e divergências, aceitou as modificações e retornou no dia 10 de julho de 1890, acompanhado de dois engenheiros, o Dr. Crockratt de Sá e Corte Real, assim noticiado pela Gazeta do Sertão: 
“Última hora – Chegou ontem às 6 horas da tarde de volta de sua viagem à capital federal, o cidadão Christiano Lauritzen; acompanhado de dois engenheiros Drs. Crockratt de Sá, chefe da comissão que vai, segundo nos informam, fazer os estudos da estrada de ferro deta cidade à Mulungú, e o Dr. Corte Real.
Os três distintos Cidadãos foram encontrados por mais de cem cavalheiros.(...)” (Gazeta do Sertão: 11/07/1890).
Christiano sugeriu que a escolha recaísse entre Alagoa Grande e Campina, pois a serra que liga os municípios apresentava uma elevação gradual, evitando-se assim o terreno montanhoso dos contrafortes da Borborema.

O quilômetro do traçado estava orçado em 70,000$000, valor este que duplicava em face do cambio, muito aquém do orçamento público. Diante dessas complicações, considerava o dinamarquês as dificuldades da estrada de ferro, porquanto as companhias pouco se interessavam na sua construção, e explica-se:
“Sempre pensei que sem a garantia de juros, ou construção administrativa, seria difícil fazer-se uma estrada aqui no estado; portanto, negados estes dois meios, perdi a esperança de ver a estrada em Campina. Entretanto, entendi-me com o superintendente da Conde d’Eu, para saber se a companhia poderia contratar o trecho de Pilar a Itabaiana, por que parecia-me contratado o trecho de Timbaúba a Itabaiana pela Companhia Great Western, poderia estabelecer-se para o prolongamento de Campina um acordo ou competência”.
Na época, o superintendente da companhia – Mr. Sumner, informara que, em virtude de continuados prejuízos, a firma não poderia levantar capitais para este empreendimento, e com muita dificuldade realizava o contrato de Alagoa Grande.

Neste ponto da carta, desabafa o intendente municipal:
“Se eu estivesse na administração das rendas municipais aqui, teria ainda tentado como último recurso preparar o leito da estrada até os limites do município, embora tivesse de consumir durante uns 5 anos as rendas e meu trabalho na tentativa, que parecerá a muitos irrealizável, mas que não me intimidaria (...)”.
Com efeito, Lauritzen que estava a frente da intendência, em pouco menos de dois anos, e com uma renda inferior a 5:000$000, construiu um prédio para a instrução pública, edifício este que em 1901 estava avaliado em 15,000$000. E ainda na sua gestão, encomendou um “regulador” (relógio) para a igreja Matriz, este no valor de 1:500$000.Registre-se que a renda do município era pouco superior a 20,000$. 

Nos cálculos de Christiano, 16:000$000 seriam suficientes para contratar 50 homens com ferramentas, e havendo serviço diligente, haveria de se fazer o leito da estrada de ferro, desde que concorressem o auxílio do Estado e da União, porém faz critica a intervenção estadual, nestes termos:
“embora sem as obras de arte, e teríamos mais probabilidade de serem concluídos os trabalhos sem as exigências de garantia, porém para desconto dos meus pecados, e descrédito de um presidente do Estado que procura moralizar a sua administração, as rendas municipais de Campina constituem o patrimônio da família donataria d’esta aldeia colonial”.
Ainda havia uma esperança, se a companhia arrendataria, nos seus próprios interesses, enfrentasse o empreendimento. E ao que parece, o “gringo” demonstrava certo conhecimento de engenharia, quando escreve:
“Para isto poderá concorrer a discussão sobre a preferência de traçados, quando um d’estes é quase irrealizável pela dificuldade imensa que o terreno oferece? Parece-me que não, por muito fácil que seja o traçado do sul, por muitas vantagens que ofereça, ainda assim tenho dúvidas em ser realizado, quanto mais o traçado do norte. Uma das vantagens que se oferece à companhia, que só pode ser aproveitada no prolongamento do sul, é a condução do gado para o consumo de Pernambuco, o que é infalível, embora mais dispendioso, porque basta ser tentado por um marchante para os outros serem obrigados a imitá-lo, porque a superioridade da carne do gado conduzido no trem será suficiente para determinar esta modificação. (...). Quanto a ponto de partida do prolongamento, não tendo a companhia interesse em ser da estação ‘Rosa e Silva’, e pelo contrário haverá mais uns 12 kilômetros de estrada a contruir-se, estou certo que resolvido o prolongamento não haverá dificuldade em ser o ponto de partida Itabaiana(...)”.
A construção da via férrea de Campina foi uma verdadeira luta de Christiano Lauritzem, que empenhou-se pessoalmente:
“Para consegui-la, fiz sacrifícios até da minha segurança e tranqüilidade, aceitando as lutas políticas que só poderia prejudicar-me; no dia, porém, em que ouvir (embora mal) o apito estridente da locomotiva no planalto da Borborema, hão de testemunhar as loucuras que um gringo pode fazer, não pela destruição do seu Cartago, mas sim pela construção do maior e mais potente fator da civilização moderna”.
Ao final venceu o bom senso, e com o operoso esforço do dinamarquês o trem chegou a Campina em 02 de outubro de 1907. Fora recepcionado pelo então prefeito Christiano Lauritzen. O médico Assis Chateaubriand Bandeira de Melo fez a oratória, inaugurando uma onda de progresso e Campina nunca mais parou de ser grande.

Referências:
- A PROVÍNCIA, Jornal. Edição de 14 de novembro. Ano XXIV. Recife/PE: 1901.
- JOFFILY, Irineu. Notas sobre a Paraíba. Edição fac-similar de 1892. Thesaurus: 1977.
- JOFFILY, José. Entre a monarquia e a república. Livraria Kosmos Editora: 1982.
- SERTÃO, Gazeta do. Edições de 06/06, 11, 18 e 25/07. Campina Grande/PB: 1890.

Por Rau Ferreira (http://historiaesperancense.blogspot.com/)

O dinamarques Cristiano Lauritzen, em minucioso relatório apresentado ao Governador da Parahyba, faz uma importante descrição da cidade de Campina Grande.

Segundo aquele documento, o município limitava-se: ao Sul, com Alagoa Grande, Ingá e Cabaceiras; ao Poente, com Cabaceiras e Soledade; e ao Norte com Alagoa Nova e a povoação de Banabuyé. Os seus terrenos estavam divididos em três zonas: o brejo, que se extende ao Norte na estrada principal, onde se cultivam cana, café, mandioca, fumo e creais; a Caatinga ao Sul da mesma estrdada, terrenos mistos que produzem algodão e servem a criação de animais; a terceira zona era chamada de “Cariry Velho”, destinadas a criação de gado e que durante as secas possuía bom pasto, neste, era natural a Macambira, “cujo tronco ou talo contém uma massa que dá goma alva e nutritiva”.

As suas povoações ao seu tempo, eram: Fagundes, Queimadas, Boa-Vista, Pocinhos, S. Sebastião da Lagoa de Roça e a do Marinho. Explicando, portanto, a sua grande circunferência (300 km). E apesar de não haver recenseamento a população total estava estimada em 17 mil habitantes, sendo 4 mil almas na sede (Campina Grande). E alcançando aproximadamente 20 mil almas nos anos de seca.

O município que era comarca de 2ª. Entrância e freguezia de Nossa Senhora da Conceição, estava dividido em quatro distritos de paz, uma cidade e seis povoações.

A sede, outrora denominada de “Vila Nova da Rainha”, estava situada na chapada da Serra da Borborem a 560 metros acima do nível do mar, de clima temperado e sadio. Os seus subúrbios registravam quatro edifícios públicos e 713 casas distribuídas em dezoito ruas, além de duas praças e duas travessas.

Os prédios públicos eram: a Matriz (uma das mais espaçosas e de melhor arquitetura do Estado), a Igreja do Rosário (pequena e inconclusa), o Paço Municipal construído em 1877, onde funcionavam o Jury, o Conselho Municipal, arquivo e demais acomodações; e a Cadeia,”uma das maiores e mais sólidas do interior deste Estado”.

Na cidade ainda se encontravam uma aula pública para os sexos masculino e feminino; uma tipografia, duas casas de mercado, uma antiga praça municipal e outra moderna denominada de “Independência”, no lugar da feira.

Nos seus arredores haviam dois açudes públicos (Velho e Novo) e três particulares, além de diversas fontes de água.

O Açude Velho, quando cheio, tinha uma extensão de mil metros de comprimento e quarenta e cinco de largura, com profundidade de 10 metros. Seus baldes foram reedificados pelo IFOCS, por ordem do Barão de Abiahy em 1889.

O dito açude “Novo”, era bem menor em proporção. Não tinha afluentes e recebia águas que infiltravam nos taboleiros ao redor, “onde existe uma grande quantidade de ervas medicinais, como ipecacuanha, salsa e outras das quais toma a água, sem dúvida, as qualidades medicinais, que lhe são atribuídas, e uma cor de topásio queimado e gosto desagradável, que desaparece completamente depositada em vaso de barro um ou dois dias”.

As principais fontes de receita do município eram: os impostos da feira, o dízimo do gado e de animais de outros estados, e tributos cobrados sobre as edificações, lavouras e subprodutos da agricultura. Embora o seu autor considerasse que o melhor rendimento viesse do aforamento dos terrenos do antigo aldeamento dos Índios Carirys e determinasse a cobrança de “um real sobre braça quadrada”, havia um grande empecilho na sua arrecadação.

O terreno que passara a pertencer à municipalidade por decreto de 20 de outubro de 1857, sofreu invasão dos proprietários vizinhos. Era necessária uma demarcação, que no momento se mostrava inviável pois o Livro Tomobo do Pilar, em que estavam registradas a sua concessão, havia sido extraviado na sediação do Quebra-quilos. Era necessário organizar o dito foro sem a certeza dos seus limites. O local hoje é conhecido pelo nome de rua Índios Carirys.

O comérco era bem ativo naquele tempo, e explica o relator que isto se devia a sua localização, “colocada na desembocadura de três grandes estradas”, aguardando tão somente a chegada da estrada de ferro para o seu incremento.

Por fim, ao terminar o seu relato, propunha novas diretrizes para a organização do Estado, conferindo-se maior autonomia aos municípios.

Encerrado o documento, assinam Christiano Lauritzen, Manoel Gustavo de Farias Leite e Ildefonso de Brito Cunha Souto Maior.


Fonte:

- JOFFILY, Irineu. Notas sobre a Parahyba: fac-símile da primeira edição publicada no Rio de Janeiro em 1892, com prefácio de Capistrano de Abreu. Thesaurus Editora: 1977.

- JOFFILY, José. Entre a Monarquia e a República. Livraria Kosmos Editora: 1981.

- LAURITZEN, Christiano. Relatório apresentado ao Presidente da Província em 07 de outubro. Paço Municipal. Campina Grande/PB: 1890.

O tempo é uma ranhura que traz o passado para o presente e seu reflexo de costas vislumbrando uma saudade. São os olhos da vontade, do desejo que faz da graça de ver de novo o que se fora sem pedirmos. No soneto Saudade de Augusto dos Anjos, ele se revela tocado pela soledade que lhe invade a alma, trazendo lembranças que o fogo da vida e suas mágoas lhes povoam. E ele diz no último terceto do poema: - [...]“Da saudade na campa enegrecida / Guardo a lembrança que me sangra o peito, / Mas que no entanto me alimenta a vida.”

E na estrada da vida que às vezes nos limita e nos arrasta acabrunhando o que é nosso e o que nos avizinha: a ausência de quem gostamos de quem admiramos de quem temos amizade e de quem amamos. A lembrança foca na visão do acontecido e nos deixa perdido no vazio da busca de nos encontramos novamente com aquilo que se distanciou ou perdemos. Assim, pelos caminhos da cidade me vem à mente: Os Coqueiros de Zé Rodrigues; a Rua das Imbiras,rua onde nasci; a Bodega de Biu Cuité; D. Elisa,e meus primos: Dão, Paulo, Nenê, Lulu e Socorro Soares;Uray outro morador, conhecido jogador do Treze;Noaldo Nery do Bar - “O Buracão;” uma rua estreita, animada e enfeitada com bandeirolas coloridas para as festividades de São João, as quadrilhas comandadas por Dona Nuca (Maria Luiza), uma senhora risonha, simpática, amiga e comadre de minha mãe. Lembro-me do pé de Groselha no seu quintal que escalava com certo esforço para tirar os frutos maduros e saía com os dentes desbotados. Como é doce a lembrança.

A saudade é o elo entrelaçado entre nós que muitas vezes não desatam e nem se rompem, mas estão frequentes entre um peito e outro para a emoção contida no coração. A saudade é a falta de tomar banho no Açude de Bodocongó e quando se aprende a nadar sem instrutor. Ir aos bingos com os pais e vizinhos às margens do Açude Velho, ladeado por barracas cheias de quitutes e guloseimas. Esse misto de sentimentos que relembramos de uma época, e há o vazio que nada contém e, há também, uma melancolia daquilo que ficou no passado. A sensação de não sabermos por que perdemos uma boa amizade, porque perdemos o amor de nossas vidas, a mulher querida, o irmão, nossos pais.  A felicidade se foi e nada nos anima, a saudade nos sufoca e nos força a pensar no que deixamos no passado.


 Vista parcial de Campina Grande, anos de 1950. -  Acervo de José Edmilson.

E antes de voltar ao presente, mergulho no pensamento do ontem e visualizo a Palhoçano primeiro semestre de 1983,margeando a Rua Sebastião Donato, de chão batido,estruturada por Francisco Chaves, mais conhecido por “Chico Trambique,”Aluísio Lucena (do carro de som), Roberto Cunha Lima e das tocadas de Edmar Miguel, ainda nos Coqueiros de Zé Rodrigues. A feirinha de Artesanato beirando o Açude Novo. A barraca de Cunha ao lado do Teatro Municipal, a Feira Centrale o seu colorido, o picado de Dona Carminhae, mais para o centro:a Boate Skina, o Futurama, o Bar de Seu Ferreira, o Caldo de Peixe, o Bar de Edgar, a Rodoviária Velha, seus transportes Urbanos e interestaduais. Ah, ainda no vigor da juventude: O CEU – Clube dos Estudantes Universitários;e os bailes nas quartas-feiras e domingos no Clube do Flamengo em José Pinheiro;O Cave e a Boate Maria Fumaça; O Chopp do Alemão; A Riviera; A Cabana do Possidônio; O Ceboleiro; O Refavela;o Beco do 31,as lembranças invadem e a mente nos enriquece no presente de boa memória.


Campina Grande, Cartão Postal de 1959 – Acervo de José Edmilson

Memória e afeto da antiga Feira da Prata, do Castelo mal assombrado, das sessões de cinemas Bacurau, Capitólio e Coruja, Babilônia, além dos cinemas dos bairros, Cine Art, em José Pinheiro, conhecido como “Cine Puiga,”do Cine São José, no bairro do mesmo nome; e Cine Avenida. E as Boninas recheadas de casas de encontros, jogos, salões de animados boêmios e de belas mulheres, e na Rodagem onde fui criado, rodeado de mulheres avulsas e seus lupanares. Saudade do menino ingênuo que passeava de coração solto.

A saudade do poeta Zé Laurentino, que cantava a vida com maestria e amor; de José Pedrosa, da Livraria Pedrosa, “Faça do livro o seu melhor amigo”, homem generoso e cultor das letras; de Rômulo Araújo Lima, poeta, sociólogo, o maestro do Direito Administrativo, professor de bem com a vida; do Dr. Virgílio Brasileiro, médico pediatra, guardião da memória afetiva de Campina Grande, um grande cavalheiro; Dr. Adhemar Dantas, médico e teatrólogo, sensível, educado; Dona Lourdes Ramalho, autora, mulher além do tempo, dramaturga premiada; Clóvis de Melo, jornalista, radialista, o humor em pessoa; Wilson Maux, (Bom dia para você) jornalista e teatrólogo, voz que ecoava na madrugada com força cultural; de Joacil Oliveira, “O Cabeção,” jornalista/radialista, a simplicidade e a amizade;Henrique do Vale, carnavalesco, espontânea musicalidade, artista eclético, bem humorado; a irreverência e perspicácia do cronista Altamir Guimarães, o grande Mica; a espontaneidade e vida buliçosa bôemia em Francisco Lopes –“Chico Campanheiro;”a altivez e inteligência do jornalista Fernando Soares.

O presente nos deixa sempre pensativo, no entanto, o cérebro nos envia mensagens de idas e vindas. São imagens incrustadas na memória da cidade e de seus personagens, do que ficou para trás; são lembranças retornadas e ressurgidas como saudades. Um desejo de ver de novo. Efígies, representações que no futuro não cabe.


MAURO da Cunha LUNA nasceu em 27 de julho de 1897, em Campina Grande (PB), filho de Baltazar de Almeida Luna e Maria da Cunha Luna. Iniciou seus estudos no Colégio “S. José” do professor Clementino Procópio, onde fez o curso primário e recebeu noções de humanidades. 

Ingressou no jornalismo aos 15 anos, chegando a fundar uma publicação própria (O Renascença)que circulou por três anos e, em 1916, já era redator do semanário “A Razão”, órgão oposicionista local, colaborando ainda no jornal “A Voz da Borborema”. Em 1920, com apenas 21 anos, fundou o Instituto “Olavo Bilac”, externato que funcionou até o ano de 1934; lecionando também nos ginásios “Imaculada Conceição” e “Pio XI”. Para complementar o orçamento familiar, trabalhava ainda como guarda livros em firmas comerciais.

Dotado de grande intelectualidade, destacou-se em Campina pelas suas publicações culturais, mas foi a poesia que o imortalizou. Veja um dos seus primeiros poemas, publicados em 1920 no “Almanach de Pernambuco”:

SEIOS
Níveos pomos gentis, amêndoas, filhas
Do amor, fonte nutriz da vida humana:
Vós, força ingente que de outrora força emana,
Sois a suma expressão das maravilhas!
Magnéticos chamais às doces trilhas
Que tendem à existência soberana!
- Vosso aroma seduz, como a tirana
Emanação das tredas mancenilhas.
Em vós palpita a vida, em vós palpita
Toda a força motriz das sensações,
Que conduz ao viver e à morte excita!
Venusos seios de sútil pador:
Quando presos vos vejo, entre os rendões,
Gozo a volúpia de uma estranha dor!...

MAURO LUNA
Compôs o hino do Colégio das Damas e uma ode ao Campinense Clube que permaneceu quase que inédito, pois apublicação que seu deu no vizinho Estado de Pernambuco não teve muita circulação na Paraíba.

CAMPINENSE CLUBE
Ouço um brando rumor pela amplidão em fora,
Um rumor que, sublime,
Com doçuras ideais, todas as almas vence...
Ouço. E meu coração, que se agita em plethora,
Esquece de repente o mundo, - dor e crime.
Para saudar cantando o egrégio Campinense!
E me fico a cismar e o rumor mais se agita,
Recresce e vibra mais,
Como se, para mim, rompesse, de momento.
Uma bela alvorada, esplendida, bendita,
Plena de olor, de som, de acordes festivais,
Dando-me força ao estro e seiva ao pensamento.
Mas, senhores, que força estranha, incompreendida,
Faz-me vibrar assim?
Cheia de alacridade,
Como um mimo do CEO descido para mim?!
- Neste instante, eu me sinto alegre e satisfeito,
E, satisfeito e alegre, à egrégia sociedade,
Venho render, um canto, as veras do meu preito!
É, que no seio ideal do Campinense altivo,
Onde o riso esplandece,
Foi erguido um altar à Beleza e à Poesia...
O espírito, a subir e a subir mais, floresce
Em risos de esperança e cantos de harmonia!
Vede. Pelo salão anda uma alegria intensa...
Cada rosto traduz os sentimentos d’alma...
Bem haja, pois, a crença
Excelsa, salutar,
Que nos brilhou no peito e nos mandou a palma
Dessa grande Victoria esplendida buscar!
Campinense altaneiro! Eu te saúdo a glória!
Eu te saúdo e exalço, olímpico colosso!
- quero ver-te seguir, de Victoria em Victoria,
Para gaudio do meu áureo ideal de moço!
São guardas ao teu lado, - esses mancebos fortes,
Para te soerguer, - eis outras sentinelas.
- Refiro-me às liriais e cândidas coortes
Das pascidas donzelas,
Em cujo coração, rindo e cantando, impera
A crença que ilumina a tua primavera!
Recebe, pois, o canto insulso, mas sentido,
Que, com viva alegria, eu te ofereço, - e vence!
Vence! Vence o torpor, a insipidez, o olvido,
E sobe, e sobe mais... Assim, ó Campinense!

MAURO LUNA
Autor de “Horas de Enlevo”, livro que em 1924 reuniu em um único volume os seus versos, e que foi editado por T. Barros & Ramos; este lhe rendeuelogiosas notas de grandes expressões como José Américo de Almeida, João Ribeiro, Afonso Celso e Raul Machado, e na imprensa cariosa, o seguinte comentário:
“’Hora de Enlevo’, ao que parece, é um livro de estreia. 
O poeta no entanto, se apresenta uma certa timidez, natural nos que dão os primeiros passos, tem todavia certeza no manejar dos versos cuja métrica é boa. 
A nota predominante do livro – não fosse o poeta moço... – é o lirismo.
Dest’arte, quase por inteiro, o livro fala de amor, de sonhos e da mulher, não raro, de um pessimismo que é peculiar aos jovens, principalmente quando dão para fazer versos.
‘Hora de Enlevo’ não tem nada de futurismo, que é a doença quase geral da gente nova” (Revista da Semana, 08 de fevereiro de 1924).
A seu respeito, escreve Cristino Pimentel:
“Um jornalista de fôlego, que figurou na crônica da cidade e dos colégios como inigualável. Suas poesias esparsas e o seu livro ‘Hora de Enlevo’ atestam e aprovam bem isto’.

A seguir, algumas reproduções de “Horas de Enlevo”:

O PAU D'ARCO DA DIVISA
Velho pau d'arco altivo! Eu te contemplo a inquieta
Vida na solidão! És o remanescente
De uma flora gentil, que, de encantos repleta,
Teve os beijos da aurora e o triste adeus do poente..
Mas, a selva tombou! Somente tu, somente,
Resistes, na altivez dessa expressão de atleta!
— Nem te amolga o rigor do vendável furente,
Nem o clima te abate a compleição ereta.
Não és, só, um tristonho, anoso e obscuro marco,
Um fantasma qualquer, ó meu velho pau d'arco,
Mas, de antigos heróis, a fúlgida expressão!...
Sentes, talvez, de um mundo extinto, a agra saudade!
E sofres só! e embora assim, na adversidade
Floresces, perfumando a própria solidão...


O PAU D'ARCO AMARELO
Sobranceiro, a ostentar o fúlgido diadema,
Ei-lo, saudando o sol, na vastidão deserta!.. .
— Quem já viu, no escampado, um mais formoso poema,
Tão lindo que do artista as emoções desperta ?. . .
Emblema da ansiedade e da beleza emblema,
Árvore secular, de flores recobertas,
Embora ante a intempérie, algumas vezes trema,
Tem nas flores gentis, uma divina oferta!...
E quando o astro da noite, em êxtase flutua,
O pau d'arco recebe os ósculos da lua,
Balançando, de manso, a cabeleira em flor...
Na sua coma ondeante, abriga a passarada...
E põe, na insipidez da terra abandonada,
Uns resquícios de sonho e uns sussurros de amor!.. 

PAU D’ARCO ROXO
Sonhador do deserto! Eu, às vezes, me ponho,
Sozinho a meditar sobre o mistério teu...
- Tua cama, é, talvez um pedaço de sonho.
O mato tutelar que algum santo perdeu!...
Teu tronco, ao ver revoando esse manto, suponho
Logo a chamou a si, e, em êxtase, o prendeu...
- Tronco, essência talvez de algum poeta tristonho,
Que se foi e que em ti, afinal, reviveu.
Quando encaras a luz, fitando o azul cobalto,
Tétrico, a estremecer, todo em ânsias para o alto
Nessa expressão de dor, doce e sentimental.
Vejo em ti, sonhador, uma revivescência 
De Abreu, que se partiu tão cheio de inocência,
De Varela talvez ou talvez de Quental...

RETORNO
Quando o inverno, a espargir, pelas chapadas, pelos
Vargedos e grotões, a força fecundante,
Surge, no amplo serrão, da desídia dos apelos
E orio corre, e a terra brota, e, instante a instante.
Fulgem, na imensidão, relâmpagos – radiante
Prenúncio da extinção de negros pesadelos – 
E ribomba o trovão nas alturas, distante
Os montes e alcantis, de chofre, a estremicetos: 
O sertanejo, entregue às agruras do exílio,
Ouve o estampido e vê, do relâmpago, o brilho,
Mal podendo conter a súbita emoção...
A lembrança do verde e um clarão de esperança!
E volta... o amanhã da terra... e, finalmente alcança
Vício alegre e feliz dentro do seu sertão!...

CAMPONIO...
Quem te vê, não presente, às mais das vezes quanto
Sabes interpretar, de alma leve e opulenta,
A poesia da terra! O acrisolado encanto
Em que, da Natureza, a grande vos se escuta!
Arrepias o campo! E votada à labuta,
Alheiro à magoa, alheio ao ao tédio, alheio ao pranto!
Quando a seara germina, a sua alma prescruta
A sublime expressão desse verde recanto!...
Que o campo, para ti, é, como um céu aberto,
Quem te vê, sonhador, não presume, por certo,
Onde os mimos de em torno, elevado sorris...
Não se lembra, talvez, que, dos grãos que semeias,
Nasceu flores, sorrindo! E nascem, às mancheias,
Frutos que vais colher, ó sonhador feliz!...

Eleito para a Academia Paraibana de Letras – APL para ocupar a Cadeira nº 18, cujo patrono é o historiador e escritor Irineu Jóffily, não pode se dirigir à Capital para tomar posse, devido ao seu estado de saúde, nomeando o Padre Mathias Freira para lhe representar no ato solene. 

Empossado por procuração, em 15 de dezembro de 1943, não chegou a fazer, porém, o elogio do seu patronato, pois faleceu a 23 de novembro daquele ano.


Rau Ferreira
Referências:
- A SEMANA, Revista. Edição de 02 de agosto. Rio de Janeiro/RJ: 1924.
- A SEMANA, Revista. Edição de 02 de agosto. Rio de Janeiro/RJ: 1924.
- CÂMARA, Epaminondas. Do cientista Irineu Joffily ao poeta Mauro Luna, Revista da APL, nº 02, p.103. João Pessoa/PB: 1947.
- CORREIO DAS ARTES, Suplemento do Jornal A União. Seleção e notas de Eduartdo Martins. Edição de 11 de dezembro. João Pessoa/PB: 1949.
- LUNA, Mauro. Horas de enlevo. Edições da Comissão Cultural do Centenário, Prefeitura Municipal de Campina Grande. Campina Grande/PB: 1964.
- LUNA, Mauro. O Campinense. O Malho, Ano XIX, N. 929. Rio de Janeiro/RJ: 1920.
- PERNAMBUCO, Almanach. Ano XX. Pernambuco: 1920.
- PIMENTEL, Cristino. Abrindo o livro do passado, Vol. II. Livraria Pedrosa.
- PIMENTEL, Cristino. Abrindo o livro do passado, Vol. II. Livraria Pedrosa.
- PINTO, Luiz. Coletânea de poetas paraibanos. Ed. Minerva. Rio de Janeiro/RJ: 1953.
APL, Revista da Academia de Letras da Paraíba. Ano I, nº 01. João Pessoa/PB: 1993.
Campina Grande/PB: 1958.

 


As novas gerações nunca ouviram nem falar, mas os campinenses das gerações dos anos 1940/1950, que ainda estão vivos, talvez ainda lembrem ou tenham ouvido falar de uma das personagens de rua mais populares da história passada de Campina Grande; a Rainha Joana - uma moça loira que viveu e envelheceu dormindo e perambulando pelas ruas centrais da cidade, entre o final dos anos 1930 e a década de 1950. 

Contam, os que a conheceram, que ela enlouqueceu por conta de uma desilusão amorosa, após apaixonar-se por um rapaz rico e de família tradicional da cidade.  Na sua sofrida vida houve um tempo em que jovem e muito bonita chamava a atenção dos rapazes que a cortejavam, entre os quais  aquele que viria a ser o amor impossível de toda a sua vida e com o qual acreditou que viria a casar-se. Mas, como num folhetim de novela, o rapaz rico abandonou a moça pobre que, extremamente desiludida, passou a viver um pesadelo que lhe trouxe a fraqueza mental. 

O noivo e o casamento que tanto sonhou lhe tirou o juízo, e a própria família abandonou Joana, que passou a sobreviver de esmolas nas ruas centrais, acreditando ser uma Rainha. Sua bagagem real era uma cesta, onde conduzia um vestido longo usado, uma coberta encardida, um velho par de sapatos gastos, um pente e um vidro de óleo perfumado que usava acariciando os outrora lindos cabelos loiros.

Joana, já bem velha, ainda se apresentava como rainha, a Rainha Joana,  que ia casar-se com um rei. E como no enredo do genial Joãozinho Trinta, 'Ratos e Urubus Larguem Minha Fantasia', na vida da Rainha Joana tudo também reluziu, era ouro ou lata, formou-se a grande confusão, qual areia na farofa era o luxo e a pobreza no seu mundo de ilusão... 

Ela, louca e mendiga, acreditava que suas vestes eram reais, eram mantos de ouro e toda Campina Grande lhe pertencia. Eram suas todas as lojas e edifícios imponentes da época, como o Grande Hotel, a Prefeitura, o Cine Capitólio e os Correios, e as igrejas eram palácios de sua propriedade. Usava uma coroa de cordas e de molambos, e ao amanhecer, depois de dormir a cada noite na calçada de um dos seus palácios era acordada pelos seus súditos; a molecada da cidade, que a insultava chamando-a de rainha, que para ela não era insulto e sim uma saudação real. 

Passava os dias perambulando por uma Campina art déco,  cantando as marchinhas carnavalescas dos clubes do seu tempo de jovem: Regador, Cana Verde, Caiadores, Chaleiras, Beija-Flor e Dona Não Grite, promovendo "cerimônias reais" públicas onde condecorava populares com tampinhas de garrafa ou recitando quadrinhas poéticas que recordavam um amor que alimentou por muito tempo e depois morreu, deixando-a ao relento, cheia de amarguras e saudades, abandonada e louca, como nesta foto de 1951, em que  ela aparece já bem velha, com sua coroa e seus trajes reais nos degraus da Matriz, pronta para mais um recital: "Quem disser que não chorou, Querendo bem, é mentira, Querendo bem de verdade, Chora, soluça e suspira..."

A louca Joana e as histórias de uma Rainha da Borborema.

"Quem já passou por essa vida e não viveu,

Pode ser mais mas sabe menos do que eu.

Porque a vida só se dá pra quem se deu,

Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu" (Vinicius de Morais)

Texto originalmente publicado por Walter Tavares em seu perfil do Facebook


O CASSINO ELDORADO foi o templo da boemia e da luxúria dos senhores do algodão; inaugurado em 1º de julho de 1937, de propriedade do rico comerciante pernambucano João Veríssimo de Souza, em estilo art déco projetado pelo arquiteto Isac Soares, em plena feira central de Campina Grande. 

Em meio a orquestra fixa da casa, as mesas de Bacará e a animação feérica do salão, mulheres lindas, bem vestidas e perfumadas faziam a "vida" atendendo aos coronéis do algodão ou iniciando seus filhos na arte do amor. Entre elas, uma tornou-se símbolo da era de ouro da luxúria campinense: MARIA DO CARMO BARBOSA, que entrou para a história boêmia-sentimental de Campina Grande como MARIA GARRAFADA, a nossa mais famosa prostituta em todos os tempos. 

Conheceu dias de glória disputada por homens importantes no Cassino Eldorado e a sua fama virou lenda a ponto de ser, nos anos 80, já idosa e "aposentada", convidada pelo escritor Jorge Amado, em visita à cidade, que queria conhecer a sua história num elegante jantar de intelectuais em homenagem ao escritor baiano que aconteceu no imponente solar da crítica literária Elizabeth Marinheiro. 

Maria Garrafada virou personagem cult de Campina Grande: inspiração de poetas, letra de forró de sucesso, nome de bar de artistas e até tema de trabalhos de mestrado. Viveu e morreu no histórico Beco da Pororoca, numa morada humilde, sonhando em ter uma casa própria e certa vez em entrevista a um jornalista olhou-se no espelho da sala e perguntou: "em que espelho ficou perdida a minha cara?", referindo-se a beleza dos anos em que despertou a libido de gerações. 

Gostava de dizer que a sua maior recordação era o Cassino Eldorado no tempo dos antigos Carnavais; Nos dias de Momo usava quatro fantasias. Saía de casa no sábado e só voltava na quarta-feira de cinzas, depois de muito porre de lança-perfume, coberta de confete e serpentina dos bailes do Eldorado e exausta de marcar o passo brincando atrás dos blocos de frevo.

O apelido Garrafada popularizou-se após deixar a vida boêmia, passando a sobreviver da venda de remédios caseiros feitos de ervas para curar prostitutas de doenças venéreas, populares no interior do Nordeste como garrafada. 

MARIA GARRAFADA, o Cassino Eldorado, o ciclo do algodão, os antigos carnavais... símbolos imortais de uma era incandescente e fervilhante de Campina Grande onde a boemia era outra e bem melhor.

Texto originalmente postado no perfil de Walter Tavares, no Facebook




A Organização Remington, instituto de The RemingtonTyphwriterCompany de Nova York, atuava no Brasil sob o controle da S. A. Casa Pratt, sediada no Rio de Janeiro e com filial em Recife. Oferecia curso completo de datilografia mecânica e nomenclatura que eram válidos em todo o território nacional. Admitia senhoras para a direção e aplicava o manual “em português” com o método Remington de ensinar datilografia.

A propaganda da época destacava as vantagens do curso:

“O que posso fazer para obter maior ordenado??? Matriculai-vos na Escola Remington. Estudai datilografia e taquigrafia. Estará assim iniciada a vossa carreira. Com estes elementos obtereis um bom ordenado e podereis facilmente estudar inglês e escrituração mercantil. De posse desses conhecimentos, adquiridos em tempo relativamente curto, estará assegurado o vosso futuro na carreira comercial. Aulas diurnas para ambos os sexos”. (Jornal de Sergipe, 14/01/1926).

O Estado da Paraíba ganhou sua primeira escola de datilografia na década de 20. Á época, esse era um dos meios profissionalizantes que garantiam emprego certo para as jovens.

Em Campina Grande, o prefeito Christiano Lauritzen cedeu lugar no Paço Municipal e este serviço foi instalado em 18 de outubro de 1922. E reinstalado em prédio próprio, no dia 12 de março de 1923.

Com capacidade para 50 alunos, a escola denominava-se “Nilo Peçanha”, estava sediada na Rua da Matriz nº 20 e era dirigida por Simão de Almeida, que também era proprietário. As aulas eram ministradas por Brigida Guimarães e Bernadino de França. 

Exigia-se frequência diária ao curso e quinzenalmente se realizava um exame para avaliar a média de toques por minuto de cada aluno, cujo resultado era enviado para a RemingtonTypewriter Co. em Nova York. 

Na primeira turma formaram-se 54 alunos, do quais se destacaram: Elvira Pessoa, Judith Miranda, Cecy Silva, Alexandrina Guimarães, Celina Monteiro, Fernandina Pessoa, Joaninha de França e Zilda Neiva. 

A Escola Remington de Campina, por sua vez, orientou a criação de outras escolas, a exemplo da Escola Remington Nª. Sª do Bom Conselho, em Esperança, dirigida pelo Professor Luiz Gil de Figueiredo.



Referência:

- ERA NOVA, Revista. Ano III, Nº 46. Parahyba do Norte: 1923.

- ERA NOVA, Revista. Ano III, Nº 53. Parahyba do Norte: 1923.

- FERREIRA, Rau. BanaboéCariá: Recortes da Historiografia do Município de Esperança. Esperança/PB: 2015

 

Uma bela enquadrada da Agência dos Correios e Telégrafos de Campina Grande, enviada por Edival Toscano Varandas. Infelizmente não há precisão da data em que a tomada foi fotografada mas, ficam os pesquisadores da História a vontade para analisar os fatos visíveis como pontos de partida para o 'encaixe cronológico' da imagem.

Esta foto, que também nos mostra uma pequena parte da Praça da Bandeira, foi originalmente postada por Toinho Viégas, a partir de arquivos do seu pai, no grupo 'Paraíba Fotos e Fatos antigos' do Facebook.


Desde que o antigo Cine Capitólio encerrou suas atividades de entretenimento, tendo sido adquirido pela administração público municipal, em 1999, entidades diversas e gestão se digladiam sobre o destino que aquele espaço deveria ter tomado, e qual seu real aproveitamento para a sociedade.

Verdade que sobrou disputa e faltou objetividade, e o imóvel virou escombro. Apenas lembrança do que um dia foi o maior Cine-Theatro do estado da Paraíba.

Diante do inevitável desaparecimento do que ainda lhe resta, alguns anos atrás a PMCG ensaiou iniciar sua revitalização porém, esbarrou em vários empecilhos que não nos cabe entrar em seus méritos, aumentando ainda mais o hiato entre a intenção e a ação do quê fazer com aquela área; alguns defendem sua restauração, outros sua requalificação, ou ainda os mais radicais que preferiam que tudo fosse demolido, até por questões de segurança.

Nós que fazemos o BlogRHCG, que temos como bandeira de existência o resgate e a preservação da memória, achamos extremamente curioso o projeto do Arquiteto Marcus Nogueira Marcus Nogueira que, de forma artística, apresenta um cenário onírico para muitos campinenses; a revitalização do cinema, promovendo-lhe a restauração das suas características originais. A tecnologia nos proporciona a brilhante sensação de ver como seria aquele espaço, se o imóvel tivesse se mantido intacto desde sua construção.

Um dos motivos que orgulha à Campina Grande são as figuras que lhe representam mundo afora. Um desses 'filhos', é Walmir Chaves, sociólogo por formação intelectual na UFPB, porém ator e professor de artes cênicas radicado em Barcelona, na Espanha, desde o final da década de 1960. 

Em pouco tempo atuando em Campina Grande, destacou-se na radiofonia em produções da Rádio Borborema como radioator, tendo atuado ao lado de nomes como Hilton Mota, Rosil Cavalcante, Eraldo César, Silvinha de Alencar, entre outros.

O destaque que postamos é sua presença no acervo de imagens do Centro de Documentação do Instituto de Teatro do MAE - Museu de les Arts Escèniques, de Barcelona, quando atuou na peçe "Los Cantos de Maldoror" de Isidore Ducase, no ano de 1973!



O Museu de les Arts Escèniques (MAE) e o Centro de Documentação do Instituto do Teatre são serviços de informações sobre documentos especializados em teatros, dança, teatro, sarsuela, varietats, máfia, circuitos parateatrais. Inclui uma das fontes bibliográficas e documentais mais importantes da Europa, especialmente sobre a cena catalã e a língua espanhola, detentor de notáveis ​​coleções (pôsteres e programas de fotografia, fotografias, teatrins, esbossos, cenas e figurinos) disponibilizadas em exposições temporárias e através do seu site.

Vale o registro desse ilustre campinense, não só pelo mérito do fato, mas também pelo currículo de atuações artísticas na Espanha, na França, na Suíca, e pela sua atuação como professor na Escola Superior de Teatro de Barcelona. Ainda hoje morador de Barcelona, que tem no Blog Retalhos Históricos de Campina Grande um reencontro com suas raízes desde o princípio das nossas atividades, em 2009, tendo sido um recorrente colaborador com várias postagens ao longo desses anos em nossas publicações.

Segue link do MAE para publicação citada: https://cutt.ly/OySE40B


Outras postagens de Walmir Chaves no BlogRHCG:




As ruas da cidade são janelas que nos mostram diversas histórias, cada lugar descortina seu passado através do cotidiano dos seus habitantes, dos usos que se fizeram e se fazem dos espaços públicos ou privados. Atualmente as novas ruas de uma cidade são antecipadamente nominadas com uma numeração ou ganham o indistinto nome de ‘rua projetada’, até serem oficialmente batizadas, geralmente por projetos de lei na câmara de vereadores. Até nisso os antigos eram mais charmosos e práticos, denominavam de ‘Rua Nova’ aqueles novos logradouros, também temos outros epítetos comuns de cidades antigas como rua direita, oitão da Matriz... Entre o fim do século XIX e início do XX, Campina Grande teve uma Rua Nova, atualmente a conhecemos com o nome do revolucionário de 1817 ‘Peregrino de Carvalho’. Desse passado nos restam, além do traçado, duas casas defronte a Feirinha de Frutas em estilo eclético, as únicas que restaram. Uma delas está bem próxima de não mais existir.

Os ipês enfeitavam Campina Grande em plena primavera de 2016, numa manhã preciosamente ensolarada, tive o peito carregado de coragem pelo calor e ofuscamento de um sol que parecia descer para a altura de cruzeiro. Saí de casa às sete achando que já eram onze, coisas de quem está no alto da Borborema. Visitei um amigo marceneiro que me prestou um grande serviço em adaptar uma prancha de madeira que precisava de um certo reparo. Sabendo de minha predileção pela história da cidade, me confidenciou: ­“– Sabes aquela casinha antiga bem bonitinha de frente a feirinha de frutas? Vai ser vendida! Acho que vão derrubar”. Mas o que? Impossível! Respondi. A rua Peregrino de Carvalho está exatamente no perímetro do cadastramento do Centro Histórico de Campina Grande (Decreto 25.139 de 28 de junho de 2004) e nada nessa área pode ser modificado. Estava me valendo da operosa desenvoltura do Iphaep (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba) que há pelo menos cinco anos vinha realizando um admirável trabalho sob a direção de Cassandra Figueiredo Dias. Ele retrucou: “– A dona disse que estão negociando e pode ser vendida para uma farmácia, se for vendida você acha que vão botar uma farmácia do jeito que tá? Vão nada, derruba tudo, faz um prédio alto e moderno cheio de mármore”.



Detalhe dos dois prédios que ainda existem - Retalhos Históricos CG

O tempo passou e entre julho e agosto de 2018, iniciou uma reforma que retirou uma “latada” lateral. De imediato denunciamos o fato ao Iphaep, soubemos também que outras denúncias também chegaram ao órgão, que prontamente acionou o proprietário, foi aí que se descobriu que o número 370 da Rua Peregrino de Carvalho havia sido comprado por uma rede de farmácias e que pretendia abrir no local mais uma filial. O Iphaep esclareceu o que significava o tombamento e fui informado que o proprietário garantiu que ia preservar o contexto histórico do prédio e do lugar. A obra foi embargada em 29 de agosto. Na semana seguinte, o prédio aparece com as portas e janelas abertas, tendo início ao saque de seus materiais “mais nobres”, telhas, fiação, apetrechos internos, passaram a ser “levados” por “vândalos”, modus operandi bastante conhecido na cidade. O abandono atrai o saque e joga a opinião pública contra o lugar que vira antro de bandidos e consumidores de droga, enquanto isso, uma demolição pontual segue e o objetivo do proprietário se faz.  No dia cinco de setembro de 2018 houve um protesto  contra a destruição do patrimônio do município justamente defronte ao prédio, o momento de comoção nacional em torno dos bens históricos se deu devido ao incêndio  que destruiu o  Museu Nacional três dias antes no Rio de Janeiro. 



Professores, estudantes e ativistas culturais protestando contra a destruição do nosso patrimônio

Construída em 1925 compondo a ‘Rua Nova’, a edificação de um pavimento em estilo eclético com elementos decorativos na fachada e detalhes na platibanda testemunhou páginas sensíveis da história de Campina, de suas janelas era possível ver a passagem de animais tangidos que iam na direção de um pátio (onde hoje é a Rodoviária Velha) e eram comercializados, dando àquela rua o singelo nome de ‘Emboca’. Suas cercanias foram habitadas por damas da noite, baixo meretrício informado pelo historiador Fábio Gutemberg. Ao longo de sua história foi residência dos Agra e era ladeada pela conhecidíssima enfermaria de Seu Manoel Barbosa, o enfermeiro do povo. Testemunhou a partir de 1958/59 a construção do Terminal Rodoviário de Passageiros Cristiano Lauritzen, conhecido como Rodoviária Velha após a edificação da ‘Nova’ no Catolé na década de 1980.

Durante esse impactante momento de pandemia que vivemos, com comércio fechado e distanciamento social, ocorre o que eu temia. Na última quarta (6/mai) um tapume alto de zinco foi instalado encostado à fachada, usando-a como suporte e ferindo os detalhes com buracos, obstrução essa que vai de fato esconder a completa demolição da construção, ferindo brutalmente a história do Emboca e da cidade, atitude criminosa feita sorrateiramente em um momento tão sensível. Essa destruição se junta a outras e marca sensivelmente de forma negativa o Centro Histórico da cidade, o que deixaremos para a posteridade?


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Em novembro de 2015 fomos surpreendidos por um intenso vandalismo em um importante patrimônio histórico da cidade de Campina Grande-PB que, infelizmente, tem perdido muito de sua arquitetura histórica. Marcos paisagísticos estão sendo perdidos, mutilados, destruídos e tudo isso às vistas das autoridades. Desta vez, foi alvo de depredação o prédio da chamada "Estação Ferroviária Nova" de Campina Grande. O prédio foi invadido, arrombado e vem até hoje sendo "depenado". Tudo o que pode ser rentável economicamente vem sendo retirado paulatinamente por vândalos. Recentemente foram retirados o madeiramento e telhas dos galpões anexos.

O prédio foi construído em 1957 – momento em que se comemorava o cinquentenário da chegada do trem à Campina Grande, fato que foi expressivo para seu desenvolvimento – e inaugurado em 26 de janeiro de 1961 pela Rede Ferroviária do Nordeste - RFN (depois Rede Ferroviária Federal S.A. – RFFSA). Sua construção buscava em linhas gerais a melhoria dos serviços ferroviários na região pois havia a necessidade de espaço para manobras e uma melhor estrutura para passageiros e o trato com as cargas, além, claro, de ter o intuito de ser a interligação entre a Rede Ferroviária Nacional e a Rede Viação Cearense, num projeto de nacionalização das linhas incluídas na malha da RFFSA pelo plano nacional desenvolvimentista do governo de Juscelino Kubistchek. 

A Estação Nova, como se tornou conhecida, possui traços arquitetônicos em art déco e também proto-moderno, em destaque no seu frontispício temos um belíssimo painel em azulejo pintado; seu formato possui alguma semelhança com o prédio do Liceu Paraibano e é o que o estudioso Walter Tavares chama de inspiração em navios à vapor. Para o Professor Josemir Camilo: “Pode-se interpretar a construção como um conjunto, com seus armazéns e um prédio administrativo, em linha reta, ao longo dos trilhos, como se a Estação fosse a locomotiva, o prédio, o tender, e os armazéns, em ambas as extremidades, seus vagões”. Seu porte de grandeza o torna um dos mais destacados patrimônios arquitetônicos e históricos da cidade. 

Quanto ao saque, ao vandalismo, acreditamos que pode ter sido iniciado por vândalos, mas, em seguida, a ação provavelmente teve um caráter profissional, visto que os relógios da torre foram RETIRADOS e objetos grandes como carros de manutenção e peças de grandes dimensões foram levadas. Tudo começou entre outubro e início de novembro de 2015. A ausência dos relógios e as portas e portões arrombados podem ser vistos por quem passa cotidianamente pela avenida Professor Almeida Barreto, entre os bairros São José e Jardim Quarenta.

Na época, nos prontificamos a fazer uma denúncia ao Ministério Público Federal para que averiguasse o dano ao patrimônio, também comunicarmos a algumas instituições culturais além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba, o IPHAEP e também o congênere nacional, o IPHAN. Ao que se sabe, o referido patrimônio é da União e sua guarda, que estava a cargo do IPHAN após o fim da RFFSA foi repassada para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – DNIT no entanto, até o momento, não temos nenhum posicionamento do Ministério Público nem de nenhuma outra autoridade. O prédio poderia muito bem ser abraçado pela municipalidade, com vistas ao transporte público, por que não? Um VLT ali interligando a cidade, desafogando o terminal de integração, seria de grande valia. Há alguns anos, propus em conjunto com o amigo memorialista José Edmilson Rodrigues que se fizesse um Museu que expressasse a memória ferroviária do interior do Nordeste. 

Quase cinco anos depois da denúncia nada foi feito. Continuamos aguardando uma averiguação do caso e a pronta reparação do dano patrimonial, além da punição aos responsáveis pela destruição. 



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