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| "A fundação de Campina Grande": Desenho a lápis sobre papel Canson 300g/m², tamanho 30x12 (Vanderley de Brito) |
QUAL ASSUNTO VOCÊ ESTÁ PROCURANDO?
A denominação de ruas e praças de uma cidade se faz em
geral em homenagem a figuras histórica que contribuíram para o seu
engrandecimento e ganham tal notoriedade que depois de um tempo as pessoas se
esquecem do laureado para lembrar apenas do lugar.
Em Campina, a grande cidade Rainha, erigida nos
contrafortes da Borborema, não poderia ser diferente. Muitas são as ruas que
trazem em si nomes que se perderam na memória. Talvez essa tenha sido a
intenção de Cristino Pimentel (1897-1971) ao fazer o resgate da rua Marques do
Herval no hebdomadário “O Rebate”, que circulava nesse município na década de
40 do Século passado.
Em 1912 – segundo Cristino – havia apenas algumas
casas pequenas de frontões, um cercado de arame, dando passagem para a leira do
capim, e por trás algum cemitério pertencente ao patrimônio da igreja, que
depois foi ocupado por uma firma comercial. A artéria chamada nesse tempo de
“Rua Nova”, segundo ele, foi quase toda construída pelo espírito empreendedor
do Major Belmiro Ribeiro Maracajá.
No fundo da rua – prossegue Cristino, dono da fruteira
mais conhecida da cidade e cultuador das letras – ficava a igreja N. S. do
Rosário e, ainda por trás, a Sociedade Beneficente Deus e Caridade, fundada por
Tertuliano Barros Lino Fernandes, Jovino do Ó e José Peixoto; a qual pela proximidade
do templo, também passou a se chamar “Largo do Rosário”, e depois “Praça da
Bandeira”. Anos mais tarde se construiu a sede dos Correios e Telégrafos, sendo
este prédio um ponto referencial da mesma rua.
Não é demais lembrar, que em tempos áureos, a “Marques
do Herval” era conhecida como “Rua dos Armazéns”, pois ali acontecia a “feira
do capim”, com a venda de animais (cavalos, galinhas etc) onde também se enchia
os sacos de algodão para exportação.
Foi na rua Marques do Herval que João Ferreira Rique
fundou o “Banco Industrial de Campina Grande” (1927), na base do edifício que
leva o seu nome (Edifício Rique). Na mesma rua passou a funcionar o “Instituto
Pedagógico” (1930) do Tenente Alfredo Dantas Correia de Góes
Caso inusitado é mencionado neste artigo d’O Rebate.
Narra Pimentel que na rua dos Armazéns havia uma venda de cachaça pertencente a
um português, conhecido apenas por “Marinheiro”, que certa vez pegou fogo
consumindo a aguardente. Dizem que José Congo gritava com as mãos na cabeça: “tanta
cana se perdendo e eu não posso beber”.
Cristino encerra o seu memorial afirmando que a sua “meninice
foi alegre na Rua dos Armazéns onde nasci na casa nº 6. Muitas vezes passei o
cercado da feira do capim para ir brincar por cima do muro do Cemitério Velho”.
Cristino é autor dos livros “Abrindo o livro do
passado” (1958), “Pedaços da História de Campina Grande” (1959) e “Mais um
mergulho na história campinense” (2001). O cronista escreve os fatos pitorescos
da cidade a partir de sua vivência neste rincão paraibano.
Manoel Luís Osório (1808-1879) ingressou como Praça no
Exército Imperial e foi herói da Guerra do Paraguai. O patrono da Arma de
Cavalaria do Exército Brasileiro (1962) é mais conhecido como “Marques do
Herval”. Para nós, dá nome a uma importante rua de Campina Grande.
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| Monumento sendo construído em 1975 (Imagem enviada por Jonatas Pereira - Diário da Borborema) |
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| Prof. Balduíno Lélis, em 1975, ocasião em que discursava para a Câmara Municipal de Campina Grande. |
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| O Monumento ainda em obras (Imagem enviada por Calina Lígia Teixeira) |
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| Obelisco do Parque Evaldo Cruz. Foto de Vanderley de Brito em 08 de abril de 2013 |
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| Dona Anália Barbosa, uma autêntica descendente dos Cariri da região de Campina Grande. Foto 1976. |
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| Christiano Lauritzen |
“Última hora – Chegou ontem às 6 horas da tarde de volta de sua viagem à capital federal, o cidadão Christiano Lauritzen; acompanhado de dois engenheiros Drs. Crockratt de Sá, chefe da comissão que vai, segundo nos informam, fazer os estudos da estrada de ferro deta cidade à Mulungú, e o Dr. Corte Real.
Os três distintos Cidadãos foram encontrados por mais de cem cavalheiros.(...)” (Gazeta do Sertão: 11/07/1890).
“Sempre pensei que sem a garantia de juros, ou construção administrativa, seria difícil fazer-se uma estrada aqui no estado; portanto, negados estes dois meios, perdi a esperança de ver a estrada em Campina. Entretanto, entendi-me com o superintendente da Conde d’Eu, para saber se a companhia poderia contratar o trecho de Pilar a Itabaiana, por que parecia-me contratado o trecho de Timbaúba a Itabaiana pela Companhia Great Western, poderia estabelecer-se para o prolongamento de Campina um acordo ou competência”.
“Se eu estivesse na administração das rendas municipais aqui, teria ainda tentado como último recurso preparar o leito da estrada até os limites do município, embora tivesse de consumir durante uns 5 anos as rendas e meu trabalho na tentativa, que parecerá a muitos irrealizável, mas que não me intimidaria (...)”.
“embora sem as obras de arte, e teríamos mais probabilidade de serem concluídos os trabalhos sem as exigências de garantia, porém para desconto dos meus pecados, e descrédito de um presidente do Estado que procura moralizar a sua administração, as rendas municipais de Campina constituem o patrimônio da família donataria d’esta aldeia colonial”.
“Para isto poderá concorrer a discussão sobre a preferência de traçados, quando um d’estes é quase irrealizável pela dificuldade imensa que o terreno oferece? Parece-me que não, por muito fácil que seja o traçado do sul, por muitas vantagens que ofereça, ainda assim tenho dúvidas em ser realizado, quanto mais o traçado do norte. Uma das vantagens que se oferece à companhia, que só pode ser aproveitada no prolongamento do sul, é a condução do gado para o consumo de Pernambuco, o que é infalível, embora mais dispendioso, porque basta ser tentado por um marchante para os outros serem obrigados a imitá-lo, porque a superioridade da carne do gado conduzido no trem será suficiente para determinar esta modificação. (...). Quanto a ponto de partida do prolongamento, não tendo a companhia interesse em ser da estação ‘Rosa e Silva’, e pelo contrário haverá mais uns 12 kilômetros de estrada a contruir-se, estou certo que resolvido o prolongamento não haverá dificuldade em ser o ponto de partida Itabaiana(...)”.
“Para consegui-la, fiz sacrifícios até da minha segurança e tranqüilidade, aceitando as lutas políticas que só poderia prejudicar-me; no dia, porém, em que ouvir (embora mal) o apito estridente da locomotiva no planalto da Borborema, hão de testemunhar as loucuras que um gringo pode fazer, não pela destruição do seu Cartago, mas sim pela construção do maior e mais potente fator da civilização moderna”.
Segundo aquele documento, o município limitava-se: ao Sul, com Alagoa Grande, Ingá e Cabaceiras; ao Poente, com Cabaceiras e Soledade; e ao Norte com Alagoa Nova e a povoação de Banabuyé. Os seus terrenos estavam divididos em três zonas: o brejo, que se extende ao Norte na estrada principal, onde se cultivam cana, café, mandioca, fumo e creais; a Caatinga ao Sul da mesma estrdada, terrenos mistos que produzem algodão e servem a criação de animais; a terceira zona era chamada de “Cariry Velho”, destinadas a criação de gado e que durante as secas possuía bom pasto, neste, era natural a Macambira, “cujo tronco ou talo contém uma massa que dá goma alva e nutritiva”.
As suas povoações ao seu tempo, eram: Fagundes, Queimadas, Boa-Vista, Pocinhos, S. Sebastião da Lagoa de Roça e a do Marinho. Explicando, portanto, a sua grande circunferência (300 km). E apesar de não haver recenseamento a população total estava estimada em 17 mil habitantes, sendo 4 mil almas na sede (Campina Grande). E alcançando aproximadamente 20 mil almas nos anos de seca.
O município que era comarca de 2ª. Entrância e freguezia de Nossa Senhora da Conceição, estava dividido em quatro distritos de paz, uma cidade e seis povoações.
A sede, outrora denominada de “Vila Nova da Rainha”, estava situada na chapada da Serra da Borborem a 560 metros acima do nível do mar, de clima temperado e sadio. Os seus subúrbios registravam quatro edifícios públicos e 713 casas distribuídas em dezoito ruas, além de duas praças e duas travessas.
Os prédios públicos eram: a Matriz (uma das mais espaçosas e de melhor arquitetura do Estado), a Igreja do Rosário (pequena e inconclusa), o Paço Municipal construído em 1877, onde funcionavam o Jury, o Conselho Municipal, arquivo e demais acomodações; e a Cadeia,”uma das maiores e mais sólidas do interior deste Estado”.
Na cidade ainda se encontravam uma aula pública para os sexos masculino e feminino; uma tipografia, duas casas de mercado, uma antiga praça municipal e outra moderna denominada de “Independência”, no lugar da feira.
Nos seus arredores haviam dois açudes públicos (Velho e Novo) e três particulares, além de diversas fontes de água.
O Açude Velho, quando cheio, tinha uma extensão de mil metros de comprimento e quarenta e cinco de largura, com profundidade de 10 metros. Seus baldes foram reedificados pelo IFOCS, por ordem do Barão de Abiahy em 1889.
O dito açude “Novo”, era bem menor em proporção. Não tinha afluentes e recebia águas que infiltravam nos taboleiros ao redor, “onde existe uma grande quantidade de ervas medicinais, como ipecacuanha, salsa e outras das quais toma a água, sem dúvida, as qualidades medicinais, que lhe são atribuídas, e uma cor de topásio queimado e gosto desagradável, que desaparece completamente depositada em vaso de barro um ou dois dias”.
As principais fontes de receita do município eram: os impostos da feira, o dízimo do gado e de animais de outros estados, e tributos cobrados sobre as edificações, lavouras e subprodutos da agricultura. Embora o seu autor considerasse que o melhor rendimento viesse do aforamento dos terrenos do antigo aldeamento dos Índios Carirys e determinasse a cobrança de “um real sobre braça quadrada”, havia um grande empecilho na sua arrecadação.
O terreno que passara a pertencer à municipalidade por decreto de 20 de outubro de 1857, sofreu invasão dos proprietários vizinhos. Era necessária uma demarcação, que no momento se mostrava inviável pois o Livro Tomobo do Pilar, em que estavam registradas a sua concessão, havia sido extraviado na sediação do Quebra-quilos. Era necessário organizar o dito foro sem a certeza dos seus limites. O local hoje é conhecido pelo nome de rua Índios Carirys.
O comérco era bem ativo naquele tempo, e explica o relator que isto se devia a sua localização, “colocada na desembocadura de três grandes estradas”, aguardando tão somente a chegada da estrada de ferro para o seu incremento.
Por fim, ao terminar o seu relato, propunha novas diretrizes para a organização do Estado, conferindo-se maior autonomia aos municípios.
Encerrado o documento, assinam Christiano Lauritzen, Manoel Gustavo de Farias Leite e Ildefonso de Brito Cunha Souto Maior.
Fonte:
- JOFFILY, Irineu. Notas sobre a Parahyba: fac-símile da primeira edição publicada no Rio de Janeiro em 1892, com prefácio de Capistrano de Abreu. Thesaurus Editora: 1977.
- JOFFILY, José. Entre a Monarquia e a República. Livraria Kosmos Editora: 1981.
- LAURITZEN, Christiano. Relatório apresentado ao Presidente da Província em 07 de outubro. Paço Municipal. Campina Grande/PB: 1890.
O tempo é uma ranhura que traz o passado para o presente e seu reflexo de costas vislumbrando uma saudade. São os olhos da vontade, do desejo que faz da graça de ver de novo o que se fora sem pedirmos. No soneto Saudade de Augusto dos Anjos, ele se revela tocado pela soledade que lhe invade a alma, trazendo lembranças que o fogo da vida e suas mágoas lhes povoam. E ele diz no último terceto do poema: - [...]“Da saudade na campa enegrecida / Guardo a lembrança que me sangra o peito, / Mas que no entanto me alimenta a vida.”
E na estrada da vida que às vezes nos limita e nos arrasta acabrunhando o que é nosso e o que nos avizinha: a ausência de quem gostamos de quem admiramos de quem temos amizade e de quem amamos. A lembrança foca na visão do acontecido e nos deixa perdido no vazio da busca de nos encontramos novamente com aquilo que se distanciou ou perdemos. Assim, pelos caminhos da cidade me vem à mente: Os Coqueiros de Zé Rodrigues; a Rua das Imbiras,rua onde nasci; a Bodega de Biu Cuité; D. Elisa,e meus primos: Dão, Paulo, Nenê, Lulu e Socorro Soares;Uray outro morador, conhecido jogador do Treze;Noaldo Nery do Bar - “O Buracão;” uma rua estreita, animada e enfeitada com bandeirolas coloridas para as festividades de São João, as quadrilhas comandadas por Dona Nuca (Maria Luiza), uma senhora risonha, simpática, amiga e comadre de minha mãe. Lembro-me do pé de Groselha no seu quintal que escalava com certo esforço para tirar os frutos maduros e saía com os dentes desbotados. Como é doce a lembrança.
A saudade é o elo entrelaçado entre nós que muitas vezes não desatam e nem se rompem, mas estão frequentes entre um peito e outro para a emoção contida no coração. A saudade é a falta de tomar banho no Açude de Bodocongó e quando se aprende a nadar sem instrutor. Ir aos bingos com os pais e vizinhos às margens do Açude Velho, ladeado por barracas cheias de quitutes e guloseimas. Esse misto de sentimentos que relembramos de uma época, e há o vazio que nada contém e, há também, uma melancolia daquilo que ficou no passado. A sensação de não sabermos por que perdemos uma boa amizade, porque perdemos o amor de nossas vidas, a mulher querida, o irmão, nossos pais. A felicidade se foi e nada nos anima, a saudade nos sufoca e nos força a pensar no que deixamos no passado.
E antes de voltar ao presente, mergulho no pensamento do ontem e visualizo a Palhoçano primeiro semestre de 1983,margeando a Rua Sebastião Donato, de chão batido,estruturada por Francisco Chaves, mais conhecido por “Chico Trambique,”Aluísio Lucena (do carro de som), Roberto Cunha Lima e das tocadas de Edmar Miguel, ainda nos Coqueiros de Zé Rodrigues. A feirinha de Artesanato beirando o Açude Novo. A barraca de Cunha ao lado do Teatro Municipal, a Feira Centrale o seu colorido, o picado de Dona Carminhae, mais para o centro:a Boate Skina, o Futurama, o Bar de Seu Ferreira, o Caldo de Peixe, o Bar de Edgar, a Rodoviária Velha, seus transportes Urbanos e interestaduais. Ah, ainda no vigor da juventude: O CEU – Clube dos Estudantes Universitários;e os bailes nas quartas-feiras e domingos no Clube do Flamengo em José Pinheiro;O Cave e a Boate Maria Fumaça; O Chopp do Alemão; A Riviera; A Cabana do Possidônio; O Ceboleiro; O Refavela;o Beco do 31,as lembranças invadem e a mente nos enriquece no presente de boa memória.
Memória e afeto da antiga Feira da Prata, do Castelo mal assombrado, das sessões de cinemas Bacurau, Capitólio e Coruja, Babilônia, além dos cinemas dos bairros, Cine Art, em José Pinheiro, conhecido como “Cine Puiga,”do Cine São José, no bairro do mesmo nome; e Cine Avenida. E as Boninas recheadas de casas de encontros, jogos, salões de animados boêmios e de belas mulheres, e na Rodagem onde fui criado, rodeado de mulheres avulsas e seus lupanares. Saudade do menino ingênuo que passeava de coração solto.
A saudade do poeta Zé Laurentino, que cantava a vida com maestria e amor; de José Pedrosa, da Livraria Pedrosa, “Faça do livro o seu melhor amigo”, homem generoso e cultor das letras; de Rômulo Araújo Lima, poeta, sociólogo, o maestro do Direito Administrativo, professor de bem com a vida; do Dr. Virgílio Brasileiro, médico pediatra, guardião da memória afetiva de Campina Grande, um grande cavalheiro; Dr. Adhemar Dantas, médico e teatrólogo, sensível, educado; Dona Lourdes Ramalho, autora, mulher além do tempo, dramaturga premiada; Clóvis de Melo, jornalista, radialista, o humor em pessoa; Wilson Maux, (Bom dia para você) jornalista e teatrólogo, voz que ecoava na madrugada com força cultural; de Joacil Oliveira, “O Cabeção,” jornalista/radialista, a simplicidade e a amizade;Henrique do Vale, carnavalesco, espontânea musicalidade, artista eclético, bem humorado; a irreverência e perspicácia do cronista Altamir Guimarães, o grande Mica; a espontaneidade e vida buliçosa bôemia em Francisco Lopes –“Chico Campanheiro;”a altivez e inteligência do jornalista Fernando Soares.
O presente nos deixa sempre pensativo, no entanto, o cérebro nos envia mensagens de idas e vindas. São imagens incrustadas na memória da cidade e de seus personagens, do que ficou para trás; são lembranças retornadas e ressurgidas como saudades. Um desejo de ver de novo. Efígies, representações que no futuro não cabe.
MAURO da Cunha LUNA nasceu em 27 de julho de 1897, em Campina Grande (PB), filho de Baltazar de Almeida Luna e Maria da Cunha Luna. Iniciou seus estudos no Colégio “S. José” do professor Clementino Procópio, onde fez o curso primário e recebeu noções de humanidades.
As novas gerações nunca ouviram nem falar, mas os campinenses das gerações dos anos 1940/1950, que ainda estão vivos, talvez ainda lembrem ou tenham ouvido falar de uma das personagens de rua mais populares da história passada de Campina Grande; a Rainha Joana - uma moça loira que viveu e envelheceu dormindo e perambulando pelas ruas centrais da cidade, entre o final dos anos 1930 e a década de 1950.
Contam, os que a conheceram, que ela enlouqueceu por conta de uma desilusão amorosa, após apaixonar-se por um rapaz rico e de família tradicional da cidade. Na sua sofrida vida houve um tempo em que jovem e muito bonita chamava a atenção dos rapazes que a cortejavam, entre os quais aquele que viria a ser o amor impossível de toda a sua vida e com o qual acreditou que viria a casar-se. Mas, como num folhetim de novela, o rapaz rico abandonou a moça pobre que, extremamente desiludida, passou a viver um pesadelo que lhe trouxe a fraqueza mental.
O noivo e o casamento que tanto sonhou lhe tirou o juízo, e a própria família abandonou Joana, que passou a sobreviver de esmolas nas ruas centrais, acreditando ser uma Rainha. Sua bagagem real era uma cesta, onde conduzia um vestido longo usado, uma coberta encardida, um velho par de sapatos gastos, um pente e um vidro de óleo perfumado que usava acariciando os outrora lindos cabelos loiros.
Joana, já bem velha, ainda se apresentava como rainha, a Rainha Joana, que ia casar-se com um rei. E como no enredo do genial Joãozinho Trinta, 'Ratos e Urubus Larguem Minha Fantasia', na vida da Rainha Joana tudo também reluziu, era ouro ou lata, formou-se a grande confusão, qual areia na farofa era o luxo e a pobreza no seu mundo de ilusão...
Ela, louca e mendiga, acreditava que suas vestes eram reais, eram mantos de ouro e toda Campina Grande lhe pertencia. Eram suas todas as lojas e edifícios imponentes da época, como o Grande Hotel, a Prefeitura, o Cine Capitólio e os Correios, e as igrejas eram palácios de sua propriedade. Usava uma coroa de cordas e de molambos, e ao amanhecer, depois de dormir a cada noite na calçada de um dos seus palácios era acordada pelos seus súditos; a molecada da cidade, que a insultava chamando-a de rainha, que para ela não era insulto e sim uma saudação real.
Passava os dias perambulando por uma Campina art déco, cantando as marchinhas carnavalescas dos clubes do seu tempo de jovem: Regador, Cana Verde, Caiadores, Chaleiras, Beija-Flor e Dona Não Grite, promovendo "cerimônias reais" públicas onde condecorava populares com tampinhas de garrafa ou recitando quadrinhas poéticas que recordavam um amor que alimentou por muito tempo e depois morreu, deixando-a ao relento, cheia de amarguras e saudades, abandonada e louca, como nesta foto de 1951, em que ela aparece já bem velha, com sua coroa e seus trajes reais nos degraus da Matriz, pronta para mais um recital: "Quem disser que não chorou, Querendo bem, é mentira, Querendo bem de verdade, Chora, soluça e suspira..."
A louca Joana e as histórias de uma Rainha da Borborema.
"Quem já passou por essa vida e não viveu,
Pode ser mais mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu,
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu" (Vinicius de Morais)
Texto originalmente publicado por Walter Tavares em seu perfil do Facebook
O CASSINO ELDORADO foi o templo da boemia e da luxúria dos senhores do algodão; inaugurado em 1º de julho de 1937, de propriedade do rico comerciante pernambucano João Veríssimo de Souza, em estilo art déco projetado pelo arquiteto Isac Soares, em plena feira central de Campina Grande.
Em meio a orquestra fixa da casa, as mesas de Bacará e a animação feérica do salão, mulheres lindas, bem vestidas e perfumadas faziam a "vida" atendendo aos coronéis do algodão ou iniciando seus filhos na arte do amor. Entre elas, uma tornou-se símbolo da era de ouro da luxúria campinense: MARIA DO CARMO BARBOSA, que entrou para a história boêmia-sentimental de Campina Grande como MARIA GARRAFADA, a nossa mais famosa prostituta em todos os tempos.
Conheceu dias de glória disputada por homens importantes no Cassino Eldorado e a sua fama virou lenda a ponto de ser, nos anos 80, já idosa e "aposentada", convidada pelo escritor Jorge Amado, em visita à cidade, que queria conhecer a sua história num elegante jantar de intelectuais em homenagem ao escritor baiano que aconteceu no imponente solar da crítica literária Elizabeth Marinheiro.
Maria Garrafada virou personagem cult de Campina Grande: inspiração de poetas, letra de forró de sucesso, nome de bar de artistas e até tema de trabalhos de mestrado. Viveu e morreu no histórico Beco da Pororoca, numa morada humilde, sonhando em ter uma casa própria e certa vez em entrevista a um jornalista olhou-se no espelho da sala e perguntou: "em que espelho ficou perdida a minha cara?", referindo-se a beleza dos anos em que despertou a libido de gerações.
Gostava de dizer que a sua maior recordação era o Cassino Eldorado no tempo dos antigos Carnavais; Nos dias de Momo usava quatro fantasias. Saía de casa no sábado e só voltava na quarta-feira de cinzas, depois de muito porre de lança-perfume, coberta de confete e serpentina dos bailes do Eldorado e exausta de marcar o passo brincando atrás dos blocos de frevo.
O apelido Garrafada popularizou-se após deixar a vida boêmia, passando a sobreviver da venda de remédios caseiros feitos de ervas para curar prostitutas de doenças venéreas, populares no interior do Nordeste como garrafada.
MARIA GARRAFADA, o Cassino Eldorado, o ciclo do algodão, os antigos carnavais... símbolos imortais de uma era incandescente e fervilhante de Campina Grande onde a boemia era outra e bem melhor.
Texto originalmente postado no perfil de Walter Tavares, no Facebook
A Organização Remington, instituto de The RemingtonTyphwriterCompany de Nova York, atuava no Brasil sob o controle da S. A. Casa Pratt, sediada no Rio de Janeiro e com filial em Recife. Oferecia curso completo de datilografia mecânica e nomenclatura que eram válidos em todo o território nacional. Admitia senhoras para a direção e aplicava o manual “em português” com o método Remington de ensinar datilografia.
A propaganda da época destacava as vantagens do curso:
“O que posso fazer para obter maior ordenado??? Matriculai-vos na Escola Remington. Estudai datilografia e taquigrafia. Estará assim iniciada a vossa carreira. Com estes elementos obtereis um bom ordenado e podereis facilmente estudar inglês e escrituração mercantil. De posse desses conhecimentos, adquiridos em tempo relativamente curto, estará assegurado o vosso futuro na carreira comercial. Aulas diurnas para ambos os sexos”. (Jornal de Sergipe, 14/01/1926).
O Estado da Paraíba ganhou sua primeira escola de datilografia na década de 20. Á época, esse era um dos meios profissionalizantes que garantiam emprego certo para as jovens.
Em Campina Grande, o prefeito Christiano Lauritzen cedeu lugar no Paço Municipal e este serviço foi instalado em 18 de outubro de 1922. E reinstalado em prédio próprio, no dia 12 de março de 1923.
Com capacidade para 50 alunos, a escola denominava-se “Nilo Peçanha”, estava sediada na Rua da Matriz nº 20 e era dirigida por Simão de Almeida, que também era proprietário. As aulas eram ministradas por Brigida Guimarães e Bernadino de França.
Exigia-se frequência diária ao curso e quinzenalmente se realizava um exame para avaliar a média de toques por minuto de cada aluno, cujo resultado era enviado para a RemingtonTypewriter Co. em Nova York.
Na primeira turma formaram-se 54 alunos, do quais se destacaram: Elvira Pessoa, Judith Miranda, Cecy Silva, Alexandrina Guimarães, Celina Monteiro, Fernandina Pessoa, Joaninha de França e Zilda Neiva.
A Escola Remington de Campina, por sua vez, orientou a criação de outras escolas, a exemplo da Escola Remington Nª. Sª do Bom Conselho, em Esperança, dirigida pelo Professor Luiz Gil de Figueiredo.
Referência:
- ERA NOVA, Revista. Ano III, Nº 46. Parahyba do Norte: 1923.
- ERA NOVA, Revista. Ano III, Nº 53. Parahyba do Norte: 1923.
- FERREIRA, Rau. BanaboéCariá: Recortes da Historiografia do Município de Esperança. Esperança/PB: 2015.
Uma bela enquadrada da Agência dos Correios e Telégrafos de Campina Grande, enviada por Edival Toscano Varandas. Infelizmente não há precisão da data em que a tomada foi fotografada mas, ficam os pesquisadores da História a vontade para analisar os fatos visíveis como pontos de partida para o 'encaixe cronológico' da imagem.
Esta foto, que também nos mostra uma pequena parte da Praça da Bandeira, foi originalmente postada por Toinho Viégas, a partir de arquivos do seu pai, no grupo 'Paraíba Fotos e Fatos antigos' do Facebook.
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