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| Fachada do Cemitério das Boninas |
Texto originalmente publicado no Jornal A União, de 08/05/2019
por Vanderley de Brito
No centro da cidade de Campina Grande, entre meados do século XIX e princípios do centenário seguinte, havia o chamado Cemitério das Boninas, o mais antigo campo santo da cidade, e hoje, quem passa nessa área comercial congestionada de edificações comerciais, se aguçara percepção extra sensorial poderá sentir as lamúrias das almas novecentista da cidade a reclamar dignidade sepulcral. Isso porque o cemitério foi desapropriado e a área recebeu edificações sem que a maioria dos corpos ali sepultos fosse removida.
Para que o leitor possa entender melhor, vamos começar do começo. Em princípios da segunda metade do século XIX o sítio das Boninas era uma área periférica e desocupada da vila de Campina Grande,o lugar tinha esse nome porque, segundo os antigos, era recoberta por um arbusto comum da família das Nictagináceas, conhecida vulgarmente pela sinonímia de bonina. O núcleo da vila se compreendia basicamente num quadrante entre a atual Rua Maciel Pinheiro (antiga Rua Grande) e o largo da Matriz. Nesses tempos ainda não existiam cemitérios na vila, os mortos eram enterrados nas igrejas, mas devido os surtos constantes de epidemias que começavam a assolar a região,e só na Vila de Campina Grande matou 1.547 pessoas, o presidente da Província Beaurepaire Rohan mandou construir no ano de 1857 um cemitério para essa Vila, determinando em Lei a proibição de sepulturas em igrejas e a construção de um campo santo que deveria ser erguido fora do povoado e os sepultos teriam de ser enterrados em covas bastante fundas. O local escolhido foi o sítio das Boninas, o cemitério foi erguido com cerca de trinta metros de frente por outros tantos de fundos para atender uma população de 2.000 habitantes.
Em se tratando de um espaço relativamente pequeno, já no último anodo século XIX o cemitério não tinha mais lugar para a abertura de covas e, como a área circundante vinha se ocupando, por medidas sanitárias foi necessário edificar outro campo santo em lugar distante da já cidade de Campina Grande, sendo escolhido um monte distante, um quilômetro a oeste da cidade, lugar que atualmente é um bairro da cidade que ficou denominado de Monte Santo, certamente por causa do cemitério.
Com o novo cemitério, o velho das Boninas foi fechado e, consequentemente, caiu em completo abandono.
Na década de 20 do século XX o velho cemitério das Boninas se encontrava em ruínas, o muro caíra, animais pastavam por entre os túmulos e, diante de tamanho desrespeito ao lugar sagrado onde repousava os restos mortais de antigas gerações de Campina Grande, o bacharel Hortênsio Ribeiro se uniu ao padre Sales, vigário da cidade, para promover um arrecadamento de fundos junto à população campinense para a recuperação deste importante monumento em honra à memória dos mais antigos moradores de Campina Grande.
A reforma e restauração do cemitério das Boninas foi realizada, mas anos depois, em 1931, o então prefeito de Campina Grande, Lafaiyete Cavalcante,decidiu leiloar o velho cemitério, que foi arrematado e demolido para se construir no local oficinas e garagens. Segundo testemunho de Elpídio de Almeida, uma parte dos ossos humanos inumados e depois transportados em barris para o novo cemitério do Monte Santo, onde foram atirados numa vala comum e única,em total desrespeito sem sequer assinalar o lugar com um marco que fosse.
Anos depois a área foi toda ocupada em frações comerciais que em nada rememoram a primeira edificação do lugar, o velho cemitério das Boninas, que serviu de última morada e onde, indiscriminadamente,ainda jazem restos mortais dos antigos homens e mulheres, ricos e pobres, velhos e crianças, padres e maçons, senhores e escravos, nativos e forasteiros que viveram nos tempos provinciais da hoje glamorosa cidade de Campina Grande.
Por Roberto Pereira *
No inicio da década de 70 trabalhava em Campina Grande, na principal filial de um grupo financeiro sediado em Pernambuco, nas funções de gerente de um banco e uma empresa de crédito imobiliário, com atuação nos Estados da Paraiba e Rio Grande do Norte.
Um dia recebo uma ordem da nossa Matriz, para receber em nossa cidade o renomado artista popular Luis Gonzaga o qual, recentemente contratado pela empresa como seu grande divulgador, começaria por Campina Grande uma série de visitas e entrevistas por todo o Nordeste e Norte do País, no trabalho de divulgação das cadernetas de poupança.
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| Luiz Gonzaga e sua inseparável sanfona |
Assim, eu deveria me afastar das funções administrativas pelo tempo em que Gonzaga aqui permanecesse, isso para ficar a sua inteira disposição, acompanhando-o em suas entrevistas, passeios pela cidade, visitas, almoços jantares e uma agenda que eu mesmo deveria estabelecer, para distraí-lo da maneira mais informal possível.
Numa tarde de quinta-feira, recebo no meu gabinete de trabalho um telefonema de Recife, de alguém que não queria se identificar, informando apenas ser um emissário da empresa mas que, pela voz inconfundível e pelo aviso antecipado da sua presença a qualquer hora, não me deixou qualquer duvida para identificar: era a voz do próprio Luis Gonzaga, informando que logo mais chegaria a Campina Grande.
Informei –lhe que a sua reserva já havia sido feita no Hotel Majestic . E para lá eu segui, tão logo fui informado da sua chegada, aí pelas 16 horas.
Após as apresentações de praxe, iniciamos, dalí em diante, um período de ótima convivência e descontração que iria demorar pelos 4 dias em que durou a sua informal e quase incógnita permanência na cidade.
Naquele momento a carreira de Gonzaga não atravessava uma das suas melhores fases, em face do surgimento da chamada Musica Jovem, desde o aparecimento dos Beatles até a ascenção dos grandes cantores e compositores brasileiros, Roberto Carlos, Chico Buarque de Holanda, Caetano, Gil, enfim toda aquela revolução musical que estava em plena efervescência e tomava todos os espaços da midia nacional.
À noite fui apanhá-lo no hotel e saímos a passear pela cidade, sem qualquer compromisso. Êle fazia questão de circular anônimo, como qualquer cristão, visitando bairros da cidade, parando aqui e ali, ora para tomar um refrigerante, outra vez para saborear uma caipirinha. Queria conhecer a cidade em toda a sua extensão, pois nunca tivera tempo de curtir Campina Grande, uma cidade que ele tanto simpatizava e que o recebia de forma tão carinhosa desde o começo de sua vida de viajante lá pela década de 40.
CIRCULANDO PELA CIDADE
Circulávamos por toda a cidade em nosso automóvel a baixa velocidade, e eu, tal qual um guia turístico lhe mostrava a Campina Grande que despontava nos anos 70; os pontos principais, os novos bairros, os edifícios que começavam a surgir, as largas avenidas, as belas vistas da cidade iluminada, a partir do alto da Prata, da entrada da cidade pelo caminho do Brejo, e ele, mostrando-se verdadeiramente admirado com o progresso da cidade, não cansava de repetir que gostaria de um dia morar aqui.
Usando como disfarce um boné preto e uns grossos óculos de grau, jantamos na Carne de Sol do Manuel, onde ele quase não foi notado.
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| Restaurante "Manoel da Carne de Sol" |
Andamos assim até perto da meia-noite, quando deixei-o de volta no hotel.
UM PASSEIO INUSITADO
Na manhã seguinte fui novamente apanhá-lo.
Para onde levá-lo dessa vez? Perguntava-me.
Na verdade não me sobravam grandes opções, além desses passeios que nós já tínhamos dado pela cidade, na noite anterior. Levei-o então a casa do meu pai, um seu fã ardoroso, onde os dois conversaram alegremente por mais de uma hora, beberam suco de caju e contaram causos e histórias alegres da gente sertaneja. Daí nasceu uma grande simpatia de Gonzaga por Seu Pereira; tanto que nos encontros posteriores que tive com ele no Recife, sempre prometia nova visita ao velho Pereira, para terminar os assuntos, como bem dizia.
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Gonzagão e "Seu Pereira"
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BOQUEIRÃO
Foi aí que me veio a lembrança a pessoa de um grande amigo, o saudoso Zé da Guia Silveira, uma figura inesquecível na história de Campina Grande, empresário que se fez por si, alcançando uma posição de destaque no cenário campinense e que adorava receber os seus amigos nos fins-de-semana numa ilha de sua propriedade, em pleno açude de Boqueirão. E para lá parti sem avisar, com o velho Gonzaga, e mais dois rapazes que sempre o acompanhavam em suas turnês Brasil afora, um dos quais tocava o triangulo e o outro a zabumba. E a sua sanfona, da qual nunca se separava, na mala do carro.
Aquela pequena ilha localizada a aproximadamente 300 metros de distancia da sangria do açude tornara-se o paraíso para onde Zé da Guia seguia toda quinta-feira, e lá ficava todos os fins de semana para passeios de lancha, pescarias, boas conversas, saborosas peixadas regadas a caprichadíssimas caipirinhas preparadas com todo o esmero pela sua dedicada esposa Adiles.
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| Boqueirão nos anos 70 (Acervo Soahd Arruda) |
Paramos o carro na margem sul do açude, e numa pequena canoa puxada a remo conseguida com um canoeiro meu conhecido (será que os seus biógrafos já imaginaram esta cena?) embarcamos em direção ao pequeno paraíso. Gonzaga estava verdadeiramente extasiado com a beleza da paisagem e não cansava de elogiar a beleza deslumbrante da represa, enquanto vagarosamente, à força dos remos, singrávamos as águas calmas do Boqueirão e avançávamos em direção à ilha. Pois é, Luis Gonzaga, maravilhado, um dia singrou singelamente as águas de Boqueirão numa modestissima canoa a remo e, encantado, emocionou-se com a sua beleza.
Fomos recebidos com imensa alegria pelo saudoso Zé da Guia e sua esposa que, surpreendidos pela inesperada e ilustre visita, não sabiam o que fazer para nos agradar.
Êle próprio fazia questão de fritar as incomparáveis traíras, tilápias e os deliciosos piaus dourados na folha da bananeira enquanto dona Adiles se esmerava nas caipirinhas preparadas com a legitima cana-de-cabeça e os maravilhosos limões galegos colhidos na hora, nos pomares da ilha.
Lá para as tantas Gonzaga, sempre maravilhado com a paisagem e parecendo muito feliz da vida, pegou a sua sanfona e, muito emocionado, resolveu executar uma canção-solo.
Mas, qual não foi nossa surpresa ao constatarmos que dona Adiles começara a chorar copiosamente ao ouvir aquela canção de acordes tristes e saudosos executada com tanto sentimento.
A coisa chegou a um ponto tal que Gonzaga parou a execução da música e, surpreso, indagou se estava incomodando alguém. E foi aí que Zé da Guia, muito educadamente, como era, explicou a razão: no passado recente tiveram eles um filho maravilhoso que, com sua alegria, animação e magnetismo pessoal, tornara-se a partir da adolescência, uma figura estimadíssima na vida da cidade, onde animava todos os ambientes e reuniões com a sua simpatia . E costumava, tal qual o pai, receber os seus amigos e colegas lá naquela ilha nos fins-de-semana de verão.
Pois bem, sem que ninguém tivesse como explicar, aquêle rapaz que tanto alegrava a existência dos pais e dos seus inúmeros amigos, pôs termo a sua própria vida, marcando de forma indelével o resto dos dias dos seus extremados pais.
A partir de então, Adiles retirou-se das atividades sociais passando a viver para as lembranças do seu filho querido, evitando qualquer manifestação de alegria que recordasse a sua tão breve existência. Esta a razão pela qual tanto se entristecera ao ouvir o Gonzagão executar a sua triste canção.
“__Foi a primeira vez que alguém chorou de tristeza com a minha música,” __ comentou ele depois, bem humorado.
No regresso Gonzaga começou a abrir-se comigo: falou-me de problemas de família; de um irmão que lhe trazia muitas amarguras; da incompatibilidade de gênio e da rebeldia política do único filho, Gonzaguinha; falou-me de desencontros conjugais irremediáveis; falou-me do período desfavorável que a sua música atravessava, da falta de shows, da ingratidão de um grupo de forró da nossa região que, acolhido por ele no Rio de Janeiro, deu-lhe as costas e provocou-lhe alguns prejuízos. Apesar da proibição contratual, autorizou-me a procurar algum clube que lhe contratasse para uma apresentação. ( Oferecí-lhe ao Gresse, que naqueles tempos promovia umas festas de meio-de-semana, mas o clube não se interessou). Falou-me do projeto de instalação de uma industria para produzir feijão enlatado lá no Exu, sua terra natal, projeto este que receberia incentivos fiscais da Sudene. E do desejo de vender alguns imóveis que possuía no Rio de Janeiro, para vir viver aqui sua velhice que se aproximava.
À noite deixei-o de volta no hotel.
UM ANIMADO CHURRASCO
Ao chegar em casa encontro um convite do empresário Artur Monteiro Viana, para comparecer no sábado a um churrasco em sua residencia no bairro da Prata, em comemoração ao seu aniversário. De imediato liguei para Gonzaga, por conta própria, para avisá-lo de que iria comigo ao churrasco. Ele de inicio hesitou em aceitar o convite, alegando que ficaria chato comparecer a um evento sem ser convidado. (Imagine com que modéstia uma figura da magnitude de Luis Gonzaga falava em se constranger por não ir a algum evento sem ter sido convidado). Diante da minha insistência terminou por aceitar o convite e no sábado fui apanhá-lo no hotel.
Ao descer as escadarias do hotel ele notou que numa das lojas de tecidos ali na Maciel Pinheiro, juntinho do hotel e diante de grande aglomeração popular, um rapaz fazia propaganda dançando com uma boneca de pano, com a qual fazia uma coreografia curiosa e muito animada. Aproximou-se sem se identificar e pediu para que o rapaz parasse de dançar e com ele tirasse uma foto, o que foi feito. Lembro que logo depois, ao descobrir a sua identidade o rapaz quase chora de alegria. E a foto, a seu pedido, após revelada, foi por mim enviada para o seu endereço do Rio de Janeiro.
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| Luiz Gonzaga com o dançarino e sua boneca |
RECEPÇÃO
No caminho da casa do empresário Artur Monteiro um automóvel emparelha no nosso e alguém de dentro do outro carro me chama pelo nome e pede para eu parar. De dentro do outro carro salta o comerciante Guilherme Soares, irmão do empresário Herminio Soares, e indaga: "Me diga uma coisa: essa pessoa ao seu lado, não é por acaso o grande Luis Gonzaga,o nosso Rei do Baião?” Diante da minha afirmativa ele pede para abraçá-lo, no que Gonzaga prestimosamente desce do carro e recebe dele um longo e afetuoso abraço.
Ao retornar ao nosso carro vi, surpreso e comovido, os olhos de Gonzaga lacrimejarem. Êle então retira do bolso um lenço branco, enxuga as lágrimas e me diz: “ Roberto, você não pode nem imaginar como esse abraço me fez bem. Em certas horas um abraço vale mais do que todo o dinheiro do mundo. Fiquei muito feliz com esse abraço”.
Ao chegarmos a casa de Artur Monteiro encontramos, não só os sócios do Lions Clube,mas praticamente toda a classe empresarial da cidade ali reunida numa festa onde a alegria predominava. E ao perceberem a presença de Gonzaga todos correram a abraçá-lo e festejá-lo; Gonzaga atendia a todos com a sua costumeira simpatia, contando as suas piadas com aquela bossa de contador de causos que era a sua marca registrada.
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| Na casa de Artur Monteiro |
A um canto, diante de um microfone, animando a festa, um cantor daqui da cidade chamado Gutemberg, a quem eu conhecia de longe.
QUEM ERA
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Chopp do Alemão
(Google Images) |
Na Campina Grande do inicio dos anos 70 os fins de semana não ofereciam grandes alternativas para a distração da rapaziada. Meia dúzia de bares e restaurantes compunham o cenário boêmio da cidade, dentre os quais já pontificava o famoso Chopp do Alemão, para onde migrávamos a partir das noites de sexta-feira.
Alí, em meio àquela algazarra característica, aparecia vez por outra um rapaz negro, de estatura mediana, mais para magro do que para gordo que, a convite dos companheiros da mesa vinha sentar ao nosso lado. E a nosso pedido apanhava o seu acordeon que sempre guardava atrás do balcão da casa e, entre goles de Montilla, whisky Mansion House e as famosas lingüiças alemães do velho Steinmuller executava no seu instrumento as músicas que pedíamos. Mas ele não era um sanfoneiro comum, como se costuma dizer. Na verdade era um verdadeiro virtuose no acordeon. De uma agilidade e um poder de criação formidáveis, executava musicas de toda e qualquer natureza com belíssimos arranjos próprios: tangos à maneira exata dos famosos bandoleons argentinos; lindas valsas francesas com o registro e as evoluções típicos do estilo dos acordeonistas franceses . Até grandes compositores americanos como Gershwin e Cole Porter eram por ele executados com acompanhamento vocal à boca fechada, numa comovente combinação que transformava a interpretação e atualizava-a de forma impressionante.
Uma curiosidade: quase sempre permanecia com seu surrado chapéu na cabeça enquanto tocava.
Nunca mais eu soube do seu paradeiro. Será que ainda vive?
VOLTANDO AO ASSUNTO
Na festa de Artur Monteiro quem animava a festa era o negro Gutemberg com a sua sanfona. E Gonzaga logo começou a prestar atenção atentamente àquela apresentação, que animava a festa, entre goles de cerveja, numa clima prá lá de animado. De repente me pergunta se eu conheço o “crioulo da sanfona”, como ele próprio o definiu. Diante da minha afirmativa, pediu-me então que lhe acompanhasse até a presença do artista, que naquele momento fazia um intervalo na sua apresentação. Durante uns 5 minutos conversaram qualquer coisa e finalmente Gonzaga me pede um lápis e um pedaço de papel, onde anota o seu telefone, endereço e algumas coisas mais. Entrega o papel, pede a sanfona do artista, toca um numero ràpidamente sob os aplausos da platéia, e retorna a seu lugar à mesa.
A SENTENÇA
Terminada a festa, regressamos ao hotel, lá pelas 18 horas. No caminho Gonzaga, depois de alguns instantes de reflexão, olhando fixamente em direção ao piso do automóvel ergue a cabeça de repente e sentencía: “Doutor, eu vou fazer desse crioulo o maior músico do Brasil. Peço que dona Alba tome nota na sua agenda, para no futuro a gente comemorar”, disse para minha mulher, que nos acompanhava.” Este rapaz, pela minha mão, será o maior instrumentista que este País já teve.”
Informou-me então que autorizara Gutemberg a passar no escritório da empresa logo na segunda-feira , determinando a mim que eu lhe suprisse financeiramente do que ele solicitasse para aquisição de passagens aéreas de ida-e-volta para o Rio de Janeiro e mais o que necessitasse para sua permanência por cerca de 15 dias, hospede que sería da própria casa de Gonzaga.
DESPEDIDAS
No domingo almoçamos no próprio hotel, onde ele deu rápida entrevista para os Diários Associados. Excelente a conversa com os amigos Aecio Diniz, então superintendente dos Diarios, Wladimir Meirelles, empresário de Pernambuco e meu ex-colega de faculdade; e finalmente as despedidas, pois que Gonzaga tinha de estar no Recife à noite, para compromissos profissionais. Na saída, dei-lhe um forte abraço e notei novamente seus olhos lacrimejarem. Prometemos nos encontrar novamente em breve tempo. Fiquei com saudade daqueles dias descontraídos na companhia do Rei sertanejo.
A BURRICE
Na segunda-feira esperei a chegada do privilegiado e a essa altura premiado músico Gutemberg, para fornecer-lhe o dinheiro que necessitasse, segundo as ordens de Gonzaga. Nada. Lá não foi. Certamente __ pensei __ ele tenha ido pôr em dia seus compromissos pessoais antes de viajar e virá na terça. Nada. Não veio na quarta, nem veio na quinta. Nem veio nunca mais. Sequer para agradecer a atenção recebida do velho artista . Na sexta-feira Gonzaga liga de Belém do Pará sabendo alguma noticia de Gutemberg. Informei que nada tinha de novo. O rapaz não aparecera.
Quer que eu vá procurá-lo? Indaguei.
Não, Roberto, respondeu-me Gonzaga. "Há pessoas que correm em busca da vida e há pessoas que esperam que a vida lhes carregue no colo. Acho que é o caso do nosso amigo. Por favor, não o procure. Certamente ele não gostou de mim.”
Assim podemos supor que o virtuose Gutemberg, aquêle acordeonista que modestamente baixava lá pelo Chopp do Alemão alegrando a mesa da gente com a sua música e a sua interpretação, talvez tenha sido das poucas pessoas neste País que um dia literalmente esnobou o “Rei” Luis Gonzaga e ---- quem sabe--- com essa atitude tenha cedido o lugar que na certa sería seu, para... Dominguinhos. Quem sabe?
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* Campinense autentico, residindo em João Pessoa, mas com empreendimento industrial em propriedade no Carirí, para onde viajo frequentemente, nunca deixo de parar na minha querida cidade, ora para rever os velhos amigos, ora para visitar a familia, às vêzes sòmente para almoçar, outras vêzes para pernoitar, contanto que nunca perca êsse contato, que tanto bem me faz.
Aí viví boa parte da minha vida onde,apesar de advogado, dediquei-me às atividades financeiras onde fui gerente de banco, diretor de distribuidora de titulos de crédito e valores e de empresa financeira.
No inicio da década de 70 recebí aí, onde então residía, o nosso saudoso Luis Gonzaga, o Rei do Baião praticamente anônimo, com quem estive convivendo por 4 dias, sem qualquer compromisso profissional. Dessa visita íntima e reservada possúo cerca de 8 ou 10 fotos inéditas, todas obtidas aí mesmo na cidade e alguns fatos curiosos e desconhecidos que narro em texto.
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| Um dos registros de Luiz Gonzaga na Serra da Borborema |
Caso seja do interesse dos amigos a divulgação desta matéria, queiram informar. Terei prazer em contribuir com alguma coisa, nas comemorações do centenário da grande figura que foi o Gonzagão.
Hà muito tempo, a pedido de um meu sobrinho, Gustavo Ribeiro, fiz um esboço e lhe mandei.
Estou às órdens.
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Nós é que agradecemos amigo, pelo acesso a este material espetacular. Agradecemos também a Gustavo Ribeiro, da Rádio Cariri, por entender o objetivo deste espaço virtual e pela divulgação que o mesmo sempre faz do RHCG.
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| Luiz Gonzaga tinha muitos amigos em Campina Grande |