Serviço de Utilidade Pública - Lei Municipal nº 5096/2011 de 24 de Novembro de 2011
Criado por Adriano Araújo e Emmanuel Sousa
retalhoscg@hotmail.com

QUAL ASSUNTO VOCÊ ESTÁ PROCURANDO?




Findava o ano de 1936 e Campina crescia, seguindo a sua vocação de ser Grande. Por esse tempo, já possuía 15 indústrias, estabelecimentos bancários e cinemas que lhe dava ares de capital metropolitana dos sertões.
No último dia daquele ano (31/12), resolvera o Sr. João Marques de Almeida realizar uma cantoria em sua residência, convidando para tal desiderato os trovadores Agostinho Lopes dos Santos (1906/1972) e Josué Alves da Cruz (1904/1968). João foi co-fundador, juntamente com seu irmão Dionísio, da fabrica de sabão “A Pernambucana”(1925), localizada no largo das boninas.
Muitas pessoas acorreram ao seu palacete, ansiosos por ouvirem os dois rapsodos populares, que se empenhavam na justa e eram aplaudidos com seus magníficos versos de repente. A sociedade campinense se fizera presente, não apenas pela distinção do anfitrião João Marques, como era de praxis naqueles dias áureos, se ouvir o torneio dos cantadores, hábeis em versejar e inspirados na poesia.
Na ocasião, se faziam presentes o ex-prefeito Ernane Lauritzen (1924-1928) e o renomado poeta Mauro Luna (1897/1943), este autor de “Horas de Enlevo” (1924) quando, a certa altura da cantoria, Ernane pediu que Mauro fizesse um mote para que os dois repentistas glosassem.
Todos sabem da importância do mote para o repente, ele é quem dá o tema a ser desenvolvido pelos cantadores perante a plateia. Mauro querendo elevar as qualidades de sua terra natal fez com que os menestreis rimassem em torno do dístico: “A Paraíba do norte/ É o coração do Brasil”.
Não é demais falar que o país saía de uma “revolução”, cujo espoenta maior era a Paraíba e que eclodiu com a morte do governador João Pessoa Cavalcanti, ascendendo Getúlio Vargas a presidência naquele momento de efervecência política.
Ciosos de sua responsabilidade, Josué (J) e Agostinho (A) iniciaram a cantoria que foi registrada pelo folclorista Francisco Coutinho Filho (1891/1976), cujos versos transcrevo a seguir:

J. – Não é pegando o ensejo
De desacatos nem guerra...
De gloriar minha terra
É o meu sumo desejo!
Procuro porém não vejo
Outra, formosa e gentil
Que lhe convide sutil
Para igualar o seu porte!...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A.    – Sou de Pernambuco, o forte...
Mas, neste verso eu escrevo
Pelos favores que devo
À Paraíba do Norte!
Estado de boa sorte,
Terra das quadras de Abril!...
Um homem, mesmo imbecil,
Mas tendo regra de fé,
Diz e jura que ela é:
O coração do Brasil!

J. – Junto ao Leão coroado (1)
Banha-lhe o rico Oceano,
Belo espelho soberano
Em que ela se tem olhado!...
Paraíba nos tem dado
Eminências, mais de mil...
Se não é para o fuzil,
É adevogado forte...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Dá a vida pela morte,
Enfrenta qualquer coluna,
(Assim disse Mauro Luna)
A Paraíba do Norte!
Negar, não há quem suporte,
O seu poder varonil!
No ferrolho do fuzil
Tem defendido o país,
Por isto o poeta diz:
É o coração do Brasil!

J. – Dela, os seus cavaleiros,
São como os pares de França!
Basta que eu traga à lembrança
André Vidal de Negreiros!
Como chefe de guerreiros,
Foi temeroso adaíl...
Como perfeito guazil,
Era audacioso e forte!...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Seu valor inesgotável...
Há poucos anos passados, (2)
Para remir os flagelados,
Foi ela a mais favorável!
Tornou-se a mais agradável
Debaixo dum céu de anil...
Lutava o pobre, sutil,
Exaltando a sua sorte:
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

J. – Tem ela infinda saudade...
Tombou, ficou quasiatôa,
Quando perdeu João Pessoa,
O tipo da lealdade!
Por ele a humanidade
Vingou o inimigo hostil...
Pela boca do fuzil
Mostrou bravura, foi forte! (3)
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – A Paraíba perdeu
Seu querido Interventor!
O bravo e grande Antenor (4)
Tragicamente morreu!
Seu berço ele defendeu
Vencendo perigos mil!
Naquela hora febril,
Dissera antes da morte:
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

J. – Bananeiras já chorou
Igualmente à Madalena,
Pelo Solon de Lucena, (5)
O filho que a levantou!...
E quem foi que melhorou
Serraria quando hastil?...
Nesse estado pueril,
Lima (6) deu-lhe fama e sorte!
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Num estado cadavérico
A Paraíba chorou...
Pra defende-la chegou
O doutor José Américo! (7)
Por seu instinto genérico,
Com um poder varonil,
Aquele gênio febril
Melhorou tudo de sorte!
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

J. – Areia, ninguém deprima!
No cimo da cordilheira
Onde plantou-se a limeira
E nunca mais faltará lima! (8)
A haste de mais estima
Tombou ao solo fértil!
Não era, o Cunha, (9) servil!
Disse ele, às portas da morte:
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

A. – Josué, com segurança
Encerrarei minha glosa...
Com a canção maviosa
Vou fazer esta aliança...
No salão fica a lembrança
Da nossa rima subtil!...
Só a pedra do esmeril
Ao meu ferro dará corte!...
A Paraíba do Norte
É o coração do Brasil!

Assim concluiram os poetas matutos o seu intento, versejando sobre o mote dado, a relevância do nosso Estado, e seu passasdo vestuto que todos os convivas assistiram.

Rau Ferreira

*   *   *
___________
Notas: (1) O Estado de Pernambuco. (2) A seca de 1931/1932. (3) A Revolução de 1930. (4) Interventor Federal no Estado de 1930 à 1932. (5) Governador do Estado de 1920 à 1924. (6) Francisco Duarte Lima, Senador pela Paraíba (1936/1937) e Procurador do Estado de Pernambuco (1938), natural de Serraria (PB). (7) Autor de “A Bagaceira”, no período em que este foi Ministro da Viação. (8) Refere-se à família “Cunha Lima” de Areia. (9) Chefe de polícia da Paraíba, foi também Deputado Estadual e Federal.

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Referências:
- BASTOS, Sevastião de Azevedo. No roteiro dos Azevêdo e outras famílias do Nordeste. EditoraGráfica Comercial. João Pessoa/PB: 1954.
- FILHO, F. Coutinho. Repentistas e Glosadores. A. Sartorio & Bertoli. São Paulo/SP: 1937.
- MOTA, Leonardo. Cantadores: poesia e linguagem do sertão cearense. Livraria Castilho. Rio de Janeiro/RJ: 1921.

Ivani Macedo - Rádio Borborema 1955
Alimentando ainda mais o saudosismo daqueles que não moram mais em Campina Grande, onde ao verem as imagens aqui postadas comentam a saudade que sentem da terra natal, a postagem de hoje é pra emocionar!

Através o valoroso empenho de Walmir Chaves, campinense de nascimento, porém radicado na Espanha desde a década de 1960, o BlogRHCG presta um verdadeiro serviço de resgate de memória musical.

Walmir trabalhou em vários vértices na extinta Rádio Borborema em seus áureos tempos e buscava incansavelmente uma canção dos anos 40, de autoria de Correia Leite, chamada "A Terra Onde Nasci". Como não obteve êxito em encontrá-la, radicalizou. Leiam sua mensagem:

"Esta bela música de Correia Leite (acho que é dos anos 40) estava desaparecida. Buscamos por todos  os meios e não a encontramos. Essa canção cantava minha mãe quando eu era menino. Pesquisei por internet e não encontrei. Falei com vários amigos que me deram pistas até que cheguei a Ivani que era a única que conhecia. Pedi a minha amiga Iône Macêdo, irmã de Ivani Macêdo , que foi cantora da Borborema (anos 50) para que a gravasse e assim a resgatamos."

Iône Macedo quem nos mandou a foto acima, da sua irmã Ivani Macedo, cantora da Rádio Borborema na Década de 1950. 

Ouçamos, portanto, esta bela e emocionante canção, 'A Terra onde Nasci", regravada na voz de Ivani Macedo.

CANÇÃO: A Terra Onde Nasci
AUTOR:Correia  Leite
CANTORA:Ivani Macedo
SANFONA:Bruno Guedes da Silva
GRAVAÇÃO:"Studio B"


por Thomas Bruno Oliveira (thomasbruno84@gmail.com)
  
Desde que meu pai, seu Paulo Roberto Oliveira, abriu uma assistência técnica em conserto de eletrodomésticos, lá nos idos de 1996, que sou ativo frequentador e caminhante da Avenida Presidente Getúlio Vargas no Centro de Campina Grande, onde inicialmente partilhava os turnos entre estudo no Colégio Alfredo Dantas e o trabalho como office boy e depois com “a mão na massa” no conserto de ventiladores e toda sorte de aparelhos elétricos, aprendendo o mister com os funcionários mais experientes. 

Sociedade Beneficente dos Artistas de Campina Grande – SBA (RHCG)

Num certo período de carnaval, quando Papai e eu passamos na rua a caminho de casa, nos deparamos com a demolição de um prédio antigo, bonito, de linhas arquitetônicas robustas e marcantes; “como podem destruir um prédio tão bonito” balbuciou Papai e eu, em meus 13 ou 14 anos, vendo aquela gigantesca máquina destruindo tudo, fui tomado pelo incômodo da revolta. O prédio era a Sociedade Beneficente dos Artistas, fundada em 1929 e oriunda da antiga União Beneficente dos Sapateiros, sociedade filantrópica que oferecia cursos para pessoas de baixo poder aquisitivo. Naquele momento nem pensava em vestibular, quanto mais em ser historiador e jornalista, mas hoje vejo que aquela sensibilidade pueril foi o fio condutor para me guiar até aqui.

O Bar e Mercearia Ferro d'Engomar 

A antiga Avenida Brandão Cavalcanti, hoje Pres. Getúlio Vargas, possui um nicho patrimonial interessante, resistiram ao tempo a sede dos Correios, o tradicional Ferro d’Engomar (e seus boêmios!), a antiga Faculdade de Administração, o Memorial Severino Cabral, o casarão e a antiga fábrica Marques de Almeida, o acesso às Boninas, o antigo Colégio Pio XI, o castelinho onde funciona a clínica Dr. Maia, a casa de Alvino Pimentel e o Cine Avenida, só para citar o trecho entre a Praça da Bandeira e a esquina com a rua Siqueira Campos.

Cine Avenida (RHCG)

E eis que caminhando na mesma avenida, há alguns anos, vi o abandono seguido de demolição da casa do exportador de algodão Alvino Pimentel, residência onde se hospedou Juscelino Kubistchek. Lembro que o amigo Prof. Daniel Duarte esteve à frente de uma verdadeira campanha para evitar a demolição desse prédio histórico, mas o poder da especulação imobiliária venceu; é a “força da grana que ergue e destrói coisas belas” como bem afirmou Caetano Veloso. Neste caso, um grande empreendimento residencial e comercial está sendo erigido, modificando todo aquele ambiente; na descomunal escavação para fundações sequer foi permitida a averiguação de possível existência de vestígios arqueológicos que podia muito nos contar sobre o passado de nossa terra.

Antigo DTOG, ao fundo a Estação Nova

Tempos depois, ao caminhar pela Getúlio Vargas, senti falta de um prédio, o Cine Avenida. No seu lugar, tapumes altos, mas suficientes para perceber que ele não mais estava ali. Foi aí que conversando com um operário descobri que como se não fosse suficiente o tamanho da destruição da casa de Alvino Pimentel, o empreendimento causou sério comprometimento da estrutura do prédio vizinho, justamente o Cine Avenida, cinema inaugurado em 17 de março de 1945 em estilo Art Déco e que estava funcionando a sede da igreja evangélica universal. O Cine é patrimônio sentimental da cidade e mantinha seus traços arquitetônicos. Por fotografias existentes no blog Retalhos Históricos de Campina Grande se percebia que o interior contava com poucas modificações. O fato de não estar dentro da delimitação do Centro Histórico da cidade dificultou a sua preservação e com o abalo causado pelo empreendimento, o Avenida foi adquirido e anexado ao projeto imobiliário.

Estação Nova (?), abandonada

A nossa Rainha da Borborema não sabe mesmo conviver com “seus diversos passados”, essa ânsia pelo futuro e pelo novo me assusta, assim como o desrespeito a sua história. Perdemos o Cine Avenida e a sensação que fica é em forma de pergunta: qual será o próximo a tombar? Será a construção eclética da família Agra defronte a Feirinha de Frutas (vizinho ao antigo Posto de Enfermagem do saudoso Manoel Barbosa) ou o antigo Departamento de Transporte, Oficina e Garagem (DTOG) às margens do Açude Velho? Comemorar 155 anos de emancipação política é também refletir sobre seus problemas e uma chaga que não se fecha é a demolição de seu patrimônio histórico.



Recebemos, honrados, a homenagem da Câmara Municipal de Campina Grande pelo transcurso dos 10 anos de atividade do BlogRHCG. A Moção foi proposta pelo estimado Vereador João Dantas, a quem agradecemos, estendendo à sua assessoria na pessoa do competente André Gomes.

Uma tomada aérea espetacular. Nela, vemos um cenário muito, mas muito diferente do atual, com a ausência total de construções verticais no entorno do açude, como também nos bairros de José Pinheiro, Monte Castelo, parte do Catolé, ou até na parte do Centro vista à esquerda da foto!

Outras presenças marcam o visual da foto, em sentido horário: o prédio da FIEP em construção, o Curtume São José, o Instituto São Vicente, o SESC, a Caranguejo, o prédio da antiga Bolsa de Mercadorias de Campina Grande, os armazéns da antiga estação (Boite Maria Fumaça), o Bompreço, os fundos da Wharton Pedrosa, o Posto Berro D'água...

Enfim, uma imagem repleta de beleza e de saudade!
Texto do Pe. Luciano Guedes, publicado originalmente no site http://diocesecg.org/  



A obra do Padre Ibiapina fez surgir em Campina Grande a Casa de Caridade em 25 de agosto de 1868. Como observa-nos Câmara Cascudo, em todo século XIX estes mensageiros da fé católica pregaram a Palavra de Deus e socorreram os desertados da seca e da fome nos interiores mais isolados da Província,  gente  que estava privada  da assistência direta do poder público.

Desta maneira, os missionários itinerantes conquistaram o respeito e a admiração das populações nordestinas, “enchendo com os sinais da sandália humilde os caminhos do sertão bravio”. Na Paraíba existiram dez Casas de Caridade, situadas em nossos distritos e cidades. Em Campina, esta tomou lugar na atual Avenida Assis Chateaubriand, onde se instalou mais tarde o Parque Industrial da SANBRA (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro).

Ali havia um conjunto construído no modelo de casa grande em forma retangular, contendo capela, salas, refeitório e dormitórios. Tudo providenciado para o acolhimento das moças órfãs que recebiam o devido cuidado humano, social e religioso. Faziam trabalhos manuais, aprendiam a tecer, ler e contar.

Com o desparecimento do Padre Mestre Ibiapina a partir de 1883, coube ao Monsenhor Sales, recém-designado para a Paróquia de Campina Grande, a tarefa de grande defensor e incentivador da obra caritativa e espiritual. O vigário trouxe para a Casa instrutores encarregados da profissionalização das beatas, capacitando-as para o artesanato, costura e confecção dos materiais destinados ao culto sagrado.

O número de beatas atingiu trinta residentes, além das órfãs e jovens abandonadas. O externato matriculou mais de trezentas alunas entre 1918-1920 com o curso primário, aulas de corte e costura, canto, religião e arte culinária. Uma espécie de escola doméstica feminina.

No período do seu paroquiato, as beatas exerceram um relevante papel e apostolado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.  Foram elas que aos sábados ornamentavam com zelo e delicadeza o altar da padroeira e dos santos, com as flores recolhidas do próprio jardim da igreja.

Confeccionavam as toalhas, vestes, hábitos, paramentos sacerdotais e as demais alfaias relacionadas à celebração da Eucaristia e dos sacramentos. Recebiam encomenda de outras paróquias e das redondezas que, por sua vez, contavam com os seus serviços, ao tempo em que se obrigavam com o sustento, apoio e manutenção da Casa de Caridade.

Outra participação das beatas a ser lembrada diz respeito ao canto coral na Santa Missa por elas executado. Conta-se que até homens indiferentes às coisas sacras, adentravam a Matriz para atentamente ouvi-las cantar aos domingos. Na realidade, parece-nos que o oficio delas espalhava na cidade um frescor de leveza e de bondade, capaz de tocar as almas mais arredias e resistentes.

Neste ano em curso – momento em que celebramos 250 da Igreja Matriz – é importante recordar o seu significado histórico na defesa da vida e da dignidade humana.  Oportuno também é conceber que se faz história não para alimentar saudosismos ou para tecer a simplista glorificação de um passado distante. Não é esta a sua necessidade e tarefa.

A história se conta para compreender os dinamismos humanos dos quais somos resultado e partindo disto olhar novas possibilidades. Narra-se o passado para colocar o homem sempre responsável pelo seu presente. História é compreensão da temporalidade, do tempo vivido que não é estático, porque se renova continuamente.

Neste sentido, a Igreja de Campina Grande tem um bonito caminho feito e por fazer.   Hoje existe em nossa Diocese, doze Casas que são obras de caridade e dezoito pastorais ditas de fronteira e de promoção da vida, acompanhadas pelo Vicariato Episcopal da Caridade, Justiça e Paz.

Essencialmente, a obra de tornar o evangelho próximo dos pobres, sofredores e desvalidos continua sendo a mesma que estava na intuição dos curas de almas Ibiapina e Sales, naturalmente, respondendo às demandas impostas pelo nosso tempo, como por exemplo, as situações de rua, os dependentes químicos, o acesso à justiça, a sobriedade, as pessoas idosas, os cadeirantes, os hospitais, etc.

As beatas da Casa de Caridade em Campina Grande anunciaram no seu contexto a força transformadora do evangelho pelo testemunho da misericórdia e da doação.  Inspiração e exemplo para nossa pastoral de saída no encontro com o rosto sofredor de Cristo na carne dos irmãos fragilizados.

No aniversário jubilar da Igreja Matriz, porta que testemunhou tamanha entrega, mova-nos o Espírito Santo de Deus para socorrer os corações atribulados da nossa época. E novas vozes entoem o divino canto que se concluirá um dia no Céu!



(Por Pe. Luciano Guedes, texto originalmente publicado em http://diocesecg.org )

Contar a história da Igreja Catedral de Nossa Senhora da Conceição que caminha para a celebração dos seus 250 anos no próximo dia 08 de dezembro deste ano em curso, confunde-se com o fazer a narrativa da própria cidade de Campina Grande em suas origens, evolução e contemporaneidade.

Até 1769, ano de fundação da Matriz, a povoação nascida pelo aldeamento dos tapuias trazidos do sertão de Piranhas pelo capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo e aqui denominados de ariús, continha um pequenino templo dedicado à Nossa Senhora da Conceição e construído em taipa no alto da colina, virado para o noroeste. Somente em 1791-93 com a grande seca que assolou a região da Borborema, avivando o sentimento religioso dos habitantes locais, a igrejinha primitiva recebeu melhoramentos de alvenaria em tijolos, fabricados no sítio do Lozeiro, onde não faltava a água.

A Igreja Matriz de Campina Grande aí instalada pelo Bispado de Olinda, permaneceu com esta modesta estrutura física até o ano de 1887, quando o Monsenhor Luís Francisco de Sales Pessoa  reuniu esforços para dotar a acanhada construção – na expressão do próprio vigário – de uma remodelação capaz de dignificá-la ao ritmo da habitação e do estatuto de Vila elevada à condição de Cidade.

Herdamos desse momento a atual fachada externa em linhas neoclássicas; as duas torres, uma com agulha direcionada ao infinito e a outra sem agulha para o hasteamento da bandeira da padroeira e dos demais santos de devoção confome fossem reservados no calendário anual; o relógio, marcador das horas; os corredores laterais e a abertura do corpo da igreja em arcos. A este conjunto adicionou-se o altar-mor construído em mármore Carrara, com seus três nichos na parte superior, dedicados à Imaculada Conceição, São Luís Gonzaga e São Francisco de Assis. Além do altar principal, mais dezesseis altares laterais foram construídos para o culto dos santos, entre eles destaque para o da Sagrada família, onde se abençoava os casamentos e do Mártir São Sebastião, posto nesse lugar para agradecer-lhe a superação do surto de cólera, drama vivido pelos habitantes da vila no século XIX.

Com este conjunto patrimonial e simbólico, a Igreja Matriz, adentrou ao século XX, testemunhando os tempos modernos, com o seu processo de urbanização e de reconfiguração do centro urbano. O apogeu do algodão, a linha férrea, os veículos automotores, o telégrafo, a luz elétrica e a avenida aberta pela reforma urbanística da década de 1940, indicaram o programa do progresso e da higienização pela qual atravessava a cidade em plena expansão e desenvolvimento. Contudo, permaneceu no mesmo lugar o templo católico primeiro, nascido ali, desde os tempos da colonização portuguesa.

A terceira fase da configuração do templo data de 1969, quando já sede do Bispado campinense, o recinto sagrado passou por adaptações à Reforma Litúrgica empreendida no Brasil pela realização e recepção do Sagrado Concílio Vaticano II, momento em que se instalou o novo altar ao centro do presbitério, direcionando o culto e a comunicação da Palavra divina para a assembleia dos fiéis.

Podemos falar de uma quarta e última etapa que nos traz aos dias atuais. Por ocasião do Jubileu áureo dos cinquenta anos de fundação da Diocese de Campina Grande, celebrado em 1999 pela presidência de Dom Luís Gonzaga Fernandes (4º Bispo diocesano), construiu-se nova Capela do Santíssimo Sacramento e nova Pia Batismal, belas obras artísticas do Frei Dimas Marleno e sua equipe.

Celebrar 250 da Matriz será uma oportunidade histórica para reconhecer através do templo a fisionomia humana e espiritual do querido povo campinense. Visitar o passado do nosso marco primeiro, viajando pela Capela da aldeia, Matriz da Vila Nova e finalmente a Catedral na cidade moderna, conduz-nos à compreensão das pessoas, dos seus sentimentos, afetos, cotidiano e o testemunho de fé que fez existir Campina Grande até os nossos dias. Como nos conta o texto sagrado nas Escrituras: “Não se pode esconder uma cidade situada sobre o monte” (Mt 5,14). Cidade esta que guarda um templo santo, casa de oração – lugar de renovação e de saudade – porta pela qual a Virgem Santíssima abençoa os seus filhos.
(texto Rau Ferreira)

Por esses dias, de chuva e recolhimento ao lar, deparei-me com alguns escritos de Cristino Pimentel (1897/1971), escritor e comerciante campinense, proprietário da famosa fruteira que levava seu nome. 

Falo do raríssimo “Pedaços da História de Campina Grande”, livro de sua autoria, há muito fora das livrarias e das estantes dos sebos da cidade.

Chamou-me a atenção, a parte que rememora Antônio Silvino, já que na mesma época, trabalhava o meu “Passagem de Antônio Silvino por Esperança”, pocketbook recém lançado sobre a sua incursão no Município de Esperança, quando foi convencido pelo pároco local a buscar o indulto junto ao governo do Estado.

Pois bem. Esse enxerto não fala da minha querida cidade, mas da Campina venturosa de Cristino, da qual faço o presente adendo.

O escritor se esmiúça nos fatos pós-cangaço de Silvino, assegurando que o “Rifle de Ouro” aprendera a ler na cadeia, enquanto estivera preso, na Casa de Detenção do Recife, Pernambuco. 

Alguém lhe trouxe uma bíblia. Debruçando-se ele na leitura da palavra, abraçou a fé. “O resultado foi o que sabemos” – narra Cristino – “ganhou brandura e tornou-se em outro, sua natureza temperou”.

No cárcere fabricava abotoaduras e enfeites de crina de cavalos, ofício com que educou os filhos, depois de trazê-los para junto de si. Eram oito ao todo. 

O prisioneiro nº 1.222 da Cela 35 recebia visitas anônimas, como o meu avô Antônio Ferreira; e ilustre a exemplo de um jovem advogado chamado José, desejoso de ser romancista e que anos mais tarde publicara em sua estreia o “Menino de Engenho” (1932).

Certa feita, no trem de João Pessoa à Campina, assistiu Cristino a sua palestra com alguns curiosos, que lhe questionavam sobre as suas incursões no cangaço. Ele porém não gostava de recordar o passado, resumindo a sua nova vida com a seguinte frase: “Meninos, antes de me prenderem eu matava para não morrer, hoje morro para não matar”. 

Convertido ao protestantismo, ele preferia falar das graças e do amor de Deus que lhe concedera o perdão dos pecados.

Cristino Pimentel traça lhe um breve perfil:
“Intrépido, enfrentou muitos perigos. O homem não lhe fazia medo, porém uma lágrima de mulher o comovia. A honra do lar, era para ele sagrada e ai daquele cangaceiro, seu subalterno, que se atrevesse a desrespeitar uma donzela! Fez muitos casamentos de moços infelizes que dele se valiam. Chamava os culpados e os obrigava a reparar o erro. Acabou em dias com questões de terras que o fórum levava – e ainda leva – anos a fio para resolver. Isto tudo eram sintomas da natureza cortada que nele se embotou, no cangaço, para despertar, mais tarde, na prisão, quando o alfabeto lhe projetou luz no espírito”.

Lembra-nos, o escritor, que passados aqueles dias, após a “ação de limpeza das forças do exército e da polícia aquartelada em Campina Grande, foram normalizando os labores das cidades que sofreram depredações e estivaram sob a ameaça dos bandos ilegais”. De fato, a Paraíba respirou ares de tranquilidade e “Campina Grande, que viveu dias tormentados, voltou à calma e o comércio retornou ao seu ritmo de centro abastecedor”.

Eram os últimos dias dos bandoleiros, dos homens que passavam à fio de navalha e portavam suas 'mausers' trocando tiros com a volante. Elysio Sobreira foi um dos combatentes. Estando na linha de frente, ganhou o patronato da Polícia Militar por atos de bravura. 

Liberto. Antônio Silvino veio morar em Campina Grande, em casa de sua prima Teodolina Alves Cavalcanti, esquina da Rua João Pessoa com a Arrojado Lisboa, em frente à Praça Felix Araújo. 

Era uma residência modesta de uma porta e alpendre. Os cômodos pequenos não incomodavam Silvino que viveu ali de 1937 à 1944. 

Nesta cidade, adquirira o hábito de frequentar a Igreja Congregacional da Rua 13 de Maio. 

Faleceu em 30 de julho de 1944 e foi enterrado no Cemitério do Monte Santo, onde um marco de cimento erigido por João Dantas e uma placa de bronze com dedicatória de José Justino da Silva lembram “um dos grandes guerreiros na defesa do povo nordestino”.


Referências:
- BlogRHCG. Retalhos Históricos de Campina Grande. Disponível em: https://cgretalhos.blogspot.com/search?q=antonio+silvino#.XT3qTOhKi01, acesso em 28/07/2019.
- FERREIRA, Rau. Banaboé Cariá: Recortes historiográficos do Município de Esperança. SEDUC/PME. A União. Esperança/PB: 2016.
- PIMENTEL, Cristino. Pedaços da História da Paraíba: Campina Grande. O Norte. Edição de 17 de maio. João Pessoa/PB: 1952.
- VAINSENCHER, Semira Adler. Antônio Silvino. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em 28/07/2019. 

 
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