MAURO da Cunha LUNA nasceu em 27 de julho de 1897, em Campina Grande (PB), filho de Baltazar de Almeida Luna e Maria da Cunha Luna. Iniciou seus estudos no Colégio “S. José” do professor Clementino Procópio, onde fez o curso primário e recebeu noções de humanidades.
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MAURO da Cunha LUNA nasceu em 27 de julho de 1897, em Campina Grande (PB), filho de Baltazar de Almeida Luna e Maria da Cunha Luna. Iniciou seus estudos no Colégio “S. José” do professor Clementino Procópio, onde fez o curso primário e recebeu noções de humanidades.
A partir da fabricação de ancoretas e barris de madeira, que serviam para armazenar e transportar água, vinho e cachaça, o José Carlos “pai” fez capital necessário para, mais tarde, montar um restaurante, que o levou a investir na torrefação e moagem de café. Desse intento, surgiu seu primeiro produto, o Café Especial e mais tarde, o Fubá Águia de Ouro, já diversificando a produção com o milho.
Durante o período da II Guerra Mundial (1938-1945), o colapso no sistema de distribuição de gasolina fez com que o transporte, que era realizado por camionetas, fosse substituído por carroças, fazendo surgir o bordão popular “Lá vem a burra da São Braz” quando os transportadores se aproximavam dos distribuidores.
Diante da linha cronológica da indústria São Braz, o ano de 1979 marca o início das suas atividades no pólo de recepção e distribuição estadual em Cabedelo, favorecendo a consolidação da marca em virtude da estratégia logística, com a presença do porto local.
A “São Braz” era uma das indústrias que mais sobejavam o orgulho de Campina Grande, como empreendimento inato da nossa cidade. Desde que a fábrica foi instalada em definitivo na cidade portuária de Cabedelo, o popular “Café São Braz” perdeu a identidade com nossa cidade, já que as instalações atuais que produzem o Vitamilho pertencem ao Grupo ASA, de Pernambuco.
ALVES, Camila. “Uma Saga Nordestina”. Encarte Especial Jornal da Paraíba
Seria uma visita sentimental de volta às nossas origens; um “revival” em nossas vidas, um reencontro com alguns dos nossos antigos amigos, aquêles que outrora compunham o nosso universo, e com os quais passamos os grandes e alegres momentos da nossa juventude na querida cidade onde nascemos.
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| Calçadão de Campina Grande (2009) |
Programávamos ir ao Calçadão, passear na rua João Pessoa, tudo isso feito a pé, sem qualquer obrigação com horário, frequentar os restaurantes mais antigos, ir a feira, visitar estabelecimentos comerciais de velhos amigos remanescentes, enfim, passar esses dois ou três dias entregues a uma jornada de re-visita, para matar as saudades.
Infelizmente não deu. O velho “Moral” assim como era chamado, parece que estava adivinhando: antes mesmo de cumprir a nossa programação, adormeceu para sempre.
Na Campina do nosso tempo, morávamos um pouco distantes um do outro: eu, ali na Praça João Pessoa, ele na Major Belmiro, mas sempre estávamos juntos; e juntos compartilhamos as alegrias da juventude e curtimos a nossa querida cidade em tudo o que ela nos concedeu de felicidades.
Nós sempre acreditamos, e sempre conversávamos sobre isso, que foi a nossa geração a que mais viveu os períodos importantes e as grandes mutações pelas quais passou Campina Grande. E foi mesmo.
Eu vivi, na infância, o fim da chamada “era do trem.” Ví pessoas chegando de viagem, outras embarcando, ali na Estação Velha, que se enchia de gente, automóveis, carroças, animais, na maior animação, na chegada ou partida do trem. O seu apito saudoso ficou na minha memória para sempre.

Ví e viví a Rádio Borborema, a primeira grande revolução nas comunicações regionais, com maravilhosos programas de auditório, quando a cidade recebia a visita dos maiores e mais importantes artistas nacionais e internacionais. A cidade era uma festa. A Radio Borborema de Hilton Mota, Gil Gonçalves, Leonel Medeiros, e de Fernando Silveira, um gênio que se hoje vivesse talvez fosse o maior multimídia do nosso País, com a sua incrível inteligência e criatividade.
Ví e viví na infancia as maravilhosas séries semanais do Capitólio: Homem Morcego, Fumanchú, O Zorro, Capitão Marvel, Príncipe Submarino e tantos e tantos mais, quando nós, fantasiados e em bandos, subíamos no palco do cinema antes da exibição, para brincarmos de artista e bandido, até que as luzes se apagassem para a projeção.
Viví toda a alegria de brincar com uma tosca roda de virola, resto de antigos pneus automotivos desmanchados pelos sapateiros, percorrendo as calçadas das praças, com a alegria de uma criança que hoje estivesse pilotando uma moto.
Ví e vivi a chamada “explosão do algodão” subindo e pulando nas imensas pilhas de fardos de algodão que se espalhavam pelas ruas da cidade; e o desfile daqueles grandes carros americanos dos barões do algodão, que enchiam Campina de dinheiro e de orgulho.
Ví e ouvi os maravilhosos discursos do grande líder Argemiro de Figueiredo, sem dúvidas, o maior político do nosso Estado, com sua postura majestosa e seu estilo fascinante de falar.
Ví o presidente Getulio Vargas, cabelos branquinhos, um sorriso permanente, em carro aberto, subindo ali pela Miguel Couto acenando para o povo que se postava nas calçadas.
Ví a cidade em festa recebendo o seu primeiro bispo diocesano, Don Pietrula, desfilando em carro aberto e o povo acenando lenços brancos de boas vindas.
Ví o fenômeno popular chamado Severino Cabral incendiar Campina e ascender ao governo do Estado numa homenagem do povo a simplicidade do seu líder.
Ví, menino ainda, o povo pobre nas ruas numa manhã de agosto, chorando a morte do presidente Getulio Vargas.
Ví o então presidente Juscelino Kubitschek emocionado, entregar a cidade o gigantesco beneficio da adutora de Boqueirão, que, de uma vez por todas, acabou o problema do abastecimento d’agua da cidade.
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| Juscelino em Campina Grande (1958) |
Chorei a perda de uma linda adolescente, Osmarina, num desastre de avião junto com seus pais, no Estado de Sergipe. Toda a cidade cobriu-se de luto e os colégios formaram no sepultamento.
Viví e reverenciei com o maior respeito os nossos grandes mestres: professor Loureiro, Padre Emidio, professor Oliveira, professor Almeida e tantos mais, responsáveis pela formação de toda a elite intelectual da nossa geração. A gente os recebia de pé, na sala de aula.
Viví grandes partidas de futebol no campo do Bordéu, (ali onde hoje está o Anita Cabral) junto a velhas figuras do folclore campinense: Fuba, Miguelzão, Eliezer, Seu Naninha, Seu Antonio, Nêgo Lula, Chico Boateiro, Ladinha, Nêgo Mira, Bôda, um monte de gente.
Feliz, saía aos domingos em demanda do campo do 13 para assistir as grandes partidas contra times de todo o Brasil, que vinham visitar a nossa cidade. Era uma festa.
Babei de inveja dos mais velhos que falavam dos grandes cabarés que freqüentavam nos fins de semana: Baiana, com shows musicais eróticos de artistas que vinham do Sul. Carminha Vilar, China, Santa, Unidade Moreninha, cujas lindas hóspedes freqüentavam as matinés dos cinemas exibindo roupas caríssimas e maquiagens caprichadíssimas. Maria Garrafada, Zefa Tributino, as lendárias damas da boemía campinense.
Ví, na varanda da fazenda do meu pai, no Carirí, vindo de Campina Grande, um dia chegar Rosil Cavalcante com vários companheiros e uma tropa de cachorros perdigueiros em busca de caçar perdizes e lambús nos campos da caatinga.
Vi a rapaziada independente que se reunia nas tardes do Grande Hotel para o happy hour daquele tempo: Otaviano Bezerra, Paulinho Ribeiro, Amaury Gurú, Zé Costa, Rodrigão Araújo, Antonio Figueiredo, Ingo Neukranz, Ermirio Leite, legítimos representantes de uma época em que a cidade fervilhava com o seu progresso e se projetava inexoravelmente para o seu grande futuro.
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| Grande Hotel |
Viví os grandes carnavais de rua, com o corso que se expandia por todo o centro da cidade e a folia que se concentrava na Maciel Pinheiro, ali na Sorveteria Pinguim, com desfile de blocos e troças, fantasias mil, o cheiro de lança-perfume no ar, a poeira da maizena que cobria todos os espaços da rua, confete, serpentina, mulheres lindas, a alegria, o delírio.
À noite, os grandes bailes no Campinense, no Clube 31, no Ipiranga, Paulistano. Do mais aristocrático ao mais modesto a alegria era uma só. A cidade estremecia ao som das grandes bandas de frevo e samba e dançava até o raiar do dia.
Ví e conheci os valentes do nosso tempo: João de Carminha, Assis, Severino Martins, Alonso Arruda, Salvino Figueiredo, Carlinhos e José Gaudencio, homens jovens, corajosos que não abriam parada para ninguém.
Ví o mundo intelectual reunido na Livraria Pedrosa e o velho Pedrosa, junto com os amigos, Dante Alicate e Pilon bebericando e contando causos inesquecíveis.
Ví a Fundact, embrião da nossa Universidade ser fundada por um grupo de heróicos campinenses dedicados a causa da cultura em nossa cidade: Edvaldo do Ó, Stenio Lopes, Francisco Pereira, Lopes de Andrade, Lynaldo Cavalcante, verdadeira constelação de homens de valor, devotados ao bem.
Ví a cidade se projetar para muito além dos seus limites no mundo financeiro, com os bancos Industrial e Banco do Comercio, todos com capitais genuinamente campinenses, instalando agencias nas principais cidades e capitais brasileiras.
Ví a Federação das Industrias ser fundada em Campina Grande, por ser a nossa a única cidade da Paraiba a reunir a quantidade de sindicatos exigida para a formação da federação.
Ví e convivi com os tipos populares e inesquecíveis da cidade: o filósofo Alonso Sapateiro, o desenhista, artista e coreógrafo Cibíu, o comunista Alfredo Machinho, grande divulgador das idéias socialistas; o homem da noite Moacir Tiê; Zito Napi, dançarino exímio, disputado a tapas pelas damas da noite; Omega, eterno boêmio a desfilar nos carnavais com sua capa, bengala e copo de cerveja na mão; Abilio Doido, Bacurau, Antonio Cego, Manuel Pé de Rotor, Horacio Bacanaço, uma fauna maravilhosa que conferia a cidade esse aspecto de alegria e criatividade insuperável.
Viví a adolescência entre as matinês do Capitolio e Babilonia, a Rua Maciel Pinheiro e a Sorveteria Pinguim, onde as tribos se encontravam; e nos fins de semana os maravilhosos “assustados”, encontros em casa de amigos, onde imperavam a alegria e a esperança fácil.
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| Rua Maciel Pinheiro |
Viví as noites inesqueciveis de dezembro assistindo às missas de Padre Mariano na Matriz e em seguida descendo a Floriano Peixoto para o passeio deslumbrante nas noites de festas do Natal, ali na Maciel Pinheiro.
Ví surgirem os primeiros edifícios espigões, que davam a cidade um ar de “cidade grande”.
Viví momentos de angustia e tristeza com a queda de um avião nas proximidades de Bodocongó, onde morreram queridos conterrâneos.
Viví a alegria do Bar do Grande Hotel, do Pinguim, e do Chopp do Alemão, em fins-de-semana memoráveis com as inesqueciveis “tertúlias” do Campinense Clube e as prévias carnavalescas do Club Aquático.
Viví as delícias, tomei bons whiskys e evoquei o passado na lendária “Fruteira”, barzinho maravilhoso que um dia as irmãs Pedrosa, rebatizando-o de “O Beco” resolveram reviver, ali no Beco do 31.
Viví com intensidade as emoções dos sábados da boite Skina: música estimulante, corações a toda carga.
Viví as festas do São João no Clube dos Caçadores curtindo a beleza daquelas noites frias de junho onde a juventude se aquecia nas fogueirinhas e nos abraços de amor.
Viví o privilégio de ouvir o velho Nilo Tavares, depois de alguns whiskys no Bar do Pilon, contar suas histórias de vida e seduzir com a sua prosa fácil e espirituosa a quem dele tinha o privilégio de se aproximar.
Precisa mais?
Assim eu ainda vivo e continúo vendo a minha querida cidade. Será que alguém a viu ou viveu em tantos diferentes momentos e com tanta intensidade, com tanta intimidade?
Viví e ainda vivo finalmente, a amargura das perdas de tantos amigos que, tal qual atores de uma magestosa peça teatral, vão-se retirando do palco aos poucos, um por um, até que, no último ato, certamente por falta de atores, a cortina haverá de se fechar e as luzes se apagarem.
As novas gerações nunca ouviram nem falar, mas os campinenses das gerações dos anos 1940/1950, que ainda estão vivos, talvez ainda lembrem ou tenham ouvido falar de uma das personagens de rua mais populares da história passada de Campina Grande; a Rainha Joana - uma moça loira que viveu e envelheceu dormindo e perambulando pelas ruas centrais da cidade, entre o final dos anos 1930 e a década de 1950.
Contam, os que a conheceram, que ela enlouqueceu por conta de uma desilusão amorosa, após apaixonar-se por um rapaz rico e de família tradicional da cidade. Na sua sofrida vida houve um tempo em que jovem e muito bonita chamava a atenção dos rapazes que a cortejavam, entre os quais aquele que viria a ser o amor impossível de toda a sua vida e com o qual acreditou que viria a casar-se. Mas, como num folhetim de novela, o rapaz rico abandonou a moça pobre que, extremamente desiludida, passou a viver um pesadelo que lhe trouxe a fraqueza mental.
O noivo e o casamento que tanto sonhou lhe tirou o juízo, e a própria família abandonou Joana, que passou a sobreviver de esmolas nas ruas centrais, acreditando ser uma Rainha. Sua bagagem real era uma cesta, onde conduzia um vestido longo usado, uma coberta encardida, um velho par de sapatos gastos, um pente e um vidro de óleo perfumado que usava acariciando os outrora lindos cabelos loiros.
Joana, já bem velha, ainda se apresentava como rainha, a Rainha Joana, que ia casar-se com um rei. E como no enredo do genial Joãozinho Trinta, 'Ratos e Urubus Larguem Minha Fantasia', na vida da Rainha Joana tudo também reluziu, era ouro ou lata, formou-se a grande confusão, qual areia na farofa era o luxo e a pobreza no seu mundo de ilusão...
Ela, louca e mendiga, acreditava que suas vestes eram reais, eram mantos de ouro e toda Campina Grande lhe pertencia. Eram suas todas as lojas e edifícios imponentes da época, como o Grande Hotel, a Prefeitura, o Cine Capitólio e os Correios, e as igrejas eram palácios de sua propriedade. Usava uma coroa de cordas e de molambos, e ao amanhecer, depois de dormir a cada noite na calçada de um dos seus palácios era acordada pelos seus súditos; a molecada da cidade, que a insultava chamando-a de rainha, que para ela não era insulto e sim uma saudação real.
Passava os dias perambulando por uma Campina art déco, cantando as marchinhas carnavalescas dos clubes do seu tempo de jovem: Regador, Cana Verde, Caiadores, Chaleiras, Beija-Flor e Dona Não Grite, promovendo "cerimônias reais" públicas onde condecorava populares com tampinhas de garrafa ou recitando quadrinhas poéticas que recordavam um amor que alimentou por muito tempo e depois morreu, deixando-a ao relento, cheia de amarguras e saudades, abandonada e louca, como nesta foto de 1951, em que ela aparece já bem velha, com sua coroa e seus trajes reais nos degraus da Matriz, pronta para mais um recital: "Quem disser que não chorou, Querendo bem, é mentira, Querendo bem de verdade, Chora, soluça e suspira..."
A louca Joana e as histórias de uma Rainha da Borborema.
"Quem já passou por essa vida e não viveu,
Pode ser mais mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu,
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu" (Vinicius de Morais)
Texto originalmente publicado por Walter Tavares em seu perfil do Facebook
O CASSINO ELDORADO foi o templo da boemia e da luxúria dos senhores do algodão; inaugurado em 1º de julho de 1937, de propriedade do rico comerciante pernambucano João Veríssimo de Souza, em estilo art déco projetado pelo arquiteto Isac Soares, em plena feira central de Campina Grande.
Em meio a orquestra fixa da casa, as mesas de Bacará e a animação feérica do salão, mulheres lindas, bem vestidas e perfumadas faziam a "vida" atendendo aos coronéis do algodão ou iniciando seus filhos na arte do amor. Entre elas, uma tornou-se símbolo da era de ouro da luxúria campinense: MARIA DO CARMO BARBOSA, que entrou para a história boêmia-sentimental de Campina Grande como MARIA GARRAFADA, a nossa mais famosa prostituta em todos os tempos.
Conheceu dias de glória disputada por homens importantes no Cassino Eldorado e a sua fama virou lenda a ponto de ser, nos anos 80, já idosa e "aposentada", convidada pelo escritor Jorge Amado, em visita à cidade, que queria conhecer a sua história num elegante jantar de intelectuais em homenagem ao escritor baiano que aconteceu no imponente solar da crítica literária Elizabeth Marinheiro.
Maria Garrafada virou personagem cult de Campina Grande: inspiração de poetas, letra de forró de sucesso, nome de bar de artistas e até tema de trabalhos de mestrado. Viveu e morreu no histórico Beco da Pororoca, numa morada humilde, sonhando em ter uma casa própria e certa vez em entrevista a um jornalista olhou-se no espelho da sala e perguntou: "em que espelho ficou perdida a minha cara?", referindo-se a beleza dos anos em que despertou a libido de gerações.
Gostava de dizer que a sua maior recordação era o Cassino Eldorado no tempo dos antigos Carnavais; Nos dias de Momo usava quatro fantasias. Saía de casa no sábado e só voltava na quarta-feira de cinzas, depois de muito porre de lança-perfume, coberta de confete e serpentina dos bailes do Eldorado e exausta de marcar o passo brincando atrás dos blocos de frevo.
O apelido Garrafada popularizou-se após deixar a vida boêmia, passando a sobreviver da venda de remédios caseiros feitos de ervas para curar prostitutas de doenças venéreas, populares no interior do Nordeste como garrafada.
MARIA GARRAFADA, o Cassino Eldorado, o ciclo do algodão, os antigos carnavais... símbolos imortais de uma era incandescente e fervilhante de Campina Grande onde a boemia era outra e bem melhor.
Texto originalmente postado no perfil de Walter Tavares, no Facebook
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| Hilton Motta (Foto: Site da Campina FM) |
Houve um tempo, em nossa Rainha da Borborema, em que a passagem do ano era comemorada de uma forma muito peculiar... as novas gerações com certeza não vivenciaram alguns momentos marcantes do passado de Campina Grande, quando à 0:00h do novo ano, precisamente e regressivamente contado segundo à segundo, apagavam-se todas as luzes da cidade.
Não estamos exagerando não! Quem viveu lembra e sente saudades do tempo em que as famílias campinenses, em suas confraternizações corriam e se aglomeravam junto aos rádios de pilha, ou do som do carro para não perderem nenhum segundo da emocionante contagem regressiva comandada pelo radialista Hilton Motta, direto do antigo estúdio da Rádio Campina Grande FM, que junto à CHESF/CELB, ditava o comando para "desligar a chave geral" no fim da contagem.
Hilton Motta comandava um verdadeiro "Show da Virada" quando, desde cedo da noite de 31 de Dezembro integrava toda a cidade com mensagens de felicitações dos ouvintes e amigos.
Após zerada a contagem, a cidade permanecia às escuras por alguns minutos, período em que a emoção aflorava em todo que confraternizavam em qualquer parte da cidade... Garantimos que arrepia só de lembrar!
Essa prática durou até meados da Década de 1990, sendo desestimulada pela companhia elétrica por já apresentar possibilidades de problemas técnicos e transtornos no regresso da força em carga máxima.
Como já se tornou tradição esta postagem, hoje podemos (re)lembrar essa época!
O colaborador Leandro Bráulio cedeu ao Blog RHCG, há alguns anos, o áudio gravado de uma desses inesquecíveis viradas de ano, mais precisamente em 31 de Dezembro de 1990, fruto de um arquivo em fita K-7 de seu acervo particular.
É emocionante... Ouçam e (re)vivam!
De todos os que fazem o BlogRHCG, Feliz Ano Novo...
A Organização Remington, instituto de The RemingtonTyphwriterCompany de Nova York, atuava no Brasil sob o controle da S. A. Casa Pratt, sediada no Rio de Janeiro e com filial em Recife. Oferecia curso completo de datilografia mecânica e nomenclatura que eram válidos em todo o território nacional. Admitia senhoras para a direção e aplicava o manual “em português” com o método Remington de ensinar datilografia.
A propaganda da época destacava as vantagens do curso:
“O que posso fazer para obter maior ordenado??? Matriculai-vos na Escola Remington. Estudai datilografia e taquigrafia. Estará assim iniciada a vossa carreira. Com estes elementos obtereis um bom ordenado e podereis facilmente estudar inglês e escrituração mercantil. De posse desses conhecimentos, adquiridos em tempo relativamente curto, estará assegurado o vosso futuro na carreira comercial. Aulas diurnas para ambos os sexos”. (Jornal de Sergipe, 14/01/1926).
O Estado da Paraíba ganhou sua primeira escola de datilografia na década de 20. Á época, esse era um dos meios profissionalizantes que garantiam emprego certo para as jovens.
Em Campina Grande, o prefeito Christiano Lauritzen cedeu lugar no Paço Municipal e este serviço foi instalado em 18 de outubro de 1922. E reinstalado em prédio próprio, no dia 12 de março de 1923.
Com capacidade para 50 alunos, a escola denominava-se “Nilo Peçanha”, estava sediada na Rua da Matriz nº 20 e era dirigida por Simão de Almeida, que também era proprietário. As aulas eram ministradas por Brigida Guimarães e Bernadino de França.
Exigia-se frequência diária ao curso e quinzenalmente se realizava um exame para avaliar a média de toques por minuto de cada aluno, cujo resultado era enviado para a RemingtonTypewriter Co. em Nova York.
Na primeira turma formaram-se 54 alunos, do quais se destacaram: Elvira Pessoa, Judith Miranda, Cecy Silva, Alexandrina Guimarães, Celina Monteiro, Fernandina Pessoa, Joaninha de França e Zilda Neiva.
A Escola Remington de Campina, por sua vez, orientou a criação de outras escolas, a exemplo da Escola Remington Nª. Sª do Bom Conselho, em Esperança, dirigida pelo Professor Luiz Gil de Figueiredo.
Referência:
- ERA NOVA, Revista. Ano III, Nº 46. Parahyba do Norte: 1923.
- ERA NOVA, Revista. Ano III, Nº 53. Parahyba do Norte: 1923.
- FERREIRA, Rau. BanaboéCariá: Recortes da Historiografia do Município de Esperança. Esperança/PB: 2015.
Estavam reunidos em Campina Grande, na Paraíba, quatro
cantadores glosando ao copo, da fina poesia popular, cada qual com sua poesia e
irreverência, saudando o companheiro, quando um circunstante lhes propôs um
mote.
Era eles Egídio de Oliveira Lima (1904/1965), João
Benedito Viana (1860/1942), Elízio Felix “Canhotinho” de Souza (1915/1965) e
José Virgulino “Mergulhão” de Souza (1907/1939). Na oportunidade, teriam que
glosar sobre a seguinte frase: “Egídio Lima em Campina, João Viana no Picuí,
Canhotinho no Cardoso e Mergulhão no Cariri”.
O mote que lhes foi dado, não era dos mais fáceis, e
suscitava os quatro amigos a declamarem a sua rota de defesa. Com efeito, era
natural que os cantadores, naquele tempo, criassem uma rota sob a qual exerciam
o seu domínio.
Se um companheiro quisesse cantar naquela região,
deveria pedir autorização ao cantador, que impunha respeito pelos seus versos.
Há quem diga que a desobediência era punida com surra de cacete e briga de
faca.
Após o desafio, cada um deles soltou a voz, em
resposta, iniciando Egídio:
“Só em
Egídio se fala,
Na Paraíba do Norte,
Sonetista muito forte,
No repente nao se cala.
Improvisa como bala
Quando saí da carabina
Tem memória e tem repente,
Intimida muita gente
Egídio Lima em Campina”.
João Benedito inicia seus versos denunciando logo a
sua origem, pois tal qual Egídio esse era natural de Esperança/PB:
“Eu
como velho cantador
De Egídio seu conterrâneo
Meu gênio subterrâneo
explode com mais ardor.
Já fui improvisador
Neste terreno daqui
A ninguém nunca temi
No braço duma viola.
O repente é quem consola
João Viana em Picuí”.
Canhotinho cantou com Lourival Batista, Estrelinha e
Josué da Cruz, era apreciado por intelectuais, como Raymundo Asfora. Cantava no
Casino da Lagoa, na Rainha da Borborema.É de sua autoria os versos da “Ave
Maria”, citado por Câmara Cascudo. Na sua vez de cantar, disse:
“Estou fazendo uma trova
Para não ser repelido
embora eu solte o gemido
Que meu peito agora aprova.
Minha rima é sempre nova
No tema mais deleitoso.
Neste momento ditoso.
Tudo é bom para o meu ver.
Há muito vivo a sofrer
Canhotinho no Cardoso”.
Por fim chegou a vez de José Mergulhão, poeta do
Juazeiro no Ceará, declamar os versos em torno do mote. Esse cantador faleceu
ainda moço, no ano de ’39 do Século passado. Ao ver se aproximar “Caetana”
(a morte), disse a Ascendino Alves dos Santos, que também era repentista
popular:
“Quem viu Mergulhão outrora,
Vendo hoje não conhece!
Cada repente que faz
É uma dor que aparece
Cada palavra que solta
É uma lágrima que desce!”.
Este último, respondeu em versos sob o mote do
cidadão, que ouvia os quatro companheiros, a brindar a sua cantoria:
“Já
fui risonho e feliz
No tempo da mocidade,
de tudo ria à vontade
Neste meu belo País.
Mas, a sorte contradiz
E do inditoso ele ri...
Põe o homem no jequi
Ou mesmo na desventura.
Hoje é triste criatura,
Mergulhão no Cariri”.
Egídio de Oliveira Lima escreveu diversos artigos
sobre a literatura de cordel para as revistas Ariús (Campina Grande) e Manaíra
(João Pessoa), das quais foi colaborador e redator. Dirigiu a revista “As
fogueiras de São João” (1941) e foi o responsável por colecionar as antigas
edições dos folhetos de Leandro Gomes de Barros - festejado autor cordelista paraibano
- e de outros autores, cedido posteriormente a Universidade da Paraíba.
Egídio tinha Benedito como “a alma dos cantadores”.
O Viana gostava de fumar, com o cigarro no canto da boca; e tomava uma bicada,
revezando os versos na viola. Essas foi a primeira referência que encontramos,
sobre a residência do poeta no Picuí, pois até então sabíamos que este residiu
na Rua do Boi em Esperança, e que faleceu em Lagoa do Remígio.
Referências:
-
- FERREIRA, Rau. João
Benedito: o mestre da cantoria (um conto de repente). 2ª Edição. Edições
Banabuyé. Esperança/PB: 2017.
-
ALMEIDA, Átila Augusto e
SOBRINHO, José Alves. Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de
bancada Volumes 1-2. Ed. Universitária: 1978, p. 250.
-
O NORTE, Jornal. Edição
de 26 de julho. João Pessoa/PB: 1953.
-
SOBRINHO, José Alves.
Cantadores, repentistas e poetas populares. Bagagem. Campina Grande/PB: 2003.



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